sábado, 27 de dezembro de 2025

30/12/2025- Sexto Dia Na Oitava Do Natal

NA DEDICAÇÃO E NO AMOR AO PRÓXIMO REVELAMOS QUE CONHECEMOS DEUS

Leitura da Primeira: 1Jo 2, 12-17

12 Eu vos escrevo, filhinhos: os vossos pecados foram perdoados por meio do seu nome. 13 Eu vos escrevo, pais: vós conheceis aquele que é desde o princípio. Eu vos escrevo, jovens: vós vencestes o maligno. 14 Já vos escrevi, filhinhos: vós conheceis o Pai. Já vos escrevi, jovens: vós sois fortes, a Palavra de Deus permanece em vós e vencestes o Maligno. 15 Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. 16 Porque tudo o que há no mundo – as paixões da natureza, a concupiscência dos olhos e a ostentação da riqueza – não vem do Pai, mas do mundo. 17 Ora, o mundo passa, e também a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.

Evangelho: Lc 2, 36-40

Naquele tempo, 36 havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. 37 Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. 38 Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39 Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. 40 O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.

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A figura de Ana, que parece sem relevância, pode nos fazer pensar na silenciosa dedicação a Deus, no espírito atento aos Seus chamados e manifestações, na alegria da salvação que sempre nos é revelada ou mostrada. E também no que todos podemos aprender com os anciãos.

O final do Evangelho nos faz olharmos para Jesus que vai crescendo e aprendendo. Os longos anos em Nazaré são anos de jornada silenciosa ou de caminho oculto: aprendendo com seus pais e mestres, frequentando a sinagoga, sendo preenchido por Deus. É uma vida comum ou normal como a nossa, que vale a pena viver como ele a viveu.

A Primeira Leitura nos convida a revisarmos nossos critérios na vida cotidiana: vencer o Maligno, conhecer o Pai, ser guiados pelo que vem do Pai e não pelo que vem do mundo.

Amar a Deus É Viver Para Sempre

“Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Ora, o mundo passa, e também a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre”. (1Jo 2,15.17).

Não há melhor comentário deste texto a não ser o comentário de Santo Agostinho que dizia: “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos (Serm. 121,1). Queres saber que tipo de pessoa és? Põe à prova teu amor. Se amas as coisas terrenas, és terra. Se amas a Deus, não tenhas medo de dizer: és Deus” (In epist. Joan. 2,2,14).

A primeira Carta de são João define as modalidades da comunhão com Deus: viver com Ele na luz, isto é, viver na transparência, pois não há nada que seja escondido, pois diante de Deus tudo é revelado (cf. Lc 12,2-3); compartilhar do amor salvador de Deus, amando os irmão. Tudo isso se resume na Carta de são João numa palavra: Conhecer Deus. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. Conhecer Deus significa ter uma relação profunda existencialmente com Deus. É estar unido com Deus. Esta união resulta na prática da vontade de Deus.

Quando uma pessoa conhece profundamente Deus, ela não será afetada pelo espirito mundano: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo – as paixões da natureza, a concupiscência dos olhos e a ostentação da riqueza – não vem do Pai, mas do mundo” (1Jo 2,15-16). Neste contexto, o termo “mundo” assume um sentido pejorativo. Por isso, não se trata do “mundo” pelo qual Cristo morreu (1Jo 2,2; 4,4; Jo 3,16; 4,42; 12,47). Pertencer ao mundo ou estar contaminado pelo espirito mundano se manifesta pela submissão às concupiscência da carne que contradizem a vontade de Deus. O homem que recusa as concupiscência do mundo para escolher a vontade de Deus participa da comunhão trinitária. Amar a Deus é reconhecido pelo amor aos irmãos, ao próximo.

Através da Primeira Leitura de hoje, são João se dirige a seus leitores chamando-os de “filhos”. É o denominador comum aplicável a todos os seus destinatários. Depois são João estabelece uma distinção entre eles: dirige-se aos pais e aos jovens. Porém o que se escreve para um grupo pode-se aplicar para outro e vice-versa. “Eu vos escrevo, filhinhos: os vossos pecados foram perdoados por meio do seu nome. Eu vos escrevo, pais: vós conheceis aquele que é desde o princípio. Eu vos escrevo, jovens: vós vencestes o maligno. Já vos escrevi, filhinhos: vós conheceis o Pai. Já vos escrevi, jovens: vós sois fortes, a Palavra de Deus permanece em vós e vencestes o Maligno”.

“Eu vos escrevo, filhinhos: os vossos pecados foram perdoados por meio do seu nome”. Devemos repetir incansavelmente essas palavras para que do fundo de nosso coração surja nosso agradecimento sincero ao Pai do céu. “Sois filhinhos porque nascestes de novo pela remissão dos pecados” (Santo Agostinho: Comentário da Primeira Epistola de são João, 2,4).

Vida Dedicada a Deus Silenciosamente

O texto do evangelho deste dia é a conclusão da cena da apresentação de Jesus no Templo e tem duas partes. A primeira parte fala do testemunho da profetisa Ana. A segunda parte fala da volta da Sagrada Família para Nazaré onde Jesus cresce fortemente e cheio de sabedoria e está com a graça de Deus.

A figura feminina de Ana se corresponde com a figura masculina de Simeão, formando um par ideal no relato da apresentação do Menino Jesus no Templo.

O texto diz que “Ana, da tribo de Aser, era viúva e tinha 84 anos de idade”. O número “84” é um múltiplo de 12 (12 x 7), alusão às 12 tribos de Israel; enquanto que o número “7” tem, entre outros, valor de globalidade.

