domingo, 5 de maio de 2024

07/05/2024-Terçaf Da VI Semana Da Páscoa

SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO VIVEREMOS NA SERENIDADE COMO JUSTOS DIANTE DOS DESAFIOS DA VIDA CRISTÃ

Terça-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 16,22-34

Naqueles dias, 22 a multidão dos filipenses levantou-se contra Paulo e Silas; e os magistrados, depois de lhes rasgarem as vestes, mandaram açoitar os dois com varas. 23 Depois de açoitá-los bastante, lançaram-nos na prisão, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. 24 Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. 25 À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. Os outros prisioneiros os escutavam. 26 De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram. 27 O carcereiro acordou e viu as portas da prisão abertas. Pensando que os prisioneiros tivessem fugido, puxou da espada e estava para suicidar-se. 28 Mas Paulo gritou com voz forte: “Não te faças mal algum! Nós estamos todos aqui”. 29 Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas. 30 Conduzindo-os para fora, perguntou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” 31 Paulo e Silas responderam: “Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família”. 32 Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família. 33 Na mesma hora da noite, o carcereiro levou-os consigo para lavar as feridas causadas pelos açoites. E, imediatamente, foi batizado junto com todos os seus familiares. 34 Depois fez Paulo e Silas subirem até sua casa, preparou-lhes um jantar e alegrou-se com todos os seus familiares por ter acreditado em Deus.

Evangelho: Jo 16,5-11

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações. 7No entanto, eu vos digo a verdade: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei. 8E quando vier, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: 9o pecado, porque não acreditaram em mim; 10a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; 11e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.

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Deus Está Com Seus Mensageiros Permanentemente

“Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. Assim lemos uma parte do texto da Primeira Leitura de hoje.

Alguns pontos para nossa reflexão a partir da Primeira Leitura: Primeiramente, apesar de estar presos, Paulo e Silas rezam e cantam hinos a Deus. Esta frase nos mostra a serenidade dos justos perseguidos sabendo que Deus está com eles, e, ao mesmo tempo, mostra, antecipadamente, a vitória iminente, pois eles vivem de acordo com a Palavra de Deus. “A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá... Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos”, assim afirma o livro de Sabedoria (Sb 3,1.9). Aquele que tem um coração puro, sem nenhuma mancha de pecado, vive na serenidade apesar das tribulações, ataques, difamações e calúnias, pois não há nada que possa atingir seu coração, e sabe, acima de tudo, em quem acredita: em Deus. “Somente o justo desfruta de paz de espírito” (Epicuro). Nenhum poder mundano é capaz de prender a graça de Deus, pois foge de qualquer controle humano e suas manipulações. Mesmo tentando de várias maneiras, a graça de Deus, o poder de Deus é incapaz de ser preso por qualquer poder deste mundo. A prisão com suas colunas firmes e com seus guardas armados da prisão é fácil de serem derrubados pelo “terremoto” da graça de Deus. A mesma coisa aconteceu com Jesus Cristo. O poder mundano O enterrou, mas o poder de Deus o ressuscitou. Não há verdade, não há amor, não há honestidade etc que possa permanecer enterrado, pois qualquer momento haverá a ressurreição. Quem confiar unicamente no poder mundano, um dia vai experimentar a destruição de sua vida. Quem confiar no poder de Deus, vai experimentar um dia e para sempre o triunfo de Deus. Com o poder de Deus ninguém pode brincar. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). 

Em segundo lugar, “De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. Aqui se celebra a vitória de quem se apoia no poder de Deus, como Paulo e Silas. O terremoto natural destrói tudo. Mas neste relato o terremoto que aconteceu é para mostrar o poder maravilhoso de Deus que destrói todos os sinais de dominação humana e todos os poderes destruidores da dignidade humana. Todas as dominações humanas ficam sem futuro, pois o futuro é de Deus. Feliz quem deposita sua fé em Deus incondicionalmente! Quem acreditar no poder humano, vai ter que experimentar a derrota fatal um dia. O carcereiro estava para suicidar por medo de ver Paulo e Silas fugirem da prisão, pois ele seria responsável e receberia uma condenação inevitável. Mas Deus sempre sabe o que fazer com cada um dos seres humanos, seus filhos.

Em terceiro lugar, “Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas”.  Nenhum dos prisioneiros (Paulo e Silas) fugiu, pois eles querem mostrar para os incrédulos o poder de Deus. A libertação dos presos e a soberania de Deus se mostram simultaneamente. O carcereiro, na sua humildade, reconhece a grandeza de Deus neste acontecimento que o levou a cair aos pés de Paulo e Silas. A conversão do carcereiro é imediata, pois descobriu uma força maior de Deus através de seus mensageiros do que a força humana: Paulo e Silas. Deus opera seu poder através dos justos. 

Em quarto lugar, “Conduzindo-os para fora, perguntou: ‘Senhores, que devo fazer para ser salvo?’, Paulo e Silas responderam: ´Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família’. Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família”. Esta rápida conversão do cárcere nos lembra as etapas do Catecumenato de então: Primeiro, a questão ritual “O que preciso fazer?” (At 9,6). Segundo, a instrução do Evangelho (At 16,32). Terceiro, o Batismo (At 16,33). E finalmente, a refeição (Eucaristia), que o acompanha (cf. At 9,19), e se processa na alegria (cf. At 2,46; 8,8.39; 13,48-52). Aqui há alusões para a Eucaristia: “mesa”, “alegria”, exultação religiosa (cf. At 2,46). 

Em quinto lugar, “E, imediatamente, (o carcereiro) foi batizado junto com todos os seus familiares”. Pela segunda vez o livro de Atos nos relata a conversão e o batismo coletivo ou familiar (cf. At 16,15). Nos costumes e mentalidade antigos a escolha religiosa do pai ou do chefe da família condicionava a escolha dos outros membros da família. A partir desta mentalidade ou costumes não havia nenhum problema de batizar as crianças. Os recém-nascidos seguiam a opção do pai (dos pais).

Jesus Cristo Continua Acompanhando a Igreja Através Do Paráclito

Com o texto do Evangelho de hoje, continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos, no evangelho de João (Jo 13-17). A partida de Cristo e o aparente abandono em que deixa os seus apóstolos sozinhos constituem o tema essencial do texto do evangelho de hoje. Cristo afirma que a sua partida está cheia de sentido: volta ao Pai (Jo 14, 2, 3, 12; 16, 5), porque a sua missão terminou e o espírito Paráclito será testemunha da sua presença (Jo 14, 26; 15, 26). Jesus compara a missão do Espírito com a sua. Com efeito, não se trata de crer que o reino de Cristo terminou e que é substituído pelo do Espírito. Mas, de fato, a distinção está mais entre o modo de vida terreno de Cristo que esconde o Espírito e o modo de vida do qual Ele se beneficiará depois de sua ressurreição e que não será mais perceptível pelos sentidos, mas apenas pela fé: um modo de vida "transformado pelo Espírito" (Jo 7, 37-39).

