quinta-feira, 6 de julho de 2023

10/07/2023-Segundaf Da XIV Semana Comum

CRER NO DEUS ONIPRESENTE E ONIPOTENTE

Segunda-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 28,10-22ª

Naqueles dias, 10 Jacó saiu de Bersabeia e dirigiu-se a Harã. 11 Chegando a certo lugar, quis passar ali a noite, pois o sol já se havia posto. Tomou uma das pedras do lugar, fez dela travesseiro e ali mesmo adormeceu. 12 E viu em sonho uma escada apoiada no chão, com a outra ponta tocando o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela. 13 No alto da escada estava o Senhor que lhe dizia: “Eu sou o Senhor, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaac; darei a ti e à tua descendência a terra em que dormes. 14 A tua descendência será como o pó da terra, e te expandirás para o ocidente e o oriente, para o norte e para o sul. Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra. 15 Estou contigo e te guardarei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”. 16 Ao despertar, Jacó disse: “Sem dúvida, o Senhor está neste lugar e eu não sabia”. 17Cheio de pavor, disse: “Como é terrível este lugar! Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”. 18 Jacó levantou-se bem cedo, tomou a pedra de que tinha feito travesseiro e a pôs de pé para servir de coluna sagrada, derramando óleo sobre ela. 19 E deu ao lugar o nome de “Betel”. Antes, porém, a cidade chamava-se Luza. 20Jacó fez um voto, dizendo: “Se Deus estiver comigo e me proteger nesta viagem, dando-me pão para comer e roupa para vestir, 21 e se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus. 22ª E esta pedra que ergui como coluna sagrada, será uma ‘morada de Deus’”.

Evangelho: Mt 9, 18-26

18 Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, inclinou-se profundamente diante dele, e disse: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. 19 Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto. 21 Ela pensava consigo: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”. 22 Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada a partir daquele instante. 23 Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão alvoroçada, 24 e disse: “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo”. E começaram a caçoar dele. 25 Quando a multidão foi afastada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. 26 Essa notícia espalhou-se por toda aquela região.

------------------ 

O Deus Do Universo Se Encontra Em Qualquer Lugar 

Jacó “viu em sonho uma escada apoiada no chão, com a outra ponta tocando o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela. ´Sem dúvida, o Senhor está neste lugar e eu não sabia’”.

 Jacó roubou o direito da primogenitura do seu irmão, Esaú (Cf. Gn 27, 1-40). Por isso, Esaú quer matar seu irmão, Jacó (Cf. Gn 27,41-45). Por medo de Esaú, Jacó fugiu de casa. Ao chegar num lugar ele dormiu. Jacó ignorou a sacralidade do lugar onde ele dormiu. Mas nesse lugar ele teve uma visão de Deus, como contou a Primeira Leitura de hoje (Gn 28,10-22). 

A cena é bela. Jacó sai de seu país; chega a qualquer lugar desconhecido, toma uma pedra que serve de almofada e ali dorme. Jacó descobre que seu Deus é um Deus universal, presente em todo lugar. Em todo lugar da terra há “comunicação” entre o homem e Deus: este é o significado da escada simbólica pela qual sobem e descem os anjos: “Viu em sonho uma escada apoiada no chão, com a outra ponta tocando o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela”.  O grande projeto de Deus é estabelecer entre Deus e os homens umas relações pessoais.     

Jacó, como a maioria de seus contemporâneos, pensava que Deus era o “Deus” de um lugar, unido à Terra Prometida. Logo, ao viajar fora do “seu” território, perdia-se sua presença e sua proteção. E ocorria frequentemente que se rendia culto ao “deus local”, para receber seus favores. Com esta visão Jaco percebe que Deus é Onipresente. 

“Como é terrível este lugar! Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”, disse Jacó depois que acordou do seu sonho. O lugar onde Jacó se encontrava era o lugar comum. Não era um santuário nem um espaço sagrado no sentido habitual da palavra. Era um rincão do deserto. Porém, “Sem dúvida, o Senhor está neste lugar e eu não sabia”, disse Jacó. 

No fundo, não há espaço profano. Em todo lugar há uma Presença Divina, mesmo que as pessoa ignorem esta Presença, pois Deus é onipresente (cf. Mt 28,20). A cozinha onde se prepara a comida para a família, o local onde eu trabalho, a fábrica onde eu ganho meu pão de cada dia, o campo onde trabalho e semeio, a piscina onde tomo meu banho, a cama onde eu descanso, o hospital onde eu me encontro doente, a escola onde eu estudo para preparar o meu futuro e assim por diante, são lugares onde Deus está.  “Deus está no palpitar intato de cada novo ser.... Está no conjunto de sentimentos que vibram em todo o ser da mulher que acaba de ser mãe...Deus está ali, naquele cantinho mais secreto da tua vida, aonde ninguém chega, em que uma voz que não sabes donde vem, nem para onde vai, te diz o que não querias ouvir, te recorda o que desejarias ter esquecido, te profetiza o que nunca desejarias saber. Nessa voz que não ouves, mas que te desaprova. Nessa voz que não é tua, mas que nasce em ti e que nem o sono, nem o barulho, nem a bebida, nem a carne conseguem fazer calar...Está nesse abismo profundo da tua incredulidade...Está na paz do lago sereno das tuas lágrimas quando te reconcilias com a tua consciência e que te dá a sensação de renasceres...Deus está nessa força misteriosa que nos mantém vivos, que nos impede de enlouquecer, que nos evita o suicídio depois de certas provas dramáticas da vida, depois de certos desgostos mais cruéis e trágicos do que a morte...Deus está sobretudo onde reina o amor” (Juan Arias: O Deus Em Quem Não Creio). 

A cena de hoje, com a escada misteriosa que une céu e terra, pela qual sobem e descem os anjos e que conduz até Deus, parece que tem uma primeira intenção: justificar a origem do santuário de Betel, no reino de Norte. Jacó ergueu um altar para Deus e chama àquele lugar “Casa de Deus”, que é o significado da palavra “Betel”. Todos os lugares sagrados das diversas culturas se erguem a partir de alguma aparição sobrenatural ou de um fato religioso significativo mais ou menos histórico. No fundo, os povos mostram sua convicção da proximidade de Deus e de Sua proteção contínua ao longo da história: “Estou contigo e te guardarei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”, prometeu Deus a Jacó. Mais tarde o Senhor Jesus afirmará: “Eis que Estou com vocês todos os dias até o fim do dumndo” (Mt 28,20). 