A alusão à tribo de Aser a qual pertencia a profetisa Ana, uma das dez tribos do Norte, confirma o alcance de sua representatividade. A menção da “idade avançada”, situada já no limite, contrasta com a dupla menção da “idade avançada” de Zacarias e Isabel (cf. Lc 1,7.18). De um lado, Ana está muito arraigada ao passado (genealogia) e à instituição judaica (Templo). De outro lado, por sua qualidade de “viúva”, diz relação com o povo de Israel, que enviuvou de seu Deus, enquanto que como “profetisa” lança um grito de esperança diante da semelhante desastre nacional. Jesus veio como Deus-Conosco para não deixar o povo órfão na sua luta de cada dia.

Além disso, a figura de Ana nos faz pensar, em primeiro lugar, na dedicação calada e silenciosa a Deus. O silêncio possibilita a presença da plenitude e dá oportunidade para Deus falar de si próprio e de nós e de nossa vida. Quanto mais silêncio criarmos, mais inspiração nós teremos. Qualquer grande obra que existe sempre foi e é o fruto de horas de silêncio. O silêncio possibilita qualquer um usar devidamente palavras que serão ditas ou escritas para os outros.

A figura de Ana nos faz pensar também no espírito atento para as chamadas e manifestações de Deus. Geralmente, há duas maneiras de prestar atenção. O homem pode prestar atenção com os olhos do corpo para ver as coisas visíveis. Mas ele também pode prestar atenção com a força do espírito para contemplar as coisas invisíveis para captar seu sentido. Toda atenção sempre leva ao conhecimento. O olhar desatento deixa de aprender. O olhar desatento permanece estranho para as presenças; é ser isolado no meio da multidão. A atenção é, por isso, um momento único em que a inteligência (conhecimento) e o coração podem estar juntos. A atenção faz parte da espiritualidade cristã. Ser atento é ser vigilante. É saber estar ligado com tudo ao redor para captar e agir. O espírito atento faz alguém se perguntar: Será que alguém está precisando de alguma ajuda? Será que minha maneira de falar e de viver está incomodando a tranquilidade dos outros? Somente quem tem espírito atento é que capaz de captar as chamadas de Deus e suas mensagens para nossa vida diária.

A figura de Ana nos faz pensar também na alegria da salvação que sempre é nos mostrada.  A consciência de que Deus sempre quer nossa salvação nos faz sempre alegres: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4,4). Quem tem Deus, sua vida tem futuro. Por isso, a alegria é a característica do cristão que vive na esperança, na expectativa, no espírito divino e na certeza da ressurreição; que vive na certeza de uma vitória final que será realizada apesar dos sofrimentos, do fracasso aparente e da morte no presente: “Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se a nós” (Rm 8,18). Por esse futuro garantido os cristãos jamais podem desistir de lutar por um mundo mais fraterno, mais justo, mais solidário e mais humano, onde um se preocupa com o outro, onde um protege o outro. Com efeito, a tristeza e o desânimo não são apenas sintomas de um profundo cansaço, e sim são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo tem sua origem na falta de fé em Deus. A firme intenção de sermos portadores de alegria e o empenho em contagiar os outros com uma alegria santa, com alegria no Senhor, são uma defesa muito eficaz contra a perda da mesma.

Maria Educa Jesus Na Sabedoria e Na Graça

A segunda parte do evangelho fala da volta da Sagrada Família para Nazaré e Lc nos relatou que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52).

“Jesus crescia em sabedoria...”. A palavra “sabedoria” provém do latim “sapere” que significa ter inteligência, ser compreendido; mas, propriamente, significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor. A sabedoria é o saber que conduz ao sabor. É saborear para saber que mais tarde é o saber que permite saborear. A sabedoria é refinar o gosto pela vida. Com a sabedoria, a existência e a convivência se tronam mais saborosas. Por isso, a sabedoria é uma companhia indispensável para a existência e a convivência mais fraternas.

“Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52). Este texto nos mostra que Maria (com José) é uma grande e perfeita educadora. Ela acompanha o crescimento de seu Filho não apenas no conhecimento humano (sabedoria), mas também na graça de Deus (espiritualidade: vive de acordo com o Espírito de Deus). Trata-se de uma educação completa, pois há um equilíbrio entre a espiritualidade e o conhecimento. O conhecimento tem uma função para servir a Deus e ao próximo. Nisto todo conhecimento tem uma função social e espiritual. Em Maria (e José) encontramos a combinação perfeita e inseparável da valor da educação e a educação de valores. Por isso, Jesus não somente cresce na sabedoria, mas também cresce na graça de Deus. E para crescer em estatura é necessário se alimentar saudavelmente. É uma educação perfeita recebida por Jesus de Maria (e José).

Quem pode assumir, primeiramente, essa missão de fazer filho crescer na sabedoria e na graça é a família. A família é o lugar privilegiado para a educação na justiça, no respeito mútuo, na solidariedade, no amor, na liberdade, na verdade, na sabedoria e na paz. A família é lugar privilegiado de encontro e de amor, lugar privilegiado de compreensão e de perdão, lugar privilegiado de criatividade e superação, lugar privilegiado da presença de Deus, pois Deus se fez carne em uma família humana.

Que a Sagrada Família nos conceda um pouco de sua sabedoria para nossas famílias para cada membro de cada família possa crescer na sabedoria e na graça diante de Deus e diante dos homens. Assim seja!

P.Vitus Gustama, SVD

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

29/12/2025-Quintaf-feira- Quinto Dia Na Oitava Do Natal

O ENCONTRO COM O SALVADOR

APRESENTAÇÃO DE JESUS NO TEMPLO

Primeira Leitura: 1Jo 2,3-11

Caríssimos, 3 para saber que conhecemos Jesus, vejamos se guardamos os seus mandamentos. 4 Quem diz: “Eu conheço a Deus”, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. 5 Naquele, porém, que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado. O critério para sabermos se estamos com Jesus é este: 6 quem diz que permanece nele, deve também proceder como ele procedeu. 7 Caríssimos, não vos comunico um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o início; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. 8 No entanto, o que vos escrevo é um mandamento novo – que é verdadeiro nele e em vós – pois que as trevas passam e já brilha a luz verdadeira. 9 Aquele que diz estar na luz, mas odeia o seu irmão, ainda está nas trevas. 10 O que ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar. 11 Mas o que odeia o seu irmão está nas trevas, caminha nas trevas, e não sabe aonde vai, porque as trevas ofuscaram os seus olhos.

Evangelho: Lc 2,22-35

22 Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23 Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24 Foram também oferecer o sacrifício – um par de rolas ou dois pombinhos – como está ordenado na Lei do Senhor. 25 Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, 26 e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. 27 Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28 Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29  “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30 porque meus olhos viram a tua salvação, 31 que preparaste diante de todos os povos: 32 luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. 33 O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34 Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35 Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti uma espada te transpassará a alma”.

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O Evangelho nos traz ecos novamente do Natal. O texto do evangelho nos mostra que Jesus é plenamente encarnado na condição humana: é um menino que precisa ser levado nos braços como qualquer outra criança. E sua família se submete à Lei como qualquer outra família judia. E Maria e José são pobres. Como uma família pobre, eles fazem a oferenda como pobre: um par de pombas. Jesus apresentado a Deus, isto é, ele é oferecido ao Pai solenemente. O sentido da oferenda se compreenderá somente sob a luz da cena do calvário onde Jesus morrerá como o autêntico primogênito que se entrega ao Pai pela salvação dos homens.

Nesta condição humana comum, somos chamados a reconhecer, como Simeão, o Salvador de todos os povos. Isto significa que Jesus é a Luz das nossas vidas (Jo 8,12) e que vale a pena crer n´Ele; que o caminho da salvação está no Evangelho, no que Jesus dirá e fará; e que vale a pena dar a conhecer esta Luz para o mundo inteiro (cf. Mt 5,14).

A Primeira Leitura reafirma um destes aspetos: onde verificamos se conhecemos e amamos Jesus Cristo é dando ouvidos ao que ele disse e fez: isto é, amando os nossos irmãos e irmãs; do contrário, tudo não passa de uma farsa.

O conhecimento de Jesus Cristo não é conhecimento intelectual. Não é reservado aos sábios, àqueles capazes de decifrar intelectualmente as "Escrituras" ou os "Dogmas"... é um conhecimento experiencial, vital. Aquele que "guarda" os mandamentos, aquele que "faz" a vontade de Deus... esse "conhece" a Deus.

Continuamos com o evangelho sobre a infância de Jesus: a apresentação de Jesus no Templo e a purificação ritual de Maria. Como a oferenda nessa apresentação e purificação, as mulheres ricas, além de uma rola ou um pombinho para o sacrifício de purificação, oferecem um cordeiro de um ano para o holocausto de ação de graças (cf. Lv 12,6.8). As mulheres pobres somente oferecem duas rolas ou dois pombinhos (Lc 2,24). Da oferenda sabemos que Maria pertence à classe social pobre e humilde, pois leva apenas um par de pombinhos.

Por meio da apresentação (circuncisão) o menino judeu passava a fazer parte do povo de Deus e se tornava destinatário das promessas feitas a Abraão e à sua descendência (Cf. Gn 1,14.23-27; 34,14-16; At 7,8). Ao submeter-se ao rito da Lei de Moisés (circuncisão), Jesus se solidariza com o seu povo. Porém, mais tarde, este rito de circuncisão não terá mais necessidade, pois a salvação que Jesus traz não está vinculada à circuncisão e sim à fé como graça (Cf. At 15,1.5: Concílio de Jerusalém).          

Além disso, o evangelista Lucas sublinha a apresentação de Jesus no Templo para mostrar que Jesus pertence inteiramente a Deus e que sua entrega é total desde o início de sua vida (cf. 1Sm 1,24-28). E Maria sabe que “o seu filho primogênito” (Lc 2,6) não é propriedade dela, mas propriedade de Deus. Tudo pertence a Deus, menos o pecado.

Jesus é destinado para salvar a humanidade (Cf. Jo 3,16). O sentido do nome “Jesus” é Deus salva, nome que foi escolhido pelo próprio Deus (Mt 1,21; Lc 1,31; 2,21). Para os judeus, o nome expressa a identidade e o destino pessoal que cada um devia realizar ao longo de sua vida. Jesus foi, desde o primeiro instante de sua existência até a morte na Cruz, o que seu nome significa: Salvador.                 

Como Maria, nós só podemos oferecer a Deus o que dele recebemos. Muitas vezes em vez de oferecermos algo para Deus, na verdade recebemos muita mais de Deus. Como diz uma música: “Cada vez que eu venho para Te oferecer, na verdade, venho para receber. Cada vez que eu venho para Te falar, na verdade, venho para Te escutar”, pois somente o Senhor fala da verdade de nossa vida.         

