sexta-feira, 28 de julho de 2023

31/07/2023-Segundaf Da XVII Semana Comum

É PRECISO CRER EM DEUS E VIVER DE ACORDO COM SUA PALAVRA PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO

Segunda-Feira Da XVII Semana Comum

Primeira Leitura:  Ex 32,15-24.30-34

Naqueles dias, 15 Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, que estavam escritas de ambos os lados. 16 Elas eram obra de Deus e a escritura nelas gravada era a escritura mesma de Deus. 17 Josué, ouvindo o tumulto do povo que gritava, disse a Moisés: “Há gritos de guerra no acampamento!” 18 Moisés respondeu: “Não são gritos de vitória nem gritos de derrota; o que ouço são vozes de gente que canta”. 19 Quando chegou perto do acampamento e viu o bezerro e as danças, Moisés encheu-se de ira e arremessou por terra as tábuas quebrando-as no sopé da montanha. 20 Em seguida, apoderou-se do bezerro que haviam feito, queimou-o e triturou-o, até reduzi-lo a pó. Depois espalhou o pó na água, e fez os filhos de Israel beberem dela. 21 Moisés disse a Aarão: “Que te fez este povo, para atraíres sobre ele tão grande pecado?” 22 Aarão respondeu: “Não se indigne o meu senhor. Tu bem sabes que este povo é inclinado ao mal. 23 Eles me disseram: ‘Faze-nos deuses que caminhem à nossa frente, pois quanto àquele Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu’. 24 Eu, então, lhes disse: ‘Quem de vós tem ouro?’ Eles trouxeram ouro e me entregaram, e eu lancei-o no fogo e saiu este bezerro”. 30 No dia seguinte, Moisés disse ao povo: “Vós cometestes um grandíssimo pecado. Mas vou subir ao Senhor para ver se de algum modo poderei obter perdão para o vosso delito”. 31 Moisés voltou para junto do Senhor, e disse: “Ah! este povo cometeu um grandíssimo pecado: fizeram para si deuses de ouro. 32 Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”. 33 O Senhor respondeu a Moisés: “É aquele que pecou contra mim que eu riscarei do meu livro. 34 E agora vai, e conduze este povo para onde eu te disse. O meu anjo irá à tua frente; mas, quando chegar o dia do castigo, eu os punirei por este seu pecado”.

Evangelho: Mt 13,31-35

Naquele tempo, 31 Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. 33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’.

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Adorar Somente Ao Deus Único Que Nos Ama e Liberta 

“Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”, rezou Moisés a Deus em nome do povo infiel. “É aquele que pecou contra mim que eu riscarei do meu livro. Quando chegar o dia do castigo, eu os punirei por este seu pecado” é a resposta de Deus para o pedido de Moisés. 

O tema da Primeira Leitura de hoje é a infidelidade de Israel através da idolatria: culto ao bezerro de ouro, no lugar de Deus, e a fidelidade inabalável de Deus ao seu povo.

 A palavra idolatria significa “culto a ídolos”. Essa palavra é uma transliteração do termo grego eidololatria, que é formado por duas palavras: eidolon e latreia. A primeira palavra, eidolon, significa “imagem” ou “corpo”, no sentido de representação da forma de algo ou alguém, seja imaginário ou real. Essa palavra deriva do grego eido, que significa “ver”, “perceber com os olhos”, “conhecer” ou “saber a respeito”, sobretudo transmitindo a ideia de “olhar para algo” e “saber por ver”. 

A segunda palavra é latreia, e significa “serviço sagrado” no sentido de “prestar culto” ou “adorar”. Quando unimos esses conceitos, podemos entender o significado da palavra idolatria. 

Assim, a idolatria implica no culto ou adoração a algo ou alguém, tanto material como imaterial, real ou imaginário, que caracteriza a atribuição de honra a falsos deuses, sobretudo pela materialização de tais objetos de adoração em produtos fabricados pelo próprio homem. 

O culto ao bezerro de ouro ou a idolatria não só aconteceu na época do povo eleito. Em qualquer lugar e tempo há sempre o culto ao ouro. Muitos colocar o ouro e a prata acima de quem os criou. Muitos correm atrás das coisas de Deus e se esquecem do Deus das coisas. Muitos adoram a criatura em vez de adorar ao Criador das coisas. Sem perceber eles são contados entre as coisas. Viram coisas e abandonam sua filiação divina. “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos” (Santo Agostinho: Serm. 121,1)

A cena do culto ao bezerro de ouro termina com um gesto magnífico de Moisés, que sobe novamente ao monte para interceder pelo seu povo, pedindo o perdão de Deus: “Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”. Deus escuta Moisés. O castigo chegará a seu tempo (não entrarão na terra prometida), mas, de momento, segue a história da libertação. E o Salmo Responsorial é um eco da primeira leitura: “Construíram um bezerro no Horeb e adoraram uma estátua de metal; eles trocaram seu Deus, que é a sua glória, pela imagem de um boi que come feno. Esqueceram-se do Deus que os salvara, que fizera maravilhas no Egito; no país de Cam fez tantas obras admiráveis, no Mar Vermelho, tantas coisas assombrosas” (Sl 105). 

O reconhecimento de Deus é fundamentalmente a negação dos ídolos. Em sentido próprio e clássico, idolatria é a adoração ou o culto que se atribui a entidades, objetos, imagens ou elementos naturais que se consideram dotados de poder divino, ou também a divindades falsas, “aparências vãs”. A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral, pois nela se inverte completamente a ordem dos valores. O Absoluto: Deus, se relativiza, e o relativo se absolutiza. Na idolatria, o que não é Deus, ainda que seja inferior ao homem, se considera como deus ou como algo divino. 

Na Bíblia o oposto à fé em Deus não é o ateísmo e sim a idolatria. Por isso, a luta contra a idolatria é o tema principal que recorre o Antigo Testamento e está sempre no pano de fundo do Novo Testamento. A história da salvação não é outra coisa que um desapagar-se dos ídolos: desde Abraão até a Igreja de nossos dias. É a tarefa dos crentes de “não correr atrás do vazio” (Jr 2,5) e “guardar-se dos ídolos” (1Jo 5,21) para poder servir ao único Deus vivente (cf. Mt 16,16). 

O texto da Primeira Leitura nos relata que a ausência demorada de Moisés que subiu ao monte para encontrar-se com Deus provoca o medo e a desconfiança no povo. O povo eleito não suporta o silêncio de Deus. O povo de Israel quer ver Deus andando na sua frente. Neste suposto silêncio de Deus, o povo perverte a ideia de Deus e manipula o Transcendente capaz de submetê-lo para seus caprichos ou necessidades. 