“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações”, disse Jesus. Jesus anuncia aos discípulos a sua morte iminente (partida) que provoca uma reação negativa nos discípulos: tristeza (Jo 16,6) e perturbação (Jo 14,1). Jesus realmente vive conscientemente sua vida. Ele tem plena consciência de que um dia ele partirá deste mundo. Além disso, ele sabe de sua morte de maneira trágica em função do bem praticado, pois ele mexe com os interesses deste mundo. O bem praticado leva Jesus ao encontro do Bem maior: Deus Pai. Ele partirá para o Pai. Mas esta partida (morte) traz, ao mesmo tempo, consequências positivas: a vinda do Paráclito (Jo 16,7) e a reunião definitiva (Jo 14,2-3).

Jesus fala da sua morte, que só mais tarde os discípulos vão poder entender seu significado à luz do Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13). Como aconteceu com qualquer um de nós. Muitas coisas na vida só podemos entender seu significado ou sua insignificância quando a idade vai avançando e as experiências vão se acumulando. Só quando encontramos nossas veias de coração entupidas é que poderemos entender que o cigarro que fumávamos com muita paixão, a gordura da carne que consumimos com muito apetite, a bebida alcoólica que engolimos frequentemente fazem mal para nossa saúde e encurtamos nossa presença neste mundo, e diminuímos nosso tempo nesta terra para ajudar os demais com nossos dons. Alguma experiência maior faz com que percebamos o significado de outras experiências menores cujo valor não percebemos até então. Sempre estamos no ritmo de vida em que somente “mais tarde” entendemos o sentido dos acontecimentos. 

Os discípulos vão dar testemunho de Jesus, somente quando entenderem quem é Jesus, o que significou a sua presença no mundo, e qual foi o sentido da sua morte e da sua ressurreição. Quem pode possibilitar-lhes este entendimento é o Espírito Santo prometido por Jesus. Mas Jesus alerta aos discípulos que vão sofrer perseguições por causa desse testemunho. 

Neste texto do evangelho de hoje Jesus afirma que a sua morte é uma partida para Aquele que o enviou. Este retorno Àquele que o enviou mostra que a causa pela qual Jesus lutava e vivia era a de Deus que é a salvação do mundo (Jo 3,16). Por isso, sua volta para Deus é para ser glorificado. A morte, para Jesus, é o momento da glorificação. É a “hora” de Jesus (cf. Jo 2,4; 12,23). A morte de quem vive de acordo com a vontade de Deus resumida no amor fraterno (ágape) é o momento de glorificação e não é um momento de tristeza. O homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. Amar alguém equivale a lhe dizer: “Tu jamais morrerás, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)’”. 

Os discípulos continuam sem compreender a morte como ida ao Pai. Também não pedem explicações a Jesus a respeito. Eles se sentem tristes ao pensar na separação que eles interpretam como desamparo (Jo 14,18). Para eles sem Jesus, na sua presença física, eles se tornam indefesos no mundo e diante do mundo. 

Para Jesus a presença e a ajuda do Espírito farão muito melhor para os discípulos do que sua presença física, pois Jesus, na sua presença física, não pode estar com os discípulos em qualquer lugar. Além disso, enquanto se apoiarem na presença física de Jesus, os discípulos não aprenderão a tomar sua plena responsabilidade nem terão a autonomia em cumprir sua missão como discípulos. É preciso aprender a andar com as próprias pernas para saber até onde elas têm capacidade de andar, e aprender a pensar com os próprios pensamentos para saber até onde tem que pedir a ajuda. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável se deixar impulsionar pelo Espírito, pois somente o Espírito de Deus pode transformar qualquer um em nova criatura. A ausência física de Jesus possibilita aos discípulos a atuarem por si mesmos sob o impulso do Espírito. A ausência física de Jesus faz os discípulos crescerem na maturidade no seu seguimento. Por isso, Jesus disse aos discípulos: “É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei”. Com a presença do Espírito Defensor, a ausência de Jesus se transforma em uma presença eficaz.

“Quando vier o Defensor, ele demonstrará (convencerá) ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”. O papel do Paráclito (o Defensor) é convencer o mundo no sentido de demonstrar, de provar, de culpar e de condenar. 

O Paráclito demonstra que o mundo está equivocado. Em primeiro lugar, o mundo será acusado de pecado. O pecado no Evangelho de João fundamentalmente consiste em não aceitar Jesus como o Revelador e o Enviado do Pai (Jo 8,21-34); o pecado consiste em recusar e desprezar a oferta da luz que é o próprio Jesus (Jo 8,12), e nisto os inimigos de Jesus se transformam em pessoas cegas (Jo 9,40-41). O pecado consiste em o homem se gloriar, desprezando a oferta divina. Em segundo lugar, o Paráclito demonstra que o mundo está equivocado em relação à justiça. Jesus é a manifestação da justiça de Deus, entendida biblicamente como a ação ou atividade salvadora de Deus (Rm 1,16-17; 1Tm 3,16). No entanto, o mundo (os inimigos de Jesus) recusa a presença de Jesus e o elima deste mundo. Em terceiro lugar, o Paráclito demonstra que o mundo é equivocado em relação ao julgamento. Ao condenar Jesus o mundo (os inimigos de Jesus) se condena, pois Aquele que foi condenado à morte é o Vencedor da morte. A vitória de Deus significa a derrota de Satanás, seu opositor, o príncipe deste mundo.

O Paráclito exerce aqui, então,  a função como juiz. O Paraclito (o Espírito) executará a sentença de Deus contra o mundo. Para João o juízo “final” não acontecerá nos últimos dias, e sim acontece agora pelo fato de que a decisão escatológica já se concretizou na cruz e na ressurreição de Jesus. O Espírito convencerá o mundo sobre o pecado que consiste na incredulidade e no fato de fechar-se ao amor do Criador (Jo 3,16) manifestado em Jesus Cristo.

O sistema injusto condena o justo como criminoso. O sistema injusto se faz juiz contra os justos e honestos. É a inversão de valores em nome do interesse e das vantagens individuais. Mas o Espírito vai reabrir o processo para pronunciar a sentença contrária. Trata-se de uma sentença final.  Os que se fizeram juízes serão os culpados e culpáveis. E o condenado pelo sistema injusto encontrará a verdade em Deus e o próprio Deus, que não pode ser subornado, será o ponto de referência diante do qual cada um se condena ou se culpa. Diante da verdade a própria mentira se condena. Diante da originalidade a falsidade se exclui. Deus se constitui em juiz e inverte o juízo dado pelo mundo.

O “mundo” neste texto se designa ao círculo dirigente que condenou Jesus; o mundo no sentido das forças sociais, históricas e econômicas opostas ao plano divino, ao plano da fraternidade e da igualdade. Trata-se da personificação das forças malignas da história: a injustiça exercida sobre os inocentes, a opressão dos pobres, a tirania dos sistemas totalitários.

Jesus declara aos discípulos que o Espírito de Deus realizará este juízo da história no qual brilhará a justiça e a bondade divinas a favor dos seus: “Os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43; cf. também Dn 12,3; Sb 3,1-9).

O mundo prefere suas trevas de pecado à luz poderosa da bondade e da verdade divinas que fazem o homem feliz permanentemente.  O pecado do mundo consiste em impedir, reprimir ou suprimir a vida impedindo a realização do projeto criador (Jo 1,10), e esse pecado alcançou seu ápice na recusa de Jesus (Jo 15,22). O Espírito mostrará aos discípulos a justiça de Deus e que o mundo é o réu de seu pecado, de ter recusado a presença de Deus em Jesus que salva.