Mas, sobretudo, esta cena quer legitimar, de alguma maneira, a linha da promessa de Deus que começou por Abraão e Isaac, e que deveria seguir através de Esaú, mas que agora passa por Jacó ainda que por meio de intrigas, armadilhas e mentiras. As palavras de Deus a Jacó são quase idênticas às que escutara Abraão: “Eu sou o Senhor, Deus... todas as nações se chamarão benditas por causa de tu e de tua descendência. Eu estou contigo”. Desde agora, Deus (Javé) será para os judeus “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”.

“Estou contigo e te guardarei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi!”. Quanto nos custa nos convencer disto! Deus nunca nos abandona mesmo que nos sintamos abandonados. É necessário termos muita fé em todos os momentos de nossa vida sobre a presença misteriosa de Deus na nossa vida cotidiana, porém real. “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo” (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica). 

E este Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó continua escrevendo reto nas linhas torcidas, pois os caminhos de Deus continuam sendo misteriosos. Deus atua com liberdade absoluta na hora de escolher seus colaboradores na história da salvação. Inclusive, das debilidades e das falhas humanas Deus tira proveito para levar adiante a salvação da humanidade. Muitas dessas pessoas, como Jacó, se mostram disponíveis a este projeto de Deus e aceitam ser seu colaboradores da salvação. Você não tem desculpa sobre suas fraquezas e limitações. Deus precisa de você e você pode! 

Jesus É o Deus-Conosco Que Salva 

1. Um Chefe Que Suplica a Jesus Pela Filha Morta: Jesus É a Ressurreição e a Vida 

Os dois episódios no evangelho de hoje (uma menina morta que voltou a viver e uma mulher curada de sua hemorragia) se encontram também em Marcos (Mc 5,21-43) e em Lucas (Lc 8,40-56). 

Em Mateus, no primeiro episódio, aquele que se aproxima de Jesus que suplica pela filha morta não tem nome. Simplesmente ele é “um chefe”. Não se diz que é um chefe da sinagoga como em Marcos e Lucas nos quais se fala de Jairo. Este chefe que manifesta sua fé em Jesus nos leva ao episódio do centurião que pediu a cura para seu empregado (Mt 8,5-13). Mas o caso do chefe é grave, pois trata-se da filha morta. 

Neste primeiro episódio do evangelho deste dia Jesus se encontra, então, diante da morte de uma menina e o pai desta pede a Jesus para impor sua mão sobre ela a fim de ela voltar a viver: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. Trata-se de um pobre chefe esmagado pela dor: a morte de sua filha. Há situações diante das quais a força humana (chefe) fica impotente, como diante da morte. Nessas situações só a fé é que pode nos ajudar, como fez o pai da menina falecida. É algo surpreendente a confiança posta por esse homem em Jesus. É uma verdadeira fé no impossível, pois a filha está morta: fé no poder de Jesus de fazer sua filha voltar a viver. Lá onde a força humana terminar, a fé a continuará. Jesus não se resiste a este tipo de oração. “Jesus se levantou e o seguiu junto com seus discípulos”, assim relatou Mateus. 

Quando chegou à casa da menina morta, Jesus disse à multidão: “Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Morrer é descansar em paz nos braços do Pai celeste. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante. Para Jesus, a morte não tem o caráter temível e definitivo. Para ele, a morte é uma espécie de “sono” do qual Deus tem o poder de despertar. Se para Jesus a morte não tem nenhum caráter temível, pois é apenas uma passagem para uma vida eterna, deve ser também para quem quiser segui-lo. O cristão é chamado a proteger a vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois Deus é a Vida por excelência e por isso, chama todos à vida, especialmente para aqueles que vivem no desespero e na falta de esperança. A menina morta voltou a viver por causa do poder de Jesus. 

Quem é este “chefe”? Ele não tem nome nem determinada função (se é chefe de sinagoga ou se é chefe dos judeus ou se é chefe do sinédrio). Ele é simplesmente um chefe.  Pode ser qualquer um de nós, pois, de alguma forma, cada um é chefe: seja dentro da família, seja fora dela (na sociedade). Uma pessoa pode ser muito importante (“chefe”) entre os homens ou muito poderosa do ponto de vista humano, mas ela precisa também de salvação. O poder mundano não salva, pois diante da morte tudo que é humano cai no chão. O brilho falso tem seu fim. Somente Deus salva e nos garante a vida eterna. Do ponto de vista humano, paradoxalmente, o aparente superpotente ou superpoderoso é, na verdade, impotente. Mas “quando me sinto fraco, então é que sou forte”, escreveu São Paulo à comunidade de Corinto (2Cor 12,10). 

Um ser humano precisa de outro ser humano para possibilitar seu crescimento como ser humano. Podemos possuir tudo que o mundo tem a oferecer em termos de status, de poder (chefe), realizações e bens, no entanto, sem nos sentirmos integrados, tudo isso parece vazio e inútil. A integração (viver em comunidade como irmãos/família) sugere calor, compreensão e abraço. Quando ficamos isolados, estamos propensos a ser prejudicados. Sentir-se integrada mantém a pessoa em equilíbrio. Sempre que há distância, há também anseio. 

E o ser humano, enquanto criatura, precisa do Salvador que dá sentido para tudo na sua vida. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. E, o homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus só encontrará a dor”. Nas suas Confissões, Santo Agostinho rezou: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te; conhecer-Te ou invocar-Te. Mas quem Te invocará sem Te conhecer? (...) Que eu Te busque, Senhor, invocando-Te; e que eu Te invoque, crendo em Ti: Tu nos foste anunciado” (Conf. 1,1). 

2. Mulher Curada Da Hemorragia 

Dentro do primeiro episódio Mateus insere outro episódio: uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos. Em primeiro lugar, essa mulher não tem nome, nem se menciona sua família nem sua tradição. Menciona-se, além disso, seus doze anos de sofrimento! O número “doze” aplicado aos anos de sua enfermidade é clara alusão a Israel. A mulher enferma representa, então, o povo que para que seja salvo (cura) é preciso renunciar à Lei para entrar em contato direto com Jesus. Jesus seria “impuro”, isto é, não tem acesso a Deus (salvação) por seu contato com os “pecadores” (Mt 9,10-13). Mas Jesus é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20) que vem para salvar. Para encontrar a salvação nele é preciso se aderir a ele e fazer contato com ele. 

Segundo o texto do evangelho de hoje essa mulher não pede nada e não diz nada a Jesus. Mas ela mostra sua fé total em Jesus. A fé dessa mulher é comparável à do chefe do primeiro episódio; sua certeza de cura é total. Ela somente pensa e silenciosamente se aproxima de Jesus para tocar a barra do seu manto: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”, pensou essa mulher. Jesus tinha curado o leproso com seu contato (Mt 8,15). 

A mulher que sofre de hemorragia se aproxima e toca a orla do manto de Jesus. Este gesto era proibido na cultura judaica. Uma mulher não podia olhar para um homem em público, muito menos tocá-lo. A situação fica pior ainda porque a mulher está com a hemorragia que pode causar a impureza legal para a pessoa tocada. Por ser mulher e pela sua enfermidade essa mulher estava duplamente excluída. Mas ela não quer saber das proibições. Ela quer encontrar-se com Jesus e tocar seu manto. Ela não quer ser escrava das regras e dos costumes desumanos. Pois de fato, as regras culturais e de culto a afasta da convivência e da salvação. Manter contato com os outros torna a vida mais leve.

Quantas pessoas são escravas das regras. A graça produz as regras, mas as regras não produzem a salvação, pois elas são apenas meios e não o fim. Os costumes que não salvam, não podem ser mantidos. 

Jesus reconhece nessa mulher a fé que transforma sua situação triste em alegria por encontrar o Salvador, Jesus: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. O termo “filha” coloca essa mulher em relação com “a filha” do chefe. Ambas são figuras de Israel. A partir de então, a mulher voltou a viver sua vida saudavelmente.

Os dois: chefe cuja filha estava morta e a mulher que sofria de hemorragia há doze anos, se aproximam de Jesus com muita fé e obtêm o que pedem. Eles confiam, se apoiam e se abandonam totalmente em Jesus.  E receberam uma resposta adequada da parte de Jesus: a volta da filha para a vida e a cura da mulher sofrida de hemorragia de longos anos. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus no homem. Mas a novidade do Reino trazido por Jesus não é somente a cura, mas principalmente a ressurreição ou a salvação. Se Deus é a Vida (cf. Jo 14,6), a morte jamais acaba com a vida. Estar com Deus plenamente significar estar vivo eternamente. A morte física é apenas uma passagem: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, viverá, ainda que esteja morto” (Jo 11,25). 

A dor daquele pai e o sofrimento daquela mulher podem ser um bom símbolo de todos os nossos males, pessoais e comunitários.  Também agora, como em sua vida terrena, Jesus nos quer atender e nos quer encher de sua força e de sua esperança. É preciso manter nosso contato diário com Jesus para que sejamos curado, vivos e salvos. Na Eucaristia ele mesmo se dá como alimento, para que, quando nos aproximamos dele e o recebemos com fé, possa curar também nossos males. Mas a cura-salvação não é um toque mágico e sim um encontro de pessoas com Jesus. É o encontro com Jesus na fé que cura e salva, e somente depois do encontro é que Jesus diz as seguintes palavras: “A tua fé te salvou!”.

P. Vitus Gustama,SVD

quarta-feira, 5 de julho de 2023

XIV Domingo Comum "A",09/07/2023

 

AOS SIMPLES DEUS PAI SE REVELA

XIV Domingo Comum “A”

I Leitura: Zacarias 9,9-10

Assim diz o Senhor: 9 “Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém! Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta. 10 Eliminará os carros de Efraim, os cavalos de Jerusalém; ele quebrará o arco de guerreiro, anunciará a paz às nações. Seu domínio se estenderá de um mar a outro mar, e desde o rio até os confins da terra”. 

II Leitura: Rm 8,9.11-13

Irmãos: 9Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. 11E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós. 12Portanto, irmãos, temos uma dívida, mas não para com a carne, para vivermos segundo a carne. 13Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis.

Evangelho: Mt 11,25-30

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: 25 “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

-----------------

No texto do Evangelho deste Domingo, o evangelista Mt reuniu três sentenças de Jesus que provavelmente tiveram uma origem independente (fonte Q) 

1ª. Uma oração de louvor ou de ação de graças (vv.25-26) que vem logo depois das ameaças de Jesus contra as cidades da Galileia (Mt 11,20-24). 

2ª. Fala da revelação de caráter profundamente cristológica (v.27). Esta sentença explica em que consiste a revelação aos simples.

3ª. Na terceira sentença (vv.28-30) encontramos algo muito parecida ao convite a fazer-se discípulo da sabedoria que lemos nos livros sapienciais: vende a mim (Eclo 24,19;51,23); tomai meu jugo (Eclo 6,24s;51,26); encontrareis descanso (Eclo 6,28). Jesus apresenta-se aqui como a Sabedoria de Deus que convida os homens a virem a ele (v.28) para que vivam com sabedoria.

Oração De Louvor Ao Pai

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”. Jesus é homem de oração. No Evangelho de hoje encontramos Jesus rezando.

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”. Geralmente distinguimos na oração: o louvor, a petição e a ação de graças. Na realidade, na Bíblia se falam frequentemente do louvor e da ação de graças num mesmo movimento da alma e no plano literário, nos mesmos textos.

Deus se revela digno de louvor por todos os seus benefícios para com o homem. O louvor e a ação de graças suscitam as mesmas manifestações exteriores de gozo, sobretudo no culto, confessando as grandezas de Deus.

Os cânticos de louvor, nascidos em uma explosão de entusiasmo, multiplicam as palavras para tratar de descrever a Deus e suas grandezas: cantam a bondade de Deus, sua justiça (Sl 145,6s), sua salvação (Sl 71,15) seu auxilio (1Sm 2,1), seu amor e sua fidelidade (Sl 89,2; 117,2), sua glória (Ex 15,21), sua fortaleza (Sl 29,4), seu maravilhoso desígnio (Is 25,1) seus juízos libertadores (Sl 145,7), todas as suas obras (Sl 92,5s) e assim por diante.

Este louvor ou ação de graças ao Pai expressa uma experiência: já faz tempo que o Mestre evangeliza, e seus discípulos também tinham sido enviados para a missão evangelizadora e se encontraram com todo tipo de pessoas: os que os acolheram e os que os recusaram. Jesus agradece ao Pai, pois foram os pequenos, os simples que se abriram ao anúncio: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”.

O louvor de Jesus se dirige ao Pai como “Senhor do céu e da terra”. No texto do Evangelho de hoje Jesus pronuncia a palavra “Pai” cinco vezes. Jesus recusado percebe, apesar de tudo, a presença do Pai que se revela aos pequenos. O ato de Jesus chamar a Deus de Pai (Abba) reflete a confiança e proximidade que tem com ele. Na presença do Pai, Jesus se sente confiante e seguro. Os primeiros cristãos conservaram essa palavra: “Abba” (Mc 14,36; Gl 4,6s; Rm 8,15), que se encontram detrás de quase todas as orações de Jesus (Mc 14,36 e par.; Jo 12,27s;17; Lc 23,34.46). 

Jesus fala do Pai como “Senhor do céu e da terra”, isto é, Aquele que domina o universo porque Ele é o seu Criador, mas que não atua como “dono” prepotente. Porque o Pai é Aquele que se inclina para os pequenos, que se deleita na pequenez, que ama o simples, que defende os pobres, os oprimidos, que ouve e sente o grito do sofrimento dos injustiçados e dos excluídos que também são filhos Seus. Quando os pequenos olham para Ele, o Pai se revela a eles. A simplicidade é uma porta aberta para a revelação de Deus. A simplicidade-humildade é um terreno fértil onde a graça e a bênção do Pai se multiplicam.

Somente quem contemplar profundamente a grandeza do universo e da vida em si, somente quem viver na simplicidade e na humildade, fará o louvor a Deus e viverá em ação de graças permanentemente. O universo ou a natureza em si é uma das portas para chegar ao amor ilimitado de Deus pela humanidade. E somente quem se sente filho diante do Deus-Pai é capaz de viver confiante e seguro. Diante do pai presente, qualquer filho se sente seguro e tranquilo. É assim que Jesus quer que nos sintamos como filhos diante de Deus, nosso Pai.

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. Deus quer que os homens não se ocupem de si mesmos para que ele possa ter espaço neles para suas graças, pois aquele que se enche de si não sobra espaço nem para Deus nem para os outros. Em outras palavras, que os homens voltem a ser simples.

Jesus É a Personificação Da Sabedoria

A palavra “sabedoria” provém do latim “sapere” que quer dizer ter inteligência, ser compreendido. Mas propriamente significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor, capacidade desenvolvida de saborear. Etimologicamente, da palavra “sapere” derivam duas palavras: “saber” e “sabor”, duas palavras que indicam o mesmo: um saber que sabe saboreando a vida. É um saber que saboreia o fruto da vida, não um saber teórico sobre a vida. É o testemunho do experimentado, a experiência da vida mesma, de seu sabor de viver.

“Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

Neste pequeno fragmento, Jesus aparece como a Sabedoria personificada: “Tudo me foi entregue por meu Pai”.  O Pai se revela por meio dele e Jesus realiza em si mesmo o que o AT dizia sobre a Sabedoria. Ele ilumina os simples e é sempre Ele, pois “A sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado” (Sb 1,4) e por isso, “escondeste estas coisas aos sábios e entendidos”.

“Os sábios e entendidos” alude a Is 29,14 em que Deus recrimina o povo por sua hipocrisia na relação com Ele, pois honra-O somente com os lábios, mas está longe seu coração. Os sábios e entendidos não captam o sentido das obras de Jesus por causa de sua autossuficiência. Os “simples” não têm esse obstáculo. Ao contrário, eles têm facilidade de entender a revelação de Deus na sua vida.

A simplicidade (grego, haplótes) designa a sinceridade, a franqueza, o falar sem segundas intenções, inequívoco, claro. Para o judaísmo, a vida do homem sábio tem uma orientação clara; obediente à lei e está isento da dualidade interior, com coração inteiro (não dividido). A bondade faz parte da simplicidade porque ela é uma qualidade do coração (coração não dividido).

O simples não se louva nem se despreza. Ele é o que é, sem desvios, sem afetação, faz o que faz, mas não vê nisso matéria para discursos ou para comentários. É a vida sem mentiras, sem exagero, sem grandiloqüência. É a verdadeira vida. Ele acolhe o que vem, sem nada guardar como coisa sua. Ele ocupa-se do real, não de si. O presente é sua eternidade e o satisfaz. Ele é aquele que não simula, não presta atenção em si nem na sua imagem ou reputação. Ele não calcula, sem artimanhas nem segundas intenções. Ele aprende a desprender-se: de  tudo e de si mesmo. Ele é como uma rosa que não tem porquê: floresce porque floresce, não se preocupa consigo, não deseja ser vista e não se preocupa com quem vai admirá-la. De certa forma, poderíamos dizer que ele é o próprio desprendimento. O simples sempre é sincero, mas nem sempre o sincero é simples, pois a sinceridade sem simplicidade é exibicionismo ou cálculo. Se para Deus tudo é simples, para o simples tudo é divino. Por isso, a simplicidade é a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos.

O Jugo De Jesus É Leve: Chamada Ao Seguimento

“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

E a 3ª sentença (vv.28-30) é muito parecida ao convite a fazer-se discípulo da sabedoria que lemos nos livros sapienciais: vende a mim (Eclo 24,19;51,23); tomai meu jugo (Eclo 6,24s;51,26); encontrareis descanso (Eclo 6,28). Jesus apresenta-se aqui como a Sabedoria de Deus que convida os homens a virem a ele (v.28).

As chamadas de Jesus formuladas como exigência (o evangelho do XIII Domingo Comum “A”), encontram hoje um complemento importante. A chamada hoje tem tom de acolhida e de descanso. É uma chamada preparada pela Primeira Leitura que apresenta “rei justo e vitorioso, modesto e cavalgando num asno, que entra em Jerusalém.

“Tomai sobre vós o meu jugo..., pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (v.29), disse Jesus.

No seu sentido literal, o jugo é uma barra pesada feita de madeira que é posta e presa nos ombros (nucas) dos animais (boi: 1Sm 11,7; Jó 1,3; vaca: 1Sm 6,7; ou cavalos/burros: Is 21,7). Pôr o jugo sobre um boi significa usá-lo pela primeira vez, daí profaná-lo. Enquanto os bois destinados para o uso sagrado, por ex., para puxar a arca (1Sm 6,7) ou para expiar um homicídio (Dt 21,3ss) não podiam ter sido atrelados ao jugo.

No seu sentido figurado, o jugo é símbolo da submissão tanto no sentido positivo como no negativo. O jugo pode simbolizar a submissão a Javé, neste caso ele tem sentido positivo (Jr 2,20). O jugo pode ter um sentido negativo: opressão (Gn 27,40; Lv 26,13;1Rs 12; 2Cr 10; Is 9,3;14,25; Jr 30,8;10,27;Os 11,4); o jugo pode ser a dependência de um escravo no sentido literal (1Tm 6,1) ou religioso no sentido de escravo da Lei judaica (At 15,10;Gl 5,1); o jugo é também o símbolo da imposição de uma carga pesada, uma submissão forçada à tirania, mostrando soberania de quem manda (2Cr 10). Na LXX, “jugo” frequentemente assume o sentido de justiça. O vocábulo grego para “jugo”, zugos, também pode ser o contrapeso no prato da balança. Pode haver falsos “pesos” (zugoi), que permitam às pessoas enganarem ou roubarem no mercado ou no comércio. O livro de Provérbios fala de um peso justo (zugos) que tem o favor de Deus (Pr 11,1), e os pesos falsos desagradam a Deus (Mq 6,11; Ez 45,10).          

“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo...Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” é o convite de Jesus. Trata-se aqui (cansados e fatigados sob o peso) da opressão moral e religiosa, provocada pelo formalismo de uma religião estéril. Os “cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos” aqui são os pobres e famintos, ignorantes e pequeninos, os míseros e os doentes. Além do peso de sua vida oprimida e trabalhosa, eles carregam também a carga de uma interpretação insuportável da Lei, uma carga insuportável de centenas de determinações detalhadas da Lei interpretadas pelos escribas e fariseus. Ninguém conseguia cumpri-las, nem os próprios escribas e fariseus (Mt 23,4). O legalismo judaico era sufocante, uma moral sem alegria. Assim, a religião fica longe de ser motivo de liberdade e alegria, pois ele é reduzida a uma carga pesada. O ser humano se torna animal, pois a quem se impõe “jugo” e “carga”, se não aos animais?         

Pelo contrário, o jugo de Jesus é suave e a sua carga é leve. Os adjetivos “suave” e “leve” não invalidam os substantivos “jugo” e “carga”. Jugo suave e carga leve não falam do laxismo (doutrina que restringe excessivamente a obrigação moral, do latin “laxare” = tornar frouxo, relaxar), mas de prática possível. O cristianismo e a moral cristã não são uma imposição. A lei de Cristo é libertação, é lei de liberdade, lei do Espírito que dá vida, lei de relação filial com Deus, Pai Nosso e amigo da vida. Ao lado de Cristo, todas as fadigas se tornam amáveis e tudo o que poderia ser mais custoso no cumprimento da vontade de Deus se suaviza. Quem se aproxima de Jesus, encontrará repouso para suas aflições. Jesus veio, certamente, para libertar o ser humano de todo tipo de escravidão, mostrando-se manso e humilde de coração e recusando-se a multiplicar normas religiosas. Jesus reduziu tudo ao essencial: amor e misericórdia. A religião torna-se, assim, prazerosa por respeitar a liberdade e ser humanizadora.

Jesus, Revelação e Fonte Da Mansidão          

O modo de viver de Jesus e sua maneira de tratar ao povo com compaixão e misericórdia nos indica claramente que Jesus é a revelação suprema da mansidão de Deus (Is 42,1-4/Mt 12,18-21). Por isso, Jesus é a fonte da nossa mansidão: “...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (v.29). 

O humilde é aquele que tem o sentido da total doação a Deus; o manso é a pessoa boa nas relações com os outros. Jesus se proclama o Mestre “manso e humilde de coração”, pois ele é totalmente aberto a Deus e bom com os outros a ponto de compartilhar de sua existência. E Jesus declara bem-aventurado quem vive a mansidão: “Bem- aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,4). E segundo o Eclesiástico, além da fé, o que agrada a Deus é a mansidão (Eclo 1,34). Por tudo isso, a palavra “mansidão” é elevada. Ela é fruto do Espírito (Gl 5,23) e sinal da presença da sabedoria do alto (Tg 3,13.17). É a virtude a ser invocada e conquistada por quem pretende seguir fielmente a Jesus manso.          

Todos nós sabemos como é fácil combater a ira com a ira, a cólera com a cólera, a raiva com a raiva. A mansidão, pelo contrário, rompe esse círculo vicioso, cumprindo aquilo que é justo diante de Deus. A mansidão é a força que resiste e domina a ira, transformando-a, no máximo, em uma excitação justa para acabar com aquilo que não serve. A ira à qual a mansidão se opõe aqui é aquela excitação que quer o mal do outro, ou seja, a cólera no sentido negativo e destrutivo. A mansidão é a virtude que modera a ira e conserva a caridade. Quem a possui, é amável, prestativo e paciente. Até os pecadores mais endurecidos não resistem diante de quem tem a virtude de mansidão. A um coração manso e humilde como o de Cristo, os homens se abrem. A mansidão sabe esperar o momento oportuno e matiza os juízos e impede que falemos ou comentemos precipitadamente ou usemos palavras ferinas.          

Por isso, a mansidão não é característica dos fracos; pelo contrário, ela exige uma grande fortaleza de espírito. A mansidão é uma atitude submissa a Deus baseada na fé em sua misericórdia e compaixão. Aquele que é dócil a Deus, é manso para com os outros, especialmente para os necessitados. A mansidão é a arma dos fortes.          

Da falta dessa virtude provém as explosões de mau humor, irritação, frieza, impaciência, violência e ódio entre as pessoas que vão corroendo gradativamente amor.          

Somos convidados a escutar atentamente o convite de Jesus para imitá-lo na sua mansidão: “...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, encontrareis descanso para vossas almas...” (v.29). Imitar Jesus na sua mansidão é o remédio contra as nossas irritações, impaciências e faltas de cordialidade e de compreensão. Esse espírito sereno e acolhedor somente alcançaremos a partir do momento em que procurarmos permanecer em Jesus, revelação e fonte da mansidão, como ele sempre está com o Pai.

Para tudo isso se tornar possível, há uma chave principal: o amor, tanto como um dom recebido de Deus, pois ele nos amou primeiro (1Jo 4,19), como uma responsabilidade (cf. Jo 15,12), como Cristo que se dá a si mesmo a Deus e aos irmãos (cf. Jo 15,13). Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Pela experiência sabemos que quando se ama de verdade muitas coisas se tornam fáceis e suportáveis e que seriam difíceis e até insuportáveis sem o amor. O amor torna tudo leve. Por amor um pai ou uma mãe é capaz de fazer até o impossível.          

Depois de ouvir o convite de Jesus “venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar suas cargas pesadas”, vem pergunta: como você está? Como tem passado ultimamente? Sente-se cansado, desanimado, abatido por qualquer negócio malfeito, por qualquer doença em casa, por falta de entusiasmo ou de objetivos? Talvez você não tenha experimentado ainda ser simples como Jesus pede. Não se sinta arrogante que acha que já sabe de tudo, por isso não precisa de ajuda de ninguém. É melhor parar para verificar seu barco que talvez esteja furado e pode afundar a qualquer momento. Jesus está oferecendo ajuda. Não tenha medo de recomeçar!