“Não terás outro deus além de Mim”, dizia Deus ao povo na Aliança de Sinai que serve como o primeiro mandamento. Este mandamento ainda está muito fresco na cabeça do povo eleito. Este primeiro mandamento é o eixo sobre o qual deve girar a compreensão exata do problema da idolatria. E para compreender o significado original do primeiro Mandamento é necessário colocá-lo no contexto histórico no qual foi proclamado por Deus: dentro de um processo crescente de libertação da escravidão em busca de uma terra de fraternidade. 

Segundo o sistema religioso de Faraó, ele era o filho predileto de seu deus. Os outros eram considerados como filhos secundários. Com este sistema religioso se justifica o desprezo dos demais, a submissão do povo simples, o servilismo, a exploração dos mais simples e fracos. “Deus assim quer” era um ditado comum. Este sistema de Faraó conseguiu se enraizar na cabeça dos pobres. O deus de Faraó não passava de ser uma invenção humana para manter o povo na miséria e na ignorância, como mão de obra barata. Era a consagração religiosa daquele estado de injustiça institucionalizada. E para dar mais força a este sistema religioso, eles construíram grandes imagens, cheias de luxo e ostentação e construíram magníficos templos nos quais se celebravam solenes cultos religiosos. Com isso assustavam o povo simples e mantinha-se no servilismo e na submissão. Este sistema religioso era como água venenosa que ia penetrando profundamente nas raízes do povo até envenená-lo todo. O povo eleito que acabou de sair do Egito quer fazer o mesmo na ausência de Moisés e na fraca liderança de Aarão através da criação de um bezerro de ouro para ser adorado. 

Javé, em quem o povo eleito acredita e deve acreditar, é totalmente distinto dos deuses de império. Javé não escuta os caprichos orgulhosos de Faraó. Os ouvidos de Javé estão atentos ao clamor dos oprimidos, dos empobrecidos, dos excluídos, dos explorados, dos simples e humildes... Não se trata de um Deus bom para uns poucos e indiferente e mau para a maioria. Ele é Deus bom para todos os seus filhos por igual. Criou a terra para todos, e por isso, opta preferentemente pelos despojados e desprezados. Daqui é que não pode suportar que alguém use a imagem ou o nome de Deus para oprimir e explorar seus filhos mais simples e pobres. “Aquilo que Deus mais condena e menos suporta é que haja gente que use a imagem de Deus para poder oprimir os irmãos. Por isso, se alguém quiser ter Deus do seu lado e pertencer ao povo de Deus, a primeira coisa que Deus pede é romper com o faraó e com todo o sistema inventado dos falsos deuses” (Carlos Mesters: Os Dez Mandamentos Ed. Paulus 2014 p.19). 

Por isso, quem quer pertencer realmente ao povo de Deus da Bíblia, tem que romper com a religião dos opressores. Dentro deste contexto é que devemos entender o que está escrito no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”. O único Deus preocupado realmente pelo bem do povo e capaz de libertá-lo é Javé. Todos os outros não servem senão para oprimir os mais humildes e simples. 

Portanto, vale a pena perguntarmo-nos: Existem ídolos que impedem o crescimento pessoal e comunitário? Precisamos descobrir juntos na comunidade e em cada um de nós quais são os ídolos que mais nos impedem de crescer? Em quais casos a religião, as Igrejas podem se converter num instrumento idolátrico que oprimem, escravizam e enganam o povo no lugar de servir de instrumento de libertação? O que Deus quer nos dizer hoje através do Primeiro Mandamento do Decálogo: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”? Estamos vivendo a situação parecida como na época do povo eleito ao pé do monte Sinai? 

Quem É Fiel a Deus Não Será Decepcionado

As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seus efeitos finais: aquilo que é, aparentemente, pequeno e frágil, produz um efeito maior em comparação ao seu tamanho original. As sementes da mostrada são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento (tamanho). Mas ao plantar tornam-se uma planta com uma altura mais de dois metros a ponto de os pássaros fazerem ninho nos seus galhos.  O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa.  Um pouco de fermento pode fazer crescer a massa num tamanho e quantidade maior.          

O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a menor das sementes, pode fazer surgir uma planta grande. E o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma massa em tamanho maior. 

Através das parábolas do grão da mostarda e do fermento o Senhor quer nos ensinar a olharmos, em silêncio, para as mãos eternas de Deus em plena obra da redenção do mundo. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e se fez semente fértil no campo do mundo: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,10-11). A Terra recebeu Seu Corpo sacrificado e a semente de Seu Sangue rendeu um por mil. A Sua Palavra caiu nos corações de pessoas de boa vontade, sensíveis ao impulso do Espírito divino, e deu infinitos bons frutos até neste momento. “Os grãos” que a Semente divina produziu somos nós todos. Fazemos parte deste grande milagre. E através de nós, mesmo que em pequeno número, Deus é capaz de fazer efeitos maiores no mundo. Mas que sejamos perseverantes. A fé autêntica resiste diante de qualquer obstáculo e dificuldade, pois sabe-se da vitória final logo no início. A fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê (cf. Hb 11,1).                     

Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo aos seus discípulos e a todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. A graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Este é o fundamento de nossa esperança. Não olhemos apenas para nossas técnicas. Temos que acreditar na própria força da Palavra de Deus que devemos semear por onde passarmos, e tenhamos certeza de que, no fim, haverá o resultado maior do que imaginamos, a exemplo do grão de mostrada e o fermento, pois a própria Palavra de Deus tem força intrínseca. É inesgotável a fecundidade da Palavra de Deus, como a força germinadora da natureza em um contínuo rejuvenescer-se. Em cada semente, mesmo do tamanho do grão de mostarda, tem uma tal plenitude de vida que move o semeador a colocá-la na terra. 

Não desistamos em semear o que é bom, digno e nobre para a edificação do ser humano, pois a bondade e outros valores são o único investimento que nunca falha. Independentemente do reconhecimento humano ou não, a bondade continua sendo a bondade, o bem continua sendo o bem, a graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Nossa única tarefa na nossa passagem neste mundo é continuar a semear a bondade por todos os meios possíveis e em qualquer lugar e tempo. O Senhor não permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar decepcionado porque o resultado não aparece logo. Semear e semear a bondade é o único negócio do cristão, e deixar para Deus o resultado final. Alguém pode não reconhecer a bondade praticada, mas ela está escrita em Deus. 

O texto do evangelho de hoje termina com a seguinte frase: “Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’”.

