sábado, 29 de abril de 2017

02/05/2017

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SENHOR, DAÍ-NOS SEMPRE O PÃO DA VIDA PARA VIVERMOS NA VERDADE


Terça-Feira da III Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 7,51-8,1a


Naqueles dias, Estêvão disse ao povo, aos anciãos e aos doutores da lei: 51 “Homens de cabeça dura, insensíveis e incircuncisos de coração e ouvido! Vós sempre resististes ao Espírito Santo e como vossos pais agiram, assim fazeis vós! 52 A qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram aqueles que anunciavam a vinda do Justo, do qual, agora, vós vos tornastes traidores e assassinos. 53 Vós recebestes a Lei, por meio de anjos, e não a observastes!” 54 Ao ouvir essas palavras, eles ficaram enfurecidos e rangeram os dentes contra Estêvão. 55 Estêvão, cheio do Espírito Santo, olhou para a céu e viu a glória de Deus e Jesus, de pé, à direita de Deus. 56 E disse: “Estou vendo o céu aberto, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus”. 57 Mas eles, dando grandes gritos e, tapando os ouvidos, avançaram todos juntos contra Estêvão; 58 arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem, chamado Saulo. 59 Enquanto o apedrejavam, Estêvão clamou dizendo: “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito”. 60 Dobrando os joelhos, gritou com voz forte: “Senhor, não os condenes por este pecado”. E, ao dizer isto, morreu. 8,1ª Saulo era um dos que aprovavam a execução de Estêvão.


Evangelho: Jo 6, 30-35


Naquele tempo, a multidão perguntou a Jesus: 30 “Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obras fazes? 31Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’”. 32Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. 33Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”.  34Então pediram: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. 35Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.
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Somos Chamados a Ser Anunciadores Da Verdade a Exemplo de Estêvão e Os Profetas Antigos


Homens de cabeça dura, insensíveis e incircuncisos de coração e ouvido! Vós sempre resististes ao Espírito Santo e como vossos pais agiram, assim fazeis vós”, disse Estevão num discurso mais longo do livro dos Atos dos Apóstolos (At 7,2-53).


O tom com que Estevão usa no final do seu discurso, que citamos acima, nos leva ao tom dos antigos profetas. Estevão quer relembrar todos os homens em todos os tempos e lugares e em todas as religiões que toda vez que o homem ficar resistente à voz do Espirito de Deus, ele se tornará violento para o próximo e perseguidor dos justos e honestos. A infidelidade do homem aos valores universais como amor, fraternidade, solidariedade, justiça, honestidade, igualdade converte o homem em assassino e destruidor do seu próximo, especialmente dos inocentes. A religião nenhuma pode estar acima dos valores universais reconhecidos, valores que constroem a comunhão, a fraternidade, a compaixão, a solidariedade, valores que edificam todos os seres humanos como uma família em que um membro cuida do outro membro.


Nesse discurso, Estevão chama seus ouvintes judeus juntamente aos anciãos e doutores da Lei de “cabeça dura, insensíveis e incircuncisos de coração e ouvido”. As acusações de Estevão são tipicamente bíblicas. “Teimosos” traduz a expressão bíblica “duros de pescoço” (cf. Ex 33,3.5; 34,9; Dt 9,6.13; Ne 9,29). Pescoço duro não é flexível e incapaz de fazer movimentação para várias direções. Um teimoso é incapaz de ver outras possibilidades melhores. “Insensíveis” é na Bíblia “incircuncisos de ouvido e coração” (cf. Lv 46,41; Jr 6,10; Ez 44,7.9). A resistência ao Espirito Santo vem de Nm 27,14; Ne 9,30; Is 63,10. Paralelamente, nesse discurso de Estevão há uma continuidade entre os profetas, Jesus e agora Estevão. O passado ilumina Estevão para denunciar os que praticam a injustiça. Como qualquer profeta, Estevão se torna vítima da verdade anunciada. O assassino pode matar o anunciador da verdade, mas incapaz de enterrar a verdade.


Estêvão é um homem fogoso, mas também um homem de vida interior, contemplativo, um visionário que tira suas ideias, suas palavras, seus atos de sua oração contemplativa. Na sua oração contemplativa Estêvão disse: “Estou vendo o céu aberto, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus”. Efetivamente, Jesus está vivo, ressuscitado e exaltado. E Estêvão vive com Ele, e vive dele. É o tempo pascal para Estêvão, o tempo de passagem deste mundo para o mundo de Deus. Por isso, Estêvão, literalmente, repete as palavras de Jesus no Evangelho antes de sua morte: “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito... Senhor, não os condenes por este pecado”. A morte de Estêvão é admirável. Como seu Mestre Jesus, Estêvão perdoa. É a vítima que ama seus carrascos e roga por eles como fez jesus. É assim que tenho que perdoar?


