A BONDADE DO DEUS PAI ME FAZ
PERSEVERAR NA ORAÇÃO
XVII
Domingo Comum “C”
I Leitura: Gn 18,20-32
Naqueles
dias, 20 o Senhor disse a Abraão: “O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e
agravou-se muito o seu pecado. 21 Vou descer para verificar se as suas obras
correspondem ou não ao clamor que chegou até mim”. 22 Partindo dali, os homens
dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. 23 Então,
aproximando-se, disse Abraão: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio?
24 Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los? Não
pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? 25 Longe de ti
agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao
ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” 26 O Senhor
respondeu: “Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa
deles a cidade inteira”. 27 Abraão prosseguiu dizendo: “Estou sendo atrevido em
falar ao meu Senhor, eu, que sou pó e cinza. 28 Se dos cinquenta justos
faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?” O Senhor
respondeu: “Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos”. 29
Insistiu ainda Abraão e disse: “E se houvesse quarenta?” Ele respondeu: “Por
causa dos quarenta, não o faria”. 30 Abraão tornou a insistir: “Não se irrite o
meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?” Ele respondeu:
“Também não o faria, se encontrasse trinta”. 31 Tornou Abraão a insistir: “Já
que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?” Ele respondeu:
“Não a iria destruir por causa dos vinte”. 32 Abraão disse: “Que o meu Senhor
não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?” Ele
respondeu: “Por causa dos dez, não a destruiria”.
II Leitura: Cl 2,12-14
Irmãos:
12 Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados
por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. 13
Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não
tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com
Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. 14 Existia contra nós uma conta a ser
paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou,
pregando-a na cruz.
Evangelho:
Lc 11,1-13
1 Jesus estava rezando num
certo lugar. Quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: “Senhor,
ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. 2 Jesus
respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o
teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4 e
perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos
devedores; e não nos deixes cair em tentação’” 5 E Jesus acrescentou:
“Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser:
‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem e
nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro:
‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados;
não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que
o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos
por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto,
eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será
aberto. 10 Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem
bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe
pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe
dará um escorpião? 13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas
aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o
pedirem!”
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Como se sabe, Lucas é conhecido como uma pessoa
orante e a sua comunidade é uma comunidade orante, porque ele dá uma atenção
particular à oração. No seu evangelho ele faz notar nove vezes que Jesus reza; só duas ocasiões
de oração são comuns com os outros evangelhos sinóticos. Lc 11,1-13 é realmente
um pequeno catecismo sobre a oração. A oração envolve o evangelho inteiro desde
o primeiro capítulo que abre com uma solene liturgia no templo de Jerusalém (Lc
1,5-25) até a reunião dos discípulos, depois da ascensão, novamente no templo
para louvar a Deus (Lc 24,53).
Lucas é chamado de “o evangelista da
oração”.
O evangelho de Lucas é o único que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu
evangelho com o tema da oração. Neste evangelho, Jesus orou em cada decisão
importante e em todo momento decisivo de sua vida. Ele orou no batismo (3,21),
antes de escolher os discípulos (6,12), em Cesaréia de Filipe na profissão da
fé de Pedro (9,8), no monte Tabor na transfiguração (9,28s), no
Jardim de Getsêmani (22,39-46), na
cruz (23,34.46) e ensinou aos discípulos o Pai-Nosso (11,1ss). Neste
evangelho podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (1,46-56); o Benedictus (1,67-79);
o Glória (2,14);
o Nunc Dimittis (2,29-32). Além disso, Lucas ainda coloca
três parábolas sobre oração (11,5-13;18,1-8;18,9-13).
A oração não é uma atividade que se justapõe
extrinsecamente ao homem, mas ela jorra do ser, nasce do próprio mistério do
homem, destila e flui da realidade de todos os homens. Poderíamos dizer que a
oração é, de certo modo, o próprio ser do homem que se torna transparente à luz
de Deus, que se reconhece por aquilo que é e, ao reconhecer-se, reconhece a
grandeza de Deus, a Sua santidade, o Seu amor, o Seu desígnio de misericórdia.