Esta frase se remonta à pergunta dos discípulos: “Por que lhes fala em parábola?” (Mt 13,10). Jesus fala do Reino de Deus em parábola para a multidão. Trata-se  de realidades invisíveis, como toda a atuação de Deus na história. É preciso usar comparações (em parábolas) para explicar e revelar melhor a realidade do Reino. Em todo caso fica claro que o falar de Jesus em parábola também é revelação. Isto quer nos dizer que Jesus tem uma atitude de revelação e de cumprimento. Não há nada de estranho em que este versículo 35 se encontra somente em Mateus. Trata-se de seu tema especifico: apresentar Jesus como Aquele que veio para cumprir e levar a seu cumprimento a Lei e os Profetas (Mt 5,17), para revelar a todos os mistérios do Reino e, depois para explicar em sua catequese seu sentido para aqueles que acolhem a mensagem. O evangelista Mateus cita o Salmo 78,2 que ele atribui a profeta (cf. Mt 1,22; 2,15), não porque este Salmo se atribui a um profeta (pois não se encontra em nenhum profeta) e sim porque todas as Escrituras do Antigo Testamento (AT) têm para Mateus o valor profético cujo cumprimento acontece na vida e missão de Jesus (cf. Mt 5,17). 

Afinal, o que devemos fazer a partir das duas parábolas lidas neste dia? É sermos terra aberta para a semente da Palavra de Deus, para sua majestosa e sempre operante força, e tirar do caminho o que possa obstaculizar esta força e sarar a terra, que somos todos, para que através de nós cresça o bem no mundo. É ser massa macia para que o fermento da Palavra possa operar dentro de nosso coração para que sejamos pães para alimentar os demais. É tudo que devemos fazer. 

Para Refletir:

·    O Senhor se compara a si mesmo ao grão de mostarda, pequena semente, mas ardente e, cuja virtude é inflamada pela pressão (Santo Hilário de Poitiers: In Matthaeum, 13).

·      Em verdade, é Ele mesmo o grão de mostarda que, plantado no horto da sepultura, ressuscitou como uma grande árvore. Foi grão quando morreu; árvore quando ressuscitou; grão pela humildade da carne, árvore pelo poder da majestade (São Gregório Magno: Moralia, 19,1).

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 27 de julho de 2023

XVII Domingo Comum "A", 30/07/2023

VIVAMOS EM BUSCA DA PÉROLA PRECIOSA PARA NOSSA SALVAÇÃO

XVII Domingo Comum Ano “A

I Leitura: 1Rs 3,5.7-12

Naqueles dias, 5 em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, e lhe disse: “Pede o que desejas, e eu te darei”. 7 E Salomão disse: “Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste esses dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”.

II Leitura: Rm 8,28-30

Irmãos: 28 Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus. 29 Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos. 30 E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou 

Evangelho: Mt 13,44-52

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 44 “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. 47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”.

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Viver a Vida Na sabedoria

“Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?”. Este é o pedido de Salomão a Deus que lemos na Primeira Leitura. “Dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”. É a resposta de Deus ao pedido de Salomão. 

Salomão, consciente da magnitude de sua tarefa como rei e de suas próprias limitações, pede a Deus um coração sábio para governar: “Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 

A partir da Bíblia a sabedoria é a arte do viver bem. O verdadeiro sábio distingue o verdadeiro do falso, o justo do injusto, o bem do mal. O sábio bíblico coloca como fundamento todas as grandes virtudes: prudência, moderação, trabalho, não-violência, humildade, sinceridade, justiça, solidariedade, compaixão, amor. A sabedoria bíblica é uma palavra reveladora: a autêntica sabedoria vem do alto, não está atada ao interesse ou ao cálculo humano. Ela é a verdade total que deve ser desejada e buscada pelo homem. A sabedoria é assim uma força geradora: ela dá origem ao homem, a sua história e a todo o ritmo da criação. A sabedoria é o conhecimento dos caminhos de Deus, de seu objetivo; indica ao cristão a direção em que ele deve caminhar, as normas às quais deve adaptar seu viver. 

Sábio não é quem pensou a vida e sim quem deixa que a vida lhe diga, o que ele mesmo aprendeu vivendo a vida, quem deixa que a vida lhe entregue seu sabor e lhe revele seu sentido. Em geral, o homem sábio não diz sua sabedoria e sim a mostra. Sábio irradia sentido da vida e da convivência. O sábio é uma testemunha e não professor. O sábio testemunha uma experiência, ensina o que vive, não o que sabe. Em outras palavras, ele sabe viver testemunhando a vida. 

Os sábios eram autênticos santos que, iluminados por uma luz transcendente, descobriram o caminho ou senda da vida, e, portanto, podiam ensiná-la aos demais homens tanto com seu exemplo como com sua palavra. Sábio era o homem prudente, equilibrado, reto, equânime e justo. É um exemplo para as gerações futuras. 

Governar com sabedoria é um serviço e não um poder. Como serviço ao povo é absolutamente indispensável escutar a este povo, ter os olhos e ouvidos atentos à complexa realidade dos povo. Governar com sabedoria é sintonizar com os autênticos interesses que o povo manifesta, e tratar de dar ao povo uma verdadeira resposta para suas necessidades reais e básicas. Governar com sabedoria é aprender a detectar a verdade onde possa ser detectada. A verdade não dói, mas liberta. O que dói é a mentira e falsidade. Governar com sabedoria é ser servidor da verdade e não ser cacique. Somente assim o poder humano se diviniza, pois salva o povo. Do contrário, é pura farsa e mera busca de interesses mesquinhos. Quando o interesse mesquinho prevalece, o mais inocente e humilde se torna vítima sem defesa.  

Salomão somente pede a Deus a capacidade de escutar o povo para poder governar com justiça, deixando de lado o poder e as riquezas. É assim que os nossos governantes vivem? É assim que os líderes religiosas, os bispos, os sacerdotes, os coordenadores das comunidades governam? 

Viver Com Sabedoria É Viver Em Função De Alcançar a Glória Eterna 

“Aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos”, escreveu São Paulo aos Romanos que lemos na Segunda Leitura. 

Estas palavras brotam da fé. A vida pode dar muitas voltas, mas estamos seguros de que nada poderá nos afastar de Cristo que tanto nos ama. Precisamente em Cristo, Deus mostrou e demonstrou seu amor. Com efeito, a fé sempre é fonte de alegria íntima, de estabilidade interior, de segurança profunda. Numa sociedade onde há tantas pessoas instáveis que sofrem todo tipo de pressão e de depressão, sabemos que nossa fonte de estabilidade está na Sua Palavra cheia de amor por nós. É claro que estas certezas brotam da fé. Quem tem fé, tem certeza de que no fundo do poço sempre há esperança, pois Deus nos ama infinitamente.

