sábado, 6 de abril de 2013

ANUNCIAÇÃO DO SENHOR A MARIA
 

08 de Abril de 2013
Segunda-feira da II Semana da Páscoa
 
Texto de Leitura: Lc 1,26-38


Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 28O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. 34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37porque para Deus nada é impossível”. 38Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

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Alguns pensamentos para nossa reflexão nesta solenidade:


1. Na Anunciação, o Anjo de Deus não chama Maria pelo nome, mas chama-a simplesmente de “Cheia de graça”. O termograça’ significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo. Também tem outro significado: um efeito do favor divino que torna alguém belo, amável e encantador. A graça da criatura depende da graça de Deus, e não vice-versa.


As grandes promessas de Deus passam pela mulher que é Maria. Por isso, ela faz possível a esperança. Quando o homem sofre crises de morte, aparece uma mulher em estado da graça, como anúncio e promessa.


Na graça reside a completa explicação de Maria, a sua grandeza e a sua beleza. Maria encontrou graça, isto é, favor, junto de Deus; ela é cheia do favor divino. Como as águas preenchem o mar, assim a graça preenche a alma de Maria. Maria é cheia de graça também em outro sentido: ela é bela, daquela beleza que chamamos de santidade. Sendo agraciada, Maria é também graciosa.
   

Esta graça, que consiste na santidade de Maria, tem também uma característica que a coloca acima da graça de qualquer outra pessoa. A Igreja latina expressa isso com o título de “Imaculadaque significa a ausência de qualquer pecado.
 

Que significa para a Igreja, e para cada um de nós, o fato de a história de Maria começar com a palavragraça’? Significa que, para nós também, no começo de tudo, está a graça, a livre e gratuita eleição de Deus, o seu inexplicável favor, o seu vir ao nosso encontro em Cristo e doar-se a nós por puro amor. Significa que a graça é “primeiro princípio do cristianismo”. Cada um de nós tem a explicação de seu próprio ser unicamente no amor com que Deus o amou e amando criou. A salvação, em sua raiz, é graça e não resultado da vontade do homem, como diz S. Paulo: “É pela graça que fostes salvos, mediante a . E isto não é a vós que se deve; é dom de Deus” (Ef 2,8). Na cristã, antes do mandamento vem o dom. O dom que gera o dever, não vice-versa. Não é a lei que gera a graça, mas é a graça que gera a lei. A graça, de fato, é a nova lei do cristão, a lei do Espírito.
  

Maria lembra cada um de nós que tudo é graça. A graça é a característica do cristianismo, que por ela se diferencia de qualquer outra religião. A graça é a presença de Deus. As duas expressões: “cheia de graça” e “o Senhor está contigo são quase a mesma coisa. Esta presença de Deus no homem realiza-se agora em Cristo e por Cristo. De fato ele é o Emanuel, o Deus-Conosco.
 

A primeira coisa que cada um de nós deve fazer como resposta à graça de Deus é dar graças. A graça de Deus tem de ser acompanhada pelo agradecimento do homem. Dar graças significa, antes de tudo, reconhecer a graça, aceitar a gratuidade da mesma. Dar graças significa aceitar-se como devedor, como dependente; deixar que Deus seja Deus. É preciso fazer o possível para renovar cada dia o contato com a graça de Deus que está em nós. Pela graça podemos manter, desde esta vida, o contato com Deus. Precisamos crer na graça, crer que Deus nos ama, que nos é favorável de verdade, pela graça fomos salvos.


2. Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.


3. Maria é modelo de nossa vocação cristã. Como ela, um dia, aceitou a Palavra de Deus e acolheu em si o Espírito de Deus e gerou Cristo de sua carne, assim também cada um de nós, seguidores de Cristo há de realizar sua vocação aceitando docilmente a Palavra de Deus, acolhendo em sua vida o Espírito de Deus e continuando no tempo a encarnação de Cristo. Cada um tem a missão de levar Jesus e dá-lo ao mundo, pois o mundo espera pela salvação apesar de sua resistência.
        

O compromisso da vida cristã é deixar-se fecundar pelo Espírito de Deus, como Maria, escutando a Palavra de Deus que vem por meio de mensageiros, tendo em conta nossa situação e nossas forças, mas respondendo a Deus com confiança e interesse. O cristão deve deixar-se encarnar pela Palavra de Deus.


P.  Vitus Gustama,svd


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DEIXAR-SE GOVERNAR PELO ESPÍRITO DE DEUS
 
Segunda-feira da II Semana da Páscoa
Texto de Leitura: Jo 3,1-8
1Havia um chefe judaico, membro do grupo dos fariseus, chamado Nicodemos, 2que foi ter com Jesus, de noite, e lhe disse: “Rabi, sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes, a não ser que Deus esteja com ele”. 3Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus”. 4Nicodemos disse: “Como é que alguém pode nascer, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe?” 5Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. 6Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito 7Não te admires por eu haver dito: Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”.
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O evangelho fala do encontro pessoal de Nicodemos com Jesus. Nicodemos era um dirigente judeu muito representativo. Como homem de boa vontade ele ficava impressionado com as palavras e as ações de Jesus. E decidiu procurar conversar com Jesus à noite. A noite, aqui, significa a resistência para deixar-se iluminar por Jesus, como Luz do mundo (Jo 8,12) por causa de uma ideologia que se opõe ao amor gratuito de Deus pelo homem. O mundo da lei que Nicodemos representa é inimigo da vida contida no projeto de Deus. Com sua disposição de conversar com Jesus, Nicodemos se aproxima da luz que é o próprio Jesus. Quanto mais nos aproximarmos de Jesus, mais iluminada ficará nossa vida. Conseqüentemente, seremos reflexos de Deus na convivência com os demais, em vez de ser um peso para os outros.
 