É admirável o exemplo de Estêvão, o jovem diácono. É em geral admirável a mudança da primeira comunidade cristã a partir da graça do Espirito em Pentecostes. Estêvão dá testemunho de Cristo Ressuscitado e Vitorioso. Celebramos sua festa no Natal, mas a leitura de hoje nos situa muito bem coerente no clima da Páscoa.


Somos chamados não somente a crer teoricamente na Ressurreição de Cristo, mas a viver essa mesma Páscoa, ou seja, a estar dispostos a experimentar em nós a perseguição e a imitar Cristo não somente nas coisas doces e serenas, mas também na entrega à morte e no perdão de nossos inimigos. É viver o duplo movimento da Páscoa que é morte e vida. As dificuldades vão chegar quando nossas palavras e nossas obras forem testemunhos da verdade que sempre incomoda alguém que não viver de acordo com a verdade. Estêvão é nosso espelho e nosso exemplo a ser seguido.


Somos Chamados a Viver e Ir Além Do Pão Material


Jesus acabou de realizar a multiplicação dos pães para saciar a multidão (Jo 6,1-15). As pessoas comeram um alimento perecível ou efêmero. Mas há outro alimento que serve para a vida eterna (Jo 6,26-27). A multidão buscou um realizador de “milagres”, mas a personalidade de Jesus é de outra ordem e por isso, Jesus se afastou da multidão que quis torná-lo rei. Jesus não caiu na armadilha do poder que mata a fraternidade e a igualdade. As obras que o povo realizou até esse momento não são as que vão merecê-lo a salvação. A única obra que conta é seguir Jesus Cristo (Jo 6,28-29) e viver seus ensinamentos.


O “milagre” (= sinal) da multiplicação dos pães e dos peixes foi um acontecimento de tal profundidade que se constitui para o evangelista João num verdadeiro exemplo de uma leitura simbólica. Jesus convida a multidão a ir além do sinal da multiplicação dos pães e dos peixes para descobrir seu verdadeiro significado.


No Evangelho de hoje, as pessoas simples pedem a Jesus “sinais”: “Que sinais tu realizas para que possamos ver e crer em ti?”. O “milagre” de partilha generosa dos pães não foi suficiente para levá-las à verdadeira fé em Jesus. Elas não encontraram ainda o “milagre” da partilha, que faz todos saciados, e ninguém fica em necessidade. Ao contrário, o egoísmo deixa a maioria em necessidade, pois uns poucos agarram a maioria dos alimentos. E quase como provocando-lhe, elas disseram que Moisés havia feito sinais: o maná que proporcionou aos seus na travessia do deserto (cf. Ex 16,1-36). Elas não saem de seu horizonte habitual: trabalhar… comer… Mas, será que a vida consiste apenas em trabalhar e comer? Será que a verdadeira vida consiste em ganhar muito e muito mais materialmente? Quanto por cento conseguimos consumir de tudo que ganhamos? E o resto?


O povo permanece no nível superficial da fé: quer uma solução fácil para seus problemas materiais; quer correr atrás de “milagres”. Por mais espetacular que sejam os “milagres”, as pessoas continuam na sua desconfiança sobre a identidade de Jesus como Filho de Deus apesar de estar diante do “milagre” do Pai que é seu Filho Jesus, prova de sua benevolência para a humanidade faminta de sentido. Jesus é o sinal permanente do amor do Pai que indica o caminho para chegar ao Pai: amor mútuo (cf. Jo 15,12). Quem acolhe Jesus com seus ensinamentos que se resumem no amor fraterno (ágape), coloca-se no caminho da salvação. Qualquer outro sinal (milagre) seria inútil, se este sinal fundamental não fosse percebido.


Jesus busca despertar nas pessoas, a partir de suas necessidades materiais, aspirações mais altas, de ordem religiosa e espiritual, mas sempre com consequências ou aplicação na convivência humana diariamente. Jesus sacia a multidão a partir do ato generoso de um menino que representa todos os generosos para dizer que com a partilha há sempre alimento que sobra (cf. Jo 6,13). O egoísmo ou a ganância não deixa que os alimentos sejam partilhados ou distribuídos para todos.