Portanto, qualquer cristão não pode abandonar uma vida correta e justa nem que seja em nome de qualquer cargo ou de qualquer interesse material, pois tudo será deixado neste mundo. O homem animado pelo Espírito não pode tolerar nem compactuar com a maldade nem em nome dum benefício econômico nem em nome de uma posição social. A “justiça” humana pode desviar a verdade em nome dos interesses pessoais, mas ainda resta a justiça divina diante da qual a verdade, a justiça, a honestidade e a lealdade estarão em destaque. Por isso, “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis habitarão com Ele no amor” (Sabedoria 3,1.9). “No Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43ª). O Espírito de Deus suscita homens particularmente sensíveis aos valores autênticos e a Eucaristia os capacita para comprometer-se efetivamente na contestação dos pseudo-valores.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 4 de maio de 2024

06/05/2024-Segundaf Da VI Semana Da Páscoa

JESUS PERMANECE CONOSCO TAMBÉM NAS NOSSAS PROVAÇÕES E ATRAVÉS DE NÓS QUER SALVAR A HUMANIDADE

Segunda-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 16,11-15

11 Embarcamos em Trôade e navegamos diretamente para a ilha de Samotrácia. No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, 12 de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade. 13 No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentados, começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas. 14 Uma delas chamava-se Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abriu o seu coração para que aceitasse as palavras de Paulo. 15 Após ter sido batizada, assim como toda a sua família, ela convidou-nos: “Se vós me considerais uma fiel do Senhor, permanecei em minha casa”. E forçou-nos a aceitar.

Evangelho: Jo 15,26-16,4

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15,26“Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. 27 E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o começo. 16,1 Eu vos disse estas coisas para que a vossa fé não seja abalada. 2 Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. 3 Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. 4ª Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”.

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Somos Chamados e Enviados Pelo Senhor a Ser Evangelizadores Em Qualquer Lugar e Tempo

Lemos na Primeira Leitura: “No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade”. A leitura destas palavras deve ser acompanhada pela oração. Na simplicidade de um diário de viagem estas palavras escondem a primeira penetração do evangelho na "Europa"! A aventura da Fé começou em Jerusalém, junto a um Gólgota e um Túmulo vazio... depois a Fé espalhou-se por Samaria, e Antioquia da Síria... depois pela Ásia Menor. E eis que ele aborda um novo continente. Estamos provavelmente na primavera do ano 50 depois de Cristo. Vinte anos depois de Jesus "dar a vida" e ressuscitar. Nos séculos seguintes, essa mesma corrente de vida chegará a todos os países. E ainda estamos no começo! Há muito o que fazer.

Um dia a Europa foi “terra de missão”. Graças a São Paulo, pois através dele a Europa conheceu o Evangelho. E a primeira cidade da Europa onde Paulo se instala é Filipos, capital de Macedônia. Esta cidade será a primeira comunidade cristã do continente europeia. Filipos é uma cidade fundada e desenvolvida por Filipe, o pai de Alexandre Magno. Como colônia militar romana, a cidade estava sob o direito romano.

“No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentados, começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas”. É assim começou a missão na Europa: umas mulheres reunidas para rezar. São judias que respeitam o Sábado. São de um pequeno grupo. Por o grupo ser pequeno demais não dá para dispor de uma sinagoga em Filipos, uma grande cidade pagã. Por isso, elas se reúnem fora, na saída da cidade à margem de um rio para orar. É ali que Paulo as encontra. O acontecimento histórico da evangelização na Europa começa com elas, à beira de um rio. Provavelmente aconteceu em torno da primavera do ano 50. 

“Uma delas chamava-se Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abriu o seu coração para que aceitasse as palavras de Paulo”. Assim Lucas, o autor dos Atos continua seu relatório. As duas referências a essa mulher piedosa (Lídia) estão em At 16,14.40. Ela é descrita como uma cristã temente a Deus. Lídia é uma mulher rica e generosa. Lídia será a primeira europeia que crê em Jesus, conquistada por Cristo através de Paulo e seus companheiros. Além disso, ela é uma mulher hospitaleira que convida Paulo e seus companheiros a hospedarem-se em sua casa. A hospitalidade faz parte da espiritualidade cristã. Por isso, São Pedro, na sua Primeira Carta escreveu: “Exercei a hospitalidade uns aos outros, sem murmuração” (1Pd 4,9). Lídia não é de Filipos e sim de Tiatira na Lídia (Ap 2,18-19), cidade famosa pela indústria da púrpura. Os tecidos de púrpura são tecidos de grande luxo e por isso, são caros. Um lar cristão é aquele com uma porta sempre aberta, a porta de seu coração. 

A comunidade cristã de Filipos recebeu mais tarde uma das Cartas mais amáveis de Paulo, a Carta aos Filipenses: sinal de que Paulo guardava recordações muito positivas dessa comunidade. 

O que aprendemos da maneira de evangelizar de São Paulo? São Paulo se adaptava à circunstâncias que ia encontrando. Às vezes pregava na sinagoga, outras vezes num cárcere, ou junto ao rio ou na praça de Atenas. Quando era recusado, São Paulo ia para outras cidades. Quando o aceitavam, São Paulo ficava naquele lugar até consolidar a comunidade. Mas sempre anunciava Cristo ressuscitado e se deixava guiar pelo Espirito Santo. A obra de salvação não é obra do homem. É a obra de Deus no homem e através do homem como instrumento de Deus. Deus é quem abre as mentes daqueles que escutam seus enviados para quem entendam e aceitem, deum modo pessoal, a obra de salvação que Deus quer realizar neles. Por isso, não somente devemos pedir a Deus que nos dê Sua sabedoria para poder proclamar dignamente Sua Palavra, mas também temos que pedir por todos aqueles que nos escutarão para que possa ser semeada eficazmente a semente da Palavra de Deus e produza frutos abundantes de salvação. 

De São Paulo aprendemos que jamais podemos perder oportunidade para evangelizar em qualquer lugar e momento: propor sempre. O próprio São Paulo escreveu para Timóteo: “Prega a Palavra, insiste oportuna ou importunamente, reeprende, ameala, exorta como toda paciência e empenho de instruir. ... Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2Tm 4,2; 3,16-17). Quando nos deixarmos guiar pelo Espirito do Senhor ressuscitado, seremos testemunhas de nossa fé em qualquer ambiente onde nos encontramos, desde nossa família até o trabalho e toda atividade social. Quem é guiado pelo Senhor não se cansa de praticar o bem para qualquer pessoa e em qualquer lugar e tempo a exemplo do próprio Jesus que passou a vida fazendo o bem (cf. At 10,38). O próprio são Paul é incansável em pregar o Evangelho.

Como Testemunhas Dos Ensinamentos De Cristo Estejamos Preparados Para Ser Perseguidos 

O evangelho de hoje pertence ao conjunto do discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17). Nesse discurso Jesus dá as últimas lições para seus discípulos. 

No texto do evangelho de hoje Jesus alerta aos discípulos e a todos os cristãos que a perseguição faz parte do ser do cristão: “Todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3,12).

Por que o cristão é perseguido? Santo Agostinho respondeu muito bem: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade” (De vit. Christ.6). Enquanto cada cristão continuar a viver de acordo com os ensinamentos de Cristo, sua presença será uma censura para o mundo, e incomoda o mundo injusto e desonesto. Consequentemente, será perseguido. 