Ela é uma percepção da realidade que logo se desabrocha em louvor, em adoração,
em agradecimento e em pedido de piedade Àquele que é a origem do ser. Por isso,
quem sabe viver bem/conscientemente, sabe também rezar bem/conscientemente. E
quem sabe rezar bem/conscientemente, também sabe viver bem/conscientemente.
Aquele que vive profundamente seu ser ou sua vida, não tem como não rezar. O
ser humano é apenas uma criatura, mas uma criatura que tem consciência de seu
ser e de seu existir.
A oração exige uma relação em que você permite
ao Outro entrar no centro de sua pessoa, permite-lhe falar ali, permite-lhe
tocar o núcleo sensitivo de seu ser e permite-lhe ver tudo o que você
preferiria deixar oculto na escuridão. Ao orar você se abre para a influência
do Poder que se revelou como Amor. O Poder que lhe dá liberdade e
independência. Uma vez tocado por esse Poder, você não é mais arrastado para lá
e para cá pelas inúmeras opiniões, ideias e sentimentos que passam por você.
Você encontrou um centro para sua vida, e este centro lhe dá uma distância
criativa de modo que tudo o que você vê, ouve e sente pode ser testado de
acordo com a fonte.
Por isso, ao rezar, de você se pede que abra
seus punhos firmemente cerrados e dê sua última moeda para Aquele que pode
preencher todo o espaço de sua vida. O homem que ora é um homem com as mãos
abertas perante Deus para o mundo. Ele sabe que Deus se mostrará na natureza
circundante, nas pessoas que ele encontra, nas situações por onde passa. Uma
pessoa torna-se uma pessoa quando é capaz de se abrir para todas as dádivas que
estão preparadas para ela. Um homem que ora pode voltar a respirar livremente e
tem a liberdade de mover-se para onde quiser sem que medos o persigam. O homem
que vive do sopro de Deus pode reconhecer com alegria que o mesmo sopro
mergulha no pulmão de seu semelhante e que ambos bebem da mesma fonte. Nessa
percepção mútua, o medo do outro desaparece, as armas caem, um sorriso vem aos
lábios e uma mão se estende para o outro. Aquele que percebe o sopro de Deus no
outro pode deixar o outro entrar de verdade em sua vida.
Quando a vida do homem está se tornando cada
vez mais uma oração, ele percebe que está sempre ocupado convertendo-se e
adquirindo uma compreensão maior de seu semelhante. Também ele percebe que a
oração é o pulso do mundo em que ele vive. O homem que ora inspira o mundo,
olha para ele com compaixão e, nesse olhar, penetra a fonte de todo ser.
Pai Nosso
O texto do Evangelho deste domingo fala da
oração do Pai-Nosso na versão de Lucas.
Desde a antiguidade são conhecidas três formas
do Pai-Nosso: (1) o
mais curto é a versão lucana (Lc 11,1-4) com cinco pedidos; (2) Mt 6,9-13 é o mais longo com
sete pedidos, o que se pode suspeitar ser uma redação mais recente. No
entanto, segundo J. Jeremias, o uso da palavra “dívida” por Mateus revela
uma presença de um aramaismo, dado que no grego comum não se usava a palavra
“dívida” (ofeilemata) para indicar pecado, mas “falta, pecado” (amartia)
como está no texto de Lucas e Marcos; e (3) Didaqué 8,2 (Catecismo dos primeiros
cristãos/Instrução dos Doze Apóstolos) que é o mais longo ainda, com sete
pedidos e a doxologia.
Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo,
aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a
morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Antes de
introduzir a oração do Pai-Nosso, Lucas apresenta o modelo: Jesus que ora
(v.1). Os discípulos sabem como e quando rezar, não na base de um manual de
orações ou de um calendário sagrado, mas seguindo o estilo de seu Mestre, sua
atitude de fidelidade e liberdade, em comunhão total com o Pai: uma comunhão e
confiança que não podem ser perturbados, nem sequer pela provação suprema que é
o absurdo de uma morte violenta e vergonhosa.
Ao chamar Deus de “Pai-Nosso” temos duas obrigações
em relação ao próximo. Primeiro, temos que honrar e respeitar os outros, pois eles
são filhos e filhas de Deus. Segundo, temos que amar aos outros, pois eles são nossos
irmãos e irmãs.
