quarta-feira, 28 de junho de 2023

30/06/2023-Sextaf Da XII Semana Comum

ESTENDER MÃO PARA ABRAÇAR TODOS A FIM DE FORMAR UMA COMUNIDADE DE IRMÃOS

Sexta-feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 17,1.9-10.15-22

1 Abrão tinha noventa e nove anos de idade, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: “Eu sou o Deus Poderoso. Anda na minha presença e sê perfeito”. 9 Deus disse ainda a Abraão: ”Guarda a minha aliança, tu e a tua descendência para sempre. 10 Esta é a minha aliança que devereis observar, aliança entre mim e vós e tua descendência futura: todo homem entre vós deverá ser circuncidado”. 15 Deus disse também a Abraão: “Quanto à tua mulher, Sarai, já não a chamarás Sarai, mas Sara. 16 Eu a abençoarei e também dela te darei um filho. Vou abençoá-la, e ela será mãe de nações, e reis de povos dela sairão”. 17 Abraão prostrou-se com o rosto em terra, e pôs-se a rir, dizendo consigo mesmo: “Será que um homem de cem anos vai ter um filho e que, aos noventa anos, Sara vai dar à luz?” 18 E, dirigindo-se a Deus, disse: “Se ao menos Ismael pudesse viver em tua presença”. 19 Deus, porém, disse: “Na verdade, é Sara, tua mulher, que te dará um filho, a quem chamarás Isaac. Com ele estabelecerei a minha aliança, uma aliança perpétua para a sua descendência. 20 Atendo ao teu pedido, também, a respeito de Ismael. Eu o abençoarei e tornarei fecundo e extremamente numeroso. Será pai de doze príncipes e farei dele uma grande nação. 21 Mas, quanto à minha aliança, eu a estabelecerei com Isaac, o filho que Sara te dará no ano que vem, por este tempo”. 22 Tendo acabado de falar com Abraão, Deus se retirou.

Evangelho: Mt 8,1-4

1 Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam. 2 Eis que um leproso se aproximou e se ajoelhou diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. 3 Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fica limpo”. No mesmo instante, o homem ficou curado da lepra. 4 Então Jesus lhe disse: “Olha, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho para eles”.

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Não Tenhamos Medo De Progredir, Pois Deus Está Conosco

“Eu sou o Deus Poderoso. Anda na minha presença e sê perfeito”.

Depois que se revelou como o Deus Poderoso (El Saday), Deus exige de Abrão que seja perfeito e caminhe na presença de Deus. Não se determina nenhuma prescrição positiva e sim a intimação de ser reto e íntegro em seus costumes, isento de todo pecado. E no NT, através do Evangelho de Mateus, Jesus dirá para os discípulos para serem perfeitos como o Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). 

“Anda na minha presença e sê perfeito”. Andar na presença de Deus é andar no amor, na bondade, na justiça, na honestidade, na fraternidade, e assim por diante. É andar e viver como filho e filha de Deus. O Pai celeste se reflete no filho(a) e o filho(a) deve ser reflexo do Pai. É andar como imagem e semelhança de Deus que sou. É andar na fraternidade, pois o Pai tem muitos filhos e eu sou apenas um deles. É andar sobre a Terra com uma visão do céu. É andar sem prender-se pelo brilho daquilo que é caduco e efêmero. É andar, isto é, não ficar-se parado nem paralisado. A vida está sempre para a frente, nunca para trás. Por isso, não viva culpando-se pelo erro cometido de ontem. A vida continua fluindo no tempo. No andar veremos muitas coisas e presenciaremos muitos acontecimentos que provocam nossa reflexão. Se andar, é necessário carregar o necessário para não atrapalhar a caminhada ou morrer no caminho pelo peso carregado desnecessariamente. É andar com os irmãos da mesma jornada nesta vida. A vida é uma procissão para a vida eterna. É andar com o rumo certo: a comunhão plena e eterna com o Pai celeste. No AT até a Lei era considerada como o Caminho. 

Neste capitulo (Gn 17), Deus muda o nome de Abram (Abrão) em Abraham (Abraão) dizendo “porque farei de ti o pai de uma multidão de povos” (Gn 17,5). Aqui o autor sagrado faz um jogo de palavras na mudança do nome de Abraão: “Abram”. “Ab” (pai) e “hamon” (multidão). Na realidade, etimologicamente, Abram significa “meu pai é elevado, de nobre estirpe”. Nas promessas anteriores se dizia que seria pai de um povo inumerável. Agora, a perspectiva se alarga e se diz que será pai de “multidão de povos” e que dele sairão “reis” (Gn 17,8). Por isso, a partir de agora Abraão é como uma nova pessoa diante de Deus, pois agora Abraão simboliza a paternidade sobre “multidão de povos”. 

Cada um de nós tem seu nome próprio. É bom procurar saber qual é o significado de seu nome. Você vive de acordo com o significado do seu nome? O que se exige de você a partir do significado de seu nome? Qual foi motivo pelo qual seus pais adotaram a você o nome que você tem atualmente? “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos” (José Saramago) e que por fora os pais nos adotaram um nome que nos merece. 

