segunda-feira, 28 de outubro de 2024

30/10/2024-Quartaf Da XXX Semana Comum

FAZER-SE PEQUENO POR AMOR NO ESPIRITO DO SENHOR PARA TORNAR-SE GRANDE AOS OLHOS DE DEUS

Quarta-Feira da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 6,1-9

1 Filhos, obedecei aos vossos pais, no Senhor, pois isto é que é justo. 2 ”Honra teu pai e tua mãe” – é o primeiro mandamento – que vem acompanhado de uma promessa: 3 ”A fim de que tenhas felicidade e longa vida sobre a terra”. 4 Vós, pais, não revolteis os vossos filhos contra vós, mas, para educá-los, recorrei à disciplina e aos conselhos que vêm do Senhor. 5 Escravos, obedecei aos vossos senhores deste mundo com respeito e tremor, de coração sincero, como a Cristo, 6 não para servir aos olhos, como quem busca agradar aos homens, mas como escravos de Cristo, que se apressam em fazer a vontade de Deus. 7 Servi de boa vontade, como se estivésseis servindo ao Senhor, e não aos homens. 8 Vós os sabeis: o bem que cada um tiver feito, seja ele escravo ou livre, tornará recebê-lo do Senhor. 9 E vós, senhores, fazei o mesmo com os escravos. Deixai de lado a ameaça; vós sabeis que o Senhor deles e vosso está nos céus e diante dele não há acepção de pessoas.

Evangelho: Lc 13,22-30

Naquele tempo, 22 Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. 23 Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu: 24 “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. 25 Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’. 26 Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ 27 Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’ 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. 29 Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. 30 E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.

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Conviver Numa Relação De Amor e De Mútuo Respeito

Continuamos a acompanhar as recomendações ou exortações sobre a vida de cada dia escritas na Carta aos Efésios. No texto da Primeira Leitura de hoje, o autor da Carta fala sobre as relações entre os pais e filhos (família) e entre os amos e escravos.

Relação Entre Os Filhos e Os Pais: Educação e Responsabilidade

Aos filhos, o autor lhes diz que obedeçam a seus pais para cumprir o antigo mandamento e sempre atual: ”Honra teu pai e tua mãe” ao que ele chama “primeiro mandamento” (“primeiro” aqui é entendido a partir dos mandamentos referentes ao próximo, no decálogo). Em outras palavras, “primeiro” aqui equivale a dizer “importante”, “o mais grave entre os graves”.   Isto quer dizer honrar pai e mãe é coisa séria para qualquer filho.

Filhos, obedecei aos vossos pais, no Senhor, pois isto é que é justo. Obedecer aos pais deve partir do mandamento do Senhor, ou seja, tem que obedecer aos pais no Senhor. É obedecer aos pais naquilo eles ensinam para alcançar a salvação. Deus ama para salvar. Os pais amam os filhos para salvá-los da perdição, pois Deus quer que todos os homens sejam salvos. Por isso, honrar o pai e a mãe não se reduz ao respeito e à ajuda que os filhos possam proporcionar aos pais. Honrá-los também significa dar testemunho diante dos demais de tudo que os filhos têm recebido dos pais: não só bens materiais e sim a vida, a educação, os diversos valores humanos e cristãos, a fé e muitas outras coisas que são a melhor herança que os pais transmitiram aos filhos.

Aos pais o autor da Carta lhes recorda que não devem exercer sua autoridade com tirania e sim “como fazia o Senhor”. Os pais devem também levar a sério a educação de seus filhos, tanto o valor da educação como a educação dos valores, pois deles depende o futuro da fé na Igreja e o futuro de uma sociedade justa, digna e livre de tudo que possa se converter em algo escravizante para a humanidade. Neste sentido, o “pai” não deve representar para o filho um conceito qualquer, mas um mundo de bondade, de amor, de calor humano, de força, de segurança. Os pais devem levar a sério o valor da educação e a educação de valores. Não educas quando impões condutas, e sim quando propões valores que motivam. Não educas quando impões caminhos, e sim quando ensinas a caminhar. Não educas quando impões a verdade e sim quando ensinas a buscá-la honestamente.” (Rene Juan Trossero, psicólogo argentina). Educar é ajudar a ser; é possibilitar o nascimento do ser. Quem ama educa e quem educa é porque ama. E isso só é possível à medida que se transmite aos filhos forças para ser, sabedoria para descobrir o que são e o que podem ser, e esperanças e visões para continuar. Educar na fé é a reconstrução da experiência espiritual que leva os filhos além dos instintos e dos instantes, fazendo-os enraizar-se no Eterno. É a experiência de nossa conaturalidade com o Absoluto. É a reconstrução da consciência de fé pela qual o ser humano reconhece que existe a partir de Deus.

Relação Entre Os Amos e Os Escravos

Destaca no texto de hoje a atenção que o autor da Carta aos efésios dedica sobre os servos/escravos (Ef 6,5-8). A escravidão é apresentada no texto como um fato, mas são Paulo não a justifica, pois inerente à escravidão é a falta de liberdade. Jesus veio precisamente para trazer a libertação para todos os que se encontram na escravidão de todos os tipos (cf. Lc 4,18-19).

Diante deste fato, o autor da Carta, preocupado pelo homem concreto, tal como é e como deve viver, de forma delicada e sutil, fala aos servos  e aos amos.

Aos escravos o autor da Carta lhes pede que obedeçam a seus amos com respeito: Escravos, obedecei aos vossos senhores deste mundo com respeito e tremor, de coração sincero, como a Cristo, não para servir aos olhos, como quem busca agradar aos homens, mas como escravos de Cristo, que se apressam em fazer a vontade de Deus”.  Ou seja, em qualquer estado ou cargo que ocupa, em qualquer situação que se encontra seja uma pessoa de Cristo. Neste contexto, sejam “escravos de Cristo, que se apressam em fazer a vontade de Deus”. Viver deacordo com os ensinamentos de Cristo, sendo escravo, é um grande testemunho capaz de converter até seu amor.

No fundo o Apóstolo reflete aqui sua própria situação pessoal, pois se sente servo de Cristo e dos homens. Para o Apóstolo nenhuma situação qualifica o homem. O que realmente vale para o homem é o bem que faz pelo próximo: “Vós os sabeis: o bem que cada um tiver feito, seja ele escravo ou livre, tornará recebê-lo do Senhor(Ef 6,8). A fidelidade da própria consciência ao bem, acima das circunstâncias concretas é que mais importante para o homem. Para o servo de Cristo não há “amos” neste mundo. Ser amo é aqui tao caduco como ser escravo. Para o Senhor, todos são iguais: “Vós sabeis que o Senhor deles e vosso está nos céus e diante dele não há acepção de pessoas” (Ef 6,9b).

Por isso, aos amos, o Apóstolo sugere que não sigam uma política de ameaça e castigo, pois eles têm que recordar que os escravos “têm um Amo no céu (Deus) e que esse Amo não é parcial com ninguém”.

O Apóstolo não se dedica a mudar a sociedade em suas estrututras no seu tempo e sim ele se dedica a pregar uns critérios que as transformarão  a partir de seu interior. Tanto no seio de uma família como em qualquer outro grupo (amo-escravos) continuam válidos os “slogans” de são Paulo. Quem tem uma responsabilidade sobre os demais, não tem que fazer sentir o peso de sua autoridade caprichosamente e sim com diálogo e respeito. E a obediência tem que ser feita com sinceridade e corresponsabilidade.

Nosso Deus e Pai nos pede que cumpramos de coração sua vontade, sabendo que para Ele não conta ser escravo ou livre, mas somente a fidelidade à sua Palavra e aceitar em nossa vida Aquele que Ele nos enviou para nos salvar. É claro que Deus, como Pai, jamais permitiria a existência de escravidão, pois todos são filhos e filhas d´Ele. Recorramos, portanto, ao Senhor para que Ele nos fortaleça e nos ajude a viver como irmaos, não esquecendo que todos nós somos filhos seus e que temos que buscar e praticar o bem para os outros desinteressadamente até que, um dia, possamo gozar dos bens que Deus tem reservado para todos nós.

Mas será que muitos ou poucos que vão gozar dos bens que Deus reserva para os homens? Não é melhor perguntar-se se alguém vao no caminho aadequado, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, carregando a própria cruz de cada dia com o olhar posto na Glória da qual Deus quer nos fazer coherdeiros junto aos seu próprio Filho? O Senhor pede que nos façamos pequenos com a simplicidade dos humildes, dos que se sentem sempre necessitados de Deus. não basta escutar Cristo pelas praças, há que escutá-Lo no coração e fazer vida em nós sua Palavra, pois não basta dizer-Lhe “Senhor, Senhor” para entrar no Reino dos céus. O único que contará será nossa fé traduzida em obra de amor, como enfatiza o Evangelho de hoje.

Fé e  Nosso Esforço Para Estar Em Comunhão Com Deus

Continuamos a nos encontrar com Jesus no seu Caminho para Jerusalém com suaa Lições do Caminho na viagem sem volta para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Para Jesus, Jerusalém é o ponto culminante e a meta decisiva, seja pela cruz de morte e triunfo, seja pela ascensão de Jesus ao céu. Neste caminho Jesus vai dando suas últimas instruções ou lições para que os discípulos possam levar adiante os ensinamentos de Jesus.

A lição dada aos discípulos nesta passagem é sobre o que e como o discípulo deve viver para merecer, pela misericórdia divina, a vida eterna (salvação). E para falar deste tema Lucas parte da pergunta de um anônimo (alguém) sobre a salvação. A pergunta desse anônimo é a pergunta de todos os que sabem que a vida tem o fim e por isso, todos os comportamentos ou modo de viver pesam para este fim. Interrogar-se pela salvação e desejar a vida eterna é interrogar-se pelo sentido da vida no presente: “Senhor, são poucos os que se salvarão?” (v.23).

Em vez de responder “quantos se salvarão” Jesus fala do “modo” como se salvar. Trata-se de um apelo urgente ao empenho: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão” (v.24).      

Esforçai-vos” (agonizesthi/agonizomai, de onde deriva a palavra “agonia”) é uma palavra que denota ação feita de todo o coração. É um termo técnico para competir nos jogos, e dele obtemos nossa palavra “agonizar”. Não se trata, por isso, de nenhum esforço desanimado. O caminho que conduz ao céu passa por uma luta intensa. Sobre esse empenho na luta São Paulo escreve: Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado, como o reconheceste numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas” (1Tm 6,12; cf. 2Tm 4,7-8). O Reino de Deus é exigente, não “se ganha” comodamente. Em outra ocasião Jesus chegou a dizer: “É mais fácil o camelo passar pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10,25).          

A porta é estreita porque não há salvação sem esforço e sacrifício depois que o pecado se instalou no mundo. Não é Deus quem estreita a porta, é o clima de pecado presente nas relações humanas que vai exigir escolhas nem sempre fáceis no caminho da salvação. A expressão “porta estreita” quer nos dizer que o problema da salvação é uma questão de empenho, de esforço, de conversão e de testemunho. A porta da salvação é estreita, mas está aberta para todas as pessoas de boa vontade, pessoas que se esforçam para viver na fraternidade.        

Se a porta é estreita, então há uma só condição para entrar: tornar-se pequeno: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus(Mt 18,3-4).  Se a porta é estreita, então os “gordos” não conseguirão entrar. Não podemos ser discípulos de Jesus se não renunciarmos a ser grandes, poderosos, dominadores, arrogantes, prepotentes, donos da verdade. Pequeno é aquele que se sente extraviado, humilde e só pode apelar à misericórdia de Deus. Quem não assumir a atitude interior do pequeno, sejam quais forem as suas práticas religiosas, orações, catequese, sermões, até milagres (Mt 7,22), não conseguirá entrar.           

Não há pessoas recomendadas junto a Deus, nem privilegiadas que possam se gabar diante d’Ele com base em sua pertença étnica, cultural ou religiosa (v.28). Não basta freqüentar a Igreja assistindo ou participando da missa. A única condição para ser reconhecido pelo Senhor, para fazer parte da comunhão salvífica é a vivencia do amor fraterno. É viver como irmão dos outros e tratar ao outro como irmão. Para passar pela porta do Reino precisamos praticar a justiça. E a justiça, mais do que questão de direito, isto é, dar a cada um o que lhe pertence e respeitar os direitos e a dignidade de todos, é uma questão de amor. Quem ama, pratica a justiça. A maior de todas as injustiças é a falta de amor, pois outras injustiças são fruto da falta de amor. Para o evangelho deste dia a justiça é como um bilhete de passagem para entrar no Reino de Deus, pois o Reino de Deus é o Reino de amor e de justiça.

No Sermão da Montanha Jesus nos avisou: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram” (Mt 7,13-14). O Reino é aberto para todos, mas é exigente. Não se entra pela razão étnica ou pela associação a qual alguém pertence e sim pela resposta de fé que vivemos na convivência fraterna com os demais. O critério para entrar no Reino segundo o evangelho de Mateus é a caridade fraterna: dar de comer aos faminto e pobre, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os estrangeiros, visitar os doentes e os presos (cf. Mt 25,40.45). Daí se vê qual é o sentido da porta estreita do céu. A caridade fraterna é a que mais nos custa, mas nos faz entrar no céu, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). 

A afirmação de Jesus “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” é uma mensagem de ânimo e de esperança para todos nós e para as pessoas de boa vontade. A esperança não ignora as dificuldades e os riscos de fracasso ocasionalmente, mas ela os enfrenta. A esperança não quer saber quando ganhará, mas simplesmente está convencida da vitória final. Praticar a esperança em Deus é renunciar ao passado, às feridas, aos medos e à escuridão para deixar-se guiar pela luz divina da qual surge a abertura que permitirá o homem chegar a uma vida nova e renovada. Praticar a esperança é abrir nossas asas não para fugir, mas para ascender a espaços de qualidade superiores dos anteriores. Deus não nos inspira sonhos sem nos dar também a força de realizá-los: “Javé é o Deus que me cinge de força e torna perfeito o meu caminho” (Sl 18,33). 

Precisamos viver cada dia como se fosse o dia do juízo, e viver em plenitude cada dia como se fosse o último para nossa caminhada nesta terra. Pensar e viver desta maneira nos levam a melhorarmos nosso empenho, nossa convivência fraterna e a valorizarmos nosso tempo para fazer o bem. Na verdade ainda temos muita coisa para melhorar. É preciso que tratemos nossa vida com carinho, respeito e profundidade.

P. Vitus Gustama,svd

29/10/2024-Terçaf Da XXX Semana Comum

A PALAVRA DE DEUS TEM PODER DE TRANSFORMAR VIDA MATRIMONIAL E NOSSA VIDA COTIDIANA EM UMA VIDA DO AMOR MÚTUO

Terça-Feira da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 5,21-33

Irmãos, 21 vós, que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros. 22 As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor. 23 Pois o marido é a cabeça da mulher, do mesmo modo que Cristo é a cabeça da Igreja, ele, o Salvador do seu Corpo. 24 Mas como a Igreja é solícita por Cristo, sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. 25 Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. 26 Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra. 27 Ele quis apresentá-la a si mesmo esplêndida, sem mancha nem ruga nem defeito algum, mas santa e irrepreensível. 28 Assim é que o marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo. 29 Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Ao contrário, alimenta-a e cerca-a de cuidados, como o Cristo faz com a sua Igreja; 30 e nós membros do seu corpo! 31 Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. 32 Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja. 33 Em todo caso, cada um, no que lhe toca, deve amar a sua mulher como a si mesmo; e a mulher deve respeitar o seu marido.

Evangelho: Lc 13,18-21

Naquele tempo, 18 Jesus dizia: “A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo? 19 Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. 20 Jesus disse ainda: “Com que poderei ainda comparar o Reino de Deus? 21 Ele é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.

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Imitar o Amor De Cristo Pela Igreja Nas Matrimoniais e nas outras relações fraternais

O autor da Carta aos Efésios continua com as recomendações ou exortações sobre a vida de cada dia. Desta vez ele fala sobre as relações entre marido e mulher (matrimônio).

Sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”. O convite ao mútuo amor no matrimônio se baseia na vontade originária de Deus no Gênesis, quando criou o homem e a mulher e quis que os dois fossem “uma só carne”. Por isso, cada um, no que lhe toca, o marido deve amar a sua mulher como a si mesmo; e a mulher deve respeitar o seu marido”.

O matrimônio cristão é também uma opção radical e irrevogável, imagem da opção de Cristo por sua Igreja. A primeira vista, este texto paulino parece definir a superioridade do homem sobre a mulher. É evidente que a imagem não se pode levar até o extremo de dizer que o marido salva a mulher no mesmo sentido que Cristo salva a Igreja e seus membros. O marido não é “cabeça” de sua mulher no mesmo sentido em que Cristo o é da Igreja.

Há que ter em conta a evoluição antropológica e social das pessoas como da família. Hoje o matrimônio é entendido muito mais em termos de complementariedade e corresponsabilidade. Mas na sociedade na qual, de fato, viviam os primeiros cristãos, a superioridade do homem era absoluta.

Tendo em conta esta superioridade, que são Paulo não define e sim que consta, o que esta passagem inculca é que a autoridade do marido deve ser um serviço de amor e de proteção, imitação do de Jesus Cristo para com sua Igreja. O marido deve amar sua esposa até a morte e considerá-la não como um objeto e sim como o próprio corpo: O marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo” (Ef 5,29).

Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra”. O autor da Carta aos Efésios não sentia dificuldade em trazer a imagem da Igreja como Esposa de Cristo. O profeta Oseias, para descrever as exigências da Aliança, já havia recorrido a esta imagem de Deus, Esposo de seu povo, e já havia desenvolvido o tema com realismo (Os 2,18-22). Em sua Segunda Carta aos Coríntios, são Paulo vê em Cristo o esposo, e na Igreja a esposa (2Cor 11,2). Na Carta aos Efésios, Cristo é visto como Cabeça, e a Igreja como Corpo. É uma nova maneira de expressar a unidade entre Deus e seu povo; é um modo de expressao totalmente novo. Por outra parte, a nova imagem utilizada por são Paulo não era uma criação artificial de sua imaginação. Na Bíblia, e segundo o que nos diz o Gênesis, a esposa é o corpo de seu esposo: “Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne porque foi tomada do homem (Gn 2,23-24). Por isso, depois de citar esta passagem do Gênesis, são Paulo declara que este mistério é grande, e o diz pensando em Cristo e na Igreja.

São Paulo entende a união entre homem e mulher da perspectiva de Deus, e portanto, afirma que “Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo”, porque “é a própria carne”. Mas, sobretudo, ele a relaciona com o amor que se tem mutuamente Cristo e a Igreja: “Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja”. Este “tipo” da união do homem e a mulher que encontramos no Gênesis, se realiza na união de Cristo e sua Igreja e, por sua vez, o amtrimônio encontra hoje sua verdadeira realização em conformidade com esta união de Cristo e sua Igreja.

O amor de Cristo a sua Igreja não é precisamente romântico: Cristo o demonstrou na sua entrega na morte na cruz por amor à humanidade. Ai éstá a razão  de ser do mútuo amor para são Paulo entre o marido e a esposa.

O matrimônio é destinado a reproduzir a relação entre Cristo e Sua Igreja, e como Cristo é a cabeça da Igreja, tal deve ser o marido para a mulher. O sim do marido para a esposa e vice-versa deve ser dita dentro do Sim de Cristo à Igreja. São Paulo não está querendo dizer que o marido seja autoritário em relação à mulher. Por isso, ele acrescenta: “Como Cristo, o Salvador do seu corpo”. Isto significa que a posição do marido como “cabeça” ou “comando” deve estar endereçada à “salvação” da mulher, como faz Cristo em relação à Igreja. A “submissão” endereçada à mulher da qual São Paulo fala deve ser sempre entendida no sentido do amor e do serviço e não no sentido da escravidão.

Como Cristo e a Igreja formam um só corpo, do mesmo modo marido e esposa, comprometidos numa comunidade de amor, formam um só corpo: Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão dois numa só carne” (Ef 5,31).

A expressão “uma só carne” aqui usada por Paulo não alude só à união carnal dos esposos, mas a toda a sua vida conjugal, feita de um empenho quotidiano na vivência do amor, da fidelidade e da partilha de toda a existência. “Os esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade, de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição” (Gaudium et Spes, 52).

Em nossas relações comunitárias: de família ou de vida religiosa ou de atividade paroquial, deveríamos aceitar este critério profundo: ver Cristo nos demais, imitar Cristo em sua entrega por amor. Todos, tanto casados como não casados, quando comungamos o “Cristo entregue por”, devemos também aprender seu amor de entrega pelos demais. O entregar por amor pelos demais deve-se notar durante o dia nas relações entre marido e esposa, entre filhos e pais, entre irmaos ou companheiros de trabalho e de vida da comunidade. Se não, será uma Eucaristia que não produz os frutos que Cristo esperava.

Portanto, hoje sentimos como é necessário ajudar as pessoas a conhecerem a pessoa de Jesus, e a encarar a vida conjugal como uma vocação, ou seja, como um chamamento a viver o Amor do Reino neste estado de vida. Continuamos na obrigação de educar para um amor capaz de assumir compromissos definitivos. Isso se faz para valorizar a confiança mútua, a fidelidade ao outro e a si mesmo, para dar uma chance à felicidade que estava no plano de Deus desde o começo. Não vemos casamento indissolúvel como uma obrigação a ser carregada, e sim como um direito que não deve ser sacrificado num mundo que fez do descartável um modo de vida. Responsabilidade, desejo de fidelidade, seriedade na palavra empenhada têm muito a ver com o direito de ser e fazer feliz.

O ser humano foi criado à imagem de Deus por amor. O casal humano é chamado por Deus a tornar-se o primeiro lugar de encarnação deste movimento de amor. O amor humano, sob todas as suas formas, não nasceu dos acasos da evolução biológica. É dom de Deus. Quando os homens recusarem este dom, impedirão Deus de imprimir neles a sua imagem. O casamento indissolúvel é um grito para todas as pessoas ao redor que existe o amor. É o mesmo que dizer: Deus existe, pois ele é Amor (1Jo 4,8.16).

A Palavra De Deus Vivida Tem Poder De Transformar Nossa Vida

Continuamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, durante o qual escutamos Suas últimas e importantes lições para nossa vida como cristãos (Lc 9,51-19,28).

A passagem do evangelho de hoje fala de duas parábolas: a semente da mostarda e o fermento. As duas querem sublinhar claramente que a graça de Deus cresce em extensão (grão de mostarda) e em intensidade (fermento na massa). No entanto, elas não sublinham apenas sobre o crescimento, mas também sobre todo estado final que apontam para um valor escatológico. Elas servem, por isso, para animar qualquer cristão, qualquer comunidade para não desistirem em levar adiante a causa de Jesus apesar de se sentirem tão pequenos no meio dos “poderosos” deste mundo, pois no final Deus é quem tem a última palavra.

O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e lançou no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos(Lc 13,19), assim Jesus disse-nos hoje. Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa que o semeador se preocupe ou não com a semente. Cada semente lançada na terra surge a esperança no coração do semeador de ver a semente brotar e crescer em alguns dias. O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. E ao ver a semente que se transformou em plantinha, a alegria inunda o coração do semeador a ponto de ele “conversar” com a plantinha quase diariamente. E com cuidado ele vai capinar ao redor dela para facilitar o crescimento saudável da plantinha a fim de ela dar bons frutos. O semeador é aquele semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique que se transforma em alimento para cada família. O semeador é aquele que investe no porvir.

Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear, lançar, esperar com paciência!  Ele empreende uma obra que tem porvir. Ele semeia a Palavra de Deus em cada coração. E aquele que escuta e se deixa guiar pela Palavra de Deus, vai produzir muitos bons frutos para a convivência fraterna.                 

A Palavra de Deus tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus.                

O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. Ao falar da pequenez de uma semente como a de mostarda, Jesus quer nos convidar a rever os nossos critérios de atuação e a nossa forma de olhar o mundo e os nossos irmãos. Por vezes, naquilo que é pequeno, débil e aparentemente insignificante é que Deus se revela (cf. Mt 11,25-28). Deus está nos pequenos, nos humildes, nos pobres, nos que renunciaram a esquemas de triunfalismo e de ostentação; e é deles que Deus se serve para transformar o mundo.

O Reino de Deus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado, acrescentou Jesus. Esta comparação tem em conta a potência de transformação do fermento apesar de sua invisibilidade: assim que o fermento se mistura com a massa, a massa se transforma em tamanho maior  para se transformar em pão para a mesa de cada família: os começos são modestos, mas o resultado final é surpreendente.

Através das duas parábolas, Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, como a pequena semente de mostarda ou como o fermento, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germina e cresce poderosamente. O que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Necessitamos trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos, meios e técnicas e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.                 

O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas, métodos e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11).                  

Os frutos da graça de Deus se produzem às ocultas, em pequenos gestos e projetos bem simples sem que ninguém se dê conta. Nossa tarefa é semear a bondade constantemente, catar um pedaço de felicidade diariamente para compartilhá-la com aqueles que não conseguiram catar nenhum pedaço. A fé vivida na obediência à vontade de Deus é capaz de operar uma transformação total da pessoa, uma reestruturação de todo o ser, como a semente que se transforma totalmente em uma planta. Nos fatos aparentemente irrelevantes, na simplicidade e normalidade de cada dia, na insignificância dos meios, esconde-se o dinamismo de Deus que atua na história e que oferece aos homens caminhos de salvação e de vida plena. Não podemos deixar nenhum dia sem semear a bondade nos corações de pessoas.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

São Simão e São Judas Tadeu-28/10/2024

JUDAS TADEU E SIMÃO-APÓSTOLOS

SER CRISTÃO É SER ENVIADO DO SENHOR E SER FATOR DA UNIDADE 


28 de Outubro 

Primeira Leitura: Ef 2,19-22

Irmãos, 19 já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus. 20 Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal. 21 É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo santo no Senhor. 22 E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito.

Evangelho: Lc 6,12-19

12 Naqueles dias, Jesus foi à montanha para rezar. E passou a noite toda em oração a Deus. 13 Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: 14 Simão, a quem impôs o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelota; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que se tornou traidor. 17Jesus desceu da montanha com eles e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. 18 Vieram para ouvir Jesus e serem curados de suas doenças. E aqueles que estavam atormentados por espíritos maus também foram curados. 19 A multidão toda procurava tocar em Jesus, porque uma força saía dele, e curava a todos.

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No dia 28 de outubro a Igreja celebra a festa dos Apóstolos Simão, o Cananeu, e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes), juntos. Nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, os dois estão sempre juntos na lista dos Apóstolos, um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13). Não há muitos dados a respeitos dos dois.

No Evangelho de Mateus Simão tem qualitativa de “cananeu”. Em hebraico o verbo “qanà” significa “ser zeloso”. Não é por acaso que o evangelho de Lucas chama-o de “zelota” ou “zelote” ou “dedicado”. Ser zeloso, aqui, significa ser dedicado no serviço total a Deus e no serviço do povo para o qual foi eleito (cf. Ex 20,5; 1Rs 19,10: Elias se dedica totalmente ao Deus único, defensor do monoteísmo).

O segundo Apostolo cuja festa nós celebramos também neste dia é Judas Tadeu (mais popular do que Simão, por ser considerado, popularmente, como santo das causas e coisas impossíveis). Os evangelhos Mateus e Marcos chamam esse Apostolo com um nome só: “Tadeu” (Mt 10,3; Mc 3,18); Lucas chama-o com dois nomes: “Judas de Tiago” ou “Judas filho de Tiago” (Lc 6,16; At 1,13).

Sobre o Apóstolo Judas Tadeu, também, temos muito poucos dados. O evangelista João registrou a pergunta desse Apostolo para Jesus, cuja atualidade jamais perdida: “Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo?” (Jo 14,22: durante a Última Ceia). De fato, o Ressuscitado não se manifestou aos seus adversários para mostrar que quem vence é sempre Deus e quem está com Deus (cf. Rm 8,31-39). Deus continua respeitando a liberdade do homem, mas continua espera a volta de cada homem com misericórdia (cf. Lc 15,11-32). O caminho de Deus é totalmente diferente dos caminhos dos homens (cf. Is 55,8). O homem gosta de se exibir (cf. Mt 23,1-12). Deus prefere o caminho simples, sem barulho (cf. 1Rs 19,1-18; Mt 11,25-28). Segundo Jesus, na sua resposta à pergunta de Judas, Deus se manifesta e faz Sua morada no coração que sabe amar: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23). O amor no coração nos faz percebermos a presença de Deus. “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho. In Joan. 17,8).

Uma das Cartas do NT, chamadas cartas “católicas” (porque não são destinadas para determinada comunidade ou Igreja), é atribuída a Judas Tadeu (Carta de São Judas tem apenas 25 versículos). Nesta pequena Carta Judas Tadeu adverte a todos para não seguirem ensinamentos falsos e inaceitáveis, pois capazes de criar divisão dentro da própria comunidade. Segundo o autor dessa Carta, aqueles que seguem as doutrinas falsas e inaceitáveis são comparados com “os anjos caídos”, “nuvens sem água que os ventos levam”, “arvores sem frutos” (cf. vv. 11-13). Alem disso, nessa Carta, o autor encoraja os leitores para não terem medo diante das dificuldades e desafios, pois Deus vai guardar Seus fieis (v. 24). É preciso ter fé em Deus (v.20). Mas, ao mesmo tempo, o autor pede que andemos pelo caminho de indulgência: “Vocês, porém, amados, construam sobre o alicerce da santíssima fé que vocês têm; rezem movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna. Procurem convencer os vacilantes: salvem a uns, arrancando-os do fogo; tenham compaixão de outros, mas com temor. Detestem até a roupa contaminada pelos instintos egoístas dos ímpios..." (vv. 20-23).

Os dois Apóstolos nos ajudam a vivermos nossa fé incansavelmente apesar das aparências poderosas das situações e dificuldades que encontramos na nossa vida. Deus é bom e Ele é amor, e por isso, podemos confiar nele em todos os momentos de nossa vida.

Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal”, escreveu São Paulo aos Efésios que lemos na Primeira Leitura.

Os apóstolos e os profetas são o cimento sobre o qual foi edificado o novo povo de Deus pela sua pregação e doutrina. Os profetas dos quais se fala são os do Novo Testamento que desempenharam uma papel importante similar aos dos apóstolos. Por isso os profetas aqui são colocados depois dos apóstolos.

Mas o próprio Cristo é a pedra angular da nova “casa de Deus”. Pedra angular é aquela sobre a qual um edifício está alicerçado. A pedra angular tem função de dar coesão e firmeza para os fundamentos e une as diversas partes. Dizer que Cristo é “pedra angular” significa que sobre Ele que está alicerçado o edifício da Igreja que tem poder de sustentar e consolidar os fundamentos e une entre si os dois povos que o formam (judeus-cristãos). Em Cristo se ergue e vai crescendo o edifício que é a Igreja para formar um templo consagrado ao Senhor.

Se Cristo é o fator importante (pedra angular) que une e dá firmeza ao todo, logo ser cristão significa ser fator da unidade. Os cristaos devem estar ausentes de qualquer atitude diabólica, isto é, a atitude que desune. Unir e reunir são termos que teologicamente significam salvar. Esta união é o objeto da oração de Cristo na sua despedida de seus discípulos (Cf. Jo 17,11b.20-23).

O texto do evangelho deste dia fala da eleição dos Doze Apóstolos. A eleição dos Doze é precedida de uma prolongada oração de Jesus. Lucas faz referência à oração de Jesus nos momentos mais decisivos de sua vida. Lucas é o evangelista que põe mais ênfase sobre a figura orante de Jesus do que outros evangelistas. Onze vezes em seu evangelho, Lucas fala da “oração” de Jesus (Lc 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28; 10,21; 11,1; 22,32; 22,41; 23,34; 23,46). Para tomar uma decisão importante Jesus entra, primeiro, em oração prolongada.

Jesus subiu ao monte para orar”. Muitos dos acontecimentos importantes da vida de Jesus acontecem num monte: Monte das Bem-aventuranças, Monte Tabor da Transfiguração; Monte Gólgota da Crucificação e da morte de Jesus. Portanto, Monte é o lugar das grandes decisões, um lugar solitário propício para a oração, um lugar de amplos horizontes de onde se vê longe e amplamente. Quanto mais subirmos espiritualmente, mais ampla será a visão que teremos sobre a vida e a salvação. Porém, para subir é preciso esforçar-se e de muito fôlego.

Jesus nos ensina a aprendermos a ampliar nosso horizonte, dialogando com Deus e meditando Sua Palavra, “subindo” até Ele diariamente. Temos que consagrar algum tempo diariamente para entrar em contato com o nosso Salvador, Jesus Cristo. Aquele que tem tempo para o Senhor diariamente, vai ganhar seu tempo. Somente no dialogo prolongado na oração é que ganharemos o horizonte maior para nossa vida, pois o nosso olhar estará dentro do olhar de Deus. Temos que ter coragem de subir até onde os valores maiores se encontram capazes de vermos tudo com claridade e com uma visão mais ampla sobre a vida e os seus acontecimentos de cada dia, como diz a Carta aos colosenses:Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não nas coisas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é vossa vida, se manifestar, então também com Ele sereis manifestados em glória” (Cl 3,1-4).

Através de um diálogo permanente com Deus na oração e através da meditação diária da Palavra de Deus aprendemos a ver a vida de maneira multiangular. Quando mantivermos nossas orações diariamente, acabaremos conhecendo e captando o plano de Deus sobre nossa vida. Isso significa que a oração tem como objetivo ou resultado não para mudar Deus e sim para mudar quem reza.

A vida sem oração se reduz na busca das próprias vantagens para servir aos próprios interesses. A vida sem oração é a vida sem rumo ou direção. Não é por acaso que Jesus sempre dedica seu tempo especial para rezar. A vida sem oração e sem  amor se apaga. Podemos ficar doentes, mas nossa oração e nossa fé jamais ficam doentes. Não podemos deixar nossa oração e nossa fé envelhecer e morrer, pois significará a morte total de nossa vida, isto é, a vida sem salvação. Não podemos nos esquecer que a história de nossa vida como cristãos é a história de nossa oração. Trata-se de uma história com Deus que termina feliz. “Reza bem quem vive bem. Vive bem quem reza bem”, dizia Santo Agostinho (De ord. 2,19,51; In ps. 85,7).

Quando rezo/oro eu reconheço como eu mesmo, finito, criatura, passageiro. Ao mesmo tempo, quando oro/rezo eu fico aberto para o Infinito, o Criador, o Eterno. É um ato humano e somente humano. Não há outra criatura ou animal que fica de joelho para orar/rezar. Neste sentido, deixar de orar/rezar é abandonar minha humanidade, minha finitude, que terá como resultado cair no nada, pois sou o que sou por causa de Deus.

Jesus “passou a noite toda em oração a Deus”, assim Lucas nos relatou. A “noite” aqui quer indicar a perplexidade que invade Jesus nas escolha dos Doze Apóstolos. E a oração é meio de clarificação a fim de que Deus dê luz verde naquilo que Jesus quer realizar com a ajuda dos apóstolos para a salvação do mundo. Jesus não escolheu seus apóstolos à noite, mas durante o dia. Por isso, em seguida Lucas nos relatou: “Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos”.  A expressão “ao amanhecer” indica que a oração obteve resultados positivos, pois não se pode tomar decisões enquanto alguém estiver nas trevas ou na perplexidade de uma escuridão de vida (“noite”). Estar na oração significa estar com Deus. E estar com Deus é estar com a luz que ilumina tudo na nossa vida (“amanhecer”).

Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu Doze dentre eles....”. Há aqui o objetivo da oração de Jesus durante toda a noite: Sua Igreja. É o projeto que apesar de tudo continua durando até hoje (cf. Mt 16,18). Por isso, a instituição dos Doze é um momento solene para a história da Igreja, particularmente e para a história da humanidade de modo geral.

São doze. É evidentemente um número simbólico. Com esse número Jesus constitui o Novo Israel, a Sua Igreja, para substituir as doze tribos de Israel no Antigo Testamento. Os Doze não são grandes personalidades. É o estilo de Deus que vai escolhendo para sua obra pessoas débeis, mas que se esforçam para dar o melhor de si para salvação do mundo, pois agente principal desta obra continua sendo o próprio Deus.

Apesar da oração de uma noite inteira, apesar do bom discernimento de Jesus, apesar de toda formação, um dos apóstolos era um traidor. É o mistério da liberdade humana.

Os Apóstolos receberam tudo de Jesus para que se tornassem instrumentos de salvação para o próximo. E nós recebemos tudo dos Apóstolos através de várias gerações anteriormente. Nós não podemos quebrar esse elo ou essa cadeia. Se tudo de bom para a salvação do mundo recebemos das gerações anteriores, precisamos continuar essa “corrente” de evangelização. Cada cristão é apóstolo de Jesus. Ele é o apóstolo em qualquer lugar e Jesus espera algo de cada um de nós para a Igreja do Senhor. Ser apóstolo não é trazer os outros para si e sim orientá-los para o encontro pessoal com Jesus, o Salvador.

A comunidade de Jesus é apostólica. Ela é cimentada na pedra angular que é o próprio Jesus Cristo. Mas também tem como fundamento os apóstolos que o próprio Senhor escolheu como núcleo inicial da Igreja. E fazemos parte da comunidade apostólica pelo Batismo. Por isso, somos, por natureza, missionários ou apostólicos (Ad Gentes no. 2). Esta comunidade “apostólica” é que colabora com o Ressuscitado que nos deixou o mandato missionário (cf. Mt 28,19): anunciar o que é bom e digno para a edificação de um ser humano. O cristão não pode perder tempo para as coisas que não edificam. A única preocupação de cada cristão em cada instante é fazer o bem e convidar os demais homens para serem parceiros do bem.

Os Doze não são grandes personalidades. É o estilo de Deus que vai escolhendo para sua obra pessoas débeis, mas que se esforçam para dar o melhor de si para salvação do mundo, pois agente principal desta obra continua sendo o próprio Deus. A lista dos que foram escolhidos como apóstolos se abre com Pedro e se fecha com Judas. Pedro representa fidelidade apesar das fraquezas. Judas representa infidelidade e se desespera. Pedro e Judas, símbolos de fidelidade e infidelidade, resumem a historia da Igreja e a historia pessoal de cada discípulo. O importante é que não cerremos nossa relação com Jesus com uma traição.                 

Os Apóstolos já cumpriram sua missão. E por causa dos missionários próximos de nós, conhecemos Jesus. Não podemos deixar morrer na nossa mão está missão. Precisamos ser apóstolos do Senhor e fazer os outros apóstolos. Ser apóstolo não é trazer os outros para si e sim orientá-los para o encontro pessoal com Jesus, o Salvador. 

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

XXX Domingo Comum, Ano "B", 27/10/2024

SENHOR, QUE EU VEJA PARA TE SEGUIR ATÉ O FIM

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM “B”

Primeira Leitura: Jr 31,7-9

7 Isto diz o Senhor: “Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai, cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel’. 8 Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam. 9 Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces; eu os conduzirei por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito”.

Segunda Leitura: Hb 5,1-6

1 Todo sumo-sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. 2 Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. 3 Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo, quanto pelos seus próprios. 4 Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão. 5 Deste modo, também Cristo não se atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo-sacerdote, mas foi aquele que lhe disse: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”. 6 Como diz em outra passagem: “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec”.

Evangelho: Mc 10,46-52

Naquele tempo, 46 Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. 47 Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” 48 Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 49 Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” 50 O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. 51 Então Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” 52 Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.

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Uma Visão Geral Das Leituras Deste Domingo

Os quatro domingos marcados pelo “caminho para Jerusalém” falam hoje sua culminação. A referencia topográfica é bastante importante para que nenhum dos sinóticos a esqueça: Jericó.

O fato, com variante, é também o mesmo: Jesus ilumina o cego ou cegos conforme Mateus, para que possam caminhar com o Senhor até Jerusalém.

O Lecionario destaca na perícopa evangélica a oração do cego: “Mestre, que eu possa ver”. A Primeira Leitura recolhe as palavras proféticas que anunciam a obra de Jesus: “Entre eles há cegos e coxos... uma grande multidão retorna”. Trata-se, com efeito, do retorno à Terra Prometida depois do duríssimo desterro; trata-se de uma nova reunião “dos confins da terra”, porque “o Senhor salvou seu povo” (Primeira Leitura). “Sim, maravilhas fez conosco o Senhor” (Salmo Resposnsorial).

As referencias ao caminho, à luz, ao retorno, à ação transformadora de Deus, à cidade da grande congregação/reunião, estão cheias de possibilidades para uma atualização das leituras de hoje. Algumas delas são colocadas aqui.

Primeiro, em torno do tema sobre o caminho. Aqui o caminho é a vida de Jesus (Cf. Jo 14,6), culminado no mistério pascal, do qual Ele tantas vezes nos fala ou anuncia sua proximidade e ao mesmo tempo nos convida à participação. O Salmo Resposnsorial, a partir das imagens do povo que retorna, explica muito bem este caminho: é um “semear com lágrimas”, mas também “colher com alegria” (Cf. Jo 16,20-22). Somente quando Jesus ilumina, pode, então, o homem ver claro que este é o caminho. E nós, apesar de estar já “iluminados”, precisamos invocar ao Senhor como “nosso Mestre”: “Que eu possa ver!”.

Segundo, o tema em torno da cidade para onde nos dirigimos, o término do caminho. No próximo dia primeiro de Novembro (ou no próximo domingo para o Brasil), na Solenidade de Todos os Santos, o prefácio nos trará as seguintes palavras: “Para essa cidade, a Jerusalém do alto, a cidade do céu caminhamos, pressurosos, peregrinando na penumbra da fé”. A cidade de Jerusalém é uma das imagens bíblicas mais sugestivas para falar sobre a realidade inefável do céu. Essa cidade é segurança, relação, comunhão de vida, fraternidade e assim por diante.

A oração pos-comunhão deste domingo oferece uma pauta esplêndida: “Ó Deus que os vossos sacramentos produzam em nós o que significam, a fim de que um dia entremos em plena posse do mistério que agora celebramos”. Trata-se da realidade da nova e eterna aliança em Jesus Cristo, a comunhão desde agora com Ele, no Espirito Santo. O que celebramos agora é o mistério pascal de Cristo, seu trânsito à direira do Pai para que “um dia entremos em plena posse do mistério que agora celebramos”, isto é, na plenitude da luz, quando a fé se transformará em visão, e o caminho em porta aberta de para em par.

Um Olhar Específico Sobre o Evangelho Deste Domingo

Com o relato de cura do cego Bartimeu, Marcos conclui a seção central de seu evangelho (8,22-10,52). No início e no fim desta seção, Marcos destaca o tema da fé como dom de Deus. Assim a seção começa e termina com a cura de um cego (Mc 8,22-26; 10,46-52). As duas curas (dos cegos) têm uma função simbólica, isto é, querem lembrar o leitor de que é Jesus que faz possível a fé daqueles que acreditam n´Ele e O seguem no caminho (Bartimeu jogou fora o manto e começou a seguir Jesus no caminho).       

A história do cego Bartimeu é rica de experiência interior do homem que descobre em Jesus a verdadeira luz (Jo 1,9;9,5). Por isso, esse relato nos convida a centrar-nos em Jesus de todas as maneiras possíveis, como Bartimeu, de sorte que possamos, também nós, experimentar em Jesus a verdadeira luz e a fonte de nossa força, quando o seguimos para Jerusalém. 

Um Grito Digno Dirigido a Deus Que Passa       

Bartimeu centra-se em Jesus completamente e de várias formas. Os ouvidos de Bartimeu ouvem o que seus olhos não podem ver. O coração do Bartimeu conhece Aquele que com seus olhos não podem enxergar: o Messia Jesus, Deus que salva. O cego invoca Jesus que está passando com um título messiânico popular, que resume todas as esperanças de Israel: “Filho de Davi(2Sm 7,12-16;Sl 89,29-38). Bartimeu é a única pessoa em Israel, à parte dos discípulos, a reconhecer explicitamente a identidade messiânica de Jesus: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (10,48b). Seu apelo é uma expressão de fé em Jesus, porque ele acredita que Jesus pode salvá-lo, porque o Filho de Davi é o Messias prometido que vem para cumprir todas as promessas do Antigo Testamento.        

Por outro lado, os peregrinos não pareciam muito felizes com o grito ou o apelo de Bartimeu e o intimaram que se calasse. Mas a insistência deles é sem efeito. Pelo contrário, Bartimeu grita ainda mais forte: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” A fé de Bartimeu continua a se exprimir com força, embora seja contrariada (cf. Lc 11,1-13;18,1-8). Gritamos para que nossa voz chegue a uma pessoa com quem queremos conversar ou dialogar por necessidade urgente. Gritamos porque precisamos de socorro. Gritamos por causa da dor e da angústia. Gritamos porque perdemos a segurança. Gritamos pela dignidade. Gritamos pela paz. Gritamos pela segurança. Gritamos pela vida digna. Gritamos pela boa educação. Gritamos para alguém que está brincando com o perigo. Gritamos e gritamos.....Nem sempre gritamos para esconder nossa insegurança.        

Ouvindo a oração/o apelo do mendigo cego, Jesus pára. Deus passa na nossa vida, mas precisamos superar as multidões de coisas dentro de nós que não querem que gritemos. Muitas vezes não queremos gritar por vergonha e acabamos vivendo na miséria permanente.  Diante de nosso grito digno, grito pela dignidade, cedo ou tarde, Deus vai parar para nos ouvir e salvar. É precisos manter nossos gritos para Deus, porque, cedo ou tarde, Ele vai nos atender. Não deixemos muitas vozes dentro de nós calarem nosso grito digno.  Por isso, é diferente do resto da multidão, Jesus faz-se presente a este homem que grita por causa de sua necessidade. No evangelho Jesus sempre está disposto a oferecer aos homens um novo começo, considerando sempre este começo possível, jamais quebrando o caniço rachado (Is 42,3). Para Jesus nenhuma situação é desesperadora, mas precisamos gritar direcionado a Ele que passa na nossa vida. Com Jesus, todo homem pode, a todo momento, recomeçar um novo futuro. Uma frase de um canto nos diz: “Quando Jesus passa, eu quero estar no meu lugar”. 

É Preciso Jogar Fora Aquilo Que Me Impede Para Ter Encontro Com Jesus, o Salvador        

A multidão se deixa, agora, ganhar pela simpatia que Jesus testemunha a este homem. A multidão começa a tomar partido em favor do cego, dizendo-lhe que não tem nada a temer: “Coragem, levanta-te, ele te chama”. Esta pequena frase implica duas coisas. Primeiro, que temos necessidade dos homens (dos outros) para ir ao encontro de Jesus, nosso Salvador. Temos necessidade uns dos outros, da comunidade, da sociedade, da Igreja. Segundo, isto significa que cada um de nós tem a responsabilidade de levar os outros a Jesus. Infeliz de mim se eu impedir os outros de conhecer Jesus por minhas palavras, minha conduta, meu mau exemplo ou pela contradição entre as duas.        

O relato torna-se agora claro e vivo: “Então o cego jogou fora o manto, deu um pulo e foi apresentar-se a Jesus”. “Jogar fora o manto” é um ato simbólico. “Manto” é símbolo da proteção. Para um pobre, o manto é sua casa; é tudo que ele possui (cf. Ex 22,25-26). Este gesto, por isso, eqüivale a abandonar tudo. Bartimeu, como o homem rico, encontra Jesus “no caminho” (10,17.46). O homem rico não podia desfazer-se de sua fortuna (veja a reflexão do 28º Domingo), mas o pobre Bartimeu abandona seu manto, seu único elemento de sobrevivência (os mendigos estendiam suas roupas para receberem esmolas). Um, no ápice da escala social, recusa o convite direto de Jesus. Mas o outro, no fundo da pobreza, na parte mais baixa da escala social, sequer chegar a esperar chamado, levantando-se e “seguindo Jesus no caminho” (52). Em sua cegueira Bartimeu não vê mais do que Jesus. Em sua pobreza, Bartimeu não busca mais do que o Senhor por Quem tudo foi criado (Jo 1,3). Bartimeu abandona tudo que possui para seguir Aquele que é Tudo para ums er humano. 

Será Que Sabemos O que Quremos Na Nossa Vida e Com Nossa Vida?        

Jesus agora nos surpreende com uma pergunta que parece totalmente supérflua: “Que queres que eu te faça?” (v.51). A pergunta de Jesus não foi: “O que desejas?”, e sim : “O que queres?”. De um lado, o desejo, o sonho: desejaríamos/gostaríamos de estar numa situação diferente. De outro, uma vontade: O que tu queres? Vontade se refere ao esforço; é um apelo ao desejo profundo. Quem diz vontade diz esforço. Desejo de se curar e vontade de se curar são conceitos diferentes. 

Que queres que eu te faça?” Isto nos lembra a pergunta semelhante feita a Tiago e João: “Que quereis que eu vos faça ?” (10,36). Os dois discípulos desejam status e privilégios; o mendigo cego simplesmente pede a sua “visão”. Marcos mostra assim de novo que o cego representa os discípulos. Jesus faz a pergunta para medir a sinceridade do vontade de Bartimeu. Que quer que Jesus faça por ele? Qual é o anseio de seu coração ? A resposta é direta e vem do coração: “Rabbuni, que eu veja” (v.51). O cego sabe o que quer: recuperar a vista. Aqui, ele já não chama Jesus de “Filho de Davi”, mas chama-o de Rabbuni (Meu Senhor), título que se dava ao próprio Deus: reconheceu em Jesus o Homem-Deus, o Messias Filho de Deus(Mc 1,1).        

Em resposta, Jesus realiza a última cura do Evangelho no caminho de Jesus a Jerusalém: “Vai, a tua fé te salvou”. A palavra grega “sozein pode significar “curar” e “salvar”. “Curar” refere à transformação física que ocorre na pessoa: Bartimeu recebeu a visão física (foi curado). “Salvar-se” inclui esta cura, mas refere também à transformação mais plena e profunda que o poder do Reino opera. Neste segundo sentido, Bartimeu representa todos aqueles que irão receber a visão espiritual, para penetrar o Mistério do Reino que Jesus revela e para aderir a ele (No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho). As palavras de Jesus “tua fé te salvou” são as que disse à mulher com fluxo de sangue (Mc 5,34); indicam a comunicação do Espírito, resposta de Jesus à adesão que Bartimeu lhe manifesta e ao seu compromisso.        

A mesma pergunta é dirigida a cada um de nós: Que queres que eu te faça? É uma pergunta muito franca. Esta pergunta exige uma resposta igualmente sincera, resposta que exprime meu desejo mais profundo. Como a fé de Bartimeu parte de um sim incondicional à pessoa de Jesus, assim minha resposta deve significar um comprometimento total com Jesus, um abandono sem restrição. É esta fé que cura Bartimeu e esta mesma fé pode tornar-nos sadios e santos(salvos). Mas será que sabemos o que realmente e essencialmente queremos nesta vida?

A Fé Que Nos Faz Caminharmos Atrás De Jesus        

Logo que Bartimeu começou a ver, foi seguindo Jesus pelo caminho (v.52). Este versículo é o ápice da narração. Provavelmente é a primeira vez em sua vida que Bartimeu pode deslocar-se livremente. Contudo, no mesmo momento em que a recupera, Bartimeu renuncia a esta liberdade nova para seguir Jesus. Que melhor uso se pode fazer da liberdade do que seguir o Senhor ? Somente quando renunciamos à nossa sede de poder, somente quando reconhecemos nossa cegueira e procuramos a verdadeira visão, o nosso caminho de discipulado pode prosseguir. Para seguir o caminho de Jesus é preciso ficar curado da cegueira. Bartimeu segue Jesus no caminho de Jerusalém, onde a paixão logo se desenvolverá. Bartimeu era fisicamente cego, mas não o era em sua alma. Os olhos de seu entendimento estavam bem abertos.        

Esta cena, na intenção de Marcos, mostra a necessidade que os discípulos têm da fé. É somente a fé, os olhos abertos pelo poder de Jesus, que faz ver o caminho que ele trilhou e que devemos trilhar, pois trata-se de o caminho de salvação. A fé é dom de Deus e ela faz ver quem é Jesus. Mas a visão clara que se tem de Jesus não vem de uma só vez. Com a ajuda de Jesus, veremos, pouco a pouco, mais claro e com maior nitidez. Este cego curado por Jesus representa, então, todos os cristãos aos quais foi dado o dom da fé para ver claro as coisas do Reino de Deus e para seguir Jesus no caminho de um amor que é semelhante ao seu amor. Mas devemos estar conscientes sempre de que a cegueira espiritual ainda faz parte da nossa condição de discípulo. Por isso, o nosso constante sentimento é um eco do pedido de Bartimeu: “Senhor, que eu veja, com mais clareza; e que te siga com mais generosidade como Bartimeu”. Queremos seguir Jesus melhor no dia-a-dia, sustentados pela oração, pela Palavra e pelo exemplo de irmãos e irmãs que inspiram a nossa coragem.

Concluindo....Resumindo.... 

O que podemos fazer quando a fé vai se apagando em nosso coração? É possível reagir? O evangelista Marcos narra a cura do cego Bartimeu para animar seus leitores a viver um processo que possa mudar suas vidas. Somos também leitores do evangelho de Marcos. 

A situação de Bartimeu está descrita com traços bem-elaborados:

1.   Ele é um homem cego, ao que falta luz e orientação. Na ausência da luz, na escuridão da vida, vive-se apalpando.

2.   Bartimeu é um homem sentado, incapaz de caminhar atrás de Jesus.

3.   Bartimeu é um homem à beira do caminho, desencaminhado, fora do caminho de Deus. Mas Deus passa onde nos encontramos.

A experiência do cego Bartimeu pode também, muitas vezes, coincidir com nossa experiência.

·      Somos, às vezes, como “cegos”, sem luz para olhar a vida, como Jesus a olhava. Sem saber onde está o essencial e fundamental para nossa vida e nossa convivência.

·      Somos, às vezes, como o cego Bartimeu, instalados numa religião convencional, sem forças para seguir os passos de Jesus para humanizar mais a humanidade ao nosso redor. Esquecemo-nos que ser cristão é SEGUIR a Jesus, isto é, mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida sobre a Palavra de Deus. Quase sempre existe um momento na vida no qual se torna penoso continuar caminhando. Caímos na tentação de sentir que é mais cômodo instalar-nos no conformismo, mas também sem nenhuma melhoria na nossa vida. Continuamos a fazer a mesma coisa e ao mesmo tempo esperamos o resultado diferente. É insanidade!

·      Somos, às vezes, como o cego Bartimeu desencaminhados “à beira do caminho” que Jesus percorre sem aceita-Lo como guia de nossa vida.

O que fazer?

A Boa Notícia que o cego Bartimeu quer nos transmitir é que dentro de cada um de nós existe uma fé que pode nos levar a reagir e colocar-nos novamente no verdadeiro caminho: no caminho da Luz que é o próprio Jesus, Luz do mundo (Jo 8,12). 

O Bartimeu fica sabendo que Jesus está passando. Ele não quer perder a oportunidade para gritar seguidamente a Jesus: “Tem compaixão de mim, Filho de Davi!”. É abrir-se para a experiência que nos chama a curar nossa vida.

Quando foi chamado, Bartimeu dá três passos que vão mudar totalmente sua vida:

1.   Jogando fora o manto”, porque o impede de encontrar-se com Jesus. Quais são “seus mantos” que impedem você de encontrar-se com Jesus para crescer na vida ou para ser salvo? O que amarra você que o impede de viver com mais alegria, leveza e ânimo? 

2.    Bartimeu dá um salto decidido”, embora ainda se mova entre as trevas (cegueira). Ele tem coragem de dar um salto embora ainda seja cego, porque ele acredita, por antecipação, que Jesus vai abraçá-lo. É preciso termos coragem para fazer muitos saltos na direção de Deus porque Ele vai nos amparar.

3.    Bartimeu se aproxima de Jesus”, isto é, tornar-se próximo de Jesus e recupera sua visão. Ficar distante de Jesus significa uma cegueira total. Para que possamos ver com clareza a vida e seu sentido precisamos nos aproximar de Jesus permanentemente. A partir do momento em que nos distanciarmos de Jesus, tudo se tornará escuro na nossa vida; perde-se o horizonte e por isso, sem saber por que vivemos e para que vivemos?

P. Vitus Gustama,SVD

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

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