O amor de Deus por nós não tem outra finalidade que esta: fazer-nos conformes à imagem do Filho, Jesus Cristo. Todo o plano de Deus desde o princípio dos tempos se concentra nesta finalidade. Deus criou o universo, Deus se encarnou tem um único porquê: o amor pela humanidade (cf. Jo 3,16). 

“Aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou”, acrescentou São Paulo. Para São Paulo o supremo objetivo da vida nova em Cristo Ressuscitado é a glorificação com Cisto. 

Portanto, temos que ter a humildade de abandonar aquilo que não nos glorificar em Jesus Cristo, antes que nossa vida caia em pedaços. 

O Sábio Vive Em Busca Do Essencial, Do Tesouro para Sua Vida e Salvação 

“O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”, diz-nos Evangelho de hoje.

·      Ao buscar homens bons com quem possa viver utilmente, encontra um só que é sem pecado, Jesus Cristo. Ao buscar os preceitos de vida que o permitam viver bem entre os homens, encontra o amor ao próximo no qual estão contidas todas as coisas. Ao buscar os bons pensamentos, encontra aquele Verbo que os abarca a todos: No princípio existia o Verbo [Jo 1,1], palavra que brilha com a candura da verdade, que é sólida com a firmeza da eternidade e por toda a parte é semelhante a si mesma pela pureza da verdade; e que, quando penetramos sua couraça, percebemos que é Deus (Santo Agostinho: Quaestiones evangeliorum, 1,12).

As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. Pode acontecer que o proprietário do tesouro morra sem revelar a ninguém o lugar onde foi escondido o tesouro.     

Os personagens das duas primeiras parábolas (tesouro escondido e pérola preciosa) são respectivamente um “homem” (v.44) e um “comerciante” (vv.45-46). Ambos descobrem um bem extraordinário: um tesouro em um campo, no primeiro caso, e uma pérola, no segundo. O primeiro descobriu, por acaso, o tesouro ao trabalhar em um campo. Para dizer que o descobrimento do Reino de Deus não é devido ao esforço humano, mas à revelação ou ao descobrimento de Jesus, entendido como projeto que leva à plenitude a própria existência. Jesus sai ao nosso encontro. O segundo procura, intencionalmente, a pérola preciosa e a encontrou. Para dizer que é preciso a participação do próprio homem na descoberta do valor do Reino de Deus. O homem deve sair ao encontro de Jesus para ter a experiência com Deus a fim de chegar à própria plenitude como ser humano.   

Na experiência dos dois personagens o descobrimento de um valor precioso muda a vida de ambos, e os leva para a mesma decisão: “vender tudo o que tinham” e “comprar” o objeto que “encontraram”. E o dito objeto relativiza o resto. Para o homem da primeira parábola representa uma fonte de alegria por ter encontrado um valor incomparável. Para o comerciante significa o abandono de sua profissão porque, com a aquisição da pérola preciosa que ele procurava, deve interromper a cadeia de sua atividade.

Assim também é em relação com a vida do homem diante do Reino de Deus. Somente o Reino de Deus, o Reino de amor, descoberto como o supremo valor da existência, coloca o homem na possibilidade de descobrir o sentido dos restantes bens que se possui. A vida em Deus ou ser filhos e filhas de Deus é um valor incalculável, um dom do céu, e quem desfruta dele, por meio da fé, é um autêntico afortunado. A possessão, desta forma, se apresenta como algo relativo. A experiência do amor de Deus relativiza o resto sem desprezar seu valor no seu próprio lugar. A partir deste tesouro que é o Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. Como aquele que encontrou a pérola preciosa foi capaz de colocar todas as demais coisas em uma escala justa de valores, de relativizá-las em relação com a pérola preciosa. E ele o fez com extrema simplicidade porque, ao ter como pedra de comparação, a pedra preciosa, sabe compreender melhor o valor de todas as demais pedras.  Quem encontrar o valor supremo de sua vida, a experiência de fazer parte da família de Deus em Jesus Cristo não desprezará outros valores, mas colocá-los-á em seu devido lugar. O bem relativo pode ser, mais ou menos, importante para a satisfação das necessidades humanas, porém, deve ser sempre confrontado com o bem supremo que é a experiência do amor de Deus, a experiência de serem filhos e filhas de Deus. Desta forma, as parábolas do tesouro escondido e a pérola preciosa conectam com a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). A experiência do amor de Deus por nós é um dom incalculável 

Quem Vive Na Sabedoria Sabe Onde Se Encontra Seu Tesouro

“Onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21). 

Do ponto de vista de um homem que busca o sentido de sua vida, o tesouro de sua existência ou de sua vida é como uma utopia: não sabe onde está, nem sequer sabe se está em algum lugar ou em nenhum lugar. A busca é um esforço para encontrar algo que não se tem. Quem busca reconhece uma carência de algo. É uma atitude humilde por si mesma. 

Nesta busca o homem somente conhece a inquietude de seu coração, porque “onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21). Um homem que ainda não encontrou seu tesouro fica inquieto e busca incessantemente um sentido para sua vida. O coração errático do homem, sua vontade, pode, nestas circunstancias, fixar-se em qualquer coisa e agarrar-se a ela como se tivesse encontrado seu tesouro. Mesmo assim, ele continua inquieto, pois o tesouro do homem não é qualquer coisa. O homem pode ter tudo, mas se carecer o essencial, ele continuará inquieto. 

A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida, carência que nos impulsiona a sair de nós mesmos e não repousará até que encontremos essa realidade que faz completo nosso ser. Por isso, não é a riqueza, nem o êxito, nem o poder, nem a fama, mas o próprio Deus é o tesouro supremo do homem que o faz completo. Escondido no nosso mundo, coberto pela carne crucificada de Jesus de Nazaré, perdido entre os pobres, identificado com eles, está o tesouro do homem. Jesus é o “lugar de Deus”, e o irmão, o próximo é o “lugar” de encontro com Jesus. O próximo se transforma, então, em ocasião de salvação. Não é nada que o homem pode alcançar por si mesmo e somente para si mesmo, pois ele foi feito por Deus e para Deus na convivência fraterna com os outros. Por isso, Santo Agostinho rezava: “... Senhor, inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Confissões I,1). O homem só se encontrará, somente chegará à sua plena realização na medida em que ele buscar e viver e conviver de acordo com o Amor que é Deus (cf. 1Jo 4,8.16).