 
Nicodemos começa a conversa com o seu reconhecimento de que Jesus vem de Deus: “Rabi sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes a não ser que Deus esteja com ele”. Aquele que se preocupa com o bem do próximo ou de todos só pode ser uma pessoa de Deus. Toda ação feita pelo bem da humanidade, ou pela fraternidade é feita sob o impulso do Espírito de Deus embora aquele que a faz não tenha consciência disso: “Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos”, disse Jesus na conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7,17-18).
 
 
Diante das palavras de Nicodemos, Jesus afirma: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. Na Antiguidade, havia a idéia de que, para entrar numa nova religião ou num sistema filosófico, era preciso «renascer». Hoje diríamos que é preciso mudar de mentalidade. Mas o que Jesus quer enfatizar é o nascimento “do alto” ou de Deus. Aquele que nasce de Deus vive sob o impulso do Espírito Santo e sempre se renova. O poder de Deus é capaz de romper com o passado porque é possível esperar de Deus uma vida nova e uma nova força que ninguém pode segurar.
 
 
Por isso, Jesus acrescenta outra afirmação: “O vento sopra para onde quer”. Para o homem antigo o sopro do vento era algo totalmente misterioso. O vento não pode ser segurado, não pode ser colocado num punho e ninguém pode estabelecer sua direção. Jesus usa essa comparação para quem é nascido do Espírito. Aquele que é dominado pelo Espírito de Deus e vive de acordo com seu impulso, não vive sob cálculos humanos, porque sua pessoa e sua existência se fundam em Deus e no Espírito divino. Como dizia Shakespeare: “Sabemos o que somos, mas não o que podemos ser”. Aquele que se deixa conduzir pelo Espírito de Deus terá muitas surpresas de Deus na sua vida. É uma existência que participa do sopro do Espírito e, portanto, de Deus. Os renovadores são pessoas otimistas. Eles vivem profundamente no presente com um olhar de confiança para o futuro.
 
 
Mudança, renovação e transformação são o código do mundo avançado, no entanto nem sempre queremos mudar. Quando estamos felizes, desejamos que o relógio pare, que nada mude: queremos parar o tempo, “imobilizar” o instante fugido. Apenas mudamos quando estamos mal (necessidade) ou quando tememos uma piora. Mas quem quer avançar profissionalmente ou espiritualmente é preciso adotar o código do mundo avançado: renovação, mudança e transformação. “Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.
 
P. Vitus Gustama,svd
 
 
 
 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

II DOMINGO DA PÁSCOA

JESUS RESSUSCITADO DEVE OCUPAR O LUGAR CENTRAL NA VIDA DOS HOMENS PARA QUE HAJA A PAZ NA CONVIVÊNCIA
 
 
 
 
 Domingo,07 de Abril de 2013

Texto : Jo 20,19-31

 
19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26Oiito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mais fiel”. 28Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” 30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
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I. APARIÇÃO DE JESUS SEM TOMÉ


A cena do evangelho deste dia acontece em Jerusalém num lugar não especificado. A tradição o identificou, embora não tenha fundamento, com o Cenáculo, a sala de cima na qual os discípulos se reuniram antes de Pentecostes (At 1,13), e onde fora instituída a Eucaristia (Lc 22,12). Jo só nos relatou que os discípulos estavam reunidos num mesmo lugar para sublinhar o caráter eclesial da aparição. A primeira unidade do evangelho de hoje (Jo 20,19-23) narra sobre a aparição do Ressuscitado aos discípulos sem a presença de Tomé.


1. Jesus vem nos trazer a paz conquanto ele deve estar no meio de nós


O relato diz que as portas estão fechadas por medo dos judeus. “Todos os homens têm medo. Todos. Aquele que não tem medo não é normal, isso nada tem a ver com a coragem”, escreveu Sarte. “Sem o medo nenhuma espécie teria sobrevivido”, acrescentou G. Delpierre.


Realmente, a segurança fica cada vez mais distante de nós hoje em dia. Os homens perdem cada vez mais o direito de ir e de vir. Praticamente como se não fôssemos dono das coisas que conquistamos pelo nosso trabalho duro de cada dia. Perdemos o direito de usar as coisas que são nossas, fruto de nossa conquista. Todos têm medo de andar na rua de “rolex” na mão ou muito dinheiro no bolso, ou um colar de ouro no pescoço. O muro de um prédio ou casa fica cada vez mais alto com intuito de impedir um pouco a invasão dos estranhos. As câmeras podem ser vistas em qualquer canto vigiando os que entram e saem num e dum prédio. Mas todas são feitas por um ser humana o que sugere a sua precariedade. Todos começam, por isso, a ter saudade dos tempos antigos em que podiam ficar na rua numa noite de lua cheia sem medo nem preocupação. É uma saudade do paraíso perdido pela própria culpa do ser humano. O Pecado expulsa de nossa convivência a beleza do Paraíso da fraternidade. Conseqüentemente o ser humano se torna cada vez mais estranho para si e para os outros. Ele vive suspeitando qualquer outro desconhecido por causa da insegurança. O outro não é mais considerado como irmão, mas como uma ameaça. “A necessidade de segurança é, portanto, fundamental; está na base da afetividade e da moral humanas. A insegurança é símbolo de morte e a segurança símbolo da vida. Mas se ultrapassa uma dose suportável, ele se torna patológico e cria bloqueios. Pode-se morrer de medo, ou ao menos ficar paralisado por ele”, afirma Jean Delumeau. Nas cidades grandes tem-se impressão de que o medo já ultrapassou uma dose suportável. “O medo é um inimigo mais perigoso do que todos os outros” (Simenon). O medo constitui uma das maiores ameaças à vida; impede que a vida seja desfrutada e vivida em sua tranqüilidade. O medo impede a criatividade e põe em perigo a esperança.


Será que temos ainda alguma esperança de encontrar algum meio para arrancar todo este medo que ultrapassou uma dose suportável? A Bíblia conhece somente um meio pelo qual o coração humano se pode defender do medo: a fé em Deus. Só Deus é a rocha. As outras seguranças desiludem. Somos desafiados, por isso, a viver e a mostrar este Deus, Pai de todos para que a fraternidade universal volte a ser marca de uma convivência humana. Mas enquanto Deus continuar a ser marginalizado (ficar na margem de nosso coração), o medo e a insegurança  permanecerão na convivência humana.


O motivo do medo não é novo no quarto evangelho (cf. Jo 7,13;9,22;12,42). Os discípulos experimentaram amplamente o medo dos judeus. Seu Mestre foi executado e eles corriam risco de receber o mesmo castigo. O medo é uma emoção-choque, freqüentemente precedida de surpresa, provocada pela tomada de consciência de um perigo presente e urgente que ameaça.  Normalmente o medo provoca efeitos como: a aceleração dos movimentos do coração ou sua diminuição; uma respiração demasiadamente rápida ou lenta; um comportamento de imobilização ou uma exteriorização violenta etc. Nessa situação, para os discípulos, ter medo era ser realista.


Certamente nessa situação Jesus apareceu no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.  A paz, shalom, é a palavra que os judeus usam até hoje como uma saudação comum. A idéia bíblica de paz, shalom, é rica. Significa muito mais que a cessação de violência e conflito. É o estado para o qual o mundo foi criado por Deus. É a melhor descrição de como será o Reino de Deus: um “lugar” de segurança, justiça e verdade; “lugar” de confiança, inclusão e amor; “lugar” de alegria, felicidade e bem-estar. Talvez possamos traduzir  a palavra “shalom” para o português com a expressão: “Tudo de bom para você!”


O “A paz esteja convosco” de Jesus, aqui neste texto, não é um desejo, e sim uma declaração. Ele  vai além de um cumprimento por causa daquilo que Jesus proclamou na última ceia: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vos dou a paz como o mundo  ” (Jo 14,27). A própria presença de Jesus Ressuscitado oferece aos discípulos essa paz maravilhosa, pois essa é, agora, a experiência de Jesus. Seu sofrimento ficou atrás, e ele agora habita na paz de Deus. Jesus ressuscitado vem libertar os seus. Ele é fiel, pois cumpriu aquilo que ele tinha prometido: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (Jo 14,18). Aquele que se sente desamparado, aquele que está desorientado, aquele que se sente perdido deve escutar e refletir a verdade dessa promessa da presença de Jesus ressuscitado: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. A paz voltará para a convivência, se houve um lugar central para Jesus na convivência.


Sejam órfãos no sentido literal da palavra, sejam aqueles órfãos de sentido, de carinho, de reconhecimento, de amor etc., todos encontrarão o amparo em Jesus Cristo. Procuremos este Amparo para que não sejamos órfãos de tudo. Não é por acaso que o evangelista João usa esta expressão “pôr-se no meio (centro) deles” (v.19). Isto quer dizer que Jesus deve ser o centro de nossa vida, deve ser o centro da vida da comunidade, pois ele é a fonte da vida, ele é o tronco dos galhos (cf. Jo 15,1-8), ele é o ponto de referência, o fator da unidade (cf. Jo 17,11.21-22). Para que uma comunidade se torne cristã, ela deve estar centrada em Jesus Cristo e somente nele.  Somente quando Jesus se torna centro de uma comunidade, evitar-se-á todo tipo de disputa desnecessária, a não ser somente uma disputa para servir. Sem este centro ficaremos órfãos, desamparados e perderemos a segurança. Além do mais a presença do outro se torna sempre uma ameaça e não mais uma presença de um irmão ou de uma irmã, quando Jesus Cristo não se torna único centro para todos.


Os discípulos são convidados a superar o medo e a abrir-se à fé; só assim tornam-se disponíveis para o dom da paz e da alegria, os dois dons que Jesus lhes tinha prometido no seu discurso de despedida (cf. Jo 14,27;16,33). A paz e a alegria são o dom do Cristo Ressuscitado, mas também condição para reconhecê-lo.


Ao contar a reação dos discípulos, Jo escreveu: “Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (v.20b). O uso deste título-padrão “Senhor” pós-ressurreição é o mais próximo que João podia empregar para nos dizer que os discípulos acreditavam. Certamente “crer” no Senhor é o objetivo principal do Evangelho de João.


2. Missão de Jesus é a missão dos discípulos que tem origem no Pai


O que se segue é a missão dos discípulos: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo 3,31-34;5,30;7,17s.28;8,16.28s.42;12,44s;16,28). A missão provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo. O envio dos discípulos implica tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo conhecer seu nome e manifestando seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o Pai esteve presente com Jesus na sua missão, assim os discípulos não estarão nunca sozinhos no cumprimento de sua missão (cf. Mt 28,20).  O uso do termo “como” aqui (vv.17.18.20.21), por isso, expressa ao mesmo tempo semelhança e causalidade. A missão dos discípulos deve ser uma continuação da missão de Jesus que tem como modelo na missão de revelação e de salvação que Jesus recebeu do Pai (cf. Jo 3,17.34;5,36.38;6,57 etc.). Isto significa que os discípulos devem seguir o caminho que Jesus percorreu, devem agir como Jesus agiu, servir como ele serviu, perdoar como ele perdoou; ou simplesmente pode-se dizer que devem amar como ele amou (cf. Jo 13,34; 15,12). Trata-se, por isso, de uma única missão.
  

Aqui a ressurreição está vinculada à missão. Os discípulos são chamados e enviados para ser testemunhas do anúncio da morte que foi vencida. A Igreja surge ao redor dessa fé na ressurreição. Os discípulos são enviados para proclamar a verdade de que não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de Jesus, e sim somente uma vida que tem como características: vida de doação, de serviço, de perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus. Somente assim, o cristão possuirá a vida eterna ressuscitada. Ser enviado significa ser pessoa que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de amor, de reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão, o enviado, fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem que cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.


3. O sopro de Jesus é o sopro da vida
 

“Dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (v.22). O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O Criador “insuflou no homem um sopro que faz viver” (Sb 15,11;Ez 37,9). Assim como na primeira criação o sopro de Deus trouxe a vida ao ser humano, à sua imagem e semelhança, assim também a dádiva de Jesus de seu próprio Espírito torna os discípulos filhos de Deus, à semelhança do Filho. Agora eles nasceram do Espírito (cf. Jo 3,5). O sopro de Deus no Gênesis deu vida; o sopro de Jesus dá vida eterna. “Soprar” , por isso, quer dizer dar vida a quem não a tem. Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro de Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem (cf. Jo 3,3-8), capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos seus(cf. 5,26.21); e seu sopro é o da vida eterna. 
  

4. A participação dos discípulos no poder de Jesus ressuscitado de perdoar
 

João relata a dádiva do Espírito por Jesus com poder sobre o pecado: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v.23). Jesus foi enviado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29; cf. 1Jo 2,1-2). Agora Jesus compartilha esse poder com seus discípulos. A descrição deste poder se relaciona ao fato de que a vinda de Jesus produzirá um julgamento (krisis) na medida em que as pessoas optarem pelas trevas ou pela luz, de modo que alguns serão condenados e outros, não (cf. Jo 3,18-21).  Jesus se assemelha tanto a Deus, a ponto de as pessoas que o encontram serem levadas a um auto-julgamento. Do mesmo modo, os discípulos devem se assemelhar a Jesus para que aqueles que os encontram sejam levados também a um auto-julgamento similar. Neste sentido, representar Cristo em um grau que força as pessoas a tomarem uma decisão em suas vidas é um tremendo poder. A outorga do poder de perdoar os pecados, repetida duas vezes, é formulada de maneira tipicamente semita. A frase acima dita por Jesus (v.23) significa que o poder de perdoar dado por Ressuscitado à sua Igreja é total e definitivo. Os discípulos representam, em Jo, todos os cristãos futuros: as palavras que Jesus lhes dirige coletivamente visam sempre aos fiéis em geral. Do ponto de vista exegético, não se pode limitar aos “Onze” e aos seus “sucessores” a mediação do perdão divino que o Ressuscitado confia à comunidade dos seus, menos ainda porque esta palavra segue-se imediatamente depois daquela sobre o dom do Espírito Santo.


Para Jo o pecado fundamental é a recusa do Logos libertador. E essa recusa se manifesta através do medo e a busca da própria glória (Jo12,42s), da mentira (Jo 8,44), do ódio (Jo 15,18-25), do assassinato do Justo (Jo 7,19;8,40 e cf. 19,11). Estes princípios frustram o projeto criador e levam o homem à sua própria condenação. O pecado é opção que frustra o desígnio divino sobre o homem, privando-o da vida. O pecado cria assim uma situação de morte. O homem que faz a opção pelo pecado condena-se com ela à morte. O pecado é a solidariedade com o mal. Essa solidariedade opõe-se à solidariedade do bem criada por Jesus. Mas a salvação divina prevaleceu sobre as trevas e alcançou doravante todo ser humano, pela mediação dos discípulos. No contexto joanino, é o próprio Jesus que por meio dos seus discípulos, exerce o ministério do perdão (Jo 14,12. 20). A formulação em forma positiva e negativa vem do estilo semítico, que exprime a totalidade por um par de opostos. “Perdoar/manter” significa aqui a totalidade do poder misericordioso transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos. A forma passiva “serão perdoados/retidos” referente ao efeito obtido implica que Deus é o autor do perdão. Pode-se dizer que no momento em que a  comunidade perdoa, Deus mesmo perdoa.


II. A APARIÇÃO DE JESUS AOS DISCÍPULOS COM TOMÉ (Jo 20,24-29)


1. A incredulidade e a profissão de fé de Tomé 


A segunda unidade fala do episódio com Tomé. É exclusivo de Jo. Tomé foi retratado em Jo 11,16 e 14,5 como uma figura não facilmente persuasível. Ele é um seguidor fino ou sutil mas é lento em captar o mistério da pessoa de Jesus, pois ele procura provas concretas e claras de fé(Jo 11,16;14,5).


O texto nos diz que “ Tomé não estava com eles quando Jesus apareceu”(v.14). Ele está ausente da comunidade não só em sentido próprio, mas também no figurado. Com intransigência, ele rejeita o testemunho pascal dos outros discípulos que viram o Senhor. Recusar o testemunho da ressurreição é romper com a comunidade. Por esta recusa Tomé estraga sua própria alegria e ele se torna um isolado e decepcionado. Uma pessoa que se isola não tem como curá-la. As pessoas decepcionadas têm logo a tendência a criticar duramente nos outros aquilo que mais ardentemente desejaram para si mesmas, e que não puderam conseguir. A inveja torna a pessoa amarga. A pessoa se fecha no passado, incapaz de superá-lo. A dificuldade de Tomé é ter permanecido na Paixão quando a Ressurreição mudou tudo. Ele vive nas trevas do passado e recusa o hoje radioso. Por isso, ele se torna um isolado. Uma pessoa isolada não pode ser ajudada. Só ao sair do isolamento é que ela pode ser ajudada.


Os discípulos, que viram Jesus ressuscitado em Jo 20,19-23, fazem exatamente o mesmo relato que Maria Madalena fizera a eles: “Vimos o Senhor!”(Jo 20,18.25). Mas Tomé foi inflexível ao recusar-se a acreditar na palavra deles: “Se eu não vir... e puser meu dedo... não acreditarei”(v.25b). Na verdade, outros evangelistas relatam também dúvidas dos discípulos depois da ressurreição(cf. Mt 28,17;Mc 16,11.14;Lc 24,11.41), mas somente o evangelista João dramatiza a dúvida de modo tão pessoal em um só indivíduo. A atitude de Tomé em pedir provas foi condenada por Jesus em Jo 4,48: “Se não virdes sinais e prodígios, não crereis”. O Jesus de João não rejeita a possibilidade de que sinais(milagres) e prodígios levem o povo à fé, mas rejeita sinais(milagres) que exijam o cumprimento absoluto de condições. Neste relato Tomé é apresentado como um discípulo pré-pascal, pois ele exige o aspecto miraculoso da aparição de Jesus(Jo 4,48). Como Natanael, Tomé rejeitou a fé dos outros discípulos que tinham “visto o Senhor”(v.25;1,45-46).Tomé não só não aceita o testemunho dos que viram Jesus, mas põe condições para crer. Para ele a ressurreição não aconteceu e ele acha que ele tem razão e o resto está enganado. Tais exigência revelam a teimosia e a auto-suficiência de Tomé. Ele pretende ter razão sozinho contra o testemunho de todos os outros. A teimosia, geralmente, costuma pagar caro.


Apesar da decepção e da dúvida que ele tem, no coração de Tomé ainda sobrevive o sentimento ou o desejo de ver o Senhor. Embora, para ele,  voltar ao grupo  signifique curvar a cabeça. Mas justamente no lugar de cura é que alguém tem coragem de mostrar as feridas. Diante de um médico é que uma pessoa tem coragem de falar das doenças.   


Nesse encontro quem toma a iniciativa é Jesus. Depois de saudá-los, Jesus logo convida Tomé a colocar dedo nas suas feridas dos pregos. Nessa altura, na sua experiência pessoal com Jesus, Tomé somente é capaz de dizer: “Meu Senhor e meu Deus” (v.28). A profissão de fé de Tomé encerra uma série de confissões feitas ao longo do Evangelho de João: por Natanael (1,49), pelos samaritanos(4,42), por Pedro(6,69), pelo cego de nascença(9,38), por Marta(11,27). ”Senhor” e “Deus” (Yahweh Elohim) são nomes para Deus no AT (Sl 35,23). Isto quer dizer que a fé pascal de Tomé reconhece Deus em Jesus ressuscitado. Na verdade, o evangelista já reconhece a divindade de Jesus desde o prólogo do seu evangelho: “No princípio era o Verbo... e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). A resposta de Tomé em sua profissão de fé chama de volta as palavras de Jesus para si próprio e para Filipe: “Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai...Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,7.9).  Como Natanael, o seu firme cepticismo se transforma numa suprema profissão de fé depois que ele teve uma experiência pessoal com Jesus (v.28; 1,45-49). A profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus” é a maior profissão de fé no Evangelho de João. A resposta de Tomé é tão extremada como sua incredulidade. Ao chamá-lo “meu Senhor”, Tomé reconhece o amor de Jesus e o aceita, expressando ao mesmo tempo sua total adesão. Tomé reconhece em Jesus o acabamento do projeto divino sobre o homem e o toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus) e reconhece em Jesus o servo glorificado em pé da igualdade com o Pai (Deus).
  

Esta confissão de fé no fim do Evangelho de João faz um elo com o prólogo (Jo 1,1). A ironia final do Evangelho é que o discípulo que mais duvidou faz a mais alta da profissão de fé e diz a expressão da mais alta avaliação de Jesus, proferida em qualquer Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus”. No prólogo o evangelista afirma que a Palavra era Deus (Jo 1,1). Agora, por uma inclusão, ele mostrou como foi difícil para os seguidores de Jesus chegarem à tal visão. Tomé tem sido lembrado como o homem que duvida por excelência; todavia, as últimas palavras de Jesus para ele, em resposta à sua profissão de fé, constituem um invejável elogio: “Tu acreditaste” (v.29a).


3. A bem-aventurança dirigida a Tomé e a todos os que crêem em Cristo


Tomé acreditou quando foi desafiado pelo Mestre a realizar seu projeto de investigação para acabar com a incredulidade. O louvor final para a fé, no entanto, é estendido por Jesus àqueles que tinham acreditado sem ver a presença corporal: “Felizes os que, sem terem visto, creram!” (v.29b). Esta é a única bem-aventurança explícita referente à fé no Evangelho de João (compare Jo 13,17). Além desta bem-aventurança, somente há em todo o NT mais uma bem-aventurança referente à fé: “Feliz és tu que creste...” (Lc 1,45) dita por Isabel a Maria. A autenticidade da fé não é verificada por experiências extraordinárias, como pretendia Tomé, mas pelas práticas concretas de comunhão (Tomé antes afastou-se da comunidade), de amor (que é o maior mandamento  do Senhor cf. Jo 15,12), e de serviço aos irmãos como Jesus enfatizou no lava-pés (Jo 13,14-17). Por isso, esta bem-aventurança está ao alcance de todos. Ela privilegia os que crêem sem ter visto. Esta bem-aventurança é dirigida aos cristãos de todos os tempos. Portanto ela é dirigida também a mim.  Tenho que estar consciente de que para Jesus sou feliz porque creio nele como o Senhor da minha vida.  Exageradamente posso dizer que eu deveria gritar diante do mundo que sou feliz, sou bem-aventurado pelo fato de eu acreditar nAquele que dá sentido à minha existência, Aquele se chama “Meu Senhor e meu Deus”. No evangelho de João, nenhum maior louvor pode ser dado a Jesus do que a frase “Meu Senhor e meu Deus”; e nenhum maior louvor pode ser dado aos seguidores de Jesus do que a frase “Felizes os que, sem terem visto, creram!”. Através desta fé, a profecia de Oséias 2,25 é cumprida: “Um povo que antigamente não era um povo disse: ‘O Senhor é meu Deus’”. O próprio evangelista João afirma que através daquela fé, os seguidores de Jesus “têm a vida em seu nome” (Jo 20,31).
  

Na verdade, não precisamos mais de outros sinais ou aparições. É basta abrir o Evangelho, descobrir o sentido profundo da Palavra de Deus e crer em Jesus para ter a vida em abundância(Jo 20,31), pois Jesus é a maior revelação do Pai. Crendo, começaremos ver o mundo com olhos diferentes, começaremos a perceber sentido na proposta de Jesus. A fé produz um modo novo de ver, traz uma nova escala de valores. A carta de São João diz que a vitória que vence o mundo é a fé(1Jo 5,4). Essa fé é que dá força para viver a partilha, mesmo quando a sociedade vive de acumular e explorar o próximo. Não se pode viver em paz enquanto outros sofrem e têm carência do essencial. Não sobra espaço onde cada um só pensa em si. Crer em Jesus é apostar a vida naquilo que ele propôs, mesmo quando não vemos logo um resultado. Ele nos diz que seremos felizes se acreditarmos nele. Mas também nos convida a levar a outros essa capacidade de crer e viver o evangelho. Pedro nos oferece um paralelo em sua primeira carta: “ Sem tê-Lo visto, vós o amais “(1Pd 1,8). Este amor pede coragem porque jamais vimos Jesus histórico; e esta fé exige generosidade, porque não há mão que possamos segurar a não ser a mão de Deus. Que esta fé se realize na vida de cada um de nós e por nós na vida de muitos outros pois somos carta viva do Senhor ressuscitado, como diz São Paulo: “Evidentemente, sois uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações!”(2Cor 3,3).

 
P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 4 de abril de 2013

SER DISCÍPULO-MISSIONÁRIO DE JESUS RESSUSCITADO

Sábado da I Semana da Páscoa
06 de Abril de 2013
 
Textos de Leitura: At 4,13-21; Mc 16,9-15

 
9Depois de ressuscitar, na madrugada do primeiro dia após o sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios. 10Ela foi anunciar isso aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e chorando. 11Quando ouviram que ele estava vivo e fora visto por ela, não quiseram acreditar. 12Em seguida, Jesus apareceu a dois deles, com outra aparência, enquanto estavam indo para o campo. 13Eles também voltaram e anunciaram isso aos outros. Também a estes não deram crédito. 14Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo, repreendeu-os por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado. 15E disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”

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Todos os especialistas concordam que o texto lido neste dia foi acrescentado ao evangelho de Marcos posteriormente para preencher a ausência das aparições de Jesus após a ressurreição, as quais relataram os outros evangelhos e outros textos do Novo Testamento. A exegese moderna reconhece a canonicidade deste texto, mas nega sua autenticidade como o de Marcos. O próprio evangelho de Marcos termina em Mc 16,8. Esse acréscimo aconteceu ainda na época apostólico.


O texto nos relatou que a aparição de Jesus aos Onze discípulos aconteceu durante a refeição. A refeição é o momento fraterno, momento de partilha durante o qual se estreitam os laços de amizade, de família e de fraternidade mesmo que a qualidade daquilo que se come e se bebe esteja longe de seu valor nutritivo. O momento da refeição é o momento sagrado. É o momento de dar graças a Deus pela terra, criada por Deus, que produz o alimento e pela colaboração do homem em cultivar a terra para produzir alimentos para todos. Por isso, a ausência de um membro da família é bastante sentida nesses momentos, especialmente nos dias comemorativos. Um dos sacramentos instituídos por Jesus é, precisamente, o sacramento da “refeição fraterna” chamado de Eucaristia. É preciso que a nossa participação na Eucaristia reflita nossas refeições familiares e fraternas em nossa família. E que a Eucaristia da qual participamos reflita também nas nossas refeições familiares e na convivência mais fraterna com os demais.


Durante a refeição é que o Senhor deu aos Onze discípulos o mandato de anunciar a Boa Nova para o mundo inteiro (toda criatura): “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  O mandato de ir pelo mundo inteiro para evangelizar dado durante a refeição nos quer enfatizar que toda a atividade de evangelização deve ser feita no espírito de fraternidade e familiaridade, pois todos nós somos filhos e filhas do mesmo Pai celeste pela participação na filiação divina de Jesus Cristo que nos deu o mandato de proclamar a Boa Nova aprofundando nosso laço de fraternidade entre todos. Graças aos Apóstolos chegou até nós a Boa Nova.


Os apóstolos são testemunhas da grande mensagem da ressurreição e sua pregação está em torno da ressurreição do Senhor. E os apóstolos se defenderam com valentia diante do tribunal como lemos nos Atos dos Apóstolos. A fé e o contato cotidiano com a Palavra de Deus são capazes de transformar os mais humildes em homens valentes e seguros de si mesmos. É a valentia que nasce da liberdade da fé. Os apóstolos (acusados) eram gente simples e sem cultura, mas os homens seguros e valentes, intérpretes da Escritura e pregadores que passaram de acusados para acusadores. Não havia ordens nem ameaças capazes de os fazerem calar porque a força irresistível de Deus estava com eles. Os seus adversários se encontraram em nítida dificuldade ou em beco sem saída, e pretendiam ocultar fatos. Mas os fatos, como a cura do coxo (cf. At 4,13-21), falam ou se argumentam por si mesmos. Negar os fatos tão evidentes é considerar-se como mentiroso, cego ou manipulador, fruto de um autoritarismo e arrogância que por trás de tudo isso se esconde algum interesse pessoal ou coletivo, ou sente-se ameaçado nos seus negócios interesseiros. Mas quem vive no bem e do bem reconhece facilmente a presença da verdade onde estiver. Viver de acordo com a verdade é viver na liberdade e na leveza: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Quem vive de acordo com a Palavra de Deus vive na verdade e conforme a verdade. Mas a verdade é para ser dita com caridade a fim de ganharmos os outros para Deus e para o bem maior.


Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”. Os Onze discípulos que saem para proclamar o evangelho pelo mundo são uns indivíduos duplamente culpáveis. São culpáveis de ter abandonado o Mestre durante a Paixão. São culpáveis também pela sua incredulidade depois da ressurreição, como relatou o evangelho de hoje. Precisamente para estes discípulos é que Jesus de este mandato: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  É levar a mensagem que não pertence aos discípulos, mas pertence a Jesus Cristo. Isto significa que eles devem se apoiar totalmente em Jesus Cristo permanentemente para ser fieis à mensagem do Senhor. Se não se apoiar em Jesus Ressuscitado acontecerão novamente a traição e a incredulidade. Quem prega não é porque seja melhor e mais inteligente do que os demais e sim por reconhecer-se pecador que recebeu o perdão de Deus e por ser incrédulo que foi libertado da incredulidade.


Olhando para a vida e a experiência dos Onze não temos mais razão para não levar adiante o mandato missionário do Senhor. Para você, para mim, para nós Jesus também diz: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”.


Para Refletir:


“Ao chamar os seus para que o sigam, Jesus lhes dá uma missão muito precisa: anunciar o evangelho do Reino a todas as nações (cf. Mt 28,19; Lc 24,46-48). Por isso, todo discípulo é missionário, pois Jesus o faz partícipe de sua missão, ao mesmo tempo, que o vincula como amigo e irmão. Dessa maneira, como ele é testemunha do mistério do Pai, assim os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor até que ele retorne. Cumprir essa missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã, porque é a extensão testemunhal da vocação mesma (144).


Quando cresce no cristão a consciência de pertencer a Cristo, em razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de comunicar a todos o dom desse encontro. A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf. At 1,8). (145)


Bento XVI nos recorda que "o discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como as duas faces da mesma moeda: quando o discípulo está apaixonado por Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só ele nos salva (cf. At 4,12). De fato, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro". Essa é a tarefa essencial da evangelização, que inclui a opção preferencial pelos pobres, a promoção humana integral e a autêntica libertação cristã [146] (Documento de Aparecida da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 144-146).

P. Vitus Gustama,svd
JESUS RESSUSCITADO ESTÁ PRESENTE NO NOSSO COTIDIANO
CONTAR COM JESUS NO NOSSO TRABALHO
 
Sexta-feira da I Semana da Páscoa
 05 de Abril de 2013
 
Texto de Leitura: Jo 21,1-14


Naquele tempo, 1Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: 2Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus. 3Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”. Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. 4Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. 5Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”.  6Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. 7Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu uma roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. 8Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. 9Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. 10Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes; e, apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu. 12Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor.  13Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe. 14Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos.

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Os especialistas (biblistas) concordam que Jo 21 foi acrescentado posteriormente por causa da dificuldade da ordem literária e exegética. Mas, qual é a intenção do redator ao acrescentar este capítulo ao evangelho de João? Dizem que o interesse do redator é falar de dois personagens importantes: Pedro e o discípulo amado. A aparição de Jesus ressuscitado serve apenas como pretexto para falar dos dois discípulos não na sua dimensão individual e sim na sua dimensão representativa. Pedro representa a autoridade; o discípulo amado de Jesus, a base comunitária. Estas observações partem do conjunto dos textos em que aparecem ambos os personagens. A base comunitária é quem descobre antes Jesus e a autoridade é que deve estar à escuta da comunidade que tem a experiência do encontro com Jesus.


Depois que Jesus morreu, os discípulos voltaram à sua vida anterior como simples pescadores. Pedro foi pescar acompanhado por outros discípulos. Mas foi um fracasso total naquela noite. Nada apanharam. Peixe não pescado para um pescador significa uma ameaça para a sobrevivência, porque a vida deles depende dos peixes. Creio que qualquer um já passou por esse tipo de experiência triste, uma experiência de decepção no trabalho, no casamento, na educação dos filhos ou na vida em geral. Felizmente o Senhor conhece nossas decepções, por mais que tentemos escondê-las, e Ele quer se aproximar de nós, embora não reconheçamos sua presença porque não contamos ainda com ele nos nossos planos, conversas e atividades.
 