Se o mundo opôs-se a Jesus Cristo, logo os cristãos experimentarão a mesma oposição, pois o servo não é maior do que o seu Senhor. O mundo perseguirá os cristãos quando seus interesses forem afetados ou denunciados pelos cristãos. Até para fazer o bem o cristão é perseguido. Mas, do ponto de vista cristão, o tempo da perseguição é o tempo oportuno de testemunho. Tempo de provação e de perseguição é o tempo de expansão. O cristão é chamado a ser mártir no sentido pleno da palavra e para espalhar o amor. Viver no amor é viver em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Mas sem dúvida, os que fazem parte de pessoas de boa vontade aceitarão o anúncio cristão cuja essência é o amor fraterno e cujas expressões são a justiça, a honestidade, a fraternidade, a solidariedade, a compaixão, a igualdade e assim por diante. Morrer por causa da honestidade, da justiça, da solidariedade etc. é o maior testemunho para o cristão. Este tipo de morte será uma morte feliz e por isso, uma vida ressuscitada.

“Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”. Este texto nos quer informar a verdade de que a perseguição foi a primeira experiência da Igreja nascente. Os discípulos de Jesus foram expulsos da sinagoga e perseguidos, primeiro pelos judeus e, depois, também pelos pagãos. A segunda obra de São Lucas que é o Atos dos Apóstolos descreve muito bem esta situação. A Igreja se espalhava sendo perseguida. É o ponto positivo da perseguição. 

São Paulo na Segunda Carta ao Timóteo nos recorda: “Em verdade, todos aqueles que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus, serão perseguidos” (2Tm 3,12). A persguição faz parte inseparável da vida crsitã. Viver como Jesus viveu sempre há grande possibilidade de sofre a perseguição. 

Para que os discípulos não fiquem abalados nem desorientados na sua ausência física, Jesus promete-lhes uma presença nova no meio deles. Com essa nova presença, Jesus quer dizer aos discípulos que eles não serão abandonados como órfãos, pois o amor do Senhor por eles e por qualquer cristão jamais morrerá. Jesus nos ama até o fim (cf. Jo 13,1). O amor de Cristo vai até além da morte. Em Jo 14,16-17 Jesus prometeu o envio do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Em Jo 15, especialmente no evangelho de hoje, aparece novamente esse Paráclito, o Defensor, o Espírito da Verdade. 

Quem é o Espírito Paráclito, ou o Defensor, o Espírito da Verdade? A palavra “paráclito” em grego que é traduzida por “Defensor” em português. Ele é aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em outras palavras: um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na fé. Mas o Espírito Paráclito é um dom de Deus oferecido para quem se abre a ele. A ajuda de Deus jamais faltará para nós, mas é preciso que tenhamos abertura diante dessa ajuda.

Esse Espírito Paráclito também recebe outro nome: “o Espírito da Verdade”.  Mas dentro de sua função de ajudar, de orientar, de animar, de proteger nas dificuldades, o Espírito da Verdade é entendido, sobretudo, como aquele que faz viver muito mais do que aquele que faz pensar. Pensar é uma coisa, viver é outra coisa.  Fazer um bom raciocínio é uma coisa; viver o que se raciocina é outra coisa. Orientar alguém para viver bem é uma coisa; perder a própria vida para que os outros possam viver é outra coisa. O mais importante não é o saber da vida e sim saborear a vida; não é sentir e sim o comprometer-se; não é o perceber e sim o decidir-se; não é o desejar e sim o querer. O Espírito da Verdade nos ensina a vivermos a vida na sua profundidade em cada momento. Ele não nos deixa presos no passado nem fugitivos do futuro; simplesmente vivemos na graça de Deus em cada momento de nossa vida. Por isso, o mais importante é fazer dos problemas, oportunidades; do passado, aprendizado; do amor, a experiência fundante e da vida, a arte de ser de cada dia. 

É missão do Espírito Santo, então, revelar aos Apóstolos toda a verdade sobre Cristo, sobre suas obras, sua vida e sua morte, e fortalecê-los para que sejam capazes de dar testemunho. Ser testemunha é confessar com as consequências, expor-se, arriscar-se, encarar. É provar aquilo que se acredita até com o próprio sangue. É ser mártir.  “Testemunho” aparece no Novo Testamento com o sentido de “mártir”. Dar a vida é o grande testemunho; é confessar com sangue a Verdade. Não somente a morte por Cristo, mas também a vida cristã vivida com todas as suas consequências tem um valor de “martírio” e por isso, de testemunho. 

Quem pode nos possibilitar para viver assim é o Espírito da Verdade. Por isso, precisamos pedir ao Senhor sua presença na nossa vida de cada dia e que estejamos abertos para a renovação no Espírito do Senhor que é o Espírito da Verdade, o Defensor de nossa vida toda vez que nos encontrarmos em qualquer dificuldade. 

Mas quando a Igreja, em geral, e cada cristão, em particular, anda lado a lado, de mãos dadas com o mundo é sinal muito evidente de que a Igreja e cada cristão, particularmente, deixam de ser o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5,13-14). Desta maneira, a Igreja se torna surda diante da voz do Senhor e cega diante da Luz divina (Jo 8,12). É o momento de conversão e de renovar os compromissos batismais!

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 3 de maio de 2024

VI Domingo Da Páscoa "B",05/05/2024

AMAR O PRÓXIMO COMO JESUS NOS AMOU

VI Domingo Da Páscoa Ano “B”

Primeira Leitura: At 10,25-26.34-35.44-48

25 Quando Pedro estava para entrar em casa, Cornélio saiu-lhe ao encontro, caiu a seus pés e se prostrou. 26 Mas Pedro levantou-o, dizendo: "Levanta-te. Eu, também, sou apenas um homem". 34 Então, Pedro tomou a palavra e disse: "De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35 Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença". 44 Pedro estava ainda falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra. 45 Os fiéis de origem judaica, que tinham vindo com Pedro, ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado também sobre os pagãos. 46 Pois eles os ouviam falar e louvar a grandeza de Deus em línguas estranhas. Então Pedro falou: 47 "Podemos, por acaso, negar a água do batismo a estas pessoas que receberam, como nós, o Espírito Santo?" 48 E mandou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Eles pediram, então, que Pedro ficasse alguns dias com eles.

Segunda Leitura: 1Jo 4,7-10

Caríssimos: 7 Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8 Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 9 Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10 Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados.

Evangelho: Jo 15,9-17

Naquele tempo Jesus disse aos discípulos: 9“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. 12Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos.14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que, então, pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.

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O texto do evangelho de hoje se encontra no contexto do “discurso” da despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13,1-17,26). Como discurso de despedida, nele se encontram últimas lições de Jesus para seus discípulos que vão levar adiante a missão de Jesus.

No evangelho de hoje Jesus fala do mandamento de amor. Pela segunda vez encontramos este mandamento no evangelho de João (cf. Jo 13,34-35; 15,12-17). A repetição do mandamento de amor nos mostra aqui a importância da vivência do amor fraterno, pois o amor fraterno nos leva até o céu (1Cor 13,13). Viver o amor fraterno significa cumprir todas as leis (cf. Rm 13,10). Pelo caminho do amor não há outro caminho que possa nos levar à comunhão plena com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

A comunicação e a circulação da vida divina, de que se falou no Domingo anterior (cf. Jo 15,1-8), através da imagem da verdadeira videira que é Cristo, e os ramos que são os que nele crêem, abre o caminho a uma comunicação e circulação do amor de que se fala no Evangelho deste Domingo. 