A parte central da cena começa com a introdução do personagem principal, o velho Simeão cujo nome significa “O Senhor escuta” (cf. Gn 29,33). Ele é apresentado como um homem “justo e piedoso”, como alguém que esperava a “consolação de Israel”, isto é, a vinda próxima da salvação messiânica. O texto relata que “o Espírito Santo estava nele” para sublinhar que a mensagem que Simeão dará tem valor (vv.29-32. 34-35), pois ele é um profeta inspirado, cheio de Espírito Santo. Além disso, receberá de Deus a promessa de não morrer antes de ver o “Messias do Senhor” (v.26). Sua ida ao Templo naquele determinado momento é interpretada, aqui, como uma condução do Espírito de Deus (v.27) como o próprio Jesus será conduzido pelo Espírito Santo (Mc 1,12).          

As palavras proféticas de Simeão sobre Jesus constituem o centro do relato. O ator principal é o Espírito Santo, pois ele é quem conduz Maria ao Templo, quem conduz Simeão ao encontro de Jesus e quem revela a Simeão que o Menino que ele acolhe é a salvação de Deus e luz para iluminar as nações.          

Esta cena nos mostra que no encontro com Jesus realizamos nossas esperanças e esperas, e os nossos olhos são iluminados para ver a vida de maneira renovada e renovadora. Para acontecer o encontro com Jesus e a realização das promessas, temos que, como velho Simeão, nos deixar conduzir pelo Espírito do Senhor.          

Nesta cena Simeão recebe Jesus dos braços de Maria. Isto quer nos dizer que Deus quer que recebamos o Salvador e quem nos dá Jesus depois de tê-lo dado à luz para toda a humanidade é Maria. Devemos acolher Jesus com toda a nossa pessoa, corpo, coração, pensamento e sentimentos. “Aquele que deseja ser libertado, que tome Jesus nas suas mãos...e faça todos os esforços para deixar-se guiar pelo Espírito e vir ao templo de Deus...isto é, à sua Igreja” (Orígenes). Iluminado pelo Espírito Santo, Simeão vê no menino que tem nos seus braços a “luz das nações”. Jesus é a luz que vai iluminar todos os povos (Lc 1,79; Jo 8,12).          

Simeão também prevê o sofrimento de Maria pela incredulidade do seu povo. Este sofrimento é descrito por Lc com uma imagem muito forte: em grego “rhomfaia” que designa uma espada grande com duplo fio.  Este termo não voltará a ser mais usado em todo o NT até o último livro, o Apocalipse, onde aparecerá seis vezes; cinco delas para simbolizar a palavra de Deus. O sofrimento de Jesus pela divisão atinge também pessoalmente sua mãe. Sabemos pela experiência que o sofrimento do filho (a) é o sofrimento da mãe (pai). E o sucesso do filho (a) é o sucesso da mãe (pai). A fé de Maria vai ser provada. E ela se mostra fiel até o fim na provação. Por isso, Maria é modelo para nossa fé.          

Se Simão é descrito mais pela sua interioridade, pela justiça e esperança, Ana pela sua espiritualidade, pela sua vinculação com o templo e pela sua esperança. Lc apresenta Ana como uma mulher consagrada a Deus, modelo de fidelidade e de piedade e vive no templo. Também Ana vai ao encontro de Jesus, olha, compreende e testemunha aos outros (v.38), porque ela está aberta ao Espírito Santo. A salvação é oferecida por Deus a todos, mas ela deve ser anunciada e testemunhada por quem a acolhe.

A cena do encontro de Jesus com a humanidade no Templo nos projeta para o futuro encontro com o Senhor. Por isso, o encontro com Jesus com a humanidade representada pelos anciãos Simeão e Ana prefigura nosso encontro final com Cristo na sua segunda vinda. Nós, peregrinos de Deus, caminhamos penosamente através deste mundo, guiados pela luz de Cristo e sustentados pela esperança de encontrar finalmente o Senhor da glória no seu Reino eterno. Toda nossa vida cristã tem esse objetivo: encontrar-nos com o Senhor na vida eterna. Por este objetivo temos sempre força suficiente para superar tudo na nossa peregrinação terrestre. Estando com Cristo e seguindo seus passos nossa vida sempre será iluminada: “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). 

“Para saber que conhecemos Jesus, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Quem diz: “Eu conheço a Deus”, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele”, assim lemos na Primeira Leitura de hoje. O conhecimento de Jesus Cristo não é um conhecimento intelectual. Não está reservado aos sábios, aos que são capazes de decifrar intelectualmente as “Escrituras” ou o “Dogma”. Aqui se trata de um conhecimento experimental, vital. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. 

Os gnósticos dos fins do século primeiro dava a prioridade absoluta ao saber (“gnosis”, conhecimento) e com isso se sentiam salvos sem prestar grande atenção às consequências da vida moral. Não atuavam segundo esse conhecimento de Deus. 

Para o autor da Carta de João, a demonstração de que deixamos as trevas e entramos na luz é quando amamos ao irmão: “Aquele que diz estar na luz, mas odeia o seu irmão, ainda está nas trevas. O que ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar. Mas o que odeia o seu irmão está nas trevas, caminha nas trevas, e não sabe aonde vai, porque as trevas ofuscaram os seus olhos” (1Jo 2,9-11). Isso é conhecer Deus. 

É a consequência de ter conhecido o mistério do amor de Deus neste Natal: também temos que viver seu grande mandamento que é o amor. A teoria é fácil. A prática não é o tanto: as duas devem estar juntos. Natal é luz e é amor, por parte de Deus, e deve sê-lo também por nossa parte. O Natal nos está pedindo seguimento e não somente celebração poética. Haveria bastante luz em meio das trevas deste mundo, se todos os cristãos escutassem esta chamada e nos decidíssemos a celebrar o Natal com mais amor em nosso pequeno ou grande círculo de relações pessoais. 

