segunda-feira, 28 de julho de 2025

29/07/2025-Terçaf Da XVII Semana Comum

SER SEMEADOR DO BEM DIARIAMENTE

Terça-feira da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Ex 33,7-11;34,5b-9.28

Naqueles dias, 7 Moisés levantou a tenda e armou-a longe, fora do acampamento, e deu-lhe o nome de Tenda da Reunião. Assim, todo aquele que quisesse consultar o Senhor, saía pra a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento. 8 Quando Moisés se dirigia para lá, o povo se levantava e ficava de pé à entrada da própria tenda, seguindo Moisés com os olhos até ele entrar. 9 Logo que Moisés entrava na Tenda, a coluna de nuvem baixava e ficava parada à entrada, enquanto o Senhor falava com Moisés. 10 Ao ver a coluna de nuvem parada à entrada da Tenda, todo o povo se levantava e cada um se prostrava à entrada da própria tenda. 11 O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo. Depois, Moisés voltava para o acampamento, mas o seu jovem ajudante, Josué, o filho de Nun, não se afastava do interior da Tenda. 34,5b Moisés permaneceu diante de Deus invocando o nome do Senhor. 6 O Senhor passou diante de Moisés, proclamando: “O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, 7 que conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, pois castiga a culpa dos pais nos filhos e netos, até à terceira e quarta geração!” 8 Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão 9 e, prostrado por terra, disse: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua”. 28 Moisés esteve ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água, e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos.

Evangelho: Mt 13,36-43

Naquele tempo, 36 Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37 Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 O Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

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Para Liderar Os Outros É Preciso Ser Uma Pessoa Orante

“Logo que Moisés entrava na Tenda, a coluna de nuvem baixava e ficava parada à entrada, enquanto o Senhor falava com Moisés…. O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo... Moisés permaneceu diante de Deus invocando o nome do Senhor.”, relatou o autor sagrado que lemos na Primeira Leitura.

Estas expressões querem nos dizer que Moisés era um homem de oração. Ele era o “confidente de Deus” em cuja intimidade vivia como um amigo com seu amigo. Moisés não era apenas um líder do povo eleito; ele não era apenas o homem de ação. Moisés é um líder de oração e de ação simultaneamente e por isso, tudo anda pelo caminho certo. É colocar a ação na oração e a oração na ação. Moisés era, principalmente, o “místico” que alimenta seu compromisso na contemplação e no diálogo permanente com Deus. Para lidar bem os outros é preciso rezar permanentemente pelo bem dos liderados.

Para enfatizar mais ainda sobre a importância da oração, o autor sagrado nos escreveu que “Moisés levantou a tenda e armou-a longe, fora do acampamento, e deu-lhe o nome de Tenda da Reunião. Assim, todo aquele que quisesse consultar o Senhor, saía pra a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento”. O povo eleito se encontra no deserto ao pé do monte Sinai. Esta descrição já nos mostra um ambiente silencioso. Apesar disso, Moisés armou uma tenda especial chamada “Tenda do Encontro”, onde ele e o povo podem se encontrar com Deus na oração. Tudo isto quer nos dizer que o homem necessita de silêncio e de solidão para encontrar Deus e para se encontrar com Ele. Quem encontra Deus e quem se encontra com Deus, deve encontrar-se com os irmãos que são filhos de Deus. Não há o encontro verdadeiro com Deus sem se encontrar com o irmão/próximo, especialmente o irmão em necessidade.

Para escutar melhor precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio é um dos gestos simbólicos menos entendidos e praticados de nossa liturgia. No entanto a Igreja nos ensina que um dos meios para promover a participação ativa é o silêncio (cf. SC 30). A liturgia, na verdade, nos educa para saber escutar criando o silêncio. Não só quando Deus, por meio dos leitores, nos transmite a mensagem de sua Palavra, mas também quando o presidente da celebração dirige a Deus sua oração em nome de todos. Somente aquele que sabe calar e escutar tem condição de pronunciar palavras plenas de sentido e de autoridade.

Um Bom Líder É Aquele Que Exerce Também a Função de Intercessor

No dia anterior foi relatada a infidelidade do povo, quebrando a aliança com Deus através da construção de uma imagem de um bezerro de ouro para ser adorado. Os homens buscam um sistema religioso que lhe dê “segurança” e negam-se a encarar o risco da fé em um Deus que garante a salvação. Eles inventam um ídolo que eles possam manipular de acordo com os seus caprichos. O julgamento de Deus é terrível: “Deixa-me, para que se acenda contra eles a minha ira e eu os consuma”, disse Deus a Moisés (Ex 32,10).

Nesta situação Moisés exerce sua função de intercessor do povo para pedir o perdão de Deus: “Abranda o furor da tua ira e renuncia ao castigo que pretendias impor ao teu povo”, pede Moisés a Deus (Ex 32,12b). O autor sagrado nos relatou que “Deus desistiu do castigo com o qual havia ameaçado o povo” (Ex 32,14).

Moisés quer nos relembrar que eu sou o outro do outro. Minha vida está relacionada com a vida dos outros. Eu sou o que sou também por causa dos outros. Eu sou irmão de qualquer homem e por isso deve ajudar o próximo/irmão. Se cada pessoa estiver consciente de que ela faz parte inseparável da humanidade, ela se sentirá pertencer ao outro e torcer e esforçar-se pelo bem do outro. Eu sou um ser de relação.   Tudo o que se isola tende a morrer.

O perigo, hoje em dia, é esquecer-se desta consciência da pertença e acreditar que somente sou eu o centro de tudo e que os outros devem viver para mim e girar em torno de mim. Consequentemente, nós nos convencemos de que somos melhores que os outros. Condenamos a inveja, se a inveja é dos outros. Mas se é nosso o descaso, logo pensamos que não nos entendem os outros. É preciso fazer desaparecer essa forma de egoísmo destruidor para que renasça o amor que nos ensina a receber e a dar. Rezar pelos outros faz parte do amor cristão. Quando começarmos a rezar pelos outros, seja os da família, seja os outros fora da família, o mundo vai melhorar aos poucos. Quando faço parte de um grupo, pastoral, movimento etc., então tenho uma missão de rezar também pelo meu grupo, minha pastoral, meu movimento e assim por diante. É exercer um papel de intercessor como Moisés. Moisés se mostra sempre fiel a Deus, mas ele intercede pelo povo infiel. É preciso abraçar os outros também com nossa oração de intercessão. Quando eu estiver consciente de que faço parte da humanidade, então em qualquer lugar posso rezar por outras pessoas que eu encontrar no meu caminho diariamente. Muitos precisam de nossa oração e não de nosso julgamento.

Deus Permanece Misericordioso Para Nós Todos

“O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune!”.

Essa famosa declaração é feita depois do pecado da adoração do bezerro de ouro. A proclamação começa com a repetição do nome de Javé (YHWH). O emprego do H em YHWH indica o atributo da misericórdia de Deus. O primeiro H (=misericórdia) está antes dos pecados de uma pessoa e o outro H está depois dos pecados de uma pessoa.

Tudo isto quer nos dizer que Deus permanece misericordioso desde o princípio até o fim. Deus sempre perdoa seu povo, pois Ele é misericordioso, compassivo e bondoso. Onde reinar a misericórdia, a compaixão e a bondade, ali haverá o perdão. Com sua misericórdia infinita, Deus não dá chance para o inimigo destruidor da humanidade. Deus quer salvar e por isso, Ele perdoa. “Misericórdia é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”, escreveu o Papa Francisco (Bula Misericordiae Vultus n.2).

Ser Cristão É Ser Semeador Da Bondade

Continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábola.

No texto do evangelho de hoje Jesus explicou para os discípulos sobre o sentido da parábola sobre o joio e o trigo. "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem", disse-lhes Jesus.