Jesus Nos Ama Com O Mesmo Amor Com Que O Pai Ama Jesus

“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). É maravilhosa esta afirmação e é profundo seu conteúdo. O amor com que Jesus nos ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. A nossa união com Jesus é comparável à de Jesus com o Pai. Como cristão eu preciso viver esta verdade na minha vida cotidiana com muita alegria. Deus Pai ama o Filho incondicionalmente (cf. Mt 3,17; Mc 1,11; Lc 3,22). E Jesus nos ama da mesma maneira: incondicionalmente. Ao viver esta verdade nós não teremos mais medo de viver nossa vida e de encarar seus problemas, pois Jesus nos ama incondicionalmente até o fim. O amor nos tranquiliza, o amor nos dá segurança, o amor nos leva ao encontro do outro, o amor nos impulsiona para ajudar os outros na sua necessidade, e o amor nos leva até o céu (cf. Mt 25,34-40). Jesus nos ama condicionalmente para que nos amemos uns aos outros incondicionalmente (cf. Jo 15,12), pois nisto seremos reconhecidos como discípulos do Senhor (cf. Jo 13,35). O amor transforma qualquer um num verdadeiro seguidor de Cristo.

“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer também que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus: “Amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término.

E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do amor do Pai por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano. 

E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois polos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã. Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus para nós e de nós para os irmãos. 

“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3). Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente”. 

Amar Como O Estilo De Vida Dos Cristãos

“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Este é o mandamento do Senhor! Mas não se trata de uma lei (nomos), e sim de um estilo de vida (entolé). Jesus quer que o amor mútuo (amor fraterno) entre os cristãos cujo modelo é o próprio Cristo (“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”) se torne um estilo de vida de cada dia para todos os cristãos. Através deste estilo de vida todos vão conhecer e reconhecer que os cristãos são realmente seguidores de Cristo rea (cf. Jo 13,35). 

Por Que Jesus Coloca O Amor Como O Maior Mandamento ou como estilo de vida para todos os cristãos? 

A resposta é simples: Porque “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16). Se Deus é amor, o maior mandamento não pode ser outro senão o próprio amor. Quando se fala de cristianismo fala-se do amor. Onde não existe o amor, lá não existe o cristianismo. Se alguém fala do cristianismo sem falar do amor, não é o verdadeiro cristianismo. “O amor é a alma da Bíblia, a força da profecia, a vida dos sacramentos, o fundamento da ciência, o fruto da fé e a vida dos moribundos” (Sto. Agostinho). Ele sozinho já seria capaz de manter a esperança no mundo, pois nele está a chave de tudo. Ele é a força que move o mundo. Compreendê-lo e vivê-lo será justamente alcançar o mistério do universo/criação, da encarnação e da redenção. E conseqüentemente, compreender e viver o amor significa encontrar a chave do sentido da vida e ao mesmo tempo chegar à fonte da vida que é Deus. O paraíso, então, está onde habita o amor. Se formos um dia condenados, não será por termos amado demais, mas por termos amado de menos. Por isso, o homem vive não quando respira, mas quando ama. Por isso também, o homem morre não quando deixa de viver, mas quando deixa de amar, pois Deus é amor (1Jo 4,8.16) e a vida (Jo 14,6). E ninguém é pobre quando sabe amar. Mas quando alguém não sabe amar, embora seja muito rico, ele é o mais pobre do mundo. 

O Próprio Jesus É O Modelo Da Vivência Do Amor 

No mandamento de amor, Jesus se põe a si mesmo como modelo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). Ele se entregou pelos demais ao longo de sua vida até ao extremo: a morte na cruz: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13). É o amor concreto. É amar em todos os momentos e para qualquer pessoa. É amar com o estilo da vida de Jesus. O viver de Cristo Jesus é amar. Ele ama até o fim (Jo 13,1). É amar não com palavras apenas, e sim com obras, com a compreensão, com a ajuda oportuna, com a palavra amável, com a tolerância, com o perdão, com a doação gratuita de si mesmo. O amor autêntico exige sempre o sacrifício e o total esquecimento de si. É amar por amor. São Bernardo afirma: “O amor basta por si só e por causa de si. Seu prêmio e seu mérito se identificam com ele mesmo. O amor não requer outro motivo fora de si mesmo. Amo porque amo; amo para amar”. 

Jesus quer que nos amemos uns aos outros ao estilo d´Ele. O ponto referência de nosso amor ao próximo é o amor com que Jesus ama as pessoas. É amar para salvar. Jesus nos ama porque somos bons e sim Ele nos ama para nos tornarmos cada vez mais bons. Do ponto de vista cristão a capacidade de viver o amor fraterno é o critério de maturidade cristã. Consequentemente, você vive não quando respira, mas quando ama.           

A suprema felicidade da vida é a certeza de que somos capazes de amar e somos amados. “Somente o amor não fica molestado pela felicidade alheia, pois não é invejoso. Somente ele não se deixa enfatuar na felicidade própria, pois não se incha de orgulho”(Sto. Agostinho).          

Por isso, à medida que a vida avança, o critério da maturidade real é a capacidade de amar. Quem ainda não é capaz de amar, com suas várias expressões como: respeito, atenção, agradecimento, perdão, paciência, solidariedade, sinceridade, justiça, fidelidade, misericórdia, ternura, sem discriminação (de cor , de raça ou de experiência acadêmica) etc., ele ainda não cresceu do ponto de vista cristão.          

Jesus fala de amor neste Evangelho numa relação de cadeia. É como uma fonte que vem do Pai, passa por Jesus, chega à comunidade, satisfaz nossas necessidades e deve ir aos outros. Por isso, Jesus diz: “Como meu Pai me amou, assim também eu amei vocês”. Por isso, “amem-se uns aos outros como eu amei vocês” (Jo 15,9.12). Naturalmente a iniciativa do amor vem do Pai, pois nele tem início: “Amamos porque Deus nos amou primeiro”(1Jo 4,19). A prática do amor (ágape) coloca o homem em total sintonia com a Caridade por excelência: Deus.  Fazemos parte do amor de Deus à medida que crescemos na relação amorosa com as pessoas, por meio da caridade, como diz São Paulo: “Permanecei em concórdia, vivei em paz e o Deus de amor e de paz estará convosco” (2Cor 13,11b). Amado, o homem existe e é amado que ele se afirma. Parece um paradoxo, mas é verdade profunda: para o homem, amar a Deus significa antes de tudo deixar-se amar por ele, porque amar a Deus nunca é iniciativa do homem, mas sempre reposta a um dom. É simples o raciocínio de Jesus: o Pai ama o Filho (Jesus) que observou sua vontade. Cristo amou os seus discípulos/seguidores, todos nós, com o mesmo amor que recebia do Pai e no qual os seus, por sua vez, podem permanecer em Jesus, observando o mandamento do amor de seu Mestre. Um pecador, um afastado de Deus, saberá que há um Deus que o busca e que lhe perdoa, se há um irmão que vai em busca dele, por ele se interessa e lhe perdoa em nome do Deus de amor. Um pobre, um doente, um ancião abandonado, descobrirá que há um Pai de amor para ele, se vir um irmão que, em nome de Cristo, a manifestação do amor infinito do Pai, se aproxima dele, divide com ele o seu pão e toma para si um pouco da tristeza dele. O amor de Deus em nós faz-nos solidários e responsáveis uns pelos outros.          