Também o evangelho de hoje nos conduz a um Natal mais profundo. O ancião Simeão nos convida, com seu exemplo, a ter “boa vista”, a descobrir, movidos pelo Espirito, a presença de Deus em nossa vida. Nos pequenos detalhes de cada dia, e nas pessoas que podem parecer muito insignificantes, nos espera a voz de Deus, se soubermos escutá-la.

Pe. Vitus Gustama,SVD

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Sagrada Família De Nazaré, Ano "A": Domingo, 28/12/2025

SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ, ANO “A”

Primeira Leitura: Eclo 3,3-7.14-17ª

3 Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe. 4 Quem honra o seu pai, alcança o perdão dos pecados; evita cometê-los e será ouvido na oração cotidiana. 5 Quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros. 6 Quem honra o seu pai, terá alegria com seus próprios filhos; e, no dia em que orar, será atendido. 7 Quem respeita o seu pai, terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe. 14 Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive. 15 Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele; não o humilhes, em nenhum dos dias de sua vida: a caridade feita ao teu pai não será esquecida, 16mas servirá para reparar os teus pecados 17ª e, na justiça, será para tua edificação.

Segunda Leitura: Cl 3,12-21

Irmãos: 12 Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, 13 suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também. 14 Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição. 15 Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo. E sede agradecidos. 16 Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza, habite em vós. Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria. Do fundo dos vossos corações, cantai a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais, em ação de graças. 17 Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo. Por meio dele dai graças a Deus, o Pai. 18 Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor. 19 Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. 20Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isso é bom e correto no Senhor. 21Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem. 

Evangelho: Mt 2,13-15.19-23

13 Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. 14 José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. 15 Ali ficou até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu Filho”. 19 Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, 20 e lhe disse: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos”. 21 José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, e entrou na terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelau reinava na Judeia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galileia, 23 e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”.

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A Família É A Base De Uma História Para Cada Pessoa Humana

Neste Domingo celebramos a festa da Sagrada Família. Celebramos um fato de salvação, Jesus nasce de mulher e convive em uma família, uma família exemplar. José é sumamente respeitoso diante do mistério de sua esposa, Maria. Maria é responsável diante da vontade de Deus que a escolheu para ser Mãe de Jesus. E o Menino Jesus vive em obediência. Para a Sagrada Família, há que obedecer a Deus antes de obedecer aos homens. A festa de hoje oferece o marco adequado para situar o interesse eclesial para a família e pôr em destaque os elementos básicos da posição cristã.

Deus se encarnou através de uma família (Sagrada Família de Nazaré) para nos relembrar que a presença da família é indispensável para o crescimento de uma pessoa humana na direção de Deus. A encarnação de Deus na família eleva a família para o nível divino. 

Sabemos muito bem que a família é uma comunidade de vida e de amor. A família é o lugar onde começa a vida, e o amor nunca termina. A família é uma comunidade de pessoas que se ajudam a crescer como pessoas. É uma comunidade de vida, de pessoas vivas e com capacidade para dar e transmitir vida. Ter família é um magnífico dom e um magnífico poder. E não somente pensar no fato de gerar filhos, e sim em cultivar e fazer crescer todo tipo de vida, em contagiar e irradiar seus próprios valores e ideais, em fazer que a pessoa seja como ela é. É uma comunidade de amor. Basta tirar o amor da família, ela se descompõe. A família é a célula social básica e caixa de ressonância dos grandes problemas da sociedade: questão homem-mulher, relação entre gerações, juventude, velhice, infância e assim por diante. A família é nosso berço natural onde recebemos carinho e cuidado, calor e alimento, refúgio e valor, fé e ideais. Ela nos marca de tal maneira que sempre conservamos querências familiares. A fé e a ética cristã se aprendem no lar que vão marcar a vida de cada membro para o resto da vida. Nenhum de nós adquiriu por si só os conhecimentos básicos para a vida, mas através da família. Por isso, a família é insubstituível por qualquer riqueza do mundo. 

Numa sociedade que corre o risco de se tornar cada vez mais despersonalizada e massificada e, portanto, desumana e desumanizadora, a família ainda possui e comunica energias formidáveis capazes de remover o homem do anonimato, de mantê-lo consciente de sua dignidade pessoal, para enriquecê-lo com profunda humanidade e implantá-lo ativamente no tecido da sociedade. Acabar com a família significa acabar com a humanidade. "A sociedade não é mais do que o desenvolvimento da família. Se o homem sair da família corrupto, corrupto estará para a sociedade”. (Henri Lacordaire) 

A família não somente cumpre a transcendental missão de transmitir a vida e prolongar assim a humanidade. É também motor de humanidade. O Santo Papa João Paulo II no Encontro com as famílias no Rio de Janeiro em 1998 insiste neste papel insubstituível que pertence e desempenha a vida familiar: “Longe de ser um obstáculo para o desenvolvimento e crescimento da pessoa, a família é o âmbito privilegiado para fazer crescer todas as potencialidades pessoais e sociais que o ser humano leva inscritas em seu ser”. É o ambiente onde cada um dos filhos descobre e inicia a caminhada de sua vocação humana e cristã.

As famílias quase sempre estão em crise, porque os problemas são frequentes, como aconteceu também com a Sagrada Família como relatou o texto do Evangelho de hoje. Umas vezes, o divórcio, outras, os maus tratos, outras os filhos. Umas vezes os pais se queixam dos filhos, e outras, os filhos se queixam de seus pais. Por isso, quase sempre há crise.