A pesca aqui é figura da missão. A noite, no contexto de atividade, significa a ausência de Jesus que é a Luz do mundo (Jo 8,12). A missão, a iniciativa de Pedro, não produz fruto, pois não conta com Jesus ou não trabalhou no espírito de Jesus.


Já tinha amanhecido e Jesus estava de pé na margem”, comenta o evangelista João. A luz da manhã coincide com a presença de Jesus, na praia, limite entre a terra e o mar, que representa “o mundo” onde se exerce a missão. Jesus fica na terra firme; sua ação se exerce por meio dos discípulos. Concentrados em seu próprio esforço inútil, não reconheceram Jesus.


A nova forma da presença de Jesus não vai por caminhos de brilho e de poder, nem sequer pelos caminhos de situações extraordinárias. No trabalho duro e infrutuoso de cada dia; na tarefa obscura e monótona (pescar de noite) também é possível encontrar o Senhor. Jesus se interessa pelos problemas de cada dia. A iniciativa de aproximar-se dos apóstolos parte de Jesus mostrando seu interesse pela vida cotidiana com seus problemas (pesca infrutuosa).


Os apóstolos viram Jesus que “estava de pé na margem” do lago. Ver o Corpo de Cristo ressuscitado não é para os apóstolos uma simples visão passiva de um objeto e sim é uma misteriosa chamada para uma missão: fazer Jesus efetivamente presente em todos os momentos e em todos os homens do mundo atual e futuro. Jesus está na margem do lago e nos chama. Jesus não deveria ter necessidade de nos chamar. Deveríamos nos dirigir até Jesus. Mas Jesus tem piedade de nossa debilidade e nos chama para ouvir suas orientações e para contarmos sempre com Ele em todas as nossas atividades.


Jesus se aproxima dos discípulos com um termo de afeto: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”. Conscientes de seu fracasso, eles contestam secamente: “Não!”. Mas depois que ouviu a Palavra do Senhor e seguiu a indicação de Jesus, a pesca se tornou imediata e abundante.


O Senhor se aproxima de nós quando planejamos nossa ação pastoral para nos convidar a escutarmos sua Palavra e a trabalharmos, não à margem dele e sim conforme Sua vontade. Somente assim poderá acontecer uma “pesca” abundante e totalmente firmes em nossa fé em Jesus Cristo, pois não trabalharemos para nosso brilho e sim para o brilho do Reino de Deus aqui na terra.


Diante do surpreendente resultado, o discípulo predileto logo reconhece Jesus. Pedro (cf. Jo 13,23; 18,15; 20,2), que não está ainda disposto a dar a vida com Jesus, não O reconhece. Para indicar a mudança de atitude de Pedro é utilizada aqui uma linguagem simbólica: a oposição entre desnudez-vestido e a ação de atirar-se para a água: “Pedro vestiu a roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar”. Para o primeiro simbolismo, a chave está na frase de Jesus no lava-pés: “Jesus levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,4-5). Essa toalha para Jesus significava seu serviço até a morte. Pedro estava nu. Isto significa que não tinha adotado a atitude de Jesus, e por isso, a missão não produz fruto. Com a frase “atirou-se ao mar”, Pedro agora mostra sua disposição a dar a vida como Jesus. Agora é que Pedro começou a entender o significado do lava-pés que ele não o entendia (cf. Jo 13,6-10). Jesus já tinha dito a Pedro no lava-pés: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás” (Jo 13,7). É o único que se atirou ao mar, por ser o único que negou Jesus. Nessa narração Jesus, não responde ao gesto de Pedro, se dirige ao grupo.


Aqui aprendemos que Jesus chamou os apóstolos conhecendo seus defeitos. Mas Jesus confiou neles e os formou com paciência e contou com o tempo para fazê-los idôneos para a missão que eles deviam desempenhar. Através do batismo também recebemos do Senhor a tarefa de levar adiante a missão de apresentar os outros para o Senhor apesar de sermos pessoas cheias de fraquezas e defeitos. O Senhor continua contando com nossa colaboração. Cabe a nós ser bons canais pelos quais chega a graça de Deus para os outros e ser facilitadores da ação do Espírito Santo no nosso próximo. 


O grupo dos discípulos viu o fogo e a comida que Jesus preparou. Isto significa que Jesus é o pão da vida (Jo 6,51) para nossa vida. Sem ele nada poderemos fazer (Jo 15,5).


Na praia Jesus pede o fruto do trabalho: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”. Há dois alimentos: aquilo que Jesus lhes oferece que é sua própria pessoa, sua vida, e aquilo que os discípulos oferecem a Jesus: o amor exercido na missão os leva ao dom de si que alimenta a comunidade. Em cada Eucaristia devem estar presentes o dom de Jesus aos seus e o dom de uns aos outros. E “Todos nós recebemos da Sua plenitude graça sobre graça”, diz o prólogo de João (Jo 1,16).


Será que estamos com a veste de Jesus na nossa vida diária como cristãos? Ou precisamos “nos atirar ao mar da vida de Jesus, como Pedro, para que nossa vida se torne um bem para os outros? Será que contamos com Jesus nas nossas atividades pastorais e missionárias? Quem não contar com Deus é porque não sabe contar.


P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

VIVER NO AMOR E NA SABEDORIA DE DEUS Quarta-Feira da XXIV Semana Comum Primeira Leitura: 1Cor 12,31-13,13 (Ano Par) Irmãos, 12,31 Aspi...