Jesus é um semeador. Mas não é qualquer semeador. Ele é um Semeador de boas sementes. Ele faz algo de bom... apenas o bom, nada de ruim. E eu? Será que sou um semeador de coisas boas ou eu semeio as sementes de joio? Vamos colher aquilo que semeamos.

Lançar sementes, semear sementes é sempre fácil. Mas precisamos saber daquilo que estamos semeando. O joio não vai produzir o trigo. O trigo não vai produzir o joio. Que tipo de semente que estou semeando, então, na convivência com os demais? Semear joio é apenas uma forma de matar outras plantas boas para minha sobrevivência. Não posso semear aquilo que me prejudica e consequentemente prejudicará os outros ao meu redor. Não tenha medo nem vergonha de ser bom para todos. Ser bom é ser construtor da humanidade.

“A boa semente são os filhos do Reino”, disse Jesus. A fórmula é surpreendente. O que Jesus semeia neste momento no mundo somos "nós", filhos do Reino! Ele nos manda para o mundo para sermos sementes da bondade. É a tarefa principal como cristãos. Sou uma semente de Deus. Eu devo ser para os outros aquilo que sou para Deus. Se eu sou uma semente de Deus, eu devo ser, então, fonte de alegria de Deus no mundo, fonte da bondade de Deus no mundo para os demais. Deus fala e age através de mim no mundo. Para Deus eu existo para ser Sua semente neste mundo. Uma só semente. É pouco? Sim! Mas uma semente boa no terreno fértil pode produzir centenas de grãos bons. Eu devo me tornar multiplicador da bondade.

"Então os justos vão brilhar como o sol no reino do seu Pai”. O “sol” é uma belíssima imagem. O sol ilumina, aquece, ajuda no crescimento das plantas, orienta os caminhantes, faz os olhos saudáveis funcionarem, pois sem a luz por saudáveis que eles sejam, os olhos não enxergam. Somente numa boca saudável é que a comida gostosa fica saborosa. A bondade nos conduz à eternidade, para estar com o Supremo Bom que é Deus. Aquilo que tem algo divino em nós é que nos levará para o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em nós pode nos levar para outra direção, menos para Deus.

“O inimigo que semeou o joio é o diabo”. “Diabo” é aquele que desune. É aquele que está contra a igualdade e a fraternidade. É aquele que está contra a comunhão e a comunidade. É o contrário do símbolo, duas coisas que se encaixam bem, bem se unem formando uma só força para construir e não para destruir. O diabo semeia à noite, na escuridão.  Na escuridão tem somente uma cor: preta. É uma grande pobreza ter só uma cor. O bom semeador semeia durante o dia, na claridade. Na claridade podemos perceber a variedade de cores. É uma grande riqueza. É uma harmonia. A palavra “harmonia” supõe a existência de várias coisas formando uma união que produz uma beleza. Serei diabo na medida em que eu semear a discórdia, a desunião, e a divisão.

A Palavra de Deus hoje nos chama a revisarmos nossa maneira de viver: Será que estou consciente de que sou semente de Deus neste mundo? Será que sou um semeador da bondade ou da maldade? Meus atos são diabólicos, atos que desunem ou são simbólicos, atos que criam união? Aquilo que tem algo divino em mim é que me levará para estar com o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em mim pode me levar para outra direção, menos para Deus.  O que tem dentro de mim?           

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 27 de julho de 2025

28/07/2025-Segundaf Da XVII Semana Comum- Ano Ímpar

CRER EM DEUS E VIVER DE ACORDO COM SUA PALAVRA PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO

Segunda-Feira Da XVII Semana Comum

Primeira Leitura:  Ex 32,15-24.30-34

Naqueles dias, 15 Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, que estavam escritas de ambos os lados. 16 Elas eram obra de Deus e a escritura nelas gravada era a escritura mesma de Deus. 17 Josué, ouvindo o tumulto do povo que gritava, disse a Moisés: “Há gritos de guerra no acampamento!” 18 Moisés respondeu: “Não são gritos de vitória nem gritos de derrota; o que ouço são vozes de gente que canta”. 19 Quando chegou perto do acampamento e viu o bezerro e as danças, Moisés encheu-se de ira e arremessou por terra as tábuas quebrando-as no sopé da montanha. 20 Em seguida, apoderou-se do bezerro que haviam feito, queimou-o e triturou-o, até reduzi-lo a pó. Depois espalhou o pó na água, e fez os filhos de Israel beberem dela. 21 Moisés disse a Aarão: “Que te fez este povo, para atraíres sobre ele tão grande pecado?” 22 Aarão respondeu: “Não se indigne o meu senhor. Tu bem sabes que este povo é inclinado ao mal. 23 Eles me disseram: ‘Faze-nos deuses que caminhem à nossa frente, pois quanto àquele Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu’. 24 Eu, então, lhes disse: ‘Quem de vós tem ouro?’ Eles trouxeram ouro e me entregaram, e eu lancei-o no fogo e saiu este bezerro”. 30 No dia seguinte, Moisés disse ao povo: “Vós cometestes um grandíssimo pecado. Mas vou subir ao Senhor para ver se de algum modo poderei obter perdão para o vosso delito”. 31 Moisés voltou para junto do Senhor, e disse: “Ah! este povo cometeu um grandíssimo pecado: fizeram para si deuses de ouro. 32 Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”. 33 O Senhor respondeu a Moisés: “É aquele que pecou contra mim que eu riscarei do meu livro. 34 E agora vai, e conduze este povo para onde eu te disse. O meu anjo irá à tua frente; mas, quando chegar o dia do castigo, eu os punirei por este seu pecado”.

Evangelho: Mt 13,31-35

Naquele tempo, 31 Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. 33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’.

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Adorar Somente Ao Deus Único Que Nos Ama e Liberta

“Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”, rezou Moisés a Deus em nome do povo infiel. “É aquele que pecou contra mim que eu riscarei do meu livro. Quando chegar o dia do castigo, eu os punirei por este seu pecado” é a resposta de Deus para o pedido de Moisés.

O tema da Primeira Leitura de hoje é a infidelidade de Israel através da idolatria (culto ao bezerro de ouro, no lugar de Deus) e a fidelidade inabalável de Deus. A cena termina com um gesto magnifico de Moisés, que sobe novamente ao monte para interceder pelo seu povo, pedindo o perdão de Deus: “Peço-te que lhe perdoes esta culpa, senão, risca-me do livro que escreveste”. Deus escuta Moisés. O castigo chegará a seu tempo (não entrarão na terra prometida), mas, de momento, segue a história da libertação. E o Salmo Responsorial é um eco da primeira leitura: “Construíram um bezerro no Horeb e adoraram uma estátua de metal; eles trocaram seu Deus, que é a sua glória, pela imagem de um boi que come feno. Esqueceram-se do Deus que os salvara, que fizera maravilhas no Egito; no país de Cam fez tantas obras admiráveis, no Mar Vermelho, tantas coisas assombrosas” (Sl 105).

O reconhecimento de Deus é fundamentalmente a negação dos ídolos. Em sentido próprio e clássico, idolatria é a adoração ou o culto que se atribui a entidades, objetos, imagens ou elementos naturais que se consideram dotados de poder divino, ou também a divindades falsas, “aparências vãs”. A palavra “ídolo” provem do grego “eidolon” que significa imagem. A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral, pois nela se inverte completamente a ordem dos valores. O Absoluto: Deus, se relativiza, e o relativo se absolutiza. Na idolatria, o que não é Deus, ainda que seja inferior ao homem, se considera como deus ou como algo divino.

Na Bíblia o oposto à fé em Deus não é o ateísmo e sim a idolatria. Por isso, a luta contra a idolatria é o tema principal que recorre o Antigo Testamento e está sempre no pano de fundo do Novo Testamento. A história da salvação não é outra coisa que um desapagar-se dos ídolos: desde Abraão até a Igreja de nossos dias. É a tarefa dos crentes de “não correr atrás do vazio” (Jr 2,5) e “guardar-se dos ídolos” (1Jo 5,21) para poder servir ao único Deus vivente (cf. Mt 16,16).