O homem que encontrou o sentido de sua vida em Deus é um homem alegre e dinâmico, como os dois homens na parábola que encontraram seu tesouro. Por este tesouro, ele é capaz de se desprender de tudo, de se despojar de tudo, de compreender a fraqueza do outro, de perdoar, de reconciliar-se com todos, de ser justo e honesto nos seus negócios, de ser correto e coerente no seu modo de ser, pois sua vida é direcionada por este supremo valor. A busca do Reino de Deus modifica nosso esquema de vida e não pode ser levado adiante sem uma absoluta sinceridade de coração. A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida. 

Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus, renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria e o otimismo para todos. 

A vocação de seguir Jesus, Deus-conosco que é o nosso supremo tesouro sempre exige renúncia e uma mudança na conduta com alegria. Implica a entrega a Deus daquilo que se tinha reservado para si, e se abandonam os apegos, as fraquezas que se supunham intocáveis e que, no entanto, é preciso destruir para adquirir o tesouro sem preço. Se Jesus nos chama, também ele nos dá as graças necessárias para segui-lo durante a nossa vida. 

A eucaristia é também um tesouro escondido. Tanto que passa despercebida, inclusive para nós que frequentamos a missa com assiduidade. Escondida em coisas triviais como pão e vinho está nada menos que todo insondável amor de Deus a todos nós. Só teremos a experiência do amor de Deus, se nós começarmos por demonstrar amor a nossos irmãos, especialmente aos mais débeis. Se descobrirmos a eucaristia como tesouro, se a apreciarmos, estaremos plenos de alegria e a nossa eucaristia resultará verdadeiramente em festa, em ação de graças. 

E nós, já descobrimos esse tesouro? Desde que descobrimos Cristo, o que mudou na nossa vida, no nosso modo de pensar e de falar, e no nosso relacionamento com os outros e com as coisas? Que renúncias que temos que fazer ainda? “Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6,21). Será que por algum bem material, ou alguma posição social abandonamos Cristo, o nosso tesouro incalculável? Muitos são os esforços que fazemos para encontrar o que nos falta: trabalho, dinheiro, prazer, cultura e assim por diante. Hoje podemos nos perguntar se existe o mesmo esforço para encontrar a Verdade no sentido de uma verdadeira visão da vida. Sem dúvida nenhuma, esta é uma das crises mais profundas de nossa cultura: tem-se de tudo, mas carece-se do essencial: uma visão geral do homem no cosmos que lhe permite situar-se como homem.

P. Vitus Gustama,svd

Santos Marta, Maria e Lázaro-29 de Julho

SANTOS MARTA, MARIA E LÁZARO

JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA

Primeira Leitura: 1Jo 4,7-16

7Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós. 13A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos, e damos testemunho, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele.

Evangelho: Jo 11,19-27

Naquele tempo, 19 muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. 25 Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

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Celebramos hoje a festa de Santa Marta, Maria e Lázaro. Eles é mencionada nos evangelhos de Lucas e de João. 

Marta era irmã de Maria e de Lázaro, de Betânia. Ela era uma discípula e seguidora de Jesus Cristo, muito estimada por Ele (Jo 11,5). Marta vivia com seus dois irmãso, Maria e Lázaro, na pequena vila chamada Betânia (Jo 11,1), localizada nas encostas ao leste do monte das Oliveiras. Jesus os visitava frequentemente, quando estava em Jerusalém (Lc 10,38). Jesus estava com eles na semana antes de ser preso e crucificado (Mt 21,17). Marta é conhecida como aquela que estava sempre envolvida e sobrecarregada com os afazeres diários (Lc 10,39-42). Quando seu irmão, Lázaro, ficou gravemente enfermo, enviaram uma mensagem a Jesus para que viesse à casa deles com urgência (Jo 11,3). Marta foi honesta com Jesus ao dizer-lhe que se tivesse vindo imediatamente, seu irmão estaria vivo. Mas exercitou uma fé extraordinária ao identificar Jesus como o Filho de Deus e crer que Ele tinha grande poder (Jo 11,21-27). Jesus honrou sua fé e ressuscotou Lázaro, a fim de manifestar desta maneira a glória de Deus (Jo 11,38-44). 

O evangelho nos relatou alguns encontros de Marta com Jesus. O primeiro encontro aconteceu quando Jesus estava indo para Jerusalém e hospedou na casa de Marta (Lc 10,38-42). Nesse encontro Jesus disse a Marta que estava muito ocupada com a preparação de refeição em vez de escutar as palavras de Jesus: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10,41-42). Nesse primeiro encontro, Maria, a irmã de Marta, escutava Aquele que era a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1-3). 

A comunidade cristã é fundamentalmente uma comunidade que escuta. Deixaria de ser uma comunidade cristã, se parasse de escutar a Palavra de Deus. Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escuta é a atitude mais cristã. 

Silêncio e escuta são duas coisas inseparáveis. Uma não pode existir sem outra. Para escutar bem é preciso ter ou criar o silêncio. Para captar o sentido daquilo que está sendo escutado é indispensável o silêncio. O silêncio fomenta a sinceridade. Tenho que encontrar dentro de mim a verdade sobre a minha vida. O silêncio chega quando as minhas energias começam a descansar. A vida nunca é o que se consegue, pois não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. A vida é o que se é. E só o que se é, permanece. 

Outro encontro de Marta com Jesus aconteceu por ocasião da morte de Lázaro, seu irmão, como lemos no evangelho neste dia (Jo 11,19-27). A reflexão sobre esse encontro vamos ver mais adiante. 

O último encontro de Marta com Jesus que o evangelho nos relatou aconteceu “Seis dias antes da Páscoa quando Jesus foi para Betânia” (cf. Jo 12,1-8). Nesse encontro Maria, a irmã de Marta, demonstrou seu amor por Jesus de modo peculiar. Enquanto Marta servia a refeição, Maria “ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia do perfume do balsamo” (Jo 12,3). Maria era uma pessoa que amava Jesus acima de tudo e de todos. Ela escolheu um perfume mais caro que tinha. O verdadeiro amor não tem preço. O verdadeiro amor dá tudo que se tem (cf. Jo 13,1). O gesto Maria antecipa a morte de Jesus cujo corpo será ungido (cf. Mc 16,1). 

Depois desse três encontros Marta desapareceu dos relatos dos evangelhos. Nenhum documento antigo nos informa sobre seu comportamento durante os dias da Paixão de Jesus e do tempo que seguiu a ressurreição do Senhor até Sua ascensão ao céu. 