Neste texto, os apóstolos pedem a Jesus:
“Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele”
(v.1). Devemos observar logo de início que o pedido dos apóstolos não foi feito
quando eles se encontraram pela primeira vez com Jesus, mas muito mais tarde,
depois de eles terem visto Jesus se retirar para lugares desertos a fim de
rezar. E só entendemos o peso deste pedido se consideramos que os discípulos
não tinham nenhum motivo de querer aprender “mais uma” oração. O bom judeu sabe
de cor a maioria das 150 preces oficiais, os Salmos. Por isso, aqui, não se trata
de querer saber uma oração “nova”. Os apóstolos estavam fascinados com Jesus
porque para rezar ele se retira a lugares ermos (Mt 14,13). Jesus não grita, não
tira os sapatos, não atira ao chão. Na montanha, no silêncio da noite, ele se
mergulha na presença de Deus. Deus está na total intimidade de sua vida (cf. Mc 1,35s;Lc 6,12;9,18.28;Jo 11,41ss). Voltando da oração, Jesus orante tem sobre os discípulos
uma irresistível atração divina. Nenhum homem sabia se aproximar de Deus com
tanta reverência, e ao mesmo tempo com tão incomparável confiança. Entre Jesus
e Deus havia a total intimidade.
A resposta de Jesus para o pedido é a oração do
Pai-Nosso. É uma oração tão simples e fácil, que aprendemos quando pequenos, e,
no entanto, oração riquíssima. Nela descobrimos a palavra “Pai”, Deus-Pai como
novo horizonte de vida.
A palavra “Pai” (Abba, Papaizinho) encontra-se, nos evangelhos: 118 vezes em
Jo, 5 vezes em Mc, 17 vezes em Lc e 44 vezes em Mt. E em outra parte do NT: 42
vezes em Paulo, 2 vezes em Hb, 24 vezes nas Cartas católicas e 5 vezes no Ap.
Dizer “Pai” significa que não precisamos fazer um esforço de imaginação para
conhecer a Deus, para imaginá-lo. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos
de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos,
e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai”
significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante
dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Dizer “Pai” faz nascer a
certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em
Deus.
“Pai, santificado seja o teu nome”. “Santificar” e “nome” (v.2). Santificar, biblicamente, é sinônimo de louvar, bendizer e
glorificar; é tornar-se santo. Santo tem como sinônimo justo, perfeito, bom e
puro. O “nome” é propriedade; o nome é a extensão da personalidade; ele é o
próprio ser. O nome é indicativo direto da pessoa, por isso, a interdição de
invocar seu nome (Ex 20,7) é porque o nome indica o próprio portador.
Santificar o nome de Deus é comprometer-se com a sua justiça, com a justiça ao
órfão, à viúva, com o trabalhador do campo, com o operário da cidade.
Com o “venha o teu reino”, exprimimos o desejo, o
anseio pela manifestação daquela realidade que se condensa na palavra “reino”,
e que pode ser expressa de mil outros modos: justiça, fraternidade, triunfo da
vida, derrota da morte, situação em que não mais haverá lágrimas ou luto,
capacidade de nos conhecermos e de nos amarmos a fundo, plenitude do Corpo de
Cristo realizado na Igreja, unidade verdadeira entre as pessoas e entre todos
os povos. Por isso, o “reino do Pai” é bem diferente dos “reinos deste mundo”
com suas lutas pelo poder, seus altos cargos, sua imponência, sua falta de paz
e suas ameaças de guerra. A guerra supõe que tenha algo a defender. Mas nem
sempre este “algo” é justo e humano.
“O pão necessário, dá-nos a cada dia”. “Pão” em
hebraico “lehem” (que compõe a palavra Betlehem = a casa do pão) é o conjunto
dos bens que servem para sustentar a vida. Por mais altos que forem os voos do
espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os
pensamentos abstratos, o ser humano sempre depende de um pouco de pão, de um
copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. O homem se apresenta
diante de Deus como uma criatura que necessita ser sustentada na sua vida
material. O pão é sagrado porque sustenta a vida que é sagrada. Por causa
disso, o pão é uma preocupação constante de cada pessoa, de cada família.
Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão. Deus quer que ganhemos o
pão com o trabalho que implica tempo, suor e lágrimas. E o pão que comemos
diariamente esconde toda rede de relações anônimas que sempre devem ser
recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos
braços. Em cada pão que se come, por isso, há sentido de fraternidade e de
partilha; embora haja também relações de exploração e lágrimas escondidas em
cada pão que se come. Mas o pão que nós comemos, fruto da exploração/roubo do
irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre, mas não alimenta a
vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da
fraternidade.
“Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a
todos os nossos devedores”. O homem não somente vive, mas convive.
Ele se relaciona. Aqui é que surgem conflitos, brigas, guerras etc. Para que a
convivência possa permanecer, o perdão mútuo é indispensável. Toda convivência
humana é baseada no perdão. O perdão é invocado a Deus (v.4), o único que pode
quebrar o círculo do pecado que gera pecado, solidão e morte. O próprio Deus
sempre está pronto para nos perdoar, pois Ele quer saber de nossa volta a Ele e
não do quanto tempo de nosso afastamento. Podemos fazer contra ele as piores
ingratidões, mas basta que nos voltemos para ele, para que nos perdoe.
Precisamos sempre do perdão de Deus, perdão que nunca nos falta, perdão pelas
nossas seguidas quedas, e pela nossa incapacidade de realizar o Reino. Mas
precisamos também do perdão recíproco. Perdoar não é exigir que o outro se
humilhe. Perdoar não exigir que o outro primeiro se converta, que o outro venha
expiar sua culpa para depois perdoá-lo. O perdão vem primeiro. Perdoar é doar
até o fim. É doar-se sem jamais colocar limites. Perdoar é mostrar que seu amor
é maior do que a ofensa do outro. Se a ofensa derrubar, se desanimar seu amor,
é porque seu amor é pequeno e bem frágil ainda.
“Não nos deixes cair em tentação”. O último
pedido expressa a consciência da precariedade na existência humana exposta ao
risco de aderir ao mal na sua extrema gravidade. O homem é um ser tentável. Mas
precisamos estar conscientes de que a tentação é sinal de predileção, pois
somente quem anda com o Senhor é tentado. Somente quem pratica a justiça e o
bem em geral é tentado. Mas mesmo assim, precisamos do apoio de Deus para não
cairmos em tentação no momento do perigo, e para que o Reino não se obscureça
em torno de nós. Na tradição bíblica do NT, estar livre da tentação é estar
protegido contra a apostasia ou contra a negação da fé. Na verdade, é uma
súplica positiva. A tentação pode ser um desejo de construir um Reino próprio e
colocar-se no lugar de Deus.
Depois que ensinou os discípulos sobre a oração
do Pai-Nosso, Jesus contou uma parábola referente a essa oração.
Deve-se compreender a parábola a partir da vida
de uma aldeia palestinense e da lei da hospitalidade, que era sagrada para o
judeu. Um homem recebe visita durante a noite e, não tendo nada para oferecer
ao seu visitante, recorre ao vizinho para que este lhe empreste três pães.
Ainda que o vizinho já esteja dormindo, e inicialmente, recuse o pedido por
causa dos incômodos que o levantar-se, abrir a porta etc., ele acabará ouvindo
o pedido do amigo.
O ensinamento teológico do evangelista
é claro: Deus pode tardar, mas ele ouvirá os nossos pedidos. O segredo é a insistência. Se
na primeira vez o pedido não é alcançado, pede-se uma segunda vez. Não devemos
brincar de orar, mas sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a
resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e por isso precisa
ser pressionado para dar uma resposta. Mas se não quisermos aquilo que estamos
pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então, não fazemos muita
questão dele. Não é uma oração tépida assim que é respondida.
A interrogação permanece: faz sentido a prece
de súplica (pedir, procurar, bater), se Deus já sabe das nossas necessidades?
A prece de súplica fundamenta sua eficácia em
duas razões básicas: a bondade paterna de Deus e a fé do ser humano. Fidelidade
e confiança encontram-se como reciprocidade no diálogo: a do Pai e a do filho.
Confiar é o olhar da fé que sabe ver Deus. Se não há fé, a confiança não surge,
e corre-se o risco da volta à ausência de sentido da vida, sobretudo quando se
toca com a mão o extremo do próprio limite. A confiança cresce encorajada pela
descoberta da bondade de Deus. A bondade de Deus é a raiz da confiança, porque
ele é fiel às suas promessas. “O homem fiel é aquele que crê no
Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem”
(Papa Francisco: Lumen Fidei,
Carta Encíclica).
Assim, a súplica paciente não tem como meta
lembrar a Deus a sua fidelidade, mas fazer crescer dentro de nós o hábito da
necessidade dele, da dependência dele, relembrando que tudo está sob o sinal da
graça. Crescendo dos imperativos (peçam, procurem, batam), aparentemente diz
respeito a coisas concretas, mas, na verdade, concita o discípulo a converter o
coração ao amor solícito do Pai. A experiência do amor paterno é a verdadeira
parábola para compreender a generosidade de Deus, o seu amor que não se
desmente. A oração é, certamente, a total abertura ao amor fiel de Deus para
que cada um viva o amor fiel na convivência com os demais.
Mas devemos estar conscientes de que Deus não
exclui a responsabilidade da pessoa que reza nas tarefas que a história
estabelece. Somente assim tudo o que é rezado torna-se verdadeiro, e remete ao
compromisso sério da vida. Apenas assim, a prece foge do risco da alienação
porque tudo se recompõe dentro da misteriosa e realizadora vontade de Deus.
Jesus conclui seu ensinamento sobre a oração sobre
o Pai Nosso dizendo: “O Pai do céu dará o Espírito Santo” (v.13). Eis a grande
resposta à prece de súplica: a dádiva do Espírito. A promessa de Deus
ultrapassa toda espera, transcende a imaginação humana. O segredo da eficácia
não se fundamenta somente na confiança, mas, também, na disponibilidade de
acolher os grandes bens de Deus. E Lucas enfatiza que o Pai dará o Espírito.
Jesus parece dizer que, antes de perguntar como se aprende a rezar (cf. Lc 11,1),
é
necessário pedir a presença do Orante: a presença do Espírito Santo que
"intercede" em nós e para conosco (Lc 11,13;Rm 8,26). A prece cristã em Lc 11 chega ao seu ápice e
qualifica-se como diálogo dos filhos no seio da comunhão da Trindade. A prece
daquele que crê é a experiência da paternidade de Deus, é a participação no
caminho do seu Reino na história, revelada na sua plenitude mediante a
encarnação do Filho, e é a consciência nova da filiação, no Filho, por obra do
Espírito.
Não estou só neste mundo, porque o Espírito
Santo implora em mim e por mim, aquilo que eu não sei pedir, e o meu Salvador
está junto de mim, une-me a Si e me faz participante de seus sentimentos
filiais. Ele vem em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rm 8,26-27). Ali onde existe a
presença do Espírito é possível reconhecer o Pai, a sua vontade, a procura do
seu Reino, o compromisso pelo pão cotidiano, o testemunho da misericórdia, a
libertação do mal. Quando o Espírito está ausente da vida, o discípulo torna-se
um estranho, desanima, não sabe mais o que pedir e como rezar.
Oração: Pedir, Buscar E Bater
/Chamar
A oração
é a expressão mais viva da fé. Quem tem fé precisa orar e quem ora porque tem
fé. A oração é também o lugar da revelação. Deus se manifesta quando alguém
está em sintonia com Deus e com a realidade. Na oração verdadeira Deus se
revela. Por isso, empobrecer a oração significa
empobrecer toda a teologia. No seguimento de Jesus, a oração sustenta a
caminhada do cristão. Na medida em que ele reza verdadeiramente, a sua vida se
transforma. A vida e a oração se tornam uma unidade.
Quem reza desligando-se da realidade é uma alienação, é uma fuga. Um verdadeiro
cristão reza aquilo que ele vive e vive aquilo que ele reza. Por isso, quem
sabe viver bem sabe também rezar bem e quem sabe rezar bem também sabe viver
bem.
A oração é sempre uma
práxis de libertação, porque orar é recorrer ao Pai sem esquecer-se dos homens,
nossos irmãos; orar é abrir-se ao Outro e consequentemente, a qualquer outro;
orar é libertar-se do egoísmo para o amor, pois o outro é evado conosco na
oração. Quem entra em oração está em comunhão com Deus. E quem está em comunhão
com Deus, está em ligação com os demais homens.
Rezar é Deixar Deus
Entrar Na Nossa Vida e Nós Na Vida De Deus. A oração é uma abertura total do
homem a Deus. Trata-se de recorrer a Deus para ser inundado por Sua presença, por
Sua graça, Sua ajuda, sua força e Seu perdão.
Consequentemente, a
oração exige consagração e dedicação a Deus. A verdadeira oração ultrapassa as
inércias e rotinas da mente. A oração vivida até o fundo é a ação mais
comprometida e eficaz que o homem pode realizar e da qual surgem outras ações.
A oração unifica e transforma, pois ela é dirigida a Deus que unifica e
transforma. Com efeito, a verdadeira oração não consiste em mudar Deus e sim em
mudar quem reza. Nossa oração ao Deus Pai se apoia na bondade e na vontade
amorosa de Deus.
O sentido da oração
vem expressado por três verbos de necessidade que o Evangelho de hoje nos
apresenta: Pedir, buscar e bater/chamar.
Para ser escutada, a oração cristã deve ser feita a partir da situação de
necessidade que estes verbos expressam. Quem pede e não sente necessidade daquilo que se pede,
não pode ser escutado. Quem busca e não sente necessidade de encontrar aquilo
que se busca, nunca encontrará nada. Quem chama e não sente necessidade de
dialogar, nunca será atendido.
Pedir, buscar e bater (a porta)
são verbos que nos põem em movimento. Isto
significa que não
podemos ficar parados nem paralisados por um sentimento negativo ou por um cansaço espiritual ou
existencial. A vida está em movimento permanente. Somos chamados a ser
perseverantes na nossa oração, mesmo que, aparentemente, nossos pedidos “não
sejam atendidos”, pois Deus sabe muito melhor de nossas necessidades do que nós
mesmos. Se Ele nos atender ou não nos atender é sempre com a intenção de nos
salvar, e não simplesmente para atender o que Lhe pedimos.
Além
disso, pedir, buscar, bater (porta)
pressupõe necessidade, inquietude, urgência,
e espera-se a bondade, a disponibilidade ou
misericórdia de alguém.
“Pedir” é a atitude própria de quem está em
necessidade: os pobres, os carentes, os mendigos, etc. Esta atitude revela que
quem pede é porque seu próprio esforço ou força, ele não consegue alcançar
aquilo que ele necessita. Quem é arrogante, tem dificuldade para pedir. Fazemos
pedidos a Deus porque muitas coisas na nossa vida que com nossa própria força
jamais alcançaremos. “Buscar” é outro movimento que exige sair de
nós mesmo caminhando em direção daquilo que para nós está escondido ainda, mas
que tem valor para nossa vida. Só se busca aquilo que tem valor. A nossa busca
maior nesta vida é estar comunhão plena com Deus durante a passagem neste mundo
e na eternidade. É precisa ser uma Igreja em saída, que busca, que caminha ao
encontro dos outros. É uma Igreja totalmente missionária. “Bater” a porta é
outro movimento. Bater uma porta pode ser para pedir algo a alguém dentro de
casa. Bater uma porta pode significar procurar um abrigo, uma proteção, uma
paz, uma vida familiar, uma comunhão de irmãos. Fala-se, muitas vezes, da Porta
do Céu. É preciso bater para poder entrar. Mas Santo Agostinho nos deu uma
dica: Não tenha medo de ajudar os pobres, pois eles vão ser batedores da Porta
do Céu para você, e Deus vai abrir a porta para você poder entrar.
Orar
é um modo
de ser diante
de Deus, mas
com duas direções:
a direção do homem
para Deus e a
direção do homem
para os demais.
Se o homem pedir
a Deus o que
é melhor para
si, ele
deve dar também
o que é melhor
para os outros.
A paz que
ele pede a Deus
o leva a ser construtor da paz
na convivência com
os demais, e assim
por diante.
Em outras palavras,
não há oração
sem compromisso.
A oração feita
e vivida profundamente
é a ação mais
comprometida da qual surgem outras ações. Quando
oramos, entramos numa verdadeira aliança
com Deus.
P.
Vitus Gustama,svd