O texto da Primeira Leitura nos relata que a ausência demorada de Moisés que subiu ao monte para encontrar-se com Deus provoca o medo e a desconfiança no povo. O povo eleito não suporta o silêncio de Deus. O povo de Israel quer ver Deus andando na sua frente. Neste suposto silêncio de Deus, o povo perverte a ideia de Deus e manipula o Transcendente capaz de submetê-lo para seus caprichos ou necessidades.

“Não terás outro deus além de Mim”, dizia Deus ao povo na Aliança de Sinai que serve como o primeiro mandamento. Este mandamento ainda está muito fresco na cabeça do povo eleito. Este primeiro mandamento é o eixo sobre o qual deve girar a compreensão exata do problema da idolatria. E para compreender o significado original do primeiro Mandamento é necessário colocá-lo no contexto histórico no qual foi proclamado por Deus: dentro de um processo crescente de libertação da escravidão em busca de uma terra de fraternidade.

Segundo o sistema religioso de Faraó, ele era o filho predileto de seu deus. Os outros eram considerados como filhos secundários. Com este sistema religioso se justifica o desprezo dos demais, a submissão do povo simples, o servilismo, a exploração dos mais simples e fracos. “Deus assim quer” era um ditado comum. Este sistema de Faraó conseguiu se enraizar na cabeça dos pobres. O deus de Faraó não passava de ser uma invenção humana para manter o povo na miséria e na ignorância, como mão de obra barata. Era a consagração religiosa daquele estado de injustiça institucionalizada. E para dar mais força a este sistema religioso, eles construíram grandes imagens, cheias de luxo e ostentação e construíram magníficos templos nos quais se celebravam solenes cultos religiosos. Com isso assustavam o povo simples e mantinha-se no servilismo e na submissão. Este sistema religioso era como água venenosa que ia penetrando profundamente nas raízes do povo até envenená-lo todo. O povo eleito que acabou de sair do Egito quer fazer o mesmo na ausência de Moisés e na fraca liderança de Aarão através da criação de um bezerro de ouro para ser adorado.

Javé, em quem o povo eleito acredita e deve acreditar, é totalmente distinto dos deuses de império. Javé não escuta os caprichos orgulhosos de Faraó. Os ouvidos de Javé estão atentos ao clamor dos oprimidos, dos empobrecidos, dos excluídos, dos explorados, dos simples e humildes... Não se trata de um Deus bom para uns poucos e indiferente e mau para a maioria. Ele é Deus bom para todos os seus filhos por igual. Criou a terra para todos, e por isso, opta preferentemente pelos despojados e desprezados. Daqui é que não pode suportar que alguém use a imagem ou o nome de Deus para oprimir e explorar seus filhos mais simples e pobres. “Aquilo que Deus mais condena e menos suporta é que haja gente que use a imagem de Deus para poder oprimir os irmãos. Por isso, se alguém quiser ter Deus do seu lado e pertencer ao povo de Deus, a primeira coisa que Deus pede é romper com o faraó e com todo o sistema inventado dos falsos deuses” (Carlos Mesters: Os Dez Mandamentos Ed. Paulus 2014 p.19).

Por isso, quem quer pertencer realmente ao povo de Deus da Bíblia, tem que romper com a religião dos opressores. Dentro deste contexto é que devemos entender o que está escrito no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”. O único Deus preocupado realmente pelo bem do povo e capaz de libertá-lo é Javé. Todos os outros não servem senão para oprimir os mais humildes e simples.

Portanto, vale a pena perguntarmo-nos: Existem ídolos que impedem o crescimento pessoal e comunitário? Precisamos descobrir juntos na comunidade e em cada um de nós quais são os ídolos que mais nos impedem de crescer? Em quais casos a religião, as Igrejas podem se converter num instrumento idolátrico que oprimem, escravizam e enganam o povo no lugar de servir de instrumento de libertação? O que Deus quer nos dizer hoje através do Primeiro Mandamento do Decálogo: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”? Estamos vivendo a situação parecida como na época do povo eleito ao pé do monte Sinai?

Quem É Fiel a Deus Não Será Decepcionado

As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seus efeitos finais: aquilo que é, aparentemente, pequeno e frágil, produz um efeito maior em comparação ao seu tamanho original. As sementes da mostrada são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento (tamanho). Mas ao plantar tornam-se uma planta com uma altura mais de dois metros a ponto de os pássaros fazerem ninho nos seus galhos.  O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa.  Um pouco de fermento pode fazer crescer a massa num tamanho e quantidade maior.        

O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a menor das sementes, pode fazer surgir uma planta grande. E o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma massa em tamanho maior.

Através das parábolas do grão da mostarda e do fermento o Senhor quer nos ensinar a olharmos, em silêncio, para as mãos eternas de Deus em plena obra da redenção do mundo. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e se fez semente fértil no campo do mundo: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,10-11). A Terra recebeu Seu Corpo sacrificado e a semente de Seu Sangue rendeu um por mil. A Sua Palavra caiu nos corações de pessoas de boa vontade, sensíveis ao impulso do Espírito divino, e deu infinitos bons frutos até neste momento. “Os grãos” que a Semente divina produziu somos nós todos. Fazemos parte deste grande milagre. E através de nós, mesmo que em pequeno número, Deus é capaz de fazer efeitos maiores no mundo. Mas que sejamos perseverantes. A fé autêntica resiste diante de qualquer obstáculo e dificuldade, pois sabe-se da vitória final logo no início. A fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê (cf. Hb 11,1).                     

Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo aos seus discípulos e a todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. A graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Este é o fundamento de nossa esperança. Não olhemos apenas para nossas técnicas. Temos que acreditar na própria força da Palavra de Deus que devemos semear por onde passarmos, e tenhamos certeza de que, no fim, haverá o resultado maior do que imaginamos, a exemplo do grão de mostrada e o fermento, pois a própria Palavra de Deus tem força intrínseca. É inesgotável a fecundidade da Palavra de Deus, como a força germinadora da natureza em um contínuo rejuvenescer-se. Em cada semente, mesmo do tamanho do grão de mostarda, tem uma tal plenitude de vida que move o semeador a colocá-la na terra.

Não desistamos em semear o que é bom e digno, pois a bondade é o único investimento que nunca falha. Independentemente do reconhecimento humano ou não, a bondade continua sendo a bondade, o bem continua sendo o bem, a graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Nossa única tarefa na nossa passagem neste mundo é continuar a semear a bondade por todos os meios possíveis e em qualquer lugar e tempo. O Senhor não permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar decepcionado porque o resultado não aparece logo. Semear e semear a bondade é o único negócio do cristão, e deixar para Deus o resultado final. Alguém pode não reconhecer a bondade praticada, mas ela está escrita em Deus.

O texto do evangelho de hoje termina com a seguinte frase: “Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’”.

Esta frase se remonta à pergunta dos discípulos: “Por que lhes fala em parábola?” (Mt 13,10). Jesus fala do Reino de Deus em parábola para a multidão. Trata-se  de realidades invisíveis, como toda a atuação de Deus na história. É preciso usar comparações (em parábolas) para explicar e revelar melhor a realidade do Reino. Em todo caso fica claro que o falar de Jesus em parábola também é revelação. Isto quer nos dizer que Jesus tem uma atitude de revelação e de cumprimento. Não há nada de estranho em que este versículo 35 se encontra somente em Mateus. Trata-se de seu tema especifico: apresentar Jesus como Aquele que veio para cumprir e levar a seu cumprimento a Lei e os Profetas (Mt 5,17), para revelar a todos os mistérios do Reino e, depois para explicar em sua catequese seu sentido para aqueles que acolhem a mensagem. O evangelista Mateus cita o Salmo 78,2 que ele atribui a profeta (cf. Mt 1,22; 2,15), não porque este Salmo se atribui a um profeta (pois não se encontra em nenhum profeta) e sim porque todas as Escrituras do Antigo Testamento (AT) têm para Mateus o valor profético cujo cumprimento acontece na vida e missão de Jesus (cf. Mt 5,17).