Lázaro do Evangelho de hoje era o irmão de Marta e Maria (Jo 11,1-12,19), os quais viviam em Betânia. Jesus muitas vezes se hospedou na casa deles (Lc 10,38-41). E tinha uma profunda afeição pelos três irmãos (Jo 11,3.5.33.35). Lázaro, um dia, ficou gravemente enfermo, e suas irmãs enviaram uma mensagem a Jesus a fim de que Ele viesse curá-lo. Ao receber a notícia, Jesus falou que aquela enfermidade não resultaria na morte de Lázaro, e sim resulta na revelação da glória de Deus. “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Com uma palavra de comando, dirigida para dentro do túmulo onde Lazáro foi enterrado (faz quatro dias no túmulo), Lázaro retornou à vida e saiu do túmulo. No ressurgimento de Lázaro, Jesus denonstrou seu poder divino de dar a vida e prefigurou sua autoridade sobre a promessa geral da ressurreição: “Quem crêm mim ainda que esteja morto viverá”. 

Maria, de Betância, era outra irmã de Marta e de Lázaro (Jo 11,1). Como foi dito, os três irmãos estavam entre os amigos mais próximos de Jesus. Maria é descrita na Bíblia como uma mulher muito dedicada ao ministério de Jesus. Ela era uma discípulo com uma profunda fé no Senhor. Ela é vista como uma ouvinte atenta dos ensinamentos de Jesus Cristo. 

A Bíblia descreve três eventos nos quais Maria esteve envolvida. O primeiro, encontra-se em Lc 10,38-42. Maria e Marta receberam Jesus em sua casa e a Bíblia diz que Maria “estava sentada aos pés de Jesus e ouvia a sua palavra” (Lc 10,39). “Sentar-se aos pés” aqui significa ser discípulo de um mestre. Logo, Maria era uma das discípulos de Jesus. O segundo evento é narrado em João 11,1-47. Neste texto se relata a enfermidade e a morte de Lázaro, mas que com o poder de Jesus Lázaro voltou a viver apesar de ter estado quatro dias no túmulo. Para Jesus, que é a Vida e Ressurreição, não há nenhuma impossibilidade. O terceiro evento que envolveu Maria de Betânia foi um jantar oferecido em homenagem a Jesus Cristo, ocasião em que Marta o servia. “Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas.Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo” (Jo 12,1-3). Esta unção é o gesto de bondade de Maria para Jesus e o identificou como um sinal da morte iminente de Jesus na cruz, quando seu corpo será ungido com perfumes e colocado no túmulo.

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O episódio da ressurreição de Lázaro, narrado no texto do Evangelho de hoje, começa mostrando a sintonia que reina entre Jesus e a comunidade dos que nele acreditam, representada por Lázaro, Marta e Maria. De fato, esses três representam a comunidade do Discípulo Amado que crescem na fé em Jesus, e as comunidades que aderem a Jesus em todos os tempos.        

Marta representa o tipo de discípulo de Jesus que precisa superar o preconceito da morte enquanto desfecho fatal. Ela crê na ressurreição do último dia, como a maioria dos judeus. Mas Jesus é a Ressurreição e a Vida aqui e agora. Esse é o desafio feito às duas irmãs e a todos nós: Jesus não é a Vida somente depois da morte, mas ele é a Vida em abundância para esta vida e para além dela.        

Superado o preconceito diante da morte, Marta se torna missionária porque ela vai chamar sua irmã Maria, que está sentada em casa, recebendo os pêsames da sociedade que nada faz diante das pessoas senão tentar consolar com palavras. “Maria ficou sentada em casa” esta expressão quer dizer que para Maria a morte de seu irmão significa o termino de sua vida. A ideia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor, cercada pelos que não tem fé em Jesus. Maria tem de sair dessa casa para se encontrar com Jesus, a Ressurreição e a Vida. Também Maria, abandonando a “casa do desespero”, torna-se missionária porque ela conduz os judeus a Jesus que após o sinal (ressurreição) passam a acreditar em Jesus (v.31).        

Jesus não veio para dar pêsames, e sim para comunicar vida. Após ter agradecido ao Pai, fonte da vida que comunica vida por meio da ação libertadora do Filho, Jesus chama Lázaro à vida. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui. Ele veio para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5,26). Esta vida é seu próprio Espírito, a presença Sua e do Pai naquele que o aceita e vive sua mensagem, e esta vida despoja à morte de seu caráter de extinção. Na frase de Jesus “Eu sou a ressurreição e a vida” o primeiro termo depende do segundo: ele é a ressurreição por ser a vida: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A vida que ele comunica, ao encontra-se com a morte, a supera; isto se chama ressurreição. 

A ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição pela fé em Jesus ressuscitado é a chave de nossa vida cristã. Crer na ressurreição não é somente crer em uma doutrina. Temos que crer na ressurreição com a vida; não somente com a cabeça. Temos que fazer nossa a ressurreição fazendo nosso o juízo de Deus contra o mal. Temos que crer na ressurreição com nossa atitude e nossas obras. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). Em outras palavras, temos que fazer de nossa vida uma ressurreição permanente. 

Além disso, crer na ressurreição de Cristo é muito mais que afirmar que Jesus foi tirado por Deus do túmulo; é reconhecer que o projeto de Deus se realiza em cada homem para a vida e não para a morte. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. A ressurreição de Jesus é a primícia de que na morte se nasce já para sempre.    

Lázaro voltou à vida por ação de Jesus. Mas sua ação libertadora quer comprometer todos os que o seguem. A ação libertadora de Jesus implica nossa prática de libertação: desamarrar todas as pessoas de todos os laços que as prendem a uma situação de morte. Somos chamados a respeitar e a proteger a vida desde seu início, na sua duração e no seu término, pois a vida é sagrada. Por ser sagrada, a vida não pode ser sacrificada em nome de ninguém. Assim agindo, estaremos continuando o que Jesus fez, a fim de que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10). 

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.  A partir da ressurreição do Senhor não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida. 

Para que nossa vida se torne uma ressurreição permanente temos que ter algo divino dentro de nós: amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Amar a alguém, do ponto de vista cristão, é equivale a lhe dizer: Tu nunca morrerás. Tu viverás para sempre. Tu estarás em comunhão conosco mesmo de pois de terminar a passagem nesta terra. Com efeito, o homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. “Ama e faze o que quiseres!”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 7,8).  “O amor é a vida do espírito. O ódio, portanto, é sua morte”, acrescentou Santo Agostinho (In ps. 54,7). A amabilidade e a bondade estão sempre unidas. “Bons amores fazem boas condutas” (Santo Agostinho: Serm. 311,11,11). 