Dois séculos antes de Cristo, também havia problemas por causa da modernização, da helenização da Palestina. Ben Sirac (Eclesiástico) recorre à tradição para sustentar a família e os ideais judeus, como lemos no texto da Primeira Leitura de hoje (Eclo3,3-7.14-17ª). Os conselhos deste nobre ancião servem também para nossos dias: mais respeito, mais atenção, mais carinho dos filhos para os pais e dos pais para os filhos. 

São Paulo, na Segunda Leitura, situa a família no marco da Igreja universal. A família cristã vem a ser como uma pequena Igreja, como uma paróquia ou uma diocese em miniatura. Desta sorte a moral familiar, o estilo de vida de uma família cristã, não é mais que a moral cristã a que dimana das exigências do Evangelho. Em todos os casos, família, paróquia, diocese, Igreja universal o verdadeiramente importante é o amor: “... sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14). E certamente, o amor é a chave, porque é o desamor, a incompreensão, os egoísmos encontrados, a intolerância, o que vivia e põe em crise a convivência familiar e social. A família se define e se constrói no amor. O amor, ao dar, não cria dependência ou passividade; cria naquele que recebe o amor a capacidade de dar. Assim como Deus-Amos nos cria criadores, assim o amor, dando-se, cria doadores. O amor é criativo e faz crescer. O amor não é tesouro que se guarda e sim semente que se cultiva; não é olhar-se um para outro e sim conjuntar olhares e esforços em metas superiores. O amor há que conquistá-lo e cultivá-lo na luta de cada dia. O amor é que mantém uma família e uma comunidade unidas. Onde não há amor, há apenas divisão e a mutua acusação em vez de o mútuo perdão, o mútuo apoio e o respeito mútuo. Se não houver o mútuo respeito, não haverá nenhum espaço para a mútua admiração. O amor santifica cada família, santifica seus membros, pois Deus santo é amor. 

Se nós cristãos buscarmos a santidade, teremos que buscá-la na família, como teremos que fazê-la também no trabalho e na vida pública e privada. Acima de tudo, a família oferece maiores oportunidades e mais possibilidades, toda vez que se trata de um grupo pequeno no qual podemos nos conhecer profundamente nos confiar mutuamente. Daí a importância da família para uma saudável socialização. No seio de uma família se santificaram Jesus e José e Maria. E a santidade da Sagrada Família serve de exemplo para cada família cristã. Mas, sobretudo, serve de esperança e faz possível nossas aspirações. 

A família e a Eucaristia. O símbolo da família é a mesa. Comer juntos é como um pequeno sacramento que expressa o amor mútuo e o faz crescer.  Também a comunidade familiar cristã tem uma mesa: a Eucaristia.

O Evangelho e Sua Mensagem

I. O Relato Da Fuga Da Sagrada Família Para O Egito É Histórico Ou Teológico?          

Alguns exegetas apresentam argumentos em favor da historicidade da fuga ao Egito, a matança das crianças de Belém e a volta para Nazaré. Segundo eles, ao longo de toda a história de Israel, o Egito foi a terra de refúgio escolhido pelos que fugiam das tiranias na Palestina (cf. 1Rs 11,40; Jr 26,20-24). Durante os anos do reinado de Herodes, o Grande, e do seu filho Arquelau (4 a. C. até 6 d. C), as fugas para o Egito de famílias judias suspeitas não eram raras, porque a violência de Herodes era conhecida. O historiador Flávio Josefo conta, por exemplo, que quando Herodes estava sendo roído pelo câncer e sabendo que ia morrer, ordenou que os presos políticos encerrados no anfiteatro de Jericó, pertencentes a famílias judias nobres, fossem degolados imediatamente depois que ele morresse, “Assim a Judéia inteira e cada lar chorarão por mim, queriam ou não queriam”.          

Mas a maioria dos exegetas atuais (como R. E. Brown, por exemplo) concorda que os relatos não são históricos no sentido moderno da palavra. Há dois argumentos principais: 1). A fuga para o Egito e a volta para Nazaré seriam incompatíveis com a cronologia do relato de Lucas, segundo o qual quarenta dias depois do nascimento, da circuncisão e da apresentação do menino no templo, a Sagrada Família voltou para Nazaré de maneira absolutamente normal (cf. Lc 2,22-40). 2) Se o massacre das crianças de Belém tivesse de fato ocorrido, Flávio Josefo, que documenta os últimos anos do reinado de Herodes destacando particularmente sua crueldade, tê-lo-ia mencionado.        

É melhor deixarmos o problema em aberto, pois isso não afetaria nossa em Jesus, Deus-Conosco que veio para estar conosco até o fim do mundo (cf. Mt 28,20; Jo 1,14). Nós acreditamos, como todos os estudiosos admitem, que os relatos têm uma clara intenção teológica, como mostra o fato de que cada um deles termina com o tema da realização das promessas do AT na vida de Jesus. Em cada um deles termina com o mesmo refrão: “...para se cumprir o que foi dito pelo profeta...” (Mt 2,15.18.23).