Afinal, o que devemos fazer a partir das duas parábolas lidas neste dia? É sermos terra aberta para a semente da Palavra de Deus, para sua majestosa e sempre operante força, e tirar do caminho o que possa obstaculizar esta força e sarar a terra, que somos todos, para que através de nós cresça o bem no mundo. É ser massa macia para que o fermento da Palavra possa operar dentro de nosso coração para que sejamos pães para alimentar os demais. É tudo que devemos fazer.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 24 de julho de 2025

XVII Domingo Comum- Ano "C", 27/07/2025

A BONDADE DO DEUS PAI ME FAZ PERSEVERAR NA ORAÇÃO

XVII Domingo Comum “C”

I Leitura: Gn 18,20-32

Naqueles dias, 20 o Senhor disse a Abraão: “O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. 21 Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim”. 22 Partindo dali, os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. 23 Então, aproximando-se, disse Abraão: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? 24 Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? 25 Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” 26 O Senhor respondeu: “Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira”. 27 Abraão prosseguiu dizendo: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor, eu, que sou pó e cinza. 28 Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?” O Senhor respondeu: “Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos”. 29 Insistiu ainda Abraão e disse: “E se houvesse quarenta?” Ele respondeu: “Por causa dos quarenta, não o faria”. 30 Abraão tornou a insistir: “Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?” Ele respondeu: “Também não o faria, se encontrasse trinta”. 31 Tornou Abraão a insistir: “Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?” Ele respondeu: “Não a iria destruir por causa dos vinte”. 32 Abraão disse: “Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?” Ele respondeu: “Por causa dos dez, não a destruiria”.

II Leitura: Cl 2,12-14

Irmãos: 12 Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. 13 Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. 14 Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz.

Evangelho: Lc 11,1-13     

1 Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. 2 Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’” 5 E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”

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Como se sabe, Lucas é conhecido como uma pessoa orante e a sua comunidade é uma comunidade orante, porque ele dá uma atenção particular à oração. No seu evangelho ele faz notar nove vezes que Jesus reza; só duas ocasiões de oração são comuns com os outros evangelhos sinóticos. Lc 11,1-13 é realmente um pequeno catecismo sobre a oração. A oração envolve o evangelho inteiro desde o primeiro capítulo que abre com uma solene liturgia no templo de Jerusalém (Lc 1,5-25) até a reunião dos discípulos, depois da ascensão, novamente no templo para louvar a Deus (Lc 24,53).

Lucas é chamado de “o evangelista da oração”. O evangelho de Lucas é o único que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu evangelho com o tema da oração. Neste evangelho, Jesus orou em cada decisão importante e em todo momento decisivo de sua vida. Ele orou no batismo (3,21), antes de escolher os discípulos (6,12), em Cesaréia de Filipe na profissão da fé de Pedro (9,8), no monte Tabor na transfiguração (9,28s), no Jardim de Getsêmani (22,39-46), na cruz (23,34.46) e ensinou aos discípulos o Pai-Nosso (11,1ss). Neste evangelho podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (1,46-56); o Benedictus (1,67-79); o Glória (2,14); o Nunc Dimittis (2,29-32). Além disso, Lucas ainda coloca três parábolas sobre oração (11,5-13;18,1-8;18,9-13).          

A oração não é uma atividade que se justapõe extrinsecamente ao homem, mas ela jorra do ser, nasce do próprio mistério do homem, destila e flui da realidade de todos os homens. Poderíamos dizer que a oração é, de certo modo, o próprio ser do homem que se torna transparente à luz de Deus, que se reconhece por aquilo que é e, ao reconhecer-se, reconhece a grandeza de Deus, a Sua santidade, o Seu amor, o Seu desígnio de misericórdia. Ela é uma percepção da realidade que logo se desabrocha em louvor, em adoração, em agradecimento e em pedido de piedade Àquele que é a origem do ser. Por isso, quem sabe viver bem/conscientemente, sabe também rezar bem/conscientemente. E quem sabe rezar bem/conscientemente, também sabe viver bem/conscientemente. Aquele que vive profundamente seu ser ou sua vida, não tem como não rezar. O ser humano é apenas uma criatura, mas uma criatura que tem consciência de seu ser e de seu existir.          

A oração exige uma relação em que você permite ao Outro entrar no centro de sua pessoa, permite-lhe falar ali, permite-lhe tocar o núcleo sensitivo de seu ser e permite-lhe ver tudo o que você preferiria deixar oculto na escuridão. Ao orar você se abre para a influência do Poder que se revelou como Amor. O Poder que lhe dá liberdade e independência. Uma vez tocado por esse Poder, você não é mais arrastado para lá e para cá pelas inúmeras opiniões, ideias e sentimentos que passam por você. Você encontrou um centro para sua vida, e este centro lhe dá uma distância criativa de modo que tudo o que você vê, ouve e sente pode ser testado de acordo com a fonte.           

Por isso, ao rezar, de você se pede que abra seus punhos firmemente cerrados e dê sua última moeda para Aquele que pode preencher todo o espaço de sua vida. O homem que ora é um homem com as mãos abertas perante Deus para o mundo. Ele sabe que Deus se mostrará na natureza circundante, nas pessoas que ele encontra, nas situações por onde passa. Uma pessoa torna-se uma pessoa quando é capaz de se abrir para todas as dádivas que estão preparadas para ela. Um homem que ora pode voltar a respirar livremente e tem a liberdade de mover-se para onde quiser sem que medos o persigam. O homem que vive do sopro de Deus pode reconhecer com alegria que o mesmo sopro mergulha no pulmão de seu semelhante e que ambos bebem da mesma fonte. Nessa percepção mútua, o medo do outro desaparece, as armas caem, um sorriso vem aos lábios e uma mão se estende para o outro. Aquele que percebe o sopro de Deus no outro pode deixar o outro entrar de verdade em sua vida.          

Quando a vida do homem está se tornando cada vez mais uma oração, ele percebe que está sempre ocupado convertendo-se e adquirindo uma compreensão maior de seu semelhante. Também ele percebe que a oração é o pulso do mundo em que ele vive. O homem que ora inspira o mundo, olha para ele com compaixão e, nesse olhar, penetra a fonte de todo ser. 

Pai Nosso         

O texto do Evangelho deste domingo fala da oração do Pai-Nosso na versão de Lucas.          

Desde a antiguidade são conhecidas três formas do Pai-Nosso: (1) o mais curto é a versão lucana (Lc 11,1-4) com cinco pedidos; (2) Mt 6,9-13 é o mais longo com sete pedidos, o que se pode suspeitar ser uma redação mais recente. No entanto, segundo J. Jeremias, o uso da palavra “dívida” por Mateus revela uma presença de um aramaismo, dado que no grego comum não se usava a palavra “dívida” (ofeilemata) para indicar pecado, mas “falta, pecado” (amartia) como está no texto de Lucas e Marcos; e (3) Didaqué 8,2 (Catecismo dos primeiros cristãos/Instrução dos Doze Apóstolos) que é o mais longo ainda, com sete pedidos e a doxologia.          

Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo, aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Antes de introduzir a oração do Pai-Nosso, Lucas apresenta o modelo: Jesus que ora (v.1). Os discípulos sabem como e quando rezar, não na base de um manual de orações ou de um calendário sagrado, mas seguindo o estilo de seu Mestre, sua atitude de fidelidade e liberdade, em comunhão total com o Pai: uma comunhão e confiança que não podem ser perturbados, nem sequer pela provação suprema que é o absurdo de uma morte violenta e vergonhosa. 

Ao chamar Deus de “Pai-Nosso” temos duas obrigações em relação ao próximo. Primeiro, temos que honrar e respeitar os outros, pois eles são filhos e filhas de Deus. Segundo, temos que amar aos outros, pois eles são nossos irmãos e irmãs.          

Neste texto, os apóstolos pedem a Jesus: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (v.1). Devemos observar logo de início que o pedido dos apóstolos não foi feito quando eles se encontraram pela primeira vez com Jesus, mas muito mais tarde, depois de eles terem visto Jesus se retirar para lugares desertos a fim de rezar. E só entendemos o peso deste pedido se consideramos que os discípulos não tinham nenhum motivo de querer aprender “mais uma” oração. O bom judeu sabe de cor a maioria das 150 preces oficiais, os Salmos. Por isso, aqui, não se trata de querer saber uma oração “nova”. Os apóstolos estavam fascinados com Jesus porque para rezar ele se retira a lugares ermos (Mt 14,13). Jesus não grita, não tira os sapatos, não atira ao chão. Na montanha, no silêncio da noite, ele se mergulha na presença de Deus. Deus está na total intimidade de sua vida (cf. Mc 1,35s;Lc 6,12;9,18.28;Jo 11,41ss). Voltando da oração, Jesus orante tem sobre os discípulos uma irresistível atração divina. Nenhum homem sabia se aproximar de Deus com tanta reverência, e ao mesmo tempo com tão incomparável confiança. Entre Jesus e Deus havia a total intimidade.          

A resposta de Jesus para o pedido é a oração do Pai-Nosso. É uma oração tão simples e fácil, que aprendemos quando pequenos, e, no entanto, oração riquíssima. Nela descobrimos a palavra “Pai”, Deus-Pai como novo horizonte de vida.          

A palavra “Pai” (Abba, Papaizinho) encontra-se, nos evangelhos: 118 vezes em Jo, 5 vezes em Mc, 17 vezes em Lc e 44 vezes em Mt. E em outra parte do NT: 42 vezes em Paulo, 2 vezes em Hb, 24 vezes nas Cartas católicas e 5 vezes no Ap. Dizer “Pai” significa que não precisamos fazer um esforço de imaginação para conhecer a Deus, para imaginá-lo. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos, e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai” significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Dizer “Pai” faz nascer a certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em Deus.          

“Pai, santificado seja o teu nome”.  “Santificar” e “nome” (v.2). Santificar, biblicamente, é sinônimo de louvar, bendizer e glorificar; é tornar-se santo. Santo tem como sinônimo justo, perfeito, bom e puro. O “nome” é propriedade; o nome é a extensão da personalidade; ele é o próprio ser. O nome é indicativo direto da pessoa, por isso, a interdição de invocar seu nome (Ex 20,7) é porque o nome indica o próprio portador. Santificar o nome de Deus é comprometer-se com a sua justiça, com a justiça ao órfão, à viúva, com o trabalhador do campo, com o operário da cidade.          

Com o “venha o teu reino”, exprimimos o desejo, o anseio pela manifestação daquela realidade que se condensa na palavra “reino”, e que pode ser expressa de mil outros modos: justiça, fraternidade, triunfo da vida, derrota da morte, situação em que não mais haverá lágrimas ou luto, capacidade de nos conhecermos e de nos amarmos a fundo, plenitude do Corpo de Cristo realizado na Igreja, unidade verdadeira entre as pessoas e entre todos os povos. Por isso, o “reino do Pai” é bem diferente dos “reinos deste mundo” com suas lutas pelo poder, seus altos cargos, sua imponência, sua falta de paz e suas ameaças de guerra. A guerra supõe que tenha algo a defender. Mas nem sempre este “algo” é justo e humano.          

“O pão necessário, dá-nos a cada dia”. “Pão” em hebraico “lehem” (que compõe a palavra Betlehem = a casa do pão) é o conjunto dos bens que servem para sustentar a vida. Por mais altos que forem os voos do espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os pensamentos abstratos, o ser humano sempre depende de um pouco de pão, de um copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. O homem se apresenta diante de Deus como uma criatura que necessita ser sustentada na sua vida material. O pão é sagrado porque sustenta a vida que é sagrada. Por causa disso, o pão é uma preocupação constante de cada pessoa, de cada família. Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão. Deus quer que ganhemos o pão com o trabalho que implica tempo, suor e lágrimas. E o pão que comemos diariamente esconde toda rede de relações anônimas que sempre devem ser recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos braços. Em cada pão que se come, por isso, há sentido de fraternidade e de partilha; embora haja também relações de exploração e lágrimas escondidas em cada pão que se come. Mas o pão que nós comemos, fruto da exploração/roubo do irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre, mas não alimenta a vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da fraternidade.          

“Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores”. O homem não somente vive, mas convive. Ele se relaciona. Aqui é que surgem conflitos, brigas, guerras etc. Para que a convivência possa permanecer, o perdão mútuo é indispensável. Toda convivência humana é baseada no perdão. O perdão é invocado a Deus (v.4), o único que pode quebrar o círculo do pecado que gera pecado, solidão e morte. O próprio Deus sempre está pronto para nos perdoar, pois Ele quer saber de nossa volta a Ele e não do quanto tempo de nosso afastamento. Podemos fazer contra ele as piores ingratidões, mas basta que nos voltemos para ele, para que nos perdoe. Precisamos sempre do perdão de Deus, perdão que nunca nos falta, perdão pelas nossas seguidas quedas, e pela nossa incapacidade de realizar o Reino. Mas precisamos também do perdão recíproco. Perdoar não é exigir que o outro se humilhe. Perdoar não exigir que o outro primeiro se converta, que o outro venha expiar sua culpa para depois perdoá-lo. O perdão vem primeiro. Perdoar é doar até o fim. É doar-se sem jamais colocar limites. Perdoar é mostrar que seu amor é maior do que a ofensa do outro. Se a ofensa derrubar, se desanimar seu amor, é porque seu amor é pequeno e bem frágil ainda.         

“Não nos deixes cair em tentação”. O último pedido expressa a consciência da precariedade na existência humana exposta ao risco de aderir ao mal na sua extrema gravidade. O homem é um ser tentável. Mas precisamos estar conscientes de que a tentação é sinal de predileção, pois somente quem anda com o Senhor é tentado. Somente quem pratica a justiça e o bem em geral é tentado. Mas mesmo assim, precisamos do apoio de Deus para não cairmos em tentação no momento do perigo, e para que o Reino não se obscureça em torno de nós. Na tradição bíblica do NT, estar livre da tentação é estar protegido contra a apostasia ou contra a negação da fé. Na verdade, é uma súplica positiva. A tentação pode ser um desejo de construir um Reino próprio e colocar-se no lugar de Deus.          

Depois que ensinou os discípulos sobre a oração do Pai-Nosso, Jesus contou uma parábola referente a essa oração. 

Deve-se compreender a parábola a partir da vida de uma aldeia palestinense e da lei da hospitalidade, que era sagrada para o judeu. Um homem recebe visita durante a noite e, não tendo nada para oferecer ao seu visitante, recorre ao vizinho para que este lhe empreste três pães. Ainda que o vizinho já esteja dormindo, e inicialmente, recuse o pedido por causa dos incômodos que o levantar-se, abrir a porta etc., ele acabará ouvindo o pedido do amigo. 

O ensinamento teológico do evangelista é claro: Deus pode tardar, mas ele ouvirá os nossos pedidos. O segredo é a insistência. Se na primeira vez o pedido não é alcançado, pede-se uma segunda vez. Não devemos brincar de orar, mas sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e por isso precisa ser pressionado para dar uma resposta. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então, não fazemos muita questão dele. Não é uma oração tépida assim que é respondida.          

A interrogação permanece: faz sentido a prece de súplica (pedir, procurar, bater), se Deus já sabe das nossas necessidades?          

A prece de súplica fundamenta sua eficácia em duas razões básicas: a bondade paterna de Deus e a fé do ser humano. Fidelidade e confiança encontram-se como reciprocidade no diálogo: a do Pai e a do filho. Confiar é o olhar da fé que sabe ver Deus. Se não há fé, a confiança não surge, e corre-se o risco da volta à ausência de sentido da vida, sobretudo quando se toca com a mão o extremo do próprio limite. A confiança cresce encorajada pela descoberta da bondade de Deus. A bondade de Deus é a raiz da confiança, porque ele é fiel às suas promessas.  “O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem” (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica). 

Assim, a súplica paciente não tem como meta lembrar a Deus a sua fidelidade, mas fazer crescer dentro de nós o hábito da necessidade dele, da dependência dele, relembrando que tudo está sob o sinal da graça. Crescendo dos imperativos (peçam, procurem, batam), aparentemente diz respeito a coisas concretas, mas, na verdade, concita o discípulo a converter o coração ao amor solícito do Pai. A experiência do amor paterno é a verdadeira parábola para compreender a generosidade de Deus, o seu amor que não se desmente. A oração é, certamente, a total abertura ao amor fiel de Deus para que cada um viva o amor fiel na convivência com os demais.          

Mas devemos estar conscientes de que Deus não exclui a responsabilidade da pessoa que reza nas tarefas que a história estabelece. Somente assim tudo o que é rezado torna-se verdadeiro, e remete ao compromisso sério da vida. Apenas assim, a prece foge do risco da alienação porque tudo se recompõe dentro da misteriosa e realizadora vontade de Deus.          

Jesus conclui seu ensinamento sobre a oração sobre o Pai Nosso dizendo: “O Pai do céu dará o Espírito Santo” (v.13). Eis a grande resposta à prece de súplica: a dádiva do Espírito. A promessa de Deus ultrapassa toda espera, transcende a imaginação humana. O segredo da eficácia não se fundamenta somente na confiança, mas, também, na disponibilidade de acolher os grandes bens de Deus. E Lucas enfatiza que o Pai dará o Espírito. Jesus parece dizer que, antes de perguntar como se aprende a rezar (cf. Lc 11,1), é necessário pedir a presença do Orante: a presença do Espírito Santo que "intercede" em nós e para conosco (Lc 11,13;Rm 8,26). A prece cristã em Lc 11 chega ao seu ápice e qualifica-se como diálogo dos filhos no seio da comunhão da Trindade. A prece daquele que crê é a experiência da paternidade de Deus, é a participação no caminho do seu Reino na história, revelada na sua plenitude mediante a encarnação do Filho, e é a consciência nova da filiação, no Filho, por obra do Espírito.          

Não estou só neste mundo, porque o Espírito Santo implora em mim e por mim, aquilo que eu não sei pedir, e o meu Salvador está junto de mim, une-me a Si e me faz participante de seus sentimentos filiais. Ele vem em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rm 8,26-27). Ali onde existe a presença do Espírito é possível reconhecer o Pai, a sua vontade, a procura do seu Reino, o compromisso pelo pão cotidiano, o testemunho da misericórdia, a libertação do mal. Quando o Espírito está ausente da vida, o discípulo torna-se um estranho, desanima, não sabe mais o que pedir e como rezar. 

Oração: Pedir, Buscar E Bater /Chamar 

A oração é a expressão mais viva da fé. Quem tem fé precisa orar e quem ora porque tem fé. A oração é também o lugar da revelação. Deus se manifesta quando alguém está em sintonia com Deus e com a realidade. Na oração verdadeira Deus se revela. Por isso, empobrecer a oração significa empobrecer toda a teologia. No seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada do cristão. Na medida em que ele reza verdadeiramente, a sua vida se transforma. A vida e a oração se tornam uma unidade. Quem reza desligando-se da realidade é uma alienação, é uma fuga. Um verdadeiro cristão reza aquilo que ele vive e vive aquilo que ele reza. Por isso, quem sabe viver bem sabe também rezar bem e quem sabe rezar bem também sabe viver bem. 

A oração é sempre uma práxis de libertação, porque orar é recorrer ao Pai sem esquecer-se dos homens, nossos irmãos; orar é abrir-se ao Outro e consequentemente, a qualquer outro; orar é libertar-se do egoísmo para o amor, pois o outro é evado conosco na oração. Quem entra em oração está em comunhão com Deus. E quem está em comunhão com Deus, está em ligação com os demais homens. 

Rezar é Deixar Deus Entrar Na Nossa Vida e Nós Na Vida De Deus. A oração é uma abertura total do homem a Deus. Trata-se de recorrer a Deus para ser inundado por Sua presença, por Sua graça, Sua ajuda, sua força e Seu perdão. 

Consequentemente, a oração exige consagração e dedicação a Deus. A verdadeira oração ultrapassa as inércias e rotinas da mente. A oração vivida até o fundo é a ação mais comprometida e eficaz que o homem pode realizar e da qual surgem outras ações. A oração unifica e transforma, pois ela é dirigida a Deus que unifica e transforma. Com efeito, a verdadeira oração não consiste em mudar Deus e sim em mudar quem reza. Nossa oração ao Deus Pai se apoia na bondade e na vontade amorosa de Deus. 

O sentido da oração vem expressado por três verbos de necessidade que o Evangelho de hoje nos apresenta: Pedir, buscar e bater/chamar. Para ser escutada, a oração cristã deve ser feita a partir da situação de necessidade que estes verbos expressam. Quem pede e não sente necessidade daquilo que se pede, não pode ser escutado. Quem busca e não sente necessidade de encontrar aquilo que se busca, nunca encontrará nada. Quem chama e não sente necessidade de dialogar, nunca será atendido. 

Pedir, buscar e bater (a porta) são verbos que nos põem em movimento. Isto significa que não podemos ficar parados nem paralisados por um sentimento negativo ou por um cansaço espiritual ou existencial. A vida está em movimento permanente. Somos chamados a ser perseverantes na nossa oração, mesmo que, aparentemente, nossos pedidos “não sejam atendidos”, pois Deus sabe muito melhor de nossas necessidades do que nós mesmos. Se Ele nos atender ou não nos atender é sempre com a intenção de nos salvar, e não simplesmente para atender o que Lhe pedimos.

Além disso, pedir, buscar, bater (porta) pressupõe necessidade, inquietude, urgência, e espera-se a bondade, a disponibilidade ou misericórdia de alguém. “Pedir” é a atitude própria de quem está em necessidade: os pobres, os carentes, os mendigos, etc. Esta atitude revela que quem pede é porque seu próprio esforço ou força, ele não consegue alcançar aquilo que ele necessita. Quem é arrogante, tem dificuldade para pedir. Fazemos pedidos a Deus porque muitas coisas na nossa vida que com nossa própria força jamais alcançaremos. “Buscar” é outro movimento que exige sair de nós mesmo caminhando em direção daquilo que para nós está escondido ainda, mas que tem valor para nossa vida. Só se busca aquilo que tem valor. A nossa busca maior nesta vida é estar comunhão plena com Deus durante a passagem neste mundo e na eternidade. É precisa ser uma Igreja em saída, que busca, que caminha ao encontro dos outros. É uma Igreja totalmente missionária.  “Bater” a porta é outro movimento. Bater uma porta pode ser para pedir algo a alguém dentro de casa. Bater uma porta pode significar procurar um abrigo, uma proteção, uma paz, uma vida familiar, uma comunhão de irmãos. Fala-se, muitas vezes, da Porta do Céu. É preciso bater para poder entrar. Mas Santo Agostinho nos deu uma dica: Não tenha medo de ajudar os pobres, pois eles vão ser batedores da Porta do Céu para você, e Deus vai abrir a porta para você poder entrar. 

Orar é um modo de ser diante de Deus, mas com duas direções: a direção do homem para Deus e a direção do homem para os demais. Se o homem pedir a Deus o que é melhor para si, ele deve dar também o que é melhor para os outros. A paz que ele pede a Deus o leva a ser construtor da paz na convivência com os demais, e assim por diante. Em outras palavras, não há oração sem compromisso. A oração feita e vivida profundamente é a ação mais comprometida da qual surgem outras ações. Quando oramos, entramos numa verdadeira aliança com Deus.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 23 de julho de 2025

São Joaquim e Santa Ana, 26 de Julho

SÃO JOAQUIM E SANTA ANA

Pais de Nossa Senhora

SER JUSTO PERSEVERANTE

Primeira Leitura: Eclo 44,1.10-15

1 Vamos fazer o elogio dos homens famosos, nossos antepassados através das gerações. 10 Estes são homens de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos. 11 Eles permanecem com seus descendentes; seus próprios netos são sua melhor herança. 12 A descendência deles mantém-se fiel às alianças, 13 e, graças a eles, também os seus filhos. Sua descendência permanece para sempre, e sua glória jamais se apagará. 14 Seus corpos serão sepultados na paz e seu nome dura através das gerações. 15 Os povos proclamarão a sua sabedoria, e a assembleia vai celebrar o seu louvor.

Evangelho: Mt 13,16-17

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 16 “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. 17 Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejavam ver o que vedes, e não viram, desejavam ouvir o que ouvis, e não ouviram”.

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A devoção à Santa Ana é mais popular e mais antiga que a de São Joaquim. No dia 25 de Julho de 550 em Constantinopla (a atual cidade turca de Istambul) se dedicou uma basílica à Santa Ana, e desde então, as Igrejas orientais celebraram sua festa nesta data. Séculos mais tarde a devoção se difundiu no Ocidente, mas a celebração se colocou no dia seguinte, isto é, no dia 26 de Julho. Em 1584 a festa foi fixada para toda a Igreja, tanto nos países orientais como nos ocidentais.

O culto de São Joaquim se introduziu mais tarde no século XIV, na época em que se popularizou o culto de São José e se consolidou dois séculos mais tarde. A festa de São Joaquim era celebrada no dia 20 de Março. Mais tarde, em 1738 foi trasladada a 15 de Agosto (Assunção de Nossa Senhora). Mas a reforma litúrgica do do Concílio Vaticano II, em 1969, uniu a comemoração dos pais de Nossa Senhora numa data só: 26 de Julho.

É inútil procurar na Bíblia os pais de Nossa Senhora. Os quatro evangelhos canônicos guardam absoluto silêncio sobre os pais de Maria. Nem sequer seus nomes foram transmitidos. Mt e Lc escreveram sobre a genealogia de Jesus, Maria é citada, mas seus pais não são citados.

Para saber sobre os pais de Maria temos que recorrer aos evangelhos apócrifos, ingênuos relatos pela imaginação fervorosa dos primeiros cristãos para completar com isso os silêncios dos evangelhos canônicos. Dificilmente saber até que ponto esses relatos são verdadeiros. Por isso são chamados de apócrifos, isto é, não é de uso publico.

Mas em cada história ou historinha sempre tem alguma lição. Segundo o Evangelho apócrifo de São Tiago (século II) os dois, Joaquim e Ana, eram da mesma tribo: Tribo de Judá. Quando tinha 20 anos, Joaquim casou-se com Ana. Durante os 20 anos de matrimônio os dois não geraram nenhum descendente. Não ter descendência, para o conceito na época, era sinal da maldição de Deus e por isso, era uma vergonha pública.

Mas paradoxalmente, Joaquim e Ana eram justos e limpos de toda mancha de pecado. Os dois eram pessoas honradas, temerosas de Deus, generosas em suas ofertas para o Templo. Joaquim era rico e fazia todas as suas ofertas em quantidade dobrada por todo o povo. Costumava oferecer suas oferendas no Templo nas grandes festas do Senhor. Levavam uma vida pidedosa diante de Deus e diante dos homens. Tinham uma conduta inocente, isto é, livre de qualquer maldade. Imunes de calúnia e cheios de piedade. Zelosos em oração, em jejum e abstinência, cheios de caridade. Formavam uma família assídua ao Templo. No entanto, não tinham filho até então que tanto desejavam. Mesmo assim continuavam apostar na misericórdia de Deus.

Um dia, quando Joaquim estava para fazer sua oferta no Templo, um escriba chamado Ruben parou os passos de Joaquim e lhe disse: “Não és digno de apresentar tuas oferendas enquanto não tiver tua descendência”. Aflito e humilhado, Joaquim se retirou ao deserto para orar a fim de que Deus pudesse dar de presente um descendente.

Ana, a esposa, também começou a se vestir de saco e cilício para pedir a mesma graça. Sant´Ana rezava assim (segundo o evangelho apócrifo de Tiago): “Ó Deus de nossos pais! Ouve-me e abençõe-me como abençoastes o ventre de Sara, dando-lhe um filho Isaac”. Segundo um texto antigo da Igreja siro-oriental, Joqauim orava diante de Deus, pedindo a Ele uma prole que consolasse sua velhice: “Senhor que disseste a Abraão e depois de cem anos lhe concedeste um herdeiro da promessa, não prives minha vehice de um fruto e sim bendize-me com a bênção de Abraão; tudo é fácil com a tua vontade”.

O que aconteceu depois? Segundo o evangelho apócrifo de Tiago, um anjo do Senhor apareceu a Ana e lhe disse: “Ana, Ana, o Senhor escutou tuas preces. Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo mundo”. E Ana respondeu: “Juro por Deus, meu Senhor, que se eu gerar um filho, seja menino ou menina, quero oferecê-lo ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida”. O mesmo anjo do Senhor apareceu também para Joaquim dizendo: “Joaquim, o Senhor ouviu tua insistente prece. Volta, pois Ana, tua mulher, conceberá em seu ventre”.

Quem é fiel ao Deus fiel jamais será decepcionado, apesar das aparências impossíveis, pois quem tem a última palavra para o homem é o próprio Deus. O importante que façamos tudo o que é possível ao nosso alcance. O impossível vamos deixar para Deus. Onde a força humana termina, a fé no Deus do Céu e da Terra vai continuar. Não deixemos o grande problema nos dominar. Deixemos o espaço maior para o grande Deus que é nosso Papaizinho, o Abbá.

Quem tem fé firme em Deus será cumprida nele as seguintes palavras do Senhor lida nesta festa: “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejavam ver o que vedes, e não viram, desejavam ouvir o que ouvis, e não ouviram”, assim lemos no Evangelho. “O olho é a alma, capaz pelo vigor de sua natureza de entender aquilo a que se dirige; e também o ouvido, que aprende quando um outro ensina” (Santo Tomás de Aquino). “E aquele que tem a dedicação para ler receberá a faculdade de entender, e ao que não tem a dedicação para ler, lhe serão tirados os dons naturais que paraece ter. ou, ao que tem caridade serão dadas as demais virtudes, e ao que não a tem, se lhe tirarão as outras virtudes, porque sem caridade não pode haver bem algum” (Remígio de Auxerre In SANTO TOMÁS DE AQUINO: Catena Aurea: Exposição Contínua Sobre Os Evangelhos. Vol.1, Evangelho de São Mateus. Ed. Ecclesiae, Campinas, SP, 2018, pp. 456.458)

Quem se aproxima do Senhor Jesus reconhece a própria cegueira, os próprios ouvidos ouvem porque abriram a própropria surdez, o seu coração entende e compreende porque sente as próprias resistências à Palavra de Deus. em outras palavras, quem se aproxima do Senhor, que é a Luz do Mundo, enxerga a presença de Deus e capta as mensagens e os recados de Deus no cotidiano.

O cumprimento das promessas da salvação é a visão. A visão de Deus é o desejo dos profetas e dos justos no AT. Mas não tiveram privilégios de ver Deus. Mesmo assim, eles creram e apostaram sua vida pela Palavra da Aliança. O hoje dos discípulos tem a unicidade da bem-aventurança privilegiada de ver e escutar a própria Vida por excelência, a Salvação em ato, a Palavra encanada: Jesus, Deus-conosco, o Emanuel.

De certa forma, podemos dizer que Joaquim e Ana têm privilégio de ver o fruto da salvação: o nascimento da filha deles, Maria, que se esperava por tanto tempo. A graça de Deus pode tardar, mas nunca falha, porque Deus é cheio de misericórdia.

Não importa se você está num lugar bem deserto ou simplesmente em sua casa, se você fizer uma humilde súplica ao Senhor por uma causa nobre, cedo ou tarde, o Senhor vai atender. Tenha paciência porque “o relógio” de Deus é diferente de nosso relógio. É preciso respeitar o tempo de Deus apesar de nossa pressa. Simplesmente vamos nos abandonar nas mãos de Deus mesmo que tenhamos que enfrentar todo tipo de humilhação e dificuldade. Se lutarmos por uma causa nobre, cedo ou tarde o tempo vai nos revelar quem está com razão. No casal Joaquim e Santana, encontramos um grande paradoxo: um casa justo, mas estéril. A esterilidade, de acordo com o costume na época, é uma negação para a condição de ser justo. “Se os dois fossem justos, teriam que ter filhos. Não tendo filhos é porque não são justos”. Essa era a lógica da época. Mas, no fim da história, Deus sempre tem a ultima palavra. Mesmo que tenha sido tarde, o justo casal, Joaquim e Ana, foi premiado por Deus uma filha chamada Maria, Mãe de nosso Salvador, Jesus Cristo.

Segundo o evangelho apócrifo, depois que entregou Maria para Deus no Templo, Ana se afastou silenciosamente e sumiu para sempre. Sua missão terminou. Com esta marca heróica de desprendimento os apócrifos encerraram o capitulo dedicado aos pais da Virgem Maria.

Ana é uma mulher paciente e humilde. Durante 20 anos ela sofreu sem queixa a tremenda humilhação da esterilidade. Mas suas orações são tão suaves e humildes que fazem o Senhor inclinar para ouvi-las. Sua longa provação não endureceu seu coração, pois ela acredita fielmente no poder de Deus.

Ana é uma mulher generosa, pois ela pede para ter descendente e o gozo de dar com alegria sua filha para o Senhor. E sua filha Maria será capaz de entregar-se à vontade de Deus totalmente: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Ana é uma mulher abnegada, disposta a desprender-se de sua filha para dá-la aos outros.

Durante a visita à paróquia de Santa Ana no Vaticano (Domingo, 10 de Dezembro de 1978), o santo Papa João Paulo II dizia: “A figura de Santa Ana recorda-nos de facto, a casa paterna de Maria; Mãe de Cristo. Lá veio Maria ao mundo, trazendo em si aquele extraordinário mistério da imaculada conceição. Lá era rodeada pelo amor e solicitude dos seus pais: Joaquim e Ana. Lá "aprendia" de sua mãe, de Santa Ana, como se é mãe. E, embora do ponto de vista humano, Ela tivesse renunciado ã maternidade, o Pai do céu, aceitando a sua doação total, deu-Lhe a graça da mais perfeita e mais santa maternidade. Cristo, do alto da Cruz, transferiu em certo sentido a maternidade d'Aquela que O gerara, dando a esta por objecto, em vez de Si, o discípulo predilecto, e ao mesmo tempo fez que ela abrangesse toda a Igreja, todos os homens. Quando portanto, como herdeiros da promessa (Cfr. Gal. 4. 28. 31) divina, nos encontramos abrangidos por esta maternidade, e quando experimentamos a sua santa profundidade e plenitude, pensamos então que foi precisamente Santa Ana a primeira a ensinar a Maria, sua Filha, como devia ser Mãe”. "Ana" em hebraico significa: "Deus (sujeito subentendido) fez graça". Refletindo sobre este significado do nome de Santa Ana, assim exclamava São João Damasceno: "Como havia de acontecer que a Virgem Mãe de Deus nascesse de Ana, a natureza não se atreveu a preceder o germe da graça; manteve-se porém aquela sem o próprio fruto para a graça produzir o seu. Devia nascer, de fato, a primogénita, da qual viria a nascer o primogénito de toda a criatura" (Serm. VI, De nativ. B.V.M., PG 96, 663)”.

Pedimos aos pais de Nossa Senhora que todos nós tenhamos o espírito de perseverança no bem que devemos fazer, na oração que devemos fazer, na pratica de caridade, em ser justo em tudo apesar dos obstáculos encontrados no caminho. Mas a graça de Deus nos potencia para ultrapassar os obstáculos a exemplo do justo casal, Joaquim e Ana.

DIA DOS AVÓS

Neste dia também celebramos O DIA DOS AVÓS.  É o dia de agradecimentos por nossos avós que nos deram nossos pais. É o dia de ação de graças pela vida, pelos cuidados, pelos desvelos, pelos sofrimentos, pelos sacrifícios, pelos esbanjamentos de amor e carinho de nossos avós para nossos pais e para nós. Pela indiscritivel ajuda em nossa educação e na formação de nossa personalidade.

Celebrar a festa dos avós é como um dever de agradecimento, um ato de amor, uma devolução de ternura, e sobretudo, uma ação de graças respeitosa e alegre para fazer todos eles arrancarem seu melhor sorrisonesta celebração íntima e familiar onde eles voltam a ser protagonistas neste dia dos avós.

A sensibilidade da sociedade atual nos pede que se estabeleça um reconhecimento público, universal e particular de cada neto por seus avós, os pais de nossos pais. Elogiar a figura dos avós é tributar um carinho particular pela pessoa impostante de nossas recordações de infância, personagens simpáticos.

Os pais anciãos, elevados para a categoria de avós, merecem a expressão mais fina, gentil e carinhosa dos nestos. Esta fineza embeleza a vida humana, enriquece o mundo e constitui um prestígio para os corações agradecidos. Os netos e os avós unidos neste amor recíproco são autênticos mensageiros da paz.

“O idoso não há-de ser considerado apenas objeto de atenção, solidariedade e serviço. Também ele tem um valioso contributo a prestar ao Evangelho da vida. Graças ao rico património de experiência adquirido ao longo dos anos, o idoso pode e deve ser transmissor de sabedoria, testemunha de esperança e de caridade” (João Paulo II em a Carta Enciclica: Evangelium Vitae n. 94).

O Papa Francisco faz questão de chamar nossa atenção sobre a existência dos anciãos/idosos e de sua importância na nossa vida: “Os anciãos são homens e mulheres, pais e mães que antes de nós percorreram o nosso próprio caminho, estiveram na nossa mesma casa, combateram a nossa mesma batalha diária por uma vida digna. São homens e mulheres dos quais recebemos muito. O idoso não é um alieno. O idoso somos nós: daqui a pouco, daqui a muito tempo, contudo inevitavelmente, embora não pensemos nisto. E se não aprendermos a tratar bem os anciãos, também nós seremos tratados assim. Nós, idosos, somos todos um pouco frágeis. No entanto, alguns são particularmente débeis, muitos vivem sozinhos, marcados por uma enfermidade. Outros dependem de curas indispensáveis e da atenção dos outros. Daremos por isso um passo atrás, abandonando-os ao seu destino? Uma sociedade sem proximidade, onde a gratuitidade e o afago sem retribuição — inclusive entre estranhos — começam a desaparecer, é uma sociedade perversa. Fiel à Palavra de Deus, a Igreja não pode tolerar estas degenerações. Uma comunidade cristã em que a proximidade e a gratuitidade deixassem de ser consideradas indispensáveis perderia juntamente com elas também a sua alma. Onde não há honra pelos idosos não há porvir para os jovens” (Audiência Geral, Quarta-feira, 4 de Março de 2015).

P. Vitus Gustama,svd


Sexta-feira Da XXX Semana Comum, 30/10/2026

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