P. Vitus Gustama,SVD

terça-feira, 4 de julho de 2023

08/07/2023-Sábado Da XIII Semana Comum

CONFIAR EM DEUS EM TODOS OS MOMENTOS, POIS ELE É SOBERANO

Sábado da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 27,1-5.15-29

1 Quando Isaac ficou velho, seus olhos enfraqueceram e já não podia ver. Chamou, então, o filho mais velho Esaú, e lhe disse: “Meu Filho!” Este respondeu: “Aqui estou!” 2 Disse-lhe o pai: “Como vês, já estou velho e não sei qual será o dia da minha morte. 3 Toma as tuas armas, as flechas e o arco, e sai para o campo. Se apanhares alguma caça, prepara-me um assado saboroso, 4 como sabes que eu gosto, e traze-o para que o coma, e assim te dar a bênção antes de morrer”. 5 Rebeca escutava o que Isaac dizia a seu filho Esaú. Esaú saiu para o campo à procura de caça para o pai. 15 Rebeca tomou, então, as melhores roupas que o filho mais velho tinha em casa, e vestiu com elas o filho mais novo, Jacó. 16 Cobriu-lhe as mãos e a parte lisa do pescoço com peles de cabrito. 17 Pôs nas mãos do filho Jacó o assado e o pão que havia preparado. 18 Este levou-os ao pai, dizendo: “Meu pai!” “Estou ouvindo”, respondeu Isaac. “Quem és tu, meu filho?” 19 E disse Jacó a seu pai: “Eu sou Esaú, teu filho primogênito; fiz como me ordenaste. Levanta-te, senta-te e come da minha caça, para me abençoares”. 20 Isaac replicou-lhe: “Como conseguiste achar assim depressa, meu filho?” Ele respondeu: “É o Senhor teu Deus que fez com que isso acontecesse”. 21 Isaac disse a Jacó: “Vem cá, meu filho, para que eu te apalpe e veja se és ou não meu filho Esaú”. 22 Jacó achegou-se a seu pai Isaac, que o apalpou e disse: “A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú”. 23 E não o reconheceu, pois suas mãos estavam peludas como as do seu filho Esaú. Então, decidiu abençoá-lo. 24 Perguntou-lhe ainda: “Tu és, de fato, meu filho Esaú?” Ele respondeu: “Sou”. 25 Isaac continuou: “Meu filho, serve-me da tua caça para eu comer e te abençoar”. Jacó serviu-o e ele comeu; trouxe-lhe depois vinho e ele bebeu. 26 Disse-lhe então seu pai Isaac: “Aproxima-te, meu filho, e beija-me”. 27 Jacó aproximou-se e o beijou. Quando Isaac sentiu o cheiro das suas roupas, abençoou-o, dizendo: “Este é o cheiro do meu filho: é como o aroma de um campo fértil que o Senhor abençoou! 28 Que Deus te conceda o orvalho do céu, e a fertilidade da terra, a abundância de trigo e de vinho. 29 Que os povos te sirvam e se prostrem as nações em tua presença. Sê o senhor de teus irmãos, e diante de ti se inclinem os filhos de tua mãe. Maldito seja quem te amaldiçoar, e quem te abençoar, seja bendito!”

Evangelho: Mt 9,14-17

Naquele tempo, 14 os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” 15 Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão. 16 Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica maior ainda. 17 Também não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os dois se conservam”.

_______________

Os Planos De Deus São Misteriosos Para o Entendimento Humano, Mas Jamais Falham

“Como vês, já estou velho e não sei qual será o dia da minha morte. Toma as tuas armas, as flechas e o arco, e sai para o campo. Se apanhares alguma caça, prepara-me um assado saboroso, como sabes que eu gosto, e traze-o para que o coma, e assim te dar a bênção antes de morrer”.

São palavras de Isaac dirigidas ao primogênito, Esaú. E “Rebeca escutava o que Isaac dizia a seu filho Esaú”. Pela sua preferência por Jacó, Rebeca enganará o marido Isaac para que Jacó possa receber as bênçãos da primogenitura que seria para Esaú, o filho que saiu primeiro do ventre materno antes de Jacó (Cf. Gn 25,19-28).

A narrativa da bênção de Isaac, obtida de forma fraudulenta por Jacó, faz parte das histórias relacionadas ao ciclo transjordânico de Jacó.

O versículo inicial refere-se à cegueira do velho Isaac, um dos elementos básicos da trama dramática da história, e a chamada a Esaú, o filho predileto a quem o patriarca quer conceder sua bênção solene e final, segundo o ritual costumeiro. Este nível familiar de bênção é o mais antigo de muitos que aparecem na Bíblia. Como a bênção implica uma força vital, é compreensível que Isaac, antes de concedê-la, queira se fortificar com uma comida reconfortante, preparada com a carne dos animais caçados por Esaú. 

Porém, Rebeca, que dá preferência ao filho mais novo (Jacó), arma um plano para frustrar os desígnios de Isaac e fazer de Jacó, seu preferido, o beneficiário da bênção. Encorajado por sua mãe, Jacó concorda em se disfarçar. Assim, ele aparece diante de seu pai e pede a bênção. 

A primeira dificuldade surge imediatamente: Isaac fica surpreso por ter encontrado o animal caçado tão cedo: “Como conseguiste achar assim depressa, meu filho?”, perguntou Isaac a Jacó. “É o Senhor teu Deus que fez com que isso acontecesse”, respondeu Jacó. A resposta do filho compromete o próprio Deus no engano, já que toda sua atuação choca com a legislação de Israel, que proibe aproveitar-se dos cegos (Lv 19,14; Dt 27,18). O pai (Isaac), que ainda não superou totalmente a desconfiança, submete-o a outra prova: quer sentir ou apalpar Jacó, pois a voz trai Jacó, mas o disfarce das peles é bem-sucedido: “A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú”, disse Isaac, falando para si mesmo. A tensão narrativa e a questão da identidade, ainda não confirmada, emerge na segunda pergunta de Isaac, mais clara e direta: "Tu és, de fato, meu filho Esaú?". “Sou”, responde Jacó. Por fim, após receber o beijo do filho e sentir o aroma da roupa de Esaú, o aroma da terra e dos campos abertos, Isaac descarta toda desconfiança e se prepara para dar a bênção para Jacó. Esta bênção se dirige, antes de tudo, ao campo, para que seja frutífero, fértil e abundante em seus frutos. Depois, como Jacó encarna Israel, a bênção implica superioridade e preponderância sobre os outros povos, também sobre Edom (identificado com Esaú). Finalmente, tudo culmina com uma maldição para aqueles que amaldiçoam Jacó e uma bênção para aqueles que o abençoam.