“Anda na minha presença e sê perfeito”, ordena Deus a Abraão. “Anda!”. “Avança!”. Não sejas passivo! Levanta-te! Encarrega-te de tua vida. Isto é o que o Senhor pede a cada um de nós. “Mas na minha presença”, disse Deus. Deus está nos dizendo: “Estou contigo; eu te ajudarei se tu começares a andar, a avançar”. 

“Sê perfeito”, acrescentou Deus. Deus está nos dizendo: “Faças tudo o que podes, progride em todas as tuas capacidades; vê mais longe, continues a avançar; não te desanimes nunca. Tu podes fazer o melhor cada dia!”. A vida é tanto um caminho como um movimento. Deus nos exige. Caminhar na presença de Deus ou dedicar-Lhe totalmente a existência há de construir a suprema aspiração dos justos e perfeitos como Abraão. 

Circuncisão Do Físico e Do Coração Para Pertencer a Deus e Como Condição Para Herdar Bênção Divina

“Esta é a minha aliança que devereis observar, aliança entre mim e vós e tua descendência futura: todo homem entre vós deverá ser circuncidado”. 

Nós encontramos diante de um dos capítulos mais importantes da tradição sacerdotal que elaborou com sumo cuidado a importância da circuncisão. 

A palavra “circuncidar” vem do latim “circumcidere”: circum, ao redor; “caedere”, cortar. Circuncisão consiste em cortar circularmente uma porção do prepúcio para que possa descobrir-se a glande. Para os judeus a circuncisão deve ser feita ao oitavo dia depois do nascimento, segundo a lei de Lv 12,3 e o relato sacerdotal da aliança com Abraão, Gn 17,12. 

O pacto de Deus com Abraão toma traços concretos. Além da exigência da retidão e lealdade diante de Deus (“Anda na minha presença e sê perfeito”), também aparece o que depois será sinal externo da pertença ao povo eleito a circuncisão dos filhos varões. Em diversas culturas a circuncisão obedece a razoes higiênicas ou de iniciação sexual. Mas aqui tem sentido religioso. A circuncisão é sinal da pertença ao povo de Deus e da fidelidade à Aliança com Deus. a circuncisão se converte em sinal da aceitação, por parte do homem, do compromisso libertador de Deus, e por isso, se vincula tão intimamente à fé de Israel, sobretudo a partir do exilio , quando nasceu a tradição sacerdotal. 

Relacionada com Abraão, pai do povo (Gn 17,9-14; 21,4), promulgada na lei (Lv 12,3), a circuncisão é a condição indispensável para poder celebrar a Páscoa na qual Israel se declara povo eleito e salvado por Javé (Ex 12,44.48). 

Mas há risco escondido. Israel pode acreditar que basta estar circuncidado para desfrutar das promessas da aliança. O profeta Jeremias, foi o primeiro que recordou ao povo eleito. Para o profeta Jeremias a circuncisão física não tem em si nenhum valor (Jr 9,24). O que importa é tirar o prepúcio dos corações: “Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jr 4,4). O Deuteronômio também chama a atenção para a circuncisão do coração, isto é, o amor exclusivo de Deus e a caridade fraterna (Dt 10,12-22). A mesma tradição sacerdotal também faz eco (Lv 26,41).  Esta circuncisão do coração que Israel era incapaz, será dada por Deus no dia da salvação: “O Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30,6). Neste mesmo discurso São Paulo discernirá com justa razão um anúncio da salvação pela graça e pela fé (Rm 10,6ss). 

Em outras palavras, não bastam ritos e rituais externos. Todos eles devem expressar a pureza de nosso coração e a caridade nas nossas obras. Se temos tanto tempo para arrumar nosso físico (exterior), devemos ter mais tempo para limpar nosso coração de suas impurezas. O coração é o centro de nosso ser, a fonte de nossa personalidade, o motivo principal de nossas atitudes e escolhas, o lugar da misteriosa ação de Deus. O coração representa o ser humano em sua totalidade, é o centro original da pessoa humana, aquilo que lhe dá a unidade. Quem não cuida de seu interior, para nada valem as coisas externas. Quando algo não sair de nosso coração, também não vai atingir o coração dos outros, muito menos vai chegar ao coração de Deus. 

Deixar De Ter Um Coração De Lepra 

“Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam”. Esta frase é antitética com Mt 5,1: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte...”. Agora Jesus desceu da Montanha e “numerosas multidões o seguiam”. A descida de Jesus da Montanha marca o passo do ensinamento para a ação. Palavras e ensinamentos transformados e concretizados na ação para o bem de todos. É transformar o dizer em agir em prol da salvação de todos. Jesus estava sentado ensinando; agora se levanta descendo para a ação. A multidão o segue, mas até onde a multidão vão seguir Jesus? A multidão segue a Jesus pela facilidade ou pelo bem e pela igualdade de todos pelos quais o Senhor luta? 

O evangelista Mateus nos relatