terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

28/02/2025-Sextaf Da VII Semana Comum

MATRIMÔNIO NA SUA BELEZA E PROFUNDIDADE

Sexta-Feira da VII Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 6,5-17

5 Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos; uma língua afável multiplica as saudações. 6 Sejam numerosos os que te saúdam, mas teus conselheiros, um entre mil. 7 Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação; e não te apresses em confiar nele. 8 Porque há amigo de ocasião, que não persevera no dia da aflição. 9 Há amigo que passa para a inimizade, e que revela as desavenças para te envergonhar. 10 amigo que é companheiro de mesa e que não persevera no dia da necessidade. 11 Quando fores bem-sucedido, ele será como teu igual e, sem cerimônia, dará ordens a teus criados. 12 Mas, se fores humilhado, ele estará contra ti e se esconderá da tua presença. 13 Afasta-te dos teus inimigos e toma cuidado com os amigos. 14 Um amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro. 15 Ao amigo fiel não há nada que se compare, é um bem inestimável. 16 Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo. 17 Quem teme o Senhor, conduz bem a sua amizade: como ele é, tal será o seu amigo.

Evangelho: Mc 10,1-12      

Naquele tempo, 1 Jesus foi para o território da Judeia, do outro lado do Jordão. As multidões se reuniram de novo em torno de Jesus. E ele, como de costume, as ensinava. 2 Alguns fari­seus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3 Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?” 4 Os fari­seus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. 5 Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. 6 No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. 7 Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8 Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9 Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” 10 Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11 Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. 12 E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”.

------------

Ser Amigo É Ser Pessoa Virtuosa

“Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos; uma língua afável multiplica as saudações”.

Ben Sirac trata com predileção do tema da amizade. Sem dúvida, sua cultura e riqueza ajudaram Bem Sirac a conhecer muitos amigos, sejam amigos interesseiros (colegas), sejam amigos fieis (verdadeiros amigos). O anseio por amizade atravessa toda a história da humanidade.

Hoje na Primeira Leitura lemos um pequeno tratado sobre a amizade: como se conseguem amigos, quem é o verdadeiro amigo, como devemos tratar nossos amigos. A amizade é como todos os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa (Goethe). A amizade é um amor que nunca morre (Mario Quintana). A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro (Platão). A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas (Francis Bacon). A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz George Eliot.

Ben Sirac sabe pela experiência que a riqueza atrai os “amigos” (a experiência é a mãe da ciência, diz o ditado. A experiência é a mãe da sabedoria, diz o Eclesiastico): “Há amigo que é companheiro de mesa e que não persevera no dia da necessidade”, diz Bem Sirca. É um tipo de “amizade de churrasco” na linguagem brasileiro. Este tipo de  “amizade” dura enquanto houver churrasco. Por isso, Bem Sirac aprendeu a selecioná-los e afastar os interesseiros (Eclo 6,5-13; 8,18-19; 37,1-5).

Para ele há dois critérios da verdadeira amizade: o primeiro critério é a fidelidade na prova: “Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação; e não te apresses em confiar nele” (Eclo 6,7; cf. 9,10; 22,23-26). Por isso é que Cícero produziu a seguinte frase célebre: “Amicus certus in re incerta cernitur”, “Conhece-se o verdadeiro amigo na adversidade”. O amigo é o melhor terapeuta nas experiências de abandono e humilhação. Nossa fraquezas que expomos a nossos amigos não debilitam nossa vida, mas nos tornam mais vivos e animados para seguir adiante. Onde há amigos, sentimos em em casa.

O segundo critério da verdadeira amizade é, sobretudo, o amor comum a Deus: “Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo. Quem teme o Senhor, conduz bem a sua amizade: como ele é, tal será o seu amigo” (Eclo 6,16-17). Santo Agostinho dizia: “No céu nosso coração não estará apenas com Deus, mas na comunidade de todos aqueles que, como nós, procuraram a Deus”. Para Santo Agostinho, a amizade entre as pessoas se aprofunda quando elas ultrapassam a si mesmas e aspiram a Deus como verdadeiro objetivo de suas vidas: “Ama verdadeiramente seu amigo aquele que ama a Deus no amigo, seja porque ele está nele, seja para que ele esteja nele”.

O próprio Jesus nos revela que não existe amizade, quando não é capaz de morrer para si mesmo e para a vida em benefício dos amigos: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando”, disse Jesus a seus discípulos (Jo 15,13-14).

Para os filósofos gregos a amizade era sempre expressão da virtude. A virtude (disposição para o bem) é a base da amizade. Dois amigos, por exemplo, são duas pessoas virtuosas. Por isso, o Platão diz que somente pode ser amigo do outro quem é amigo de si mesmo, isto é, ser pessoa virtuosa consigo mesma. Um amigo é uma pessoa que me ajuda a viver para o bem. Não posso ter amigo se eu mesmo não sou virtuoso comigo mesmo.  Pessoas más não podem realmente se tornar amigas de outras pessoas. A amizade pressupõe a existência da bondade na pessoa. A verdadeira amizade sempre oferece segurança e por ser companheiro (aquele que partilha o pão), o medo fica afastado.

Por isso, os psicólogos afirmam que pessoas sem amigos sofrem muito mais de fatalidade e crise do que as que têm amigos. Não é por acaso que santo Agostinho dizia: “Sine amico nihil amicum”, “Sem amigo nada é amigável”.

Matrimônio Que Deus Quer

Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne.  Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”

O texto do evangelho deste dia nos apresenta a discussão sobre o matrimônio entre Jesus e os fariseus. O foco da discussão é o divórcio. A doutrina do evangelista Marcos é bem clara: o casamento não é somente um contrato entre o homem (marido) e a mulher (esposa), mas ele engaja a vontade de Deus. A vontade dos esposos (em contrair o matrimônio) não é suficiente para explicar o casamento e sua unidade, mas a vontade de Deus é parte integrante: “Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”.  Consequentemente, o divorcio não é apenas uma injustiça em relação ao cônjuge humano abandonado, mas também uma injustiça em relação ao próprio Deus que quer sempre a comunhão.

“É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher?”. É a pergunta de alguns fariseus a Jesus com o intuito de apanhá-lo. Jesus seria acusado de traidor às exigências da Lei, se respondesse “não”, e poderia estar em contradição com sua pregação e com suas obras de caridade caso respondesse “sim”. O resultado seria o mesmo: desacreditar Jesus.

Jesus percebeu a maldade dos fariseus, mas não reagiu de maneira violenta. Jesus não discutiu. Ao contrário, Jesus se argumentou ao retroceder até as origens: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”

Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento”. Como conseqüência de um coração duro e insensível é a desobediência contínua às diretivas divinas. Um coração duro e insensível provoca a desordem nas relações humanas. 

O que Deus uniu, o homem não separe!”. Ater-se somente à lei e às regras é esquecer o impulso da vida. Jesus quer que o ser humano se aproxime da ambição de Deus: o amor é mais exigente do que qualquer lei.

Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne”. Para conhecer a grande intuição de Deus é preciso retroceder aos começos, às origens, ao princípio, quando, por ternura, Deus tirou da terra o homem e a mulher e soprou neles Seu hálito para que eles correspondessem ao Seu amor. Para Deus, amar foi em primeiro lugar falar nossa linguagem. Para Deus amar é manter a única palavra que nós podemos entender. Todos entendem a linguagem de amor. Amor é a única palavra que Deus quer manter para o homem e a mulher e quer, ao mesmo tempo, que o homem e a mulher permaneçam no amor. Quando há amor, tudo tem jeito. Regressar às nossas origens para descobrir a regra ou o princípio de nossa vida é voltar a descobrir que necessitamos falar a linguagem do Outro: de Deus. E a linguagem que Deus usa é amor.

Para Deus amar também significa fazer-se vulnerável. Ele não permaneceu no céu de Sua indiferença. Deus “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Regressar às nossas origens para voltar a descobrirmos a regra ou o princípio de nossa vida é fazer-nos vulneráveis. Quem ama, aceita desejar, esperar, pedir e sofrer. 

Para Deus, amar foi também crer e esperar. Deus nos deixou livres e não se arrependeu pela liberdade que nos foi dada. Regressar às nossas origens para descobrir a regra ou o princípio de nossa vida é voltar a aprendermos a viver na esperança. O amor é fecundo, suscita e ressuscita, perdoa e reconcilia. O amor espera com o outro na esperança, pois Deus nos espera no amor e por amor. 

Não separe o homem o que Deus uniu”, diz Jesus. Romper um vínculo selado por Deus é ir contra Deus. Deus chama à comunhão. Toda ruptura de comunhão significa estar contra o Deus-Comunhão. Os discípulos, os cristãos devem buscar sempre uma vida que reflete esta comunhão com Cristo e com o Pai, e por este mistério de comunhão é inconcebível falar de desunião, de divórcios, de divisão entre os cristãos. Todos os cristãos devem ser testemunhas de comunhão e não de ruptura. 

MATRIMÔNIO:Amoris Laetitia do Papa Francisco 

1.   Matrimônio como um projeto a construir juntos, com paciência, compreensão, tolerância e generosidade (AL n. 218).

2.   Daqui passa-se ao gosto da pertença mútua, seguido pela compreensão da vida inteira como um projeto de ambos, pela capacidade de colocar a felicidade do outro acima das necessidades próprias, e pela alegria de ver o próprio matrimónio como um bem para a sociedade. O amadurecimento do amor implica também aprender a «negociar». Em cada nova etapa da vida matrimonial, é preciso sentar-se e negociar novamente os acordos, de modo que não haja vencedores nem vencidos, mas ganhem ambos. (Al n 220).

3.   Não se vive juntos para ser cada vez menos feliz, mas para aprender a ser feliz de maneira nova, a partir das possibilidades que abre uma nova etapa. Cada crise implica uma aprendizagem, que permite incrementar a intensidade da vida comum ou, pelo menos, encontrar um novo sentido para a experiência matrimonial. É preciso não se resignar de modo algum a uma curva descendente, a uma inevitável deterioração, a uma mediocridade que se tem de suportar (AL n.232).

4.   Quando se assume o matrimónio como uma tarefa que implica também superar obstáculos, cada crise é sentida como uma ocasião para chegar a beber, juntos, o vinho melhor. É bom acompanhar os cônjuges, para que sejam capazes de aceitar as crises que lhes sobrevêm, aceitar o desafio e atribuir-lhes um lugar na vida familiar. Os casais experientes e formados devem estar dispostos a acompanhar outros nesta descoberta, para que as crises não os assustem nem os levem a tomar decisões precipitadas. Cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração (AL n.232).

O matrimônio é sacramento por ser imagem mais perfeita do que Deus é e do que é a vida segundo Deus. Na relação entre um homem e uma mulher descobrimos e experimentamos que Deus é encontro, dom, participação e amor. O casal humano é chamado por Deus a tornar-se o primeiro lugar de encarnação deste movimento de amor. O amor humano, sob todas as suas formas, não nasceu dos acasos da evolução biológica. É dom de Deus (cf. 1Jo 4,19). Quando os homens recusarem este dom, impedirão Deus de imprimir neles a sua imagem.

As pessoas se casam para formar uma família onde cada membro é preparado para entrar na sociedade maior. A família é o ambiente em que cada um aprende a dar e a receber o amor, a sacrificar pelo outro, a ser solidário com o outro, a carregar juntos o fardo que se encontra na caminhada, a perdoar mutuamente pelas ofensas que muitas vezes são frutos não da maldade, mas das limitações naquele momento em que elas ocorreram. A linguagem da fé de cada cristão se aprende no lar. A fé e a ética cristã se aprendem no lar que vão marcar a vida de cada membro para o resto da vida. Nenhum de nós adquiriu por si só os conhecimentos básicos para a vida senão através da família. No inicio da vida cada um recebe da família, a vida e as verdades básicas para viver uma vida sadia pessoal, social e comunitariamente.

Que em cada Eucaristia ou em cada celebração litúrgica seja fortalecido o amor dos casais presentes, o amor que eles consagraram um para o outro no dia de seu casamento. O casamento indissolúvel é um grito para todas as pessoas ao redor que existe o amor. É o mesmo que dizer: Deus existe, pois ele é Amor (1Jo 4,8.16).

P. Vitus Gustama,svd

27/02/2025-Quintaf Da VII Semana Comum

SER AUTÊNTICO CRISTÃO É SER CONVERTIDO PERMANENTEMENTE

Quinta-Feira da VII Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 5,1-10

1 Não confies nas tuas riquezas e não digas: “Basta-me viver!” 2 Não deixes que tua força te leve a seguir as paixões do coração. 3 Não digas: “Quem terá poder sobre mim?” ou: “Quem me fará prestar contas das minhas ações?”, pois o Senhor, com certeza, te castigará. 4 Não digas: “Pequei, e que de mal me aconteceu?”, pois o Altíssimo é paciente. 5 Não percas o temor por causa do perdão, cometendo pecado sobre pecado. 6 Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!”, 7 pois dele procedem misericórdia e cólera, e sua ira se abate sobre os pecadores. 8 Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, 9 pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado. 10 Não te apoies em riquezas injustas, pois elas de nada te valerão no dia da desgraça.

Evangelho: Mc 9, 41-50

Naquele tempo, 41 disse Jesus aos seus discípulos: “Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. 42 E se alguém escandalizar um desses pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço. 43 Se tua mão te leva a pecar, corta-a! 44 É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 45 Se teu pé te leva a pecar, corta-o! 46 É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno. 47 Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48 ‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga’. 49 Pois todos hão de ser salgados pelo fogo. 50 Coisa boa é o sal. Mas se o sal se tornar insosso, com que lhe restituireis o tempero? Tende, pois, sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.

-------------

Todos Somos Chamados à Conversão Permanente e Diariamente

O sábio do Eclesiástico dá a todos nos hoje: aos ricos e aos não ricos, aos pecadores endurecidos e aos pecadores arrependidos, alguns avisos sérios que necessitamos levar a sério. Porque uns se sentem demasiado seguros porque se confiam nas suas próprias riquezas materiais. Outros se sentem “poderosos” porque se protegem falsamente na bondade e na paciência de Deus. Deus tem muita paciência, mas Ele também é justo. Deus tem misericórdia para cada um de nós, mas Ele também tem cólera. A cólera geralmente acontece em qualquer pessoas quando os valores humanos são pisados ou desvalorizados.

A Primeira Leitura quer nos chamar a atenção sobre certos comportamentos ou certor modos de viver que são vazios de conteúdo ético e que no fim podem nos destruir: Não confies nas tuas riquezas e não digas: “Basta-me viver!”; Não te apoies em riquezas injustas, pois elas de nada te valerão no dia da desgraça; Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!”, pois dele procedem misericórdia e cólera; Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado.

Em outras palavras podemos dizer que o sábio quer nos adverter que não se pode brincar com a vida e a salvação para não sermos aniquilados diante de Deus. Há comportamentos que nos dão prazeres carnais, porém nos destróem lentamente. Há caminhos que nos levam ao aniquilamento de nossa vida, isto é, a destruição total de nossa vida, quando não decidirmos nos converter. O que o sábio da Primeira Leitura faz é nos ensinar uma educação preventiva: mostrar o engano de certas opções e, ao mesmo tempo, apontar para o caminho certo, isto é o caminho da salvação. É preciso manter nossa confiança no Criador e não na criatura (riqueça, poder mundano etc.,).

Nós cristãos podemos ter a tentação da excessiva confiança que nos leva à indolência. O fato de estarmos na Igreja e de frequentarmos as celebrações litúrgicas, não nos garantem que sejamos salvos, se tudo isso não é acompanhado pela conversão permanente. Ninguém é convertido definitivamente. A conversão é um trabalho silencioso de cada dia. A fé não aposenta ninguém. Confiados demasiadamente em Deus, podemos deixar para amanhã nossa decisão firme de seguir seus caminhos, que talvez seja tarde demais. “Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”. Jamais podemos abusar da misericórdia divina deixando sempre para mais tarde nossa conversão.

Não confies nas tuas riquezas e não digas: ‘Basta-me viver!’ Não deixes que tua força te leve a seguir as paixões do coração.  Não digas: ‘Quem terá poder sobre mim?’ ou: ‘Quem me fará prestar contas das minhas ações?’, pois o Senhor, com certeza, te castigará”.

O sábio aqui estigmatiza a arrogância e a autossuficiência do homem que, seguro de si, se acredita invulnerável. A riqueza freqüentemente acentua essa pretensão. O otimismo de Ben Sirac não o cega: ele sabe que o homem é frágil.

Tampouco Jesus tardará em chamar de "tolo" ou “insensato” a esse homem que se acreditava seguro, porque suas colheitas haviam sido excepcionais e ele estava pensando em ampliar seus celeiros (cf. Lc 12,13-21).

“Não digas: ‘Pequei, e que de mal me aconteceu?’, pois o Altíssimo é paciente”.

A pior arrogância é, certamente, a arrogância do pecador desvergonhado que se endurece em sua ridícula pretensão. Para o autor do Eclesiástico, se Deus não intervém constantemente para castigar o pecado é porque Deus concede um prazo e espera pacientemente a conversão do pecador. Seria perigoso interpretar esta demora como uma fraqueza de Deus e aproveitar-se dessa discrição divina para pecar mais. Tomemos cuidado disso!

Por isso, o autor acrescenta: “Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”.

O fracasso faz parte de toda vida humana. O pecado faz parte de vida humana. Mais condenável do que o pecado é endurecer-se no pecado, recusar reconhecer o pecado e remitir diariamente a confissão desse mal. Com feito, o presunçoso que não quer reconhecer seu fracasso e sua fraqueza o transforma em mal definitivo, fazendo quase impossível a conversão. Ao contrário, o pecador que reconhece sua pobreza e confessa sua falta abre com isso a possibilidade de uma nova partida pelo caminho reto. Reconhecer os próprios pecados e arrepender-se de tudo isso é o caminho da santidade, o caminho da aproximação de Deus que quer nossa salvação.

Em consequência disso, o autor do livro disse: “Não digas: ‘A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!’”. Porque no Senhor há misericórdia, mas também cólera. Para o autor, a compaixão e a misericórdia de Deus são uma chamada à conversão. Da mesma forma, a justiça e a condenação da parte do Senhor são uma chamada à conversão.

Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”.

Evidentemente, há que contar aqui com o “antropomorfismo”, que presta a Deus sentimentos humanos, como é o caso da “ira”. Sabemos que não dispomos de outra linguagem para expressar a vontade e os sentimentos de Deus.

São Paulo também fala da “ira” de Deus que “A ira de Deus se manifesta do alto do céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade” (Rm 1,18). E o próprio João Batista utiliza essa linguagem cheia de veemência para despertar, no possível, aos Saduceos e Fariseus de seu tempo: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?” (Mt 3,7-10). Notemos de novo que essa ira somente é dirigida ao endurecimento que abusa da paciência de da misericórdia de Deus.

Dignidade de Ser Discípulo de Jesus

Em Mc 9,38-41 encontramos algumas sentenças ligadas ao tema sobre “Em nome de Jesus” ou “por causa do nome de Jesus”.  Este tema foi preparado já em Mc 9,37 quando Jesus disse: “Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. Para Jesus se uma criança é acolhida “em meu nome” ou se alguém cura “em meu nome” é porque “é meu nome”. Se uma ação é feita “em meu nome” ou “por causa do meu nome”, então não pode ser proibida. Ao contrário, ele recebe sua recompensa.

Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. “Em meu nome” (“porque sois de Cristo”), isto é, porque movidas pelo anúncio dos discípulos as pessoas começam a amar Cristo e sentem simpatia por Ele e sentem que nasce nelas a fé que lhes faz pressentirem a recompensa da salvação. “Em meu nome” porque ao dar qualquer coisa, como um copo de água, aos discípulos, querem agradar Cristo, identificando-os com Cristo. Ao realizar um gesto de acolhimento/acolhida para os discípulos, as pessoas querem acolher o próprio Cristo. “Porque sois de Cristo” expressa a convicção profunda dos primeiros cristãos. Os primeiros cristãos sabiam que já não podiam viver para si mesmos porque seu verdadeiro viver era Cristo (veja Fl 1,21: “Para mim o viver é Cristo...”). Quantas vezes São Paulo recorda esta verdade: “Vós sois de Cristo...” (1Cor 3,23; Rm 8,9; 2 Cor 10,7; etc.). No entanto, Jesus não somente quer nos dizer que somos seus, mas também como devemos tratar os irmãos na fé. Jesus Cristo não esquecerá nem sequer o menor gesto de caridade como dar um copo de água. Mas “ser de Cristo” não significa necessariamente ser do grupo que segue Cristo de perto, mas também significa estar em sintonia com Cristo na prática de levar a Boa Nova aos demais homens, especialmente aos excluídos e marginalizados.

Um copo de água”. ...  quase nada. É símbolo do menor serviço que pode ser prestado para alguém: tão somente um copo de água em razão de pertencer a Cristo. Jesus sublinha a dignidade extraordinária do “discípulo”: pertencer a Cristo. O menor dos crentes, o mais humilde discípulo de Jesus representa Jesus Cristo. Jesus se identifica com o menor dos cristãos na medida em que o próprio cristão se identifica com Cristo.

Não ficará sem receber a sua recompensa”, promete Jesus. É uma verdade surpreendente que Jesus repetirá e desenvolverá ao longo do discurso sobre o Juízo final (Mt 25,31-45). “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. E todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” dirá o Senhor nesse discurso (Mt 25,40.45). Jesus leva a sério até os pequenos gestos que fazemos para o bem do outro. Nada é pequeno para Jesus quando tudo é feito no amor e por amor. O menor gesto de acolhida ou da caridade não ficará escondido aos olhos de Deus. “Não ficará sem receber a sua recompensa”. “Recompensanão é algo que alcançamos por nossos próprios esforços, mas é sempre o dom de um Deus generoso. Deus dá seu dom independentemente de nossos esforços. Deus está livre diante dos esforços humanos. O que fazemos é o mínimo que podemos e devemos fazer: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17,10).

Ficamos pensando e perguntando: quantos gestos pequenos do dia a dia que deixamos de fazer para os outros! Quantas recompensas divinas que deixamos de receber por não termos prestado esses pequenos gestos fraternos! Um copo da água fresca oferecida ao irmão sedento não será esquecido por Deus.

Um Aviso Para Não Escandalizar

Depois do conselho positivo- “dar um copo de água” – Jesus nos dá um conselho de forma negativa: “E se alguém escandalizar um desses pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.

Na verdade é a mesma conduta: a atenção aos demais. Descobrimos aqui um novo aspecto de Jesus: sua capacidade de veemência. Ele usa palavras duríssimas para quem escandaliza os outros, isto é, aquele que leva os outros a pecar: “Melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.

“Se alguém escandalizar...”. Escândaloé a pedra que nos faz tropeçar, ou a pedra que colocamos no caminho dos outros para causar sua queda, ou o impedimento que se encontra no caminho. Em sentido figurado significa tanto a dificuldade que provém de fora, a dificuldade objetiva (como no presente texto), como a dificuldade que surge do interior do homem ou dificuldade subjetiva.  Escandalizar aqui significa obstaculizar alguém na fé, impedir alguém de continuar a crer em Jesus. Quem atua assim, faz-se dano imenso para si mesmo: “Melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Jesus enfatiza, assim, sobre o grande dano para quem escandaliza os outros. Ao escandalizar os outros, a pessoa se mata a si mesma no sentido de privar-se da salvação.

Para Jesus pior que morrer é causar danos aos pequeninos, aos que não têm ambição de honra, aos que adotam uma atitude de serviço que é a condição para ser seguidor de Jesus Cristo (Mc 9,35). Aqui Jesus considera como escândalo quem pretende ser maior, ou quem pretende se colocar acima dos outros, que pretende ser servido em vez de servir.

Um Autêntico Cristão Evita O Mal E Saber Podar o Desnecessário Para Ser Salvo

“Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga” (leia os vv. 43-47).

Há que fazer opções, por dolorosas que sejam, pois são opções entre o êxito e o fracasso da existência: toda atividade (simbolizada pela mão), toda conduta (simbolizada pelo pé) ou toda aspiração (simbolizada pelo olho), que busca prestigio e superioridade, está viciada e por isso, há que suprimi-la, pois põe em perigo a fidelidade à mensagem salvadora de Cristo e bloqueia o desenvolvimento pessoal.

A palavra do Senhor nos exige para renunciarmos radicalmente às insinuações do pecado e para cortarmos com rapidez, mesmo que seja muito doloroso (cortar mão e pé, arrancar olho), tudo que possa pôr em perigo a nossa salvação e a salvação dos demais (escândalo).

As imagens que Jesus usa são fortes: há que arrancar ou extirpar tudo que num homem, especialmente num cristão que se oponha à mensagem de Cristo e cause dano aos que querem ser fieis a Cristo. Somente esse tipo de decisão é que leva à vida, a opção contrária, à morte. “A vida” (Mc 9,43. 45) está em paralelo com “o Reino de Deus” (Mc 9,47). Por isso, trata-se de assegurar a plenitude de vida tanto no mundo presente como no futuro.

Portanto que saibamos levar em consideração nossos pequenos gestos de cada dia prestados aos outros não somente por motivos humanos e sim por ver no próximo o próprio Cristo. E que tenhamos sumo cuidado em não escandalizar, ou seja, em levar alguém a pecar, principalmente levar os inocentes e débeis a pecar, pois o próprio Cristo ficará também escandalizado. Para nos manter como autênticos cristãos nós necessitamos renunciar ao próprio egoísmo, à ambição de poder e à vontade desenfreada de domínio (superioridade). É preciso que haja o esquecimento de si para poder repartir com os outros tudo que temos e somos para que a fraternidade e a paz possam reinar a convivência. E que saibamos romper com toda a ocasião de pecado.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

26/02/2025-Quartaf Da VII Semana Comum

PRATICAR O BEM E A BONDADE É UMA FORMA DE VIVER NA SABEDORIA DE DEUS

Quarta-feira da VII Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 4,12-22

12 A sabedoria comunica a vida a seus filhos e acolhe os que a procuram. 13 Os que a amam, amam a vida; os que a procuram desde manhã cedo serão repletos de alegria pelo Senhor. 14 Quem a ela se apega herdará a glória; para onde for, Deus o abençoará. 15 Os que a veneram prestam culto ao Santo; pois Deus ama os que a amam. 16 Quem a escutar julgará as nações; quem a ela se dedicar viverá em segurança. 17 Se alguém confiar nela, vai recebê-la em herança; e na sua posse continuarão seus descendentes. 18 No começo, ela o acompanha por caminhos contrários, 19 trazendo-lhe temor e tremor; começa a prová-lo com a sua disciplina, até que ele a tenha em seus pensamentos e nela deponha sua confiança. 20 Então voltará a ele em linha reta, o confirmará e lhe dará alegria, 21 lhe revelará os seus segredos e lhe dará o tesouro da ciência e da compreensão da justiça. 22 Se, porém, se desviar, ela o abandonará e o entregará às mãos de seu inimigo.

Evangelho: Mc 9,38-40

Naquele tempo, 38 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”. 39 Jesus disse: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. 40 Quem não é contra nós é a nosso favor”.

--------------------------

As leituras de hoje (Primeira Leitura e o Evangelho) nos apresentam dois mestres que nos orientam para viver e conviver bem a fim de alcançar a salvação: a Sabedoria e Jesus. A sabedoria da qual fala a Primeira Leitura se identifica com Jesus no Evangelho: Jesus é o Verbo/Palavra do Pai e portanto é a Sabedoria divina que se fez carne para salvar a humanidade. A sabedoria cristã de viver é viver conforme os valores pregados por Jesus: partilha, solidariedade, compaixão, amor, mútuo perdão, levar em conta quem está em cessidade básica desta vida, e assim por diante.

Viver Com Sabedoria, Pois a Sabedoria É a Mestre Para o Homem

Em Eclo 1,1-10 o autor do Eclesiástico fala da origem da sabedoria: que a sabedoria foi criada antes de todas as coisas por Deus.

No texto de hoje a sabedoria é apresentada como mestra do homem. Como mestra, a sabedoria tem seu papel de doutrinar, de bendizer e de cuidar do homem. A sabedoria é como alguém que cuida da nossa formação para uma vida feliz, leve, reta e fraterna. Por isso, é preciso procurá-la, abrir a mente e o coração aos seus preciosos ensinamentos a fim de nos guiar para a vida com sentido, para a alegria e para a glória.

A sabedoria aparece, então, personificada: é como uma mãe que instrui seus filhos, uma mestra que busca o bem de seus discípulos, que sai ao encontro deles, que lhes guia dissimuladamente e lhes revela seus segredos. A sabedoria atua como mediador entre Deus e os crentes.

O autor do Eclesiásticos enumera a série de vantagens para os que amam a sabedoria e a conseguem: terão vida, gozarão do favor e da glória e da bênção de Deus, aprenderão a julgar retamente, serão acompanhados pela sabedoria diariamente, a sabedoria lhes irá instruindo e educando.

Mas o autor vai além, pois ele não somente personafica a sabedoria com uma mulher ou uma mestre. Isso sabemos através da resposta do homem.

A resposta do homem diante da sabedoria se expressa através do uso de vários verbos que E a resposta do homem se expressa através do uso de vários verbos que lemos no texto da Primeira Leitura de hoje: buscar, escutar, amar, servir, prestar culto, julgar as nações, viver seguro; quem confia na sabedoria vai herdar a sabedoria e herdarára a glória. E lemos no texto da Primeira Leitura de hoje: buscar, escutar, amar, servir, prestar culto, julgar as nações, viver seguro; quem confia na sabedoria vai herdar a sabedoria e herdarára a glória.

Especialmente, o verbo “servir” e “buscar”, muitas vezes, tem como objeto o próprio Deus (cf. Dt 4,29; 10,8; 17,12; 21,5; Is 61,6; Jr 33,21; Sf 1,6; 2,3; Os 3,5; 5,6 e assim por diante). Existencialmente, quem deve ser buscado e servido é Deus.

Consequentemente, o verbo “escutar” que se usa no texto se transforma em sinônimo de atitude de obediência, de disponibilidade absoluta do homem à ação de Deus.

Logo, no texto da Primeira Leitura de hoje, a sabedoria está se identificando com o Senhor (Deus). Dentro deste contexto, procurar a sabedoria significa procurar Deus. A sabedoria comunica a vida”. Quem pode comunicar a vida é somente Deus exclusivamente.

Ao ouvir esta descrição sobre a sabedoria, não podemos deixar de pensar que para nós cristãos, a sabedoria de Deus nos está bem próximo e continuamente presente em Jesus Cristo, o Mestre, a Palavra vivente de Deus, Sabedoria do Pai que nos convida a segui-Lo, que nos acompanha em nosso caminho (cf. Mt 28,20), que nos ajuda a discernirmos e a vermos as coisas e os acontecimentos a partir dos olhos de Deus.

Se o autor do Eclesiástico intentava despertar entusiasmo pela sabedoria no Antigo Testamento e queria que amassem, buscassem, seguissem e possuíssem a sabedoria, quanto mais nós que reconhecemos em Jesus a Palavra definitiva e vivente de Deus para todos os tempos que nos disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Como Jesus Cristo, Nós Seus Seguidores Temos Que Viver Fazendo o Bem e a Bondade

Faça todo o bem que puder. Por todos os meios que puder. De todas as maneiras que puder. Em todos os lugares que puder. Em todas as ocasiões que puder. Por todas as pessoas que puder. Por tanto tempo que puder. A Bondade É O Único Investimento Que Nunca Falha.

------------------------

Jesus continua ensinando seus discípulos. Desta vez Ele lhes ensina que não têm que ser pessoas zelosas ou invejosas nem cair na tentação do ponopólio de nada. Os discípulos pecam muitas vezes na impaciência e no zelo. Queriam arrancar logo o joio do campo. Desejam que caia a chuva de fogo do céu sobre o povo (povo samaritano) que não quer acolhê-los. Com muita paciência e com um coração generoso Jesus vais instruindo seus discípulos.

Mestre, vimos um homem que não nos segue, expulsando demônios em teu nome, e o impedimos porque não nos seguia”, são palavras de João, um dos discípulos de Jesus, no texto do evangelho de hoje. Atrás da observação de João se vislumbra facilmente o egoísmo do grupo, esse temor mesquinho da competência dos demais, que tantas vezes se disfarça de fé: com a pretensão de tutelar o amor de Deus, que na verdade é uma de suas mais profundas negações. O discípulo ruim e mesquinho/avaro, mas também profundamente inseguro, suporta com dificuldade que o Espírito de Deus sopra para onde quer e por onde quer. O Espírito Santo não deve estar somente em nossas mãos de forma que não somente somos nós seus portadores. Alguém é reconhecido por Deus não pela Igreja ou religião a qual pertence, mas pelo bem que pratica (c. Mt 25,31-46).

É um tema muito atual e sempre atual. Este tema nos convida a olharmos para além dos confins da comunidade cristã, da Igreja e perceberemos que há muita gente que faz o bem independentemente de pertencer ou não a uma crença, a uma Igreja ou a uma religião. Fazer o bem não é exclusividade dos que pertencem a uma religião. Quem sabe, os que não pertencem a uma Igreja ou a uma religião fazem muito mais o bem do que os que se dizem crentes. Precisamos tomar parte dos que praticam o bem, pois eles são reflexos do Bem Maior que é o próprio Deus (cf. Mt 25,40.45). Quando está em jogo o bem, o primeiro dever daqueles que têm “poder” na comunidade ou dos que simplesmente pertencem à comunidade é não impedir o bem, mas ser parceiro do bem ou dos que o praticam. Ninguém pode ficar alheio do bem ou aleijado do bem, muito menos ser inimigo do bem. Não podemos odiar quem pratica o bem nem os que não o praticam. É preciso sermos parceiros do bem, da verdade, da solidariedade, da bondade, da compaixão, da caridade e dos demais valores semelhantes. Temos que ser educados ou instruídos no bem e temos que desistir da inveja diante de quem pratica o bem.

A reação de João, que é um dos discípulos de Jesus, é uma reação de domínio, uma vontade de poder, uma preocupação de conservar um monopólio. Anteriormente, os discípulos foram enviados por Jesus a pregar e a expulsar demônios (Mc 6,7-13).  João quer guardar para si só, monopolizar para o grupo dos Doze o poder de Cristo. É uma das tentações “dos bons”: monopolizar Deus, monopolizar seus dons e seus bens, sentir ciúmes porque os outros fazem algo melhor. João quer ver a atuação do Espírito de Deus enquadrado em um grupo definido para evitar a perda de prestigio, de poder e de influência.

Jesus rejeita esta tendência de monopólio ou a de exclusivismo: Não o impeçais, pois não há ninguém que faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não é contra nós é por nós”, responde Jesus a João. Para Jesus o bem não tem fronteiras, nem religiosas nem sagradas nem denominacionais nem ideológicas.

Quem não atua como inimigo da comunidade na qual vive Jesus já é, em certo sentido, parte da comunidade. Se alguém, que não é cristão, faz o bem invocando o nome de Jesus, isto significa que Jesus já está atuando nele e que um dia o unirá também visivelmente à sua comunidade (cf. Mt 25,34-40). Jesus não é monopólio da comunidade e sim construtor da comunidade mediante o Espírito e para fazer isto tem que atuar também fora dela. Temos que descobrir a presença de Jesus também fora da Igreja através do bem que as pessoas praticam.

“Ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim”, disse Jesus. Homem nenhum tem o direito de encurtar a mão de Deus e de projetar como instrumento exclusivo dele. Não somos os únicos bons. Não somos donos do Espírito de Deus. Quem é de Deus reconhece o que é divino no outro. Todos os homens de boa vontade, os que querem salvar a humanidade, embora não pisem nossos templos ou igrejas, são de Deus porque eles fazem aquilo que tem a marca divina: a bondade e o amor. Todos aqueles que amam seu próximo e lutam por um mundo melhor e mais fraterno e pelos direitos dos homens, especialmente pelos menos favorecidos fazem parte da família de Deus embora não pertençam a nenhuma Igreja e religião. Quem é de Deus é identificado não pela sua pertença religiosa, mas pelo modo de viver, pelas suas opções diárias. Mas quem pertence a uma Igreja ou a uma religião tem obrigação maior de fazer o bem. Se não fizer o bem, estará contra a própria Igreja ou a própria religião.

Quem de nós não teve alguma vez o sectarismo de grupo ou monopólio de grupo? Muitas vezes usamos a capa da solidariedade, da defesa pelo bem comum, mas escondemos nossos próprios interesses? Quem de nós não teve alguma resistência diante de uma capacidade dos outros, só porque não gostou deles? Não exageramos algumas vezes nossa tendência de monopolizar a verdade, o poder ou a razão?

A partir do ensinamento de Jesus no evangelho de hoje, nós devemos saber aceitar a parte ou a total razão dos outros, reconhecer seus valores, admitir que os outros possam e podem atuar de acordo com o Espírito de Deus. O Espírito de Deus não é propriedade de nenhum grupo, de nenhuma estrutura. Ele sopra para onde e por quem quer. Precisamos ter discernimento para ler as marcas onde o Espírito de Deus passa. Hoje em dia convivemos como vizinhos próximos de outras religiões e crenças. O Espírito ecumênico de Jesus deve nos levar a aceitarmos e reconhecermos com gozo a presença de Deus que atua em todos os povos. Quem não é contra nós é a nosso favor”. O bem praticado nos faz mais humanos, mais irmãos, mais próximos, mais solidários e consequentemente, mais divinos, pois praticar o bem nos identifica com o Bem Maior que é o próprio Deus. “O defeito moral não se define pelo mal que se isenta, mas pelo bem que se abandona” (Santo Agostinho: De civ. Dei. 2,8). "Todo homem é culpado por todo bem que ele não fez” dizia o filósofo Voltaire.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

25/02/2025-Terçaf Da VII Semana Comum

COM DEUS, ATRÁS DAS PROVAÇÕES E CRUZ, HÁ VITÓRIA E RESSURREIÇÃO

Terça-Feira da VII Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 2,1-13

1 Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. 2 Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. 3Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos. 4 Tudo o que te acontecer, aceita-o, e sê constante na dor; e nas contrariedades de tua pobre condição, sê paciente. 5 Pois é no fogo que o ouro e a prata são provados e, no cadinho da humilhação, os homens agradáveis a Deus. 6 Crê em Deus, e ele cuidará de ti; endireita os teus caminhos e espera nele. Conserva o seu temor, e nele envelhecerás. 7 Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cair. 8 Vós, que temeis o Senhor, confiai nele, e a recompensa não vos faltará. 9 Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. 10 Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações ficarão iluminados. 11 Considerai, filhos, as gerações passadas e vede: Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? 12 Quem permaneceu nos seus mandamentos e foi abandonado? Quem o invocou e foi por ele desprezado? 13Pois o Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados no tempo da tribulação, e protege a todos os que o procuram com sinceridade.

Evangelho: Mc 9,30-37

Naquele tempo, 30 Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, 31pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. 32 Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. 33 Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “Que discutíeis pelo caminho?” 34 Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior.35 Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” 36 Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: 37“Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”.

--------------

É Preciso Manter o Temor a Deus Até Nos Sofrimentos e Provações

Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos”. São algumas frases tiradas do Eclesiástico que lemos na Primeira Leitura de hoje.

Aqueles que decidem começar a viver a serviço do Senhor não embarcam em um caminho fácil. As duas leituras de hoje não encobrem nem escondem as dificuldades, mas sim as destacam. Será essencial monitorar e orientar o coração, a coragem e a serenidade de espírito para perseverar neste caminho. Porque a hora da provação, “da desgraça”, chegará inexoravelmente ou inesperadamente.

Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor”, escreveu Bem Sirac.

O temor de Deus não é um sentimento que atordoa, oprime e domina, que provoca rigidez mental ou pequenez de espírito, anulando a vontade. Temer a Deus no sofrimento e na provação não é ver na desgraça um efeito de sua onipotência, como se Deus quisesse o mal e o fizesse com a intenção de nos purificar ou punir. O temor de Deus é sempre uma atitude pela qual sentimos uma presença amorosa de Deus como a presença de uma mãe para o filho que se encontra doente. Portanto, temor a Deus tem muito a ver com o respeito, a reverência e submissão à soberania e à vontade de Deus, pois na Sua sabdoria eterna Deus sabe o que fazer em qualquer situação. E a vontade de Deus consiste em querer salvar todos os homens.

O temor de Deus nasce de um olhar claro, fruto de um descoberto de que somente o Senhor é digno do serviço do homem, e que Sua lei é a única que merece ser obedecida. Ele é o único Senhor verdadeiro. Somente d´Ele e mais de ningém, se pode dizer que “é clemente e misericordioso, perdoa o pecado e salva do perigo”.

Filho, se decidires servir ao Senhor, prepara a tua alma para a provação”, acrescentou Bem Sirac.

Quem decide começar a viver no serviço do Senhor não embarca em um caminho fácil. Será imprescindível vigiar e guiar o coração, valentia e serenidade de espirito para perseverar neste caminho. Porque inexoravelmente virá a hora da provação, “da desgraça”.

A desgraça, que pode vir de qualquer parte e em qualquer hora, sacudirá os cimentos da vontade de servir ao Senhor. Servir ao Senhor significa manter-se firme diante de qualquer provação e em meio dela recusar toda confiança nos homens, inclusive em si mesmo e abandonar-se nos braços do Senhor. Portanto, segundo Ben Sirac, não confiar em nada do que se vê e sim somente no Senhor invisível.

Na realidade, o assedio do mundo visível à vontade do homem que decide servir ao Senhor será constante e tenaz, imprevisível e insuspeitado. As provações serão como de fogo, e a humilhação para o homem que confia no Senhor, como o fogo prova o ouro.

Tudo isso quer nos dizer que a sabedoria mesmo que seja dom de Deus e participação em sua sabedoria eterna e insondável, é também aprendizagem e tarefa por nossa parte, e requer valentia, fidelidade, perseverança, aplicação. Se vierem provações, também exige saber suportá-las e tirar proveito delas. E quando estas provações chegam a nós, há que pôr a confiança em Deus e não deixar-se levar pelo pessimismo nem pela negligência. O autor recorre à história que está cheia de pessoas que nos dão exemplo de constância e fidelidade a Deus, porque nas dificuldades confiaram no Senhor: “Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? Quem permaneceu nos seus mandamentos e foi abandonado? Quem o invocou e foi por ele desprezado?”.

As provações nos fazem pensar e nos convidam a relativizar tantas coisas e a dar importância às que valem a pena. Se ficarmos desanimados é porque não confiamos suficientemente em Deus. Com a força de Deus, não há dificuldade insuperável. Com sua luz vamos adquirindo a verdadeira sabedoria quen traz também a felicidade.

Atrás Da Cruz e Sofrimento Há Ressurreição e Vitória

Pela segunda vez Jesus revela aos seus discípulos sua próxima Paixão (Mc 8,31-33; 10,31-34). Ao mesmo tempo ele abandona deliberadamente a pregação à multidão (Mc 9,30) incapaz de compreendê-Lo para se dedicar exclusivamente à formação definitiva dos discípulos: “Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”.

Ensinar (educar) é uma das preocupações de Jesus nos evangelhos, especialmente no evangelho de Marcos (Mc 1,22; 4,2; 6,2; 9,31 etc..). Jesus Cristo é a Palavra divina (Jo 1,1). Jesus é a Palavra inesgotável de Deus para se comunicar com os seres humanos. Como a Palavra divina, as palavras de Jesus são sempre promessa e expressão de vida. Através de seu ato e atividade de ensinar Jesus quer que os seus ouvintes cresçam na liberdade e dignidade tendo consciência critica sobre a realidade ao seu redor (cf. Mc 1,22).

Cada cristão é chamado a ser educador-profeta. Somente através da educação de valores e do valor da educação, a ignorância, a pobreza e a desigualdade serão combatidas. Por isso, cada cristão deve ser um educador-profeta. Os profetas falam em nome de Deus, são Seus porta-vozes que sacudam as consciências, levantem as vidas de mediocridade, de desesperança, do tédio e de insensibilidade. Todo profeta é educador e todo educador cristão é chamado a ser um profeta. A educação é, portanto, uma vocação de serviço. Cada cristão, cada educador cristão é chamado a transformar cada lugar, cada escola em lugares de vida nos quais se aprende a viver e conviver, a desfrutar a vida e a dignidade, a defender a vida, a combater tudo o que ameace a vida. 

Em seguida, Marcos nos relatou sobre o anúncio da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao anunciar pela segunda vez aos seus discípulos sua paixão e morte Jesus quer educá-los sobre o que significa seguir a Jesus Cristo. Mas os seus não estão dispostos a atender o que seu Mestre quer dizer ou quer ensinar. O que lhes preocupa é “quem será o mais importante” entre eles na ausência física de Jesus. Cada educador, cada mestre precisa ter paciência em ensinar ou educar. É um trabalho de serviço. Um servo está sempre disposto e disponível para atender a seu senhor.

Para acabar com a ambição dos discípulos de quererem ocupar primeiros lugares, Jesus dá algumas lições (ensinar) sobre o estilo de vida para quem quiser ser seu discípulo. Jesus marca as linhas fundamentais da espiritualidade que se deve respirar qualquer comunidade cristã. A idéia-mestra é esta: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”. Isto é, ser o servidor de todos.

Na verdade, a palavra grega que a Bíblia geralmente traduz como “servir” é DIAKONEIN, que significa o serviço à mesa. Isto significa que quem serve à mesa serve à vida, nutre o outro com vida, atrai vida para o outro. É despertar vida. Servir é, portanto, algo vital, isto é, algo que tem a ver com a vida. Quando sirvo alguém, não me rebaixo, mas sirvo à vida e busca a chave para suscitar vida nas pessoas. Se eu conseguir despertar no outro a capacidade de recomeçar a vida, de despertar a esperança no outro, estarei praticando o verdadeiro serviço. Jesus nos diz: “Quem quiser ser grande, seja vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”. Grande é aquele que desperta a vida, a fé, a esperança e o amor no outro. Por tanto, o importante não é em qual Deus acreditamos e sim a que Deus servimos.

Para acentuar a lição dada aos discípulos Jesus põe uma criança (um menino) no meio deles:Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: ‘Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou’”. Jesus utiliza uma estratégia pedagógica: coloca um menino no meio e o abraça. Um menino! Uma criança! Quantas coisas diz a imagem deste menino abraçado por Jesus! É um abraço com que Deus abriga, anima e fortalece o novo começo (menino/ criança). É o abraço que envolve toda a confiança, toda a ternura, toda a proximidade do Senhor para quem quiser ser verdadeiro discípulo, e não prematuro mestre.

A figura bíblica do “menino” ou “criança” é símbolo de marginalização e indefesa. No tempo de Jesus, um menino era símbolo de ignorância, imaturidade e insignificância. Um menino era equiparava com os escravos. No entanto, por seu grau de dependência o menino se converte em preocupação permanente para seus progenitores sem os quais o menino não sobreviveria ou não receberia uma boa educação. Assim, o menor se converte no mais importante porque requer a atenção e o cuidado dos maiores. É uma lição viva de pequenez e de humildade. Ser simples é ser modesto, singelo, puro, desprovido de elementos acessórios, isento de significações secundárias, sem luxo nem ostentação. Ser humilde consiste em manifestar a virtude de conhecer suas próprias limitações. É reconhecer ser pó, mas é pó vivente, pois Deus soprou seu espírito nele que o capacita a viver na espera divina.

Por isso, a grandeza do homem está na humildade. “Quanto mais humildes, maiores” dizia Santo Agostinho. Mas “simular humildade é a maior das soberbas”, acrescentou Santo Agostinho. A paz florescerá em qualquer comunidade cristã se seus membros fazem seu o espírito evangélico de humildade e de simplicidade. O próprio Jesus serve de exemplo, pois sua vida está na sua atitude de entrega para a salvação de todos.

Depois que colocou a criança ou o menino no meio dos discípulos, Jesus pronunciou a seguinte frase: ““Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”. Esta sentença nos recorda a parábola do juízo final (Mt 25,31-46) e o final do discurso missionário (Mt 10,42). Assim a criança aqui assume um sentido novo. Não é mais a criança em sentido próprio e sim o símbolo do necessitado. É o sedento, o faminto, desnudo, o prisioneiro, o marginalizado.

Também podemos ter dificuldades em querer entender a lição que Jesus deu aos discípulos. Tendemos a ocupar os primeiros lugares, a buscar nossos interesses, a desprezar as pessoas que contam pouco na sociedade e das pessoas que não podemos esperar grandes coisas.

Se quisermos colaborar com Jesus Cristo e fazer algo válido na vida, temos que contar em nosso programa de vida com a renúncia e a entrega, com a humildade e a simplicidade. O desejo de poder e a busca dos próprios interesses fazem impossíveis a renúncia, a entrega e impossibilita o cristão a servir aos demais. Um cristão que não serve não serve como cristão. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. Para sermos felizes temos que fazer os outros felizes. A competitividade faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais.

Servir é adorar a Deus em ação. Servir é a oração e a adoração colocadas na prática do amor fraterno. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Renunciar a ser o servidor, a ser o pequeno significa renunciar Jesus, porque somente quem acolhe sua vocação de serviço como se acolhe um pequeno (criança), acolherá Jesus e o próprio Deus que o enviou. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. Um coração corrompido é ninho de discórdia. Uma mente obcecada nunca ilumina bem os caminhos.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 18/09/2026

HOMENS E MULHERES SÃO CHAMADOS A SER EVANGELIZADORES Sexta-Feira da XXIV Semana Comum Primeira Leitura: 1Cor 15,12-20 (Ano Par) Irmãos...