Assim termina a cena de Isaac com Jacó e a concessão da bênção. Jacó e Rebeca conseguiram realizar seu plano, mas essa má ação não ficará impune. E acima da fraqueza humana prevalecerá o plano de Deus.

O texto da Primeira Leitura faz parte do ciclo de Isaac e seus filhos, Esaú e Jacó (Gn 25,19-37,1). O tema central deste ciclo é a luta entre dois irmãos pelo direito da primogenitura. Esaú e Jacó são gêmeos. Esaú é o favorito de Isaac, pai (Gn 25,27.28). Jacó é o favorito de Rebeca (mãe). A preferência dos pais coopera para o distanciamento dos irmãos. A luta dos dois fica inflamada quando o patriarca Isaac percebe que está para morrer (Gn 27,1). E portanto é a hora de passar a bênção da família para seu filho primogênito.

O nascimento dos dois (Esaú e Jacó) serve como a etiologia dessa luta. Esaú nasce inteiramente vermelho, da cor da terra e peludo. Ele venderá sua primogenitura por um prato de lentilha oferecida por Jacó (Gn 25,27-34). E o ser peludo lembra a forma como Jacó superará Esaú em função de possuir a primogenitura. Esaú adora a liberdade da vida do ar livre (Gn 25,7) e não leva nada a sério. Ele dá um valor aos prazeres passageiros. Suas atitudes rudes e a maneira como foge das dificuldades da vida são a causa de sua trágica queda. É uma pessoa “acomodada”, “despreocupada”. De certa forma, é uma pessoa relaxada. 

Sobre Jacó não se descreve o aspecto físico, mas o gesto: nasceu agarrado ao calcanhar de seu irmão numa tentativa de ultrapassar seu irmão, mesmo infrutífera. Por isso se chama “Jacó”, do hebraico “cqb” = “calcanhar” e “suplantar”. “Jacó”, “suplantador”, “embusteiro”. Este nome já mostra a conduta futura de Jacó que suplantará seu irmão por meio de armadilhas ou fraude em função de ter o direito da primogenitura através de uma bênção solene do patriarca Isaac, como relatou a Primeira Leitura de hoje. A marca registrada de seu caráter em relação a luta para conseguir o direito da primogenitura é o oportunismo, a luta para tirar vantagem a qualquer preço e desonestamente; é um manipulador. Geralmente, um manipulador estuda as pessoas em busca de vulnerabilidade, de sua debilidade. O manipulador trabalha para adormecer sua vítima, que a vítima só perceberá que está sendo manipulada depois de alguma tempo. 

Segundo o texto da Primeira Leitura, Rebeca acha que é sua obrigação providenciar o cumprimento da promessa feita ao nascimento dos gêmeos em que o irmão mais velho (Esaú) vai servir o mais novo (Jacó). Isaac esqueceu totalmente a mensagem (cf. Gn 25,23). Uma terrível fraude foi praticada, e Rebeca corrompeu aquela sua característica positiva, que é parte de seu charme durante a juventude (Cf. Gn 24,57-58). E Jacó, por sua vez, teme ser descoberto, em vez de arrepender-se pelo pecado praticado (Gn 27,11-17). Pela fraude Jacó recebeu a bênção de primogenitura que não pode ser mais abolida (Gn 27,33). 

As consequências dessa luta são a inimizade entre os irmãos: “Esaú concebeu ódio por Jacó por causa da bênção que lhe tinha dado seu pai e disse em seu coração: ‘Virão os dias do luto de meu pai, e matarei meu irmão Jacó’”. Mas sua natureza de pessoa “acomodada” não permitiu que sustentasse muito tempo a animosidade. Uma pessoa acomodada é igual a alguém que nasceu escravo e renuncia à sua libertação. A única ideia que de fato terá valor para ele é a que lhe garantir viver em segurança. Assim quando Jacó retornou temeroso de Padã-Arã onde Jacó fugiu, Esaú o recebeu como se nada tivesse acontecido (Gn 32,3-7; 33,1-4). 

Além disso, há a separação entre Rebeca e seu querido Jacó (Gn 25,28; 27-45). Rebeca nunca mais virá Jacó e para Jacó, é a troca da segurança do lar por um futuro incerto e desconhecido (Gn 28,1-2.10). 

Apesar disso tudo, Jacó era um homem tranquilo. Durante toda sua longa vida era pacífico e nunca recorreu à violência. Pelo contrário, ele temia que Esaú, seu irmão lesado e mais turbulento viesse atacá-lo. Aceitou quando Labão substituiu Raquel por Lia. Seu zelo e habilidade era cuidar dos rebanhos do sogro. Foi bondoso e afetuoso com suas esposas e filhos, nutrindo terno amor por Raquel e pelos dois filhos que ela lhe deu já na velhice: José e Benjamim. Acima de tudo, Jacó herdou de Abraão e Isaac a íntima comunicação com Deus e a promessa de que Canaã pertenceria à sua descendência. As doze tribos israelitas que ocuparam Canaã tinham os nomes de seus filhos. Os hebreus eram mencionados coletivamente como a Casa de Jacó ou os Filhos de Israel. O nome do reino bíblico de Israel foi adotado para o recém-proclamado Estado de Israel, em 1948. 

Neste relato e em outros relatos encontramos o mistério de um Deus que não hesitou em usar a torpeza tanto quanto a nobreza, a impureza tanto quanto a pureza, homens a quem o mundo ouviu atentamente e mulheres que o mundo censurou. Este Deus continua a trabalhar com a mesma mistura e continua a nos surpreender. Deus pode nos usar como Seus instrumentos apesar de sermos pecadores. Mas que tenhamos uma disponibilidade para servir esse Deus que nos compreende profundamente nossos defeitos. O relato no texto da Primeira Leitura não será a última vez que Deus se servirá do mal para extrair dele um bem. Deus é o Senhor soberano de suas escolhas. Ele chama a quem quer para levar a cabo sua obra salvífica (veja a reflexão de São Paulo: Rm 9,10-13). Os direitos adquiridos não contam diante da soberana autonomia de Deus. Este será o caso de José, filho de Jacó, eleito preferentemente a seus irmãos e de Davi, o pequeno da família, de Salomão e assim por diante. E nós continuamos com nosso sentimento demasiado inclinado a monopolizar Deus em proveito próprio. E o próprio Deus se escapa dos cálculos puramente humanos. Mas por cima da debilidade humana se impõe sempre o plano de Deus. 

É Preciso Colocar Deus Como Centro De Nossa Vida 

O texto do Evangelho de hoje fala sobre o jejum. Mas, no contexto do evangelho deste dia, não deveríamos entender a polêmica sobre o jejum dentro do contexto da prática ascética, isto é, privar-se da comida e da bebida com uma finalidade de penitência ou de solidariedade com os necessitados, repartindo o que temos com eles. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento, pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. O jejum começa a reentrar na nossa cultura atual por razões de dieta e de estética, ou aconselhado por certas formas de religiosidade, com origem no Oriente. 

É evidente que o jejum continua tendo sentido para os cristãos. Jejum é um melhor meio para expressar nossa humildade e nossa conversão aos valores essenciais diante de uma sociedade dominada pelo consumismo desenfreado. Até os judeus piedosos jejuavam duas vezes na semana (segunda-feira e quinta-feira), como também os seguidores de João. O próprio Jesus jejuou no deserto (cf. Mt 4,2). A Igreja, como sempre, também recomenda o jejum, particularmente na Quaresma e pelo menos, uma hora antes da comunhão eucarística, como está escrito no Código de Direito Canônico (CIC): “Quem vai receber a santíssima Eucaristia abstenha-se de qualquer comida ou bebida, excetuando-se somente água e remédio no espaço de ao menos uma hora antes da sagrada comunhão” (Cân. 919). Fala-se de ao menos uma hora antes da sagrada comunhão e não uma hora antes da missa. É preparar o coração para o Criador e não para a criatura. 

Nós, cristãos, jejuamos porque ainda não nos deixamos invadir completamente pelo amor de Cristo Jesus. Jejuamos para Lhe dar lugar em nós, para que o Senhor possa ocupar toda a nossa existência a fim de que sejamos reflexos d’Ele neste mundo. Jejuamos para nos unirmos à sua Paixão-Ressurreição.

Mas podemos entender mal as motivações do jejum ou até cair no egoísmo e no orgulho. Por isso, a mesma Igreja, nos alerta para duas dimensões essenciais do jejum: a sua referência a Cristo e a sua dimensão de solidariedade. Além disso, nós jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos, e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres e carentes. O verdadeiro jejum é dividir o que temos para oferecer a quem nada tem para viver. É dar nossas roupas para cobrir quem está sem nada para se vestir, comida para quem não a tem, bebida para quem não tem nada para saciar sua sede e assim por diante (cf. Mt 25,31-46). Sabemos que jamais podemos arrancar totalmente o sofrimento alheio, mas uma parte dele pode ser aliviada com nossa solidariedade e compaixão. Ninguém pode entrar no céu feliz deixando o irmão passando fome e outras necessidades básicas para um ser humano viver dignamente.

O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias (Is 58,6-9), o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver. 

Tendo presentes estas dimensões, entendemos melhor o sentido do jejum que nos é recomendado e pedido pela Igreja, e mais facilmente evitamos cair na busca de uma perfeição individualista e fechada, sem nos preocuparmos com Cristo presentes nos outros (Mt 25,40.45). 

Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. 

Mas no contexto do evangelho de hoje o jejum deve ser entendido como sinal da espera messiânica. A prática do jejum está ligada, no Antigo Testamento e no judaísmo, à espera da vinda do Messias. Não comer e não beber vinho equivalia a expressar a insatisfação com o tempo presente e a impaciência na espera da consolação de Israel. João Batista, em particular, havia feito dessa atitude uma lei fundamental de seu comportamento (Lc 1,15). Por isso, quando os discípulos de Cristo dispensam o jejum prescrito ou espontâneo, dão a impressão de desinteresse pela vinda do Messias e de recusa de compartilhar a esperança messiânica. 

A resposta de Jesus é muito clara aqui: se os discípulos não jejuam é porque não têm nada a esperar, pois os tempos messiânicos já chegaram: eles não devem apressar por meio de práticas ascéticas a vinda de um Messias cuja intimidade eles estão vivendo. 

É uma controvérsia que os discípulos de João provocam, e que essa polêmica se refere à aceitação ou não de Jesus Cristo como o enviado de Deus. Essa polêmica tem como fundo a queixa de Jesus. Os discípulos de João e os fariseus não reconhecem Jesus como o enviado de Deus e, por isso, não mudam de vida. Por esta razão Jesus põe três comparações sobre si próprio: Primeiro, Jesus é o noivo ou esposo e, portanto, todos deveriam estar de festa e na festa e não de luto. Segundo, Jesus é o traje novo que não admite qualquer remendo ou algo de coisa velha posto no novo. Terceiro, Jesus é o vinho novo que não pode ser colocado nos os odres velhos. Os discípulos de João deveriam aprender a lição porque João chama a si mesmo de “o amigo do noivo” (Jo 3,29). O código do mundo em desenvolvimento é a renovação e a transformação. Se não há nada que mude fora de nós é porque nada mudou dentro de nós. "Se procuras algo bom, procura-o em ti mesmo até que o encontres" (Epicteto). Para que possamos alcançar nossos objetivos em tempo recorde, precisamos ser pessoas que renovam sua mente. Renovar significa colocar algo novo na mente. Uma pessoa que alcança o sucesso dos seus sonhos renova continuamente os seus pensamentos e avalia permanentemente suas atividades. 

O que Jesus quer ensinar através do texto do Evangelho de hoje é a atitude que os seus seguidores devem ter: a festa e a novidade radical. Estando com Cristo e sabendo que Cristo está com eles, os cristãos não devem viver tristes. O cristianismo é, sobretudo, festa porque se baseia no amor de Deus, na salvação que nos oferece em Cristo Jesus, na vida que não termina com a morte, pois Cristo Jesus venceu a morte através de sua ressurreição. Esse mesmo Cristo Jesus nos comunica sua vida e sua graça na Eucaristia que nos faz vivermos a vida na alegria e na graça apesar de suas dificuldades, pois nosso Deus é o Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). 

Por isso, viver em Cristo e viver com Cristo significam viver na novidade radical. Crer em Jesus Cristo e segui-Lo não significa mudar apenas alguns pequenos detalhes, ou por uns remendos novos para um traje velho ou guardar o vinho novo da fé nas estruturas caducas do pecado. Seguir Jesus significa mudar o vestido inteiro, é mudar de mentalidade para enxergar além das aparências, para ampliar o horizonte. É ter um coração novo que prefere a misericórdia ao sacrifício (Mt 9,13) . Seguir Cristo significa que os seus ensinamentos devem afetar toda a nossa vida e não somente umas orações ou práticas piedosas. As práticas religiosas isoladas do compromisso com a vida e com os necessitados não nos levam para Deus.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...