II. Algumas Mensagens Do Evangelho         

1. Jesus é Emanuel, Deus-Conosco 

Depois de relatar a aceitação da revelação de Jesus pelos gentios (Mt 2,1-12), Mateus quer sublinhar uma mensagem importante para suas e nossas comunidades que Deus é o Emanuel, Deus- Conosco. O evangelista Mateus e sua comunidade sabem que os que buscaram Jesus para destruí-lo, logo depois do seu nascimento em Belém e trinta e três anos mais tarde em Jerusalém, não conseguiram. Por isso, Mateus coloca o título “Emanuel” para Jesus no início (Mt 1,23), no meio (Mt 18,20) e no fim (Mt 28,20) do seu evangelho. O Prólogo de são João expressa de outra forma sobre a companhia permanente de Deus na vida do homem: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Deus mora conosco e em nós (cf. 1Cor 3,16-17). Ao dizer que Deus é Emanuel, logo sabemos que não se pode pensar em Deus sem pensar no homem e não se pode pensar no homem sem pensar em Deus, pois os dois estão bem unidos: Deus está com o homem e o homem está com Deus. Tudo que eu fizer para um homem, especialmente para os necessitados, farei isto para Deus (Cf. Mt 25,40.45). Qualquer coisa que eu fizer para o ser humano, terá seu efeito em Deus. Na linguagem de são Paulo, o homem é o Templo do Espírito Santo (Cf. 1Cor 3,16-17;  6,19). Nenhum cristão fica sozinho, pois Deus está com ele e ele está com Deus. Por onde ele for, Deus está na sua companhia: “Eis que, Estou com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).          

2. Jesus é o “Novo Moisés”.

O paralelismo entre Jesus e Moisés, de um lado, e entre Herodes e o faraó, de outro lado, é claro. Assim como o Faraó se opôs ao plano de salvação de Deus, também agora Herodes se opõe ao mesmo plano; assim como o faraó buscou Moisés para matá-lo (Ex 2,1-10) e depois teve que fugir, também Jesus tem que ser protegido e escondido e fugir, porque Herodes o procura “para matá-lo” (Mt 2,13). Se Moisés foi o libertador do povo de Israel da escravidão no Egito, conduzindo-o para a Terra prometida, Jesus é o Libertador definitivo de todo tipo de escravidão do pecado conduzindo o povo para a salvação eterna. Por isso, Jesus é muito mais do que um simples novo Moisés. Ele é o nosso Salvador. No Natal o Anjo do Senhor anunciou aos pastores:” Nasceu-vos hoje o Salvador” (Lc 2,11). O menino recém-nascido é dado o nome pelo qual todos os homens de todos os tempos serão salvos (cf. At 4,12). Ele foi, desde o primeiro instante de sua existência até a morte na cruz, o que seu nome diz: Salvador. Por isso, podemos repetir o nome “Jesus” (Salvador) muitas vezes durante o dia, detendo-nos mais em uma ou outra das palavras, segundo nos encontrarmos tristes ou alegres, perturbados ou em paz. Ao pronunciarmos e vivermos este nome, experimentaremos a alegria da comunhão profunda com Jesus no meio das variadas ocupações e situações.        

3. Jesus é o Filho de Deus

O paralelismo entre o êxodo de Israel do Egito e a volta de Jesus do Egito é acentuado por Mateus no final do relato citando Os 11,1: “Do Egito chamei meu filho”. O texto de Oséias refere-se à saída do povo de Israel da escravidão do Egito. Ao aplicá-lo a Jesus, o evangelista apresenta-o, não só como o novo Moisés, como o definitivo libertador do verdadeiro Israel que é a Igreja, mas como aquele que realiza em plenitude a relação filial com Deus. Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, pois esse título lhe é dado pelo próprio Deus (cf. Mt 17,5). Por isso, em Jesus chega à plenitude toda a história da salvação.          

4. José É Obediente À Voz De Deus

O anjo do Senhor, que tinha se manifestado a José duas vezes em sonho (cf. 1,20.24) e que no final do relato anterior indicara aos magos “em sonho que não voltassem a Herodes”, mas regressassem “por outro caminho para a sua região” (Mt 2,11), volta a se manifestar da mesma maneira para José (Mt 2,13). José obedece à voz de Deus imediata e incondicionalmente: “José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito” (Mt 2,14). Isto quer dizer que para que a Palavra de Deus possa ser eficaz, é preciso obedecê-la e pô-la em prática, como fez José. Para poder ouvir a voz de Deus e para poder obedecer às suas instruções, só uma coisa é necessária: que estejamos sempre, como Maria e José, como os pastores e magos, com o ouvido atento e com o coração livre e disponível.          

Além disso, quem optou por seguir Jesus incondicionalmente, defrontar-se-á com missões difíceis e incompreensíveis, e que têm de ser realizadas imediatamente como aconteceu com José. A única opção é a da obediência incondicional e da fidelidade amorosa, seja qual for sua consequência. No relato evangélico da fuga da Sagrada Família não só não há o menor sinal de resistência, mas não há sequer uma única pergunta. A obediência é perfeita: total e incondicional. Por que José e Maria obedecem assim? Porque, em última análise, eles têm consigo e levam consigo Jesus. Pela sua obediência absolutamente fiel aos mandamentos de Deus, o “justo” José (Mt 1,19) é apresentado por Mateus como modelo para os judeus que são fiéis à Lei e aos Profetas e que acolhem Jesus como Messias. Quem tem a certeza de ter consigo Jesus, está pronto para enfrentar todas as missões e todas as dificuldades a elas inerentes.          

Falar hoje de obediência, especialmente aos mais jovens, é quase impossível, pois toda e qualquer limitação da liberdade é anatematizada e rejeitada e gera um fortíssimo senso de repulsa. Isto acontece porque o verdadeiro conceito de obediência e a sua prática foram desvirtuados, sua riqueza de conteúdo esvaziada, sua necessidade para o progresso da vida da comunidade e do indivíduo esquecida, e sua fecundidade esterilizada.          