Quais são as amarras que nos prendem a uma situação de morte? E como nos livrar dessas amarras? Quantas vezes nos comportamos como Maria que consideramos a morte como o fim de tudo (acabou tudo) e esta crença, consequentemente, paralisa nossa vida. Precisamos ouvir e viver sempre aquilo que Jesus nos diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá”. É preciso que voltemos a ser verdadeiros cristãos vivendo na profundidade o que Jesus nos ensinou. Por este caminho superaremos muitas coisas na vida. Com Jesus ressuscitado, a vida não acaba, mas continua. Para chegar a esta verdade nós precisamos recuperar nossa fé em Jesus que é a ressurreição e a vida. É preciso que tenhamos consciência de que a fé na ressurreição é a razão de todas as celebrações e de todos os sacramentos e de todas as atividades evangelizadoras na Igreja. No Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne e na vida eterna”.

P. Vitus Gustama,svd

29/07/2023-Sábado Da XVI Semana Comum

ESPIRITUALIDADE VIVIDA NA PRÁTICA DA JUSTIÇA SOCIAL FAZ PARTE DE NOSSA ALIANÇA COM JESUS CRISTO

Sábado da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Êx 24,3-8

Naqueles dias, 3 Moisés veio e transmitiu ao povo todas as palavras do Senhor e todos os decretos. O povo respondeu em coro: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse”. 4 Então Moisés escreveu todas as palavras do Senhor. Levantando-se na manhã seguinte, ergueu ao pé da montanha um altar e doze marcos de pedra pelas doze tribos de Israel. 5 Em seguida, mandou alguns jovens israelitas oferecer holocaustos e imolar novilhos como sacrifícios pacíficos ao Senhor. 6 Moisés tomou metade do sangue e o pôs em vasilhas, e derramou a outra metade sobre o altar. 7 Tomou depois o livro da aliança e o leu em voz alta ao povo, que respondeu: “Faremos tudo o que o Senhor disse e lhe obedeceremos”. 8 Moisés, então, com o sangue separado, aspergiu o povo, dizendo: “Este é o sangue da aliança, que o Senhor fez convosco, segundo todas estas palavras”.

Evangelho: Mt 13,24-30

Naquele tempo, 24 Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26 Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27 Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28 O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos ar­rancar o joio?’ 29 O dono respondeu: ‘Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30 Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro’”.

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Deus Da Aliança e o Povo Da Aliança

“Moisés, então, com o sangue separado, aspergiu o povo, dizendo: ‘Este é o sangue da aliança, que o Senhor fez convosco, segundo todas estas palavras’”. 

Dentro da profunda experiência que o povo eleito faz da manifestação de Deus no Sinai, a celebração da aliança ocupa um lugar privilegiado. Todos o povo participa neste mistério que afeta realmente o futuro de todos. Deus (Javé) por meio de Moisés, propõe a aliança: Javé será o Deus de Israel, isto é, seu Libertador, seu Defensor, seu Realizador. E o povo será o povo de Javé: “Faremos tudo o que o Senhor disse e lhe obedeceremos”. Com toda liberdade o povo construirá sua personalidade de acordo com a vontade de Deus. E esta aliança tem como testemunho doze pedras que recordam as doze tribos que presenciaram o compromisso de todo o povo de Javé. 

E essa alianaça é selada com sangue como era costume na antiguidade (Ex 24,5-6.8). Por isso, são sacrificadas vítimas: umas são oferecidas em holocausto, isto é, são queimadas completamente; outras são imoladas como vítimas pacificas ou de comunhão, dando lugar ao banquete ritual, que significava a comunhão do povo com Deus.

O sangue, na mentalidade bíblica, está estreitamente relacionado com a vida e por isso, não pode ser comido. Derramar o sangue sobre o altar é entregar a vida a Deus. Asperger com este sangue o povo significa que participa desta mesma vida. Deus e o povo são, de alguma maneira, “irmãos de sangue”. O sangue fica ligado à aliança. No Novo Testamento é o sangue de Cristo, vítima inocente ao que sela o pacto de amor entre Deus e o Israel da Nova Aliança (cf. Mc 14,24 e paralelos). A Carta aos Hebreus (Hb 9,18-20) se refere diretamente a esta passagem do Êxodo, e o aplica a Cristo. Somos salvos por Cristo, e a Nova Aliança que Ele estabeleceu entre nós e Deus foi ratificada com seu Sangue. 

A frase de Moisés no Sinai e a frase que Jesus nos diz na Ùltima Ceia, quando somos encarregados que celebremos a Eucaristia como memorial de sua morte, são quase idênticas: “Este é o sangue da aliança, que o Senhor fez convosco”, disse Moisés. “Este é meu sangue da aliança que faz o Senhor convosco”, afirma Jesus. Jesus acrescentou uma palavra: “meu”. Agora já não é o sangue de animais. É o sangue de Jesus, derramdo na Cruz. O vinho da Eucaristia, nos diz Ele, será sempre seu Sangue salvador com que selou a Aliança e da qual participamos toda vez que celebramos seu memorial eucarístico. A Eucaristia não é somente um ato de culto e sim que nos compromete a vivermos o mesmo estilo de vida de Cristo, ou seja, a Nova Aliança. 

A aliança é uma relação de vida que compromete cada instante e toda a existência dos indivíduos e do povo da aliança. No tempo de crise, especialmente no tempo da monarquia, os profetas dirão que a aliança é uma relação de amor. Vida e amor sempre novos, sempre renovados, sempre abertos a todos os caminhos da comunhão e da busca constante. Vida e amor de todos os tempos, mas especialmente do agora, já que tanto uma como outro são realidades presentes que fluem do passado para o futuro, mas sempre atuais. Dai é que são exigidas uma dinâmica constante de conversão, de abertura à renovação. Desde modo, o sangue das vítimas derramado sobre o altar e sobre o povo cobra todo o significado de selo vital da aliança contraída.  Participar do mesmo sangue é estabelecer o vínculo familiar ou entrar em comunhão de vida. Na celebração da aliança, o sangue das vítimas é vínculo de união entre Deus (o altar representa Javé) e o povo, os quais a partir de agora, serão os grandes aliados, partícipes de uma mesma vida e amor. 

Este texto é paralelo aos textos que narram a instituição da Eucaristia. Desde modo, contemplamos a antiga aliança e a nova. No entanto, a primeira aliança, apesar de sua realidade histórica eficaz, não é mais que uma imagem da segunda aliança, a nova e definitiva aliança de Deus em Jesus Cristo com toda a humanidade. Na Eucaristia descobrimos em uma única pessoa as características de mediador, sacerdote, vítima e altar, que fazem da ação de Jesus, oferecendo-se em oblação ao Pai, sela aliança definitiva e universal de toda a humanidade com Deus para sempre. Em cada Eucaristia da qual participamos ouvimos a seguinte frase: “Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados”. E o Carta aos Hebreus nos recorda que Jesus Cristo “é mediador de uma nova aliança. Pela sua morte, ele redimiu as transgressões cometidas no decorrer da primeira aliança. Assim, aqueles que são chamados recebem a herança eterna prometida” (Hb 9,15). 

