sábado, 31 de outubro de 2026

 

DIA DE FINADOS

O Dia de Finados leva as pessoas às suas raízes familiares. Este dia é o dia da saudade e o dia da esperança. Talvez você derrame suas lágrimas sobre seus entes queridos e enfeite, por um dia, o túmulo de seu pai ou mãe ou de seu filho ou filha ou de seu esposo ou esposa. Neste dia você leva flores aos túmulos. Levar flores aos túmulos dos parentes parece uma obrigação de gratidão e de reconhecimento. No fundo, na realidade, está-se realizando um rito muito significativo. As flores simbolizam o jardim, o paraíso, a felicidade eterna, que todos desejam aos seus entes queridos. Neste dia também o ser humano é convidado a fazer a ação de graças pelo que Deus realizou, por sua graça naqueles que nos precederam na fé: em nossos avós, em nossos pais, irmãos, parentes e amigos, que já passaram deste mundo ao Pai. Daí brota o desejo de imitá-los, de segui-los no mesmo caminho da fé.          

Recordamos hoje de modo especial os nossos falecidos. Uma lembrança de carinho e de piedade. Cada um de nós, sobretudo depois de certa idade, tem no coração um lugar muito especial para lembrança daqueles que conviveram conosco e partiram antes de nós. A Igreja apoia essa lembrança e abre espaço grande na liturgia para que ao mesmo tempo em que rezamos por aqueles que nos precederam, nos lembremos da ressurreição deles e nossa ou seja do destino eterno que tem a criatura humana.          

A Igreja nunca pôs em dúvida a sobrevivência dos mortos ou na imortalidade da alma. Sempre rezamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos”. Isto quer dizer que nós, que peregrinamos na terra, estamos em comum união, em comunhão, com os que terminaram esta vida. Como diz o LG: “A união dos que estão na terra com os irmãos que descansam na paz de Cristo, de maneira nenhuma se interrompe, pelo contrário, conforme a fé perene da Igreja, vê-se fortalecida pela comunicação dos bens espirituais”(no.49). A Igreja sabe e sempre ensinou que a criatura humana não é criada/feita para a morte, mas para a vida. E Jesus foi claro quando disse: “Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”(Jo 11,25).            

Por isso, no dia de hoje a liturgia faz memória de todos os defuntos não para aterrorizar-nos, mas para levar-nos à sabedoria do coração, para nos fazer descobrir o verdadeiro sentido desta vida e para lembrar-nos a alegre verdade sobre a qual está fundamentada nossa fé: a ressurreição. Dizia muito bem Tertuliano, um dos padres da Igreja dos primeiros séculos: “A esperança cristã é a ressurreição dos mortos; tudo o que somos nós o somos enquanto acreditamos na ressurreição”.         

Este dia, porém, não só para os que nos precederam, mas também para nós que ainda estamos peregrinando nesta terra. A morte aumenta a nossa consciência da provisoriedade de nossa existência humana. Estamos de passagem nesta terra. Pensar na morte não é uma perda de tempo; é sim uma luz que nos ajuda a fazer escolhas justas e sensatas durante a vida. Uma coisa é falar do ter que morrer e outra é falar da graça e da virtude de saber dar à morte o seu melhor sentido. A morte deve ser um adeus sereno, uma última resposta não só à nossa condição de mortais, como também à nossa vocação à vida eterna, à vida sem fim.          

Diante dessa experiência, muitas vezes trágica e imprevista, a Igreja anuncia o Mistério Pascal que inclui a escuridão da Sexta-feira Santa e a luz da Ressurreição de Cristo. A ressurreição de Cristo coloca o ser humano na dimensão de salvação, anunciando que a vida é mais forte do que a morte, mas que a nova vida nasce da morte, assim como cada primavera nasce do inverno e cada dia é precedido pela noite. A partir da ressurreição de Cristo em quem acreditamos, não vivemos mais para morrer, mas morremos para viver; a vida não pertence mais à morte mas a morte pertence à vida.        

Diante da morte o cristão é chamado a interpretar a vida, aceitando suas dores e alegrias, os apegos e as separações, as tristezas e as esperanças. O risco é de contentar-se em existir, em vez de celebrar a vida. Fomos criados para além dos horizontes materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus(1Cor 3,16-17). Somos convidados diariamente a experimentar o que significa ser livre. A fé nos convida a valorizar o tempo, a fazer o bem para deixarmos marcas positivas no próximo, amar o que se é como dom daquele que nos criou e redimiu: Jesus Cristo, doador da vida: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”(Jo 10,10).        

A teologia da esperança nos relembra que a existência do homem tende para uma vida livre para sempre da caducidade do tempo e da morte. A esperança nos leva à verdade que nós existimos no mundo e acima do mundo, no tempo e acima do tempo, na história e para além da história. O nosso Credo termina com uma afirmação de esperança: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”. E o prefácio da missa destaca a crença cristã: “Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada...”        

O destino do homem é a união plena com Deus. E na espera desse destino, o homem vive sobre a Terra com fé. A fé  é ter confiança em Deus apesar das próprias dúvidas, ter a coragem de agir apesar dos próprios medos, esperar no amanhã apesar do sofrimento de hoje. São Paulo adverte: “Não fiquem tristes como os outros que não têm esperança”(1Ts 4,13). Tudo isso partiu da ressurreição de Cristo.        

