DIA DE FINADOS
O Dia de
Finados leva as pessoas
às suas raízes familiares.
Este dia
é o dia da saudade
e o dia da esperança.
Talvez você derrame suas lágrimas sobre seus entes queridos e enfeite,
por um
dia, o túmulo
de seu pai
ou mãe
ou de seu
filho ou
filha ou
de seu esposo
ou esposa.
Neste dia você
leva flores
aos túmulos. Levar
flores aos túmulos
dos parentes parece uma obrigação
de gratidão e de reconhecimento.
No fundo, na realidade,
está-se realizando um rito muito significativo. As flores
simbolizam o jardim, o paraíso, a felicidade
eterna, que
todos desejam aos seus
entes queridos.
Neste dia também
o ser humano
é convidado a fazer
a ação de graças
pelo que Deus realizou, por
sua graça
naqueles que nos
precederam na fé: em
nossos avós, em
nossos pais,
irmãos, parentes
e amigos, que
já passaram deste mundo
ao Pai. Daí brota
o desejo de imitá-los, de segui-los no mesmo caminho
da fé.
Recordamos hoje
de modo especial
os nossos falecidos. Uma lembrança de carinho
e de piedade. Cada
um de nós,
sobretudo depois
de certa idade,
tem no coração um
lugar muito
especial para
lembrança daqueles que
conviveram conosco e partiram antes de nós. A
Igreja apoia
essa lembrança e abre espaço grande
na liturgia para
que ao mesmo
tempo em
que rezamos por
aqueles que
nos precederam, nos
lembremos da ressurreição deles e nossa ou seja
do destino eterno
que tem a criatura
humana.
A Igreja
nunca pôs em
dúvida a sobrevivência
dos mortos ou
na imortalidade da alma.
Sempre rezamos no Credo:
“Creio na comunhão dos santos”. Isto quer dizer que nós, que peregrinamos na terra,
estamos em comum
união, em comunhão, com
os que terminaram esta vida. Como diz
o LG: “A união dos que
estão na terra com
os irmãos que
descansam na paz de Cristo,
de maneira nenhuma se interrompe, pelo contrário, conforme a fé perene da Igreja,
vê-se fortalecida pela comunicação dos bens
espirituais”(no.49). A Igreja sabe e sempre
ensinou que a criatura
humana não
é criada/feita
para a morte, mas para a vida. E Jesus foi claro
quando disse: “Quem
crer em mim, ainda que esteja morto,
viverá”(Jo 11,25).
Por
isso, no dia
de hoje a liturgia
faz memória de todos
os defuntos não
para aterrorizar-nos, mas
para levar-nos à sabedoria
do coração, para
nos fazer descobrir o verdadeiro
sentido desta vida
e para lembrar-nos a alegre
verdade sobre
a qual está fundamentada nossa fé: a ressurreição. Dizia muito
bem Tertuliano, um
dos padres da Igreja
dos primeiros séculos:
“A esperança cristã é a ressurreição dos mortos;
tudo o que
somos nós o somos enquanto
acreditamos na ressurreição”.
Este
dia, porém,
não só
para os que nos precederam, mas
também para nós que ainda estamos peregrinando nesta terra.
A morte aumenta
a nossa consciência
da provisoriedade de nossa existência humana.
Estamos de passagem nesta terra.
Pensar na morte não é uma perda
de tempo; é sim
uma luz que
nos ajuda
a fazer escolhas
justas e sensatas durante
a vida. Uma coisa
é falar do ter que morrer e outra é falar da graça e da virtude
de saber dar à morte o seu melhor sentido.
A morte deve ser um adeus sereno, uma última
resposta não
só à nossa
condição de mortais,
como também
à nossa vocação
à vida eterna,
à vida sem
fim.
Diante
dessa experiência, muitas vezes trágica e
imprevista, a Igreja
anuncia o Mistério Pascal
que inclui a escuridão
da Sexta-feira Santa
e a luz da Ressurreição
de Cristo. A ressurreição
de Cristo coloca o ser
humano na dimensão
de salvação, anunciando que a vida é mais forte do que a morte, mas que a nova vida nasce da morte, assim como cada primavera
nasce do inverno e cada
dia é precedido pela
noite. A partir
da ressurreição de Cristo
em quem
acreditamos, não vivemos mais para morrer,
mas morremos para
viver; a vida
não pertence
mais à morte mas a morte pertence à vida.
Diante
da morte o cristão
é chamado a interpretar a vida,
aceitando suas dores
e alegrias, os apegos
e as separações, as tristezas
e as esperanças. O risco
é de contentar-se em existir,
em vez
de celebrar a vida.
Fomos criados para
além dos horizontes
materiais, pois
somos o templo do Espírito
de Deus(1Cor
3,16-17). Somos convidados diariamente a
experimentar o que
significa ser livre.
A fé nos
convida a valorizar o tempo,
a fazer o bem para deixarmos marcas
positivas no próximo, amar
o que se é como
dom daquele que
nos criou e redimiu: Jesus Cristo, doador
da vida: “Eu
vim para que todos tenham vida
e a tenham em abundância”(Jo
10,10).
A teologia
da esperança nos
relembra que a existência
do homem tende para
uma vida livre
para sempre
da caducidade do tempo
e da morte. A esperança
nos leva
à verdade que
nós existimos no mundo
e acima do mundo,
no tempo e acima
do tempo, na história
e para além
da história. O nosso
Credo termina com
uma afirmação de esperança: “Creio na ressurreição da carne
e na vida eterna”.
E o prefácio da missa
destaca a crença cristã: “Senhor,
para os que
crêem em vós,
a vida não
é tirada, mas
transformada...”
O destino do homem é a união plena com Deus. E na espera desse destino, o homem vive
sobre a Terra
com fé.
A fé
é ter confiança em Deus apesar das próprias dúvidas,
ter a coragem de agir apesar dos próprios medos,
esperar no amanhã
apesar do sofrimento de hoje. São Paulo
adverte: “Não fiquem tristes como os
outros que
não têm esperança”(1Ts
4,13). Tudo isso
partiu da ressurreição de Cristo.
A ressurreição
de Cristo é o início
de uma nova humanidade
que olha
as coisas e a vida
com o conhecimento
e os olhos de Deus.
A partir dos olhos
de Deus nada
fica sem sentido.
Neste Dia
de Finados, cada ser
humano é convidado
a considerar sua
peregrinação terrena
não como
um fim
em si,
mas como
caminho que
guia à vida
sem fim:
a vida com
Deus. Ele
também é convidado
a viver sua existência cotidiana
como um
mistério a ser descoberto e não
apenas como
um problema
para resolver. Quanto mais se
mergulha no mistério da vida,
mais se descobre o mistério
do homem e o mistério
de Deus.
Somos criaturas privilegiadas, pois temos dom de
saber que um dia vamos morrer. Porém ninguém tem ficha para morrer. Em qualquer
hora ou dia podemos partir deste mundo independentemente da idade que cada um tem.
Mas infelizmente, trata-se de um saber (da morte) não sabido. Pensamos que a morte
seja do vizinho. Quem nasceu não precisa defender a existência dos pais e não é
necessário provar que um dia vai morrer. Todos os que nasceram, seja qual for
sua idade, já estão adultos ou prontos para morrer. Um dia deixaremos de
existir e de viver neste mundo fisicamente.
Mas seja qual for este “um dia”, devemos estar
conscientes de que deixar de viver não é somente falecer o corpo. Deixar de
viver é deixar que a esperança em nós morra; é permitir que o desânimo nos leve
para o desespero. Deixar de viver é permitir que tapemos os olhos para enxergar
o horizonte maior de nossa vida. Deixar de viver é permitir que mantenhamos um
coração duro para não nos sensibilizar com a dor alheia. Deixar de viver quando
permitimos que pisemos sobre nossa dignidade e sobre a dignidade alheia. Deixar
de viver é permitir que minha capacidade afetiva de fazer o bem para aliviar um
pouco a dor do outro morra em mim. Deixar de viver é permitir a perda das
oportunidades para viver com decência, com honestidade, com justiça, com amor
fraterno. Deixar de viver é permitir que morram lentamente em mim os valores
que edificam minha vida e minha convivência com os demais homens.
Não nos esqueçamos que vida não é somente
duração. Viver não é somente durar. Não confundamos duração da vida com
vivência. Não basta existir. Pois uma pedra também existe e tem duração, mas
não vive. É preciso viver bem enquanto durar. Para não ser igual a uma pedra, a
vida não pode ser apenas uma duração; é preciso viver e conviver na
fraternidade. Eu sou o outro do outro. O tratamento que faço para com o outro é
o possível tratamento que vou receber um dia. Viver é aprender a respeitar o
processo cheio de suor e lágrimas rumo à vida plena em que para ser divino é
preciso ser muito humano; para subir à divindade é preciso mergulhar até a
profundeza da humanidade.
Por isso, para nós
que ainda
não partimos, vamos nos
esforçar para ter um encontro feliz com o nosso Criador. Seguindo os passos
de Jesus, cumprindo com fidelidade a nossa
missão nesta Terra,
unindo-nos aos que desejam uma sociedade com mais vida, mais fraternidade,
mais amor
e mais
justiça. Sejamos bênção
para os outros:
seja o marido bênção
para a esposa
e vice-versa; os pais
para os filhos
e vice-versa; o patrão
para o funcionário
e vice-versa, e assim
por diante.
Com tudo
isso, estamos, na verdade,
nos preparando para
o encontro definitivo
com Deus
de Amor.
Por
isso, olhando para
todos os túmulos,
que possamos dizer:
“Tudo isto
vai ser vencido. Um
dia, os túmulos
se abrirão à voz de Deus.
Mais do que
para os cemitérios,
caminhemos para Deus”.
Que assim
seja!!!!!!!!!!!!!
Para Refletir
Prefiro
que partilhes comigo uns poucos minutos,
Agora
que estou vivo,
E não
uma noite inteira quando eu morrer.
Prefiro
que apertes suavemente a minha mão,
Agora que
estou vivo,
E não
apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.
Prefiro
que faças uma só chamada,
Agora
que estou vivo,
E não
faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.
Prefiro
que me ofereças uma só flor,
Agora que
estou vivo,
E não me
envies um formoso ramo e uma coroa de flores
Quando eu
morrer.
Prefiro
que elevemos juntos ao céu um oração,
Agora
que estou vivo,
E não
uma oração poética quando eu morrer.
Prefiro
que me digas umas palavras de alento,
Agora que
estou vivo,
E não um
dilacerante poema quando eu morrer.
Prefiro
que um só acorde de guitarra,
Agora
que estou vivo,
E não
uma comovedora serenata quando eu morrer.
Prefiro
que me dediques uma leve prece,
Agora que
estou vivo,
E não um
político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.
Prefiro desfrutar
de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,
Agora
que estou vivo,
E não de
grandes manifestações quando eu morrer.
Prefiro
escutar-te e ver-te um pouco nervos@
Dizendo o
que sentes por mim,
Agora que
estou vivo,
E não um
grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....
Aproveitemos
a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos
Agora
que estão entre nós...
Valorize
as pessoas que estão à tua volta.
Ama-as,
respeita-as e lembra-te delas,
Enquanto
estão vivas.
Deus te
abençoe!
Pe.
Vitus Gustama, SVD
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