Ser Parceiro Do Bem É Uma Forma Mais Eficaz Para Conter e Acabar Com o Avanço Do Mal 

Estamos no discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas. Desta vez Jesus nos conta a parábola sobre o joio no meio de trigo. O joio é uma planta da família das gramíneas (lolium temulentum) que cresce no meio do trigo que dificilmente se distingue do bom trigo durante o seu crescimento; só se vê a diferença nas espigas. As espigas do trigo alimentam o homem (animal), enquanto que o joio produz uma espiga de grãos escuros de efeito altamente tóxico. Mas, na verdade, não há necessidade saber da espécie de erva parasita que Jesus fala nessa parábola; basta saber que se trata de uma planta nociva.          

Esta parábola conta uma cena da vida cotidiana: o dono do campo que semeia a boa semente, o inimigo que prejudica o campo de trigo ao semear o joio, as relações entre o patrão e os empregados. Tudo parece normal, exceto a surpreendente reação do dono do campo: deixar que ambos (joio e trigo) cresçam juntos. A atitude do dono, evidentemente, chama a atenção dos ouvintes, porque a atitude normal é arrancar logo o joio para que o trigo possa crescer saudavelmente a fim de produzir boas espigas. O dono sabe que o joio pode impedir ou dificultar o crescimento do trigo, mas os dois parecem muito ao princípio e é possível que ao arrancar o joio, arranquem também o trigo. O dono quer que se espere o tempo da colheita para separar o trigo do joio.           

Evidentemente a parábola do joio orienta-se para o fim dos tempos, pois ela trata do juízo final, que introduz o Reino de Deus. Nesta parábola rejeita-se expressamente a ideia duma separação antes do tempo ou uma precipitação e exorta-se à paciência até chegar o tempo da colheita. Os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (v.29), pois ao fazer separação que é a competência de Deus, os homens cairiam em erros de julgamento e os dois (joio e trigo) acabam morrendo juntos, pois quem julga o outro, cai também no julgamento (Mt 7,1).          

Infelizmente a tendência espontânea dos homens é a de repartir a humanidade em duas categorias: os bons e os maus. E os maus sempre são os outros e os bons sempre somos nós. Por isso, somos intolerantes para as faltas alheias, mas muito amigos de nos auto-justificarmos e muito ligeiros a desculpar-nos. Que as bênçãos de Deus caiam sobre nós e nossa família, e as maldições sobre os maus, sobre os inimigos. Com isso, somos maus do mesmo jeito. Com esta atitude os homens, no fundo até inconsciente, tem uma tendência espontaneamente sectária e intolerante. O outro o amedronta enquanto não se tornou seu “semelhante”. O mal e o bem não estão só fora de nós, mas dentro do nosso coração. Ao esquecermos isto, nos constituímos juízes dos outros. Ninguém pode ter a presunção de ser trigo limpo, porque ninguém é tão bom que não tenha algum joio. Somente Deus é bom plenamente (Mc 10,18).          

Através desta parábola Jesus quer revelar também a paciência de um Deus que adia o julgamento (vv.28-30) a fim de deixar ao pecador o tempo para se converter. Apesar de ter na sua mão todo o poder, Deus se mostra tolerante e paciente para com a sua criatura, o homem, que é débil, limitado e pecador. Ele não exclui ninguém do Reino: todos são convocados até o último minuto, todos podem entrar nele. A cólera não é a última palavra da manifestação divina. O perdão sempre prevalece. A paciência divina está aberta para todos aqueles se convertem.          

Por sua atitude durante toda a sua vida, Jesus encarna a paciência de Deus em relação aos pecadores. Não existe pecado que não possa ser perdoado por Deus, se o pecador se converter; nenhum pecado arranca o homem do poder misericordioso de Deus.          

O segredo desta paciência de Jesus é o amor. Jesus ama o Pai com o mesmo amor com que é amado, pois é o Filho. Jesus ama os homens com o mesmo amor com que o Pai os ama. Talvez a expressão joanina seja melhor para descrever o amor de Jesus: “... amou-os até o fim” (Jo 13,1). Jesus ama os homens até em seu pecado. Foi o pecado dos homens que conduziu Jesus à cruz. No momento supremo em que o desígnio divino parece comprometido pela atitude dos homens, o amor se faz totalmente misericordioso: ”Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Jesus, realmente, amou os homens até o fim.          

Por ser membro do Corpo de Cristo, todos nós temos a missão de encarnar a paciência de Jesus. É na paciência que se conquista a vida (Lc 21,19). A paciência não é passividade. Por isso, ela é uma virtude dos fortes e prudentes.          

Nossa tarefa neste mundo não é a de repartir os homens entre os bons e os maus, mas a de revelar o amor misericordioso de Deus. Ninguém por si tem o direito de se constituir critério para o seu irmão. Não o irmão justo é o nosso critério, mas o Deus santo e misericordioso. Aqui na terra, o trigo está sempre misturado com o joio, e a linha de demarcação entre um e outro passa em todo homem. O cristão e a cristã são chamados a exercer sua função como pedra insubstituível na construção do Corpo de Cristo (Igreja) e a cooperar de modo original na realização da história da salvação. Quando o cristão não se tornar mais o sinal do amor de Deus, a missão automaticamente degrada-se em propaganda ou em tentativa de autopromoção. Para isso, temos que nos renovar sem cessar por dentro através do alimento da Palavra de Deus e da Palavra que se faz carne na Eucaristia.          

Além disso, essa parábola serve de exortação para todos os cristãos. Deus deixa conviver os bons com os maus, sem pressa de fazer juízo. E nessas circunstâncias não sabemos se fazemos parte do grupo dos bons ou do dos maus; se somos do trigo ou do joio. Mas como Deus tem paciência, sempre é tempo de tentarmos produzir alguma coisa positiva, e rendermos para a vida presente para vivermos na vida eterna.         

Portanto, precisamos estar conscientes de que o bem e o mal são duas realidades que aparecem juntos em nossa vida porque brotam da mesma fonte: o coração. Da abundância do coração fala a boca, o que sai de dentro é o que faz boa ou má à pessoa. Isto nos faz viver verdadeiramente em constante contradição interna como reconhece Paulo: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto” (Rm 7,15). Não há ninguém tão bom que não tenha algo de mau, e não há ninguém tão mau que não tenha algo de bom. Quem opta por fazer o bem sabe que tem que enfrentar o mal em todas suas formas.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...