A ressurreição de Cristo é o início de uma nova humanidade que olha as coisas e a vida com o conhecimento e os olhos de Deus. A partir dos olhos de Deus nada fica sem sentido.          

Neste Dia de Finados, cada ser humano é convidado a considerar sua peregrinação terrena não como um fim em si, mas como caminho que guia à vida sem fim: a vida com Deus. Ele também é convidado a viver sua existência cotidiana como um mistério a ser descoberto e não apenas como um problema para resolver. Quanto mais se mergulha no mistério da vida, mais se descobre o mistério do homem e o mistério de Deus.         

Somos criaturas privilegiadas, pois temos dom de saber que um dia vamos morrer. Porém ninguém tem ficha para morrer. Em qualquer hora ou dia podemos partir deste mundo independentemente da idade que cada um tem. Mas infelizmente, trata-se de um saber (da morte) não sabido. Pensamos que a morte seja do vizinho. Quem nasceu não precisa defender a existência dos pais e não é necessário provar que um dia vai morrer. Todos os que nasceram, seja qual for sua idade, já estão adultos ou prontos para morrer. Um dia deixaremos de existir e de viver neste mundo fisicamente.

Mas seja qual for este “um dia”, devemos estar conscientes de que deixar de viver não é somente falecer o corpo. Deixar de viver é deixar que a esperança em nós morra; é permitir que o desânimo nos leve para o desespero. Deixar de viver é permitir que tapemos os olhos para enxergar o horizonte maior de nossa vida. Deixar de viver é permitir que mantenhamos um coração duro para não nos sensibilizar com a dor alheia. Deixar de viver quando permitimos que pisemos sobre nossa dignidade e sobre a dignidade alheia. Deixar de viver é permitir que minha capacidade afetiva de fazer o bem para aliviar um pouco a dor do outro morra em mim. Deixar de viver é permitir a perda das oportunidades para viver com decência, com honestidade, com justiça, com amor fraterno. Deixar de viver é permitir que morram lentamente em mim os valores que edificam minha vida e minha convivência com os demais homens.

Não nos esqueçamos que vida não é somente duração. Viver não é somente durar. Não confundamos duração da vida com vivência. Não basta existir. Pois uma pedra também existe e tem duração, mas não vive. É preciso viver bem enquanto durar. Para não ser igual a uma pedra, a vida não pode ser apenas uma duração; é preciso viver e conviver na fraternidade. Eu sou o outro do outro. O tratamento que faço para com o outro é o possível tratamento que vou receber um dia. Viver é aprender a respeitar o processo cheio de suor e lágrimas rumo à vida plena em que para ser divino é preciso ser muito humano; para subir à divindade é preciso mergulhar até a profundeza da humanidade.

Por isso, para nós que ainda não partimos, vamos nos esforçar para ter um encontro feliz com o nosso Criador. Seguindo os passos de Jesus, cumprindo com fidelidade a nossa missão nesta Terra, unindo-nos aos que desejam uma sociedade com mais vida, mais fraternidade, mais amor e  mais justiça. Sejamos bênção para os outros: seja o marido bênção para a esposa e vice-versa; os pais para os filhos e vice-versa; o patrão para o funcionário e vice-versa, e assim por diante. Com tudo isso, estamos, na verdade, nos preparando para o encontro definitivo com Deus de Amor.          

Por isso, olhando para todos os túmulos, que possamos dizer: “Tudo isto vai ser vencido. Um dia, os túmulos se abrirão à voz de Deus. Mais do que para os cemitérios, caminhemos para Deus”. Que assim seja!!!!!!!!!!!!!

Para Refletir

 

Prefiro que partilhes comigo uns poucos minutos,

Agora que estou vivo,

E não uma noite inteira quando eu morrer.

 

Prefiro que apertes suavemente a minha mão,

Agora que estou vivo,

E não apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.

 

Prefiro que faças uma só chamada,

Agora que estou vivo,

E não faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.

 

Prefiro que me ofereças uma só flor,

Agora que estou vivo,

E não me envies um formoso ramo e uma coroa de flores

Quando eu morrer.

 

Prefiro que elevemos juntos ao céu um oração,

Agora que estou vivo,

E não uma oração poética quando eu morrer.

 

Prefiro que me digas umas palavras de alento,

Agora que estou vivo,

E não um dilacerante poema quando eu morrer.

 

Prefiro que um só acorde de guitarra,

Agora que estou vivo,

E não uma comovedora serenata quando eu morrer.

 

Prefiro que me dediques uma leve prece,

Agora que estou vivo,

E não um político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.

 

Prefiro desfrutar de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,

Agora que estou vivo,

E não de grandes manifestações quando eu morrer.

 

Prefiro escutar-te e ver-te um pouco nervos@

Dizendo o que sentes por mim,

Agora que estou vivo,

E não um grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....

 

Aproveitemos a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos

Agora que estão entre nós...

Valorize as pessoas que estão à tua volta.

Ama-as, respeita-as e lembra-te delas,

Enquanto estão vivas.

Deus te abençoe!        

                         

Pe. Vitus Gustama, SVD

Nenhum comentário:

  DIA DE FINADOS O Dia de Finados leva as pessoas às suas raízes familiares . Este dia é o dia da saudade e o dia da esperança . ...