Mas de que amor Jesus fala quando diz: “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”? O amor que Jesus quer colocar não é o amor puramente humano, passional e natural, mas o amor evangélico, ou caridade, ágape. O amor puramente humano, passional e natural é dominado por esta regra: “Como eu te amo, assim tu deves me amar”. No certo sentido, é mais um buscar que um dar. Dou para que tu me dês. O amor evangélico, chamado ágape ou caridade, quebra esse círculo vicioso que tão facilmente se torna egoísmo a dois. A fundamental regra para o amor evangélico é esta: “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”. A retribuição que Jesus quer não é para ele: é para oferecer aos outros.  O amor, neste caso, não se estagna, mas circula perenemente e com ele circula a vida; um dom que se mantém pela transmissão, como o rio que permanece vivo fluindo. Jesus não pede tanto ser amado, mas sobretudo que seja acolhido o amor que desce dele e de seu Pai. Por isso, ele não nos diz: “Amem-me porque amei vocês”, mas “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”. A retribuição que ele quer não é para ele: é para oferecer aos outros. É amando os irmãos que mostramos nossa gratidão pelo amor do Pai que se manifesta a nós em Jesus Cristo. Na expansão de seu amor, nos tornamos “aliados” de Deus e de Jesus. O amor é um testemunho indiscutível que define com quem se pode contar para fazer o bem, um testemunho que convence e conquista outros para fazer a mesma tarefa. . Por isso, o comentário que atrai sempre mais gente para o cristianismo é este: “Vejam como eles se amam”. A glória de Deus não aumenta quando nos prostramos tenebrosos diante da Sua majestade, mas sim quando fazemos com que sua ternura esteja presente no mundo, nas pessoas. Quem ama, mesmo sem ser batizado, tem em si a vida de Deus e por isso, é seu filho: “...todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama, não conheceu a Deus, pois Deus é Amor”(1Jo 4,7b-8). “...quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar...aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20b.21b).          

O amor é visível, circulante e motivo de alegria: “ Eu disse isso a vocês para que a minha alegria esteja em vocês e sua alegria seja plena”, diz Jesus. Aquele que é capaz de amar sempre tem uma vida alegre, um rosto feliz e sorridente naturalmente (não é um sorriso comercial). Ao contrário, aquele que guarda rancor ou mágoa ou não quer perdoar os outros, normalmente não tem uma vida feliz.          

Mas de que modo Jesus nos amou quando ele diz: “Amem-se uns aos outros como eu amei vocês”? No centro da passagem, o versículo 13 nos responde: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos”. Amor é isto: querer o bem do outro e, por isso, fazer o sacrifício se for necessário. Jesus pode pedir tanto, porque foi isso mesmo que ele fez: ele amou os seus discípulos e os amou até o fim: até a morte na cruz (Jo 13,1). Só o amor justifica a cruz. A cruz é a manifestação do amor louco e apaixonado de Jesus por nós. Somente a partir do amor é que podemos entender o significado da cruz. Basta tirar o amor da cruz, ela (a cruz) se torna uma condenação.          

Se é uma doação total, o amor, então, começa com a superação do egoísmo, com o sair de si mesmo, de seus interesses e reivindicações, o abrir-se para o outro. Quando interiormente nos comprometemos com os outros, começamos a compreender. O egoísta não vai ao encontro, pode se camuflar em timidez ou se traduzir pelo comodismo, ou desinteresse. Egoísmo refinado é querer sempre “levar vantagem”. O egoísta se fecha sobre si mesmo, seus interesses mesquinhos, suas pequenas preocupações. Por isso, o egoísta é um infeliz. Ele não percebe que é justamente no entregar-se ao próximo que está o segredo infalível da felicidade.          

O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte; a ausência do amor; a ausência de Deus.          

Amor também é autocomunicação do bem, pois o amor é a presença do bem naquele que sabe amar. Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado.          

Jesus confiou a todos nós algo muito valioso que é o amor. Tendo nos comunicado o que precisamos saber, agora ele nos convida a agir de forma criativa, não como subalternos ou pessoas tristes que cumprem ordens, mas como sócios/amigos. ”Já não chamo vocês de servos porque o servo não sabe o que faz o senhor. Mas chamo vocês de amigos porque dei a vocês a conhecer tudo quanto ouvi do meu Pai” (Jo 15,15). 

Será Que Eu Sou Amigo De Jesus?          

”Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai.” (Jo 15,14-15) 

“Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. Do ponto de vista humano, quem diz “amigo”, diz iguais. Além disso, a amizade pressupõe ser desinteressada. “Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. Isto significa que o discípulo, o cristão não é um simples subalterno. O cristão é um amigo pessoal de Jesus Cristo. O amigo não é um simples conhecido ou um sócio e sim alguém com quem se compartilha a intimidade, o mais profundo de nosso ser: “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15b). O amigo sempre está disposto a fazer o que o amigo lhe pedir: “Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). O amigo demonstra a verdade de seu amor estando disposto a entregar a própria vida se for necessário: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13). Para Jesus a noção de amizade é muito profunda. 

Todos nós conhecemos algumas pessoas que são corretas, fazem tudo direitinho, mas parecem duras com os outros. São honestas, mas não parecem viver essa honestidade com compaixão e alegria. Cumprem seus deveres fielmente, mas fazem isso como quem carrega um peso, sempre de cara feia/triste, como se a vida fosse uma obrigação desagradável.         

Outras pessoas, porém, são acolhedoras, fazem a gente se sentir bem, prestam serviço com alegria. Conseguem nos passar amor à vida, ao próximo e a Deus sem fazer muito discurso. Seu serviço simples e alegre nos comunica que escolheram na vida um caminho que está valendo a pena.          

A prática do mandamento de amor não só nos torna uma só pessoa com Cristo, mas une também ao Pai. A glória do Pai não aumenta quando nos prostramos, temerosos, diante da sua infinita majestade, mas sim, quando fazemos com que seu amor esteja presente no mundo.          

Para podermos amar aos outros verdadeiramente devemos olhar sempre para Jesus Cristo, o modelo máximo de toda a caridade ou amor evangélico, pessoal e comunitário. Ele recebeu tudo do Pai(Mt 11,27), mas o que ele recebeu ele deu tudo para a vida do mundo., até mesmo a Sua carne. A eucaristia que celebramos é a memória viva deste amor evangélico, a tal ponto que o próprio termo “ágape” muito cedo significou para os cristãos a refeição eucarística da comunidade. Essa é a maior memória que possa existir do amor evangélico, visto que como hoje, ouvimos do próprio Jesus Cristo estas palavras: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos”(Jo 15,13).        

Vamos nos perguntar: qual é a maior prova de amor que podemos dar? É justo querer dar a vida por Jesus sem entregar a vida pelos irmãos? Quais são as pessoas que ainda não amei bastante ou ainda não consegui perdoar? Vamos lembrar novamente a palavra do Senhor do domingo passado: “Sem mim nada podeis fazer. Comigo tudo é possível”. Será que contamos sempre com o Senhor ou só nos concentramos na nossa própria força por isso nos sentimos impotentes?

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 2 de maio de 2024

04/04/2024-Sábado Da V Semana Da Páscoa

QUANDO PERMANECERMOS ABERTOS AO ESPIRITO SANTO SEREMOS VERDADEIROS MÁRTIRES DE CRISTO

Sábado da V Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 16,1-10

Naqueles dias, 1 Paulo foi para Derbe e Listra. Havia em Listra um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia, crente, e de pai grego. 2 Os irmãos de Listra e Icônio davam bom testemunho de Timóteo. 3 Paulo quis então que Timóteo partisse com ele. Tomou-o consigo e circuncidou-o, por causa dos judeus que se encontravam nessas regiões, pois todos sabiam que o pai de Timóteo era grego.  4 Percorrendo as cidades, Paulo e Timóteo transmitiam as decisões que os apóstolos e anciãos de Jerusalém haviam tomado. E recomendavam que fossem observadas. 5 As Igrejas fortaleciam-se na fé e, de dia para dia, cresciam em número. 6 Paulo e Timóteo atravessaram a Frígia e a região da Galácia, pois o Espírito Santo os proibira de pregar a Palavra de Deus na Ásia. 7 Chegando perto da Mísia, eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu. 8 Então atravessaram a Mísia e desceram para Trôade. 9 Durante a noite, Paulo teve uma visão: na sua frente, estava de pé um macedônio que lhe suplicava: “Vem à Macedônia e ajuda-nos!” 10 Depois dessa visão, procuramos partir imediatamente para a Macedônia, pois estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para pregar-lhes o Evangelho.

Evangelho: Jo 15,18-21

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e apartei do mundo, o mundo por isso vos odeia. 20Lembrai-vos daquilo que eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu senhor’. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. 21Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”.

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É Preciso Permanecermos Abertos À Ação Do Espirito Santo e Atentos Para Seus Sinais

O texto da Primeira Leitura fala do início da Segunda grande Viagem Missionária de Paulo nos anos 49-52 d.C.  Através da Ásia Menor (atual Turquia) chegará a Europa e fará das principais cidades de Grécia cenário de sua missão. Uma vez na Europa (At 11-15), Paulo se detém em Filipos, principal cidade de Macedônia e a conversão de Lídia que acolheu Paulo constitui o ponto de partida para a fundação daquela comunidade. Porém, nesta Segunda Viagem Missionária, Paulo não é acompanhado por Barnabé (separou-se de Paulo por uma discussão) e sim por Timóteo e Silas. E também Lucas, o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, nos relata porque neste relato aparece o “nós”: “Depois dessa visão, procuramos partir imediatamente para a Macedônia, pois estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para pregar-lhes o Evangelho”.        

O que se enfatiza neste relato é a incansável esforço de Paulo e companheiros na evangelização. Paulo sem medo viaja de cidade em cidade e se deixa tempo todo guiar pelo Espirito Santo. E o Espírito Santo sempre os leva aonde há necessidade de salvação. É assim foi a vida dos primeiros cristãos. Uma vez convertido, Paulo (e companheiros) não se cansa de trabalhar pela evangelização dos gentios. Além disso, eles têm uma crescente consciência de que é o Espirito Santo (Espirito de Jesus) quem os guia permanentemente, e na sua ação missionária, eles também permanecem abertos para a ação do Espirito Santo: “Paulo e Timóteo atravessaram a Frígia e a região da Galácia, pois o Espírito Santo os proibira de pregar a Palavra de Deus na Ásia. Chegando perto da Mísia, eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu”. A ação missionária que faz a Igreja crescer não obedece apenas a critérios ou projetos humanos, mas também obedece à iniciativa e à guia do Senhor Ressuscitado, que intervém por meio do seu Espírito. Paulo e seus companheiros planejam em ir a determinada cidade, mas, muitas vezes, o Espírito Santo os guia para outro lugar: “Paulo e Timóteo atravessaram a Frígia e a região da Galácia, pois o Espírito Santo os proibira de pregar a Palavra de Deus na Ásia. Chegando perto da Mísia, eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu” (At 16,6-7). É um grande exemplo de evangelização: não somente contar com a própria técnica ou com a própria capacidade de evangelizar, mas  sempre contar com a ação do Espírito Santo ou sempre se deixar guiar pelo Espírito Santo. Isto fica claro nos momentos decisivos: no início, com o Pentecostes (At 2,1-11)O filósofo B. Pascal tinha razão quando escreveu: “Quem não contar com Deus é porque não sabe contar”. 

Não sabemos os meios pelos quais eles reconhecem a indicação do Espirito Santo. Mas em todo o livro dos Atos dos Apóstolos o protagonismo do Espirito Santo e a obediência dos discípulos à sua voz/inspiração são constantes. Com esta colaboração entre o Espirito Santo invisível, mas atuante e a comunidade visível, em modo particular seus responsáveis, a fé em Jesus Cristo continua se espalhando pelo mundo. O Espírito Santo atrai e purfica, ilumina e guia. Por isso, o Salmo Responsorial pode aclamar: “Aclamai o Senhor, ó terra inteira, servi ao Senhor com alegria, ide a ele cantando jubilosos!” (Sl 99). 

Lucas nos relatou também que “Durante a noite, Paulo teve uma visão: na sua frente, estava de pé um macedônio que lhe suplicava: ‘Vem à Macedônia e ajuda-nos!’”. A voz misteriosa que convoca Paulo e Silas com urgência evangélica é a mesma voz que deve exortar todas as consciências cristãs para que não durmam na fé, nem definham na caridade, nem diminuam a tensão da santa esperança. Para todas as pessoas de todos os tempos e lugares, o Espírito está nos exortando a testemunhar a fé e anunciar as Boas Novas de Jesus, a fonte da salvação.         

No texto fala-se também da separação de Barnabé de Paulo na viagem missionária por uma discussão (cf. At 15,36-40). Tudo isto nos mostra que o trabalho na equipe não é fácil. Mas apesar do episódio de Barnabé vemos claramente que Paulo tem consciência de que é a comunidade que o envia para a missão depois de sua conversão.         

Nós jamais estamos isentos de distintas visões em tantos aspectos da vida da Igreja/comunidade. Mas jamais podemos perder nossa consciência de que somos comunidade/Igreja e que as coisas não se decidem nem se fazem com critérios meramente pessoais. No nosso discernimento, devemos estar atentos à vida, por um lado, e, por outro lado, devemos permanecer abertos à ação do Espirito Santo, personagem principal da Igreja. É preciso ficarmos atentos aos sinais dos tempos pelos quais o Espirito Santo fala para nós e através de nós. O livro dos Atos dos Apóstolos está muito ligado, de alguma maneira, à voz do Espirito Santo. É o Espirito de Jesus (cf. Mt 28,20), misterioso, mas eficaz agente de toda vida eclesial, Aquele que inspira a comunidade sobre quais são lugares e os caminhos da evangelização em cada momento. O discernimento é comunitário, é para a edificação da comunidade. Tudo que não edifica a comunidade é uma autopromoção. Ninguém pode ser considerado como o único intérprete da vontade de Deus. A voz do Espirito se reconhece na comunidade sobretudo através do ensinamento (magistério) e decisão dos sucessores de Pedro e os Apóstolos, o Papa e o episcopado mundial com uma participação notória da mesma comunidade como se vê ao longo do livro dos Atos dos Apóstolos. “Vinde, Espirito Santo, enchei os corações dos vossos fieis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai o vosso Espirito e tudo será criado e renovarei a face da Terra”, assim rezamos sempre. 