Literariamente o evangelista construiu a cena para dar lugar à continuação ao discurso de Jesus sobre o Pão verdadeiro. Todo o discurso seguinte vai ser como uma homilia em torno do tema do pão: o pão que Jesus multiplicou no dia anterior, o maná que Deus deu ao povo no deserto, e o Pão que Jesus quer anunciar. A frase crucial é uma citação do Sl 77,24: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. “Não nos deixe, Senhor, sem esse pão, diariamente, pois nossa fome do sentido da vida não se satisfaz somente com o pão material. Queremos nos alimentar com o Pão que nos dá calma, paz, serenidade. E este Pão é o Senhor”.


Aqui se estabelece o paralelismo entre Moisés e Jesus, entre o pão que não sacia e o pão que dá vida eterna, entre o pão com minúscula e o Pão com maiúscula. A partir da experiência da multiplicação e da recordação histórica do maná, Jesus conduz seus ouvintes para a inteligência mais profunda do Pão que Deus lhes quer dar, que é ele mesmo, Jesus Cristo. Se no deserto o maná foi a prova da proximidade de Deus para com seu povo, sinal de que Deus não abandona seus fiéis, agora o mesmo Deus quer dar para a humanidade o Pão verdadeiro que é Jesus em quem devemos acreditar. Jesus é a encarnação do amor do Pai pela humanidade. Deus quer fazer sua moradia no meio de nós em Jesus Cristo (Jo 1,14).


“Senhor, dá-nos sempre desse pão”.


O homem de hoje está sedento, está faminto, mas o próprio homem não sabe de quê?  Ele quer satisfazer seus desejos e deixa seus anseios profundos gritarem permanentemente. Por isso, há uma busca sem trégua tratando de encontrar algo que possa o saciar verdadeiramente. Ele o busca no prazer, no poder, na fama, no dinheiro e assim por diante. Mas, infelizmente, quem vive somente em função do prazer é porque não tem prazer de viver. Afinal, o resultado é sempre o mesmo: vazio e solidão. Somente Jesus é o Pão que sacia. Somente a vida no amor de Deus pode dar sentido à vida: “Eu sou o Pão da vida. Quem vem a mim, não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35). O Pão da Vida não somente satisfaz a fomente física do homem, e sim satisfaz sua vida ou sua existência. A única satisfação para a existência humana está em Cristo. Somente seu amor enche nossos vazios e nossas solidões. A vida em Cristo se transforma em plenitude. Por isso, quem tem Cristo tem tudo, quem não O tem, não tem nada.


Enquanto não crermos plenamente em Jesus Cristo, nosso ser andará buscando saciar sua sede e sua fome em qualquer lugar. Por isso, nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Deus e enquanto não se nutrir do Pão da Vida que é seu Filho Jesus Cristo através de uma plena e verdadeira comunhão com Ele. Uma vez que crermos em Jesus de todo coração, uma vez que nascermos do Espírito Santo, “nascer do alto” então nos daremos conta de que não teremos sede jamais. Simplesmente viveremos na Presença do grande “Eu-Sou”.


Quem se alimenta é porque quer continuar vivendo. Mas o alimento temporal somente prolonga nossa vida por um pouco tempo. O Senhor Jesus nos dá vida eterna. Quem O aceitar, terá essa vida. Mas ter a vida não significa somente usufruí-la de um modo egoísta ou passá-la bem. A vida é como um fruto que os demais devem usufruir, pois, junto com eles, estaremos trabalhando para que todos vivam com maior dignidade. Nós nos alimentamos de Cristo para poder alimentar o mundo, convertidos em pão de vida e deixando de ser, para o mundo, um pão venenoso, podre e deteriorado.


Comungar o Pão Eucarístico, o próprio Corpo do Senhor significa ser pão para os demais. O cristão é chamado a ser pão, a ser alimento, a ser vida para os outros a exemplo de Cristo Jesus. Ser pão significa que já não posso mais viver para mim e sim para os demais. Significa que tenho que estar inteiramente disponível a tempo completo. Significa que eu devo cultivar a ternura e a bondade porque assim é o pão, terno e bom. Significa que devo estar sempre disposto ao sacrifício como o pão que se deixa triturar. Significa que devo viver sempre no amor capaz de morrer para dar vida aos demais, como o pão. Nisto se encontra o sentido da vida e a satisfação plena de nossa existência. Para isso, precisamos pedir ao Senhor, o Pão da Vida, por excelência: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Ao que Jesus nos responde: “Eu sou o Pão da vida. Quem vem a mim, não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.

P. Vitus Gustama,svd

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