Obediência vem do latim “ob-audire” que significa auscultar, prestar atenção, tender o ouvido. Por isso, esta palavra indica um encontro, um relacionamento, um diálogo entre um “eu” e um “tu”. No AT não existe o substantivo “obediência”, e para exprimir esta noção, usam-se os verbos escutar, responder, fazer o que foi mandado. Por isso, a obediência, mais do que um ato, é um estado de espírito, de compreensão prévia, que abre o caminho para ouvir e ser ouvido, no sentido bíblico que referimos. Obedecer é perder parte da própria liberdade, sempre que solicitados a solucionar os problemas dos outros.          

5. Contemplar As Pessoas No Seu Silêncio

Na vida não basta contemplarmos somente o que as pessoas fazem e falam, mas também o seu silêncio, aquilo que elas não falam mas dizem muito. Para entender o silêncio do outro é necessário criar o próprio silêncio. Maria e José não falam, mas fazem tudo em silêncio. Diz-se que quem faz muito barulho porque faz muito pouco ou talvez nada faça. A presença de Maria é sublinhada quatro vezes no relato. Ela é denominada, significativamente, não pelo seu nome próprio, mas como mãe: “o menino e sua mãe” (cf. Mt 2,13.14.20.21). A vida e a história, a vocação e a missão de Maria são inseparáveis das de Jesus. E José? É ele quem recebe a ordem de fugir para o Egito e de voltar para a terra de Israel (vv.13.19-10); é ele quem as executa pronta e fielmente (vv.14.21.23). É ele quem protege Jesus dos que o buscam para matá-lo e que o traz de volta para a Galileia. O que é que o silêncio produtivo de Maria e de José diz para nós?        

6. O Retorno Para Nazaré (vv.19-23).          

Aqui se apresenta novamente o paralelismo entre Moisés e Jesus. As palavras “pois os que buscavam tirar a vida do menino já morreram” (v.20) são a transcrição quase literal das palavras do Senhor a Moisés (cf. Ex 4,19). Depois que morreram seus perseguidores, Moisés pôde deixar a terra de Madiã, onde se tinha exilado. Assim como a morte do faraó abriu para Moisés o caminho do êxodo do Egito para a Terra prometida, assim a morte de Herodes libera o caminho de volta de Jesus, o novo libertador do novo Povo de Deus, para a terra onde exercerá sua missão.          

O retorno de Jesus são e salvo a Israel nos traz a certeza de que por mais violentas que sejam as perseguições, Deus protege os que confiam nele. Os perseguidores morrem, seu orgulho e seu poder são reduzidos a pó. O projeto de Deus, porém, ainda que através de muitas tribulações, segue sempre adiante. Os cristãos, por isso, não devem desencorajar-se diante das violentas perseguições, pois o Senhor toma conta deles.          

7. Família E Seus Dramas 

Com facilidade podemos descobrir no Evangelho de hoje alguns dos grandes problemas familiares: a insegurança, a morte, que ronda e nem sempre conduzida só pela mão da natureza; a necessidade de coragem para enfrentar as situações difíceis; a confiança em Deus; a prudência em tomar decisões. 

Santa Família de Nazaré se apresenta como uma das muitas famílias, que devem enfrentar e vencer todo tipo de dificuldades. O texto nos mostra que apesar de a família de Jesus, Maria e José ser uma Família Sagrada, ela está também sujeita a toda espécie de sacrifícios e tribulações. Uma família que, apesar de santa e agradável a Deus, padece, angustia-se, sofre. Mesmo assim ela permanece unida nas dificuldades e nas desgraças, pois Jesus é o centro desta família. É evidente a lição sobre a necessidade de união para cada família cristã independentemente das circunstâncias. Basta Jesus ser o centro de uma família, ela, com toda certeza, vai adiante apesar de cada dificuldade.          

A família deve ser amada, apreciada, estimada e recordada porque ela é o lugar de Deus e dos homens. É o lugar do amor, da felicidade e da paz. A mãe, o pai e os filhos são a comunidade onde Deus mora, onde Deus conversa e derrama seus dons, suas bênçãos e graças. A família não se mede pelo número de pessoas, mas pela paz aí reinante. Quando os pais e os filhos não se amam, a casa se torna um hotel, um restaurante, um bar. A família- hotel é um lar de desconhecidos. Os hotéis enchem-se de hóspedes, mas nem sempre são amigos. No hotel estão próximos apenas por causa das paredes, mas suas almas estão isoladas e fechadas. Não existe tempo para confidências e diálogos. Uma família- hotel é o lugar onde ninguém se interessa pelas pessoas, apenas pelo negócio rendoso.          

Pedimos ao Senhor Jesus que é a peça da unidade da Sagrada Família de Nazaré que nossas famílias se conheçam e se amam. Se os pássaros se agrupam e os peixes vivem em cardumes, as famílias devem viver no amor e na amizade. Com a ajuda divina que as famílias formem verdadeiras comunidades de amor. Que as famílias vivam perto, não como as pedras, mas como amigos compreensivos. Para isso, o Senhor Jesus deve ser o centro de cada família. Ao olharmos para Jesus e para aquilo que ele vive, percebemos com facilidade se estamos certos ou errados. A família que vive dessa maneira pode ser chamada uma família cristã. Que nossas famílias realmente sejam famílias cristãs.

Rezemos com o Papa Francisco pedindo a intercessão da Sagrada Família de Nazaré (Amoris Laetitia):

“Jesus, Maria e José, em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor, confiantes, a Vós nos consagramos. Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho e pequenas igrejas domésticas. Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado. Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do carácter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém”.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...