Na Vivência Dos Ensinamentos De Jesus Cristo Seremos Perseguidos 

“Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”. Continuamos ainda a acompanhar o discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17).         

O evangelho de hoje descreve a situação precária da comunidade cristã no mundo, principalmente nos finais do século I e nos começos do século II. É uma situação que se caracteriza pela recusa e até pela perseguição abertas. A resistência à revelação não cessou na cruz de Jesus. A mesma resistência agora é dirigida contra a comunidade cristã que mantém os ensinamentos de Jesus Cristo. “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós”, alerta Jesus aos seus. Na época em que João escreveu seu evangelho muitos morreram como mártires.         

No evangelho deste dia, Jesus contrapõe o amor do Pai com o ódio do mundo manifestado pela perseguição. O amor e o ódio não se reconciliam. O amor revigora, o ódio derruba. O amor confia, o ódio suspeita. O amor enternece (cria ternura), o ódio encoleriza. O amor tranquiliza, o ódio altera. O amor edifica, o ódio destrói. O amor semeia, o ódio arranca. O amor suaviza, o ódio irrita. “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Ódio é paixão ou sentimento que leva a fazer ou a desejar mal para o próximo. É uma paixão provocada pela vista do mal e que se traduz por um sentimento de aversão. Mas o ódio é igual a tomar o veneno e espera que o outro morra. O mundo é caracterizado pelo ódio. A comunidade cristã é caracterizada pelo amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35).         

“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Os cristãos estão bem advertidos. Não têm porque se estranham de ser recusados ou odiados por causa da vivência dos ensinamentos de Cristo. Nada de estranho! A Igreja é o Corpo de Cristo (cf. Cl 1,18; Ef  1,22s;5,23). Por isso, tem que sofrer inevitavelmente os ataques do homem mundano que se crê deus de si mesmo e que não pode renunciar a ser ele o autor de sua própria salvação. Este tipo de homem sempre buscará acusações contra a Igreja, pelos mesmos motivos que as buscou contra Jesus. Para o mundo a fé em Deus é irracional e atrasada; o perdão aos inimigos é uma debilidade; a oração e o amor a Deus são atitudes ineficazes e dos fracos. Por isso e por tantos outros motivos a Igreja de Cristo é perseguida. Mas a perseguição é um meio de união com Cristo; é correr a mesma sorte que Jesus. Enquanto a Igreja viver fielmente de acordo com os ensinamentos de Jesus, ela será perseguida (cf. 2Tm 3,12).        

Para São João, habitualmente, especialmente no contexto do evangelho deste dia, o mundo significa “o mundo pecador”, “o mundo que recusa Deus”. O processo de Jesus não terminou enquanto a Igreja estiver no mundo. Por isso, o mundo neste sentido é sinônimo de todo um sistema ideológico, político e social que aliena o ser humano e o converte num escravo; designa a todo sistema injusto. Mas o seguimento de Jesus, a amizade com ele leva os cristãos a romperem com a mentalidade alienada que o mundo impõe.        

Mas a ruptura com o mundo não é fácil. Pelo contrário, resulta num conflito em extrema deprimente e perigoso, porque o mundo, como mentalidade alienadora, não permite a mínima dissensão ou oposição. Por isso, enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja. Não dá para a verdadeira Igreja de Cristo parar de sofrer. A Igreja de Jesus continua com sua função profética de anunciar e de denunciar que resulta na perseguição e no martírio. Viver de acordo com os ensinamentos de Cristo significa ser sinal de contradição (cf. Lc 2,34-35).         

Os cristãos devem lutar incansavelmente por superar, em sua própria pessoa e na comunidade, a mentalidade que o mundo lhes impõe. A vida de um cristão é uma luta permanente contra o mal. Qualquer cristão verdadeiro sofrerá por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante.         

O que o cristão deve continuar a fazer é testemunhar o amor fraterno. O amor fraterno é o selo de autenticidade de cada cristão (cf. Jo 13,35). Somente o amor vivido na fraternidade salva, pois “Deus é Amor” (1Jo 4, 8.16). Fora do amor não há salvação, pois “Deus é amor”.         

O perigo que temos é a assimilação insensível da hierarquia de valores do mundo em vez da hierarquia de valores que Jesus Cristo ensinou. Por isso, há perseguição contra a Igreja que é fruto da incoerência da própria Igreja com seus próprios ensinamentos éticos e morais recebidos de Jesus Cristo. Se a Igreja estiver de mãos dadas com o mundo é porque a Igreja deixa de viver de acordo com sua função profética de anunciar e de denunciar. Neste sentido, a Igreja é perseguida porque não está vivendo os valores cristãos que ela própria prega. Este tipo de perseguição serve para que a Igreja volte a ser como antes: uma comunidade cristã que vive os valores éticos e morais antes de pregá-los.    

Mas há outro tipo de perseguição que se deriva do choque do evangelho com muitos dos critérios que hoje são vigentes. Esta segunda perseguição é um claro sinal da autenticidade da Igreja. Se os cristãos forem perseguidos por estar vivendo os valores éticos e morais e os demais valores evangélicos, estarão recebendo, na verdade, um grande aplauso apesar do sofrimento. Que bom que alguém me critica por eu praticar o bem. Que bom que alguém me denuncia por eu ser solidário com os pobres e os excluídos da sociedade. Que bom que alguém me persegue por eu lutar pela justiça e honestidade e assim por diante. Se alguém me criticar por cometer algo do nível ético, eu tenho que ficar de joelho diante de Deus para pedir perdão e voltar a viver os valores éticos e os demais valores evangélicos.         

Ser cristão é ser mártir; é ser testemunha. A palavra “mártir” em grego pode significar: afirmar o que se viu para que os demais se convençam disso; é testemunhar para que o juiz faça justiça. No cristianismo, o testemunho significa também firmar com sangue o que se afirma. No Antigo Testamento sem testemunhas declarantes, não pode ter sentença penal (Nm 5,13). Na Bíblia, é preciso ter, pelo menos, dois ou três testemunhas coincidentes (Dt 19,15-16; Nm 35,30; Mt 26,59-61; Mc 14,56-57). As falsas testemunhas eram duramente castigadas (Dt 19,16-20; 1Rs 21,10-13; Dn 13,34-41). Os sábios de Israel anatematizam o testemunho falso (Pr 19,9). Havia obrigação grave de testemunhar (Lv 5,1.5.6).        

Ao participar da Eucaristia sabemos que aceitamos as exigências do Evangelho, de tal forma que, daqui em diante, temos que viver totalmente comprometidos com Jesus Cristo. É sermos testemunhas de Cristo onde estivermos e para onde formos. Comungar o Corpo do Senhor significa viver como Ele viveu. Comungar o Corpo do Senhor significa assumir o estilo de vida que ele viveu. Sem isto, a Eucaristia e a comunhão carecerão de sentido. Quando o cristão deixar de ser testemunhas dos valores cristãos, o mundo vai avançando na sua maldade. E os pequenos, os inocentes serão sempre suas vítimas preferidas. O cristão é chamado a ser voz desses pequeninos: dos sem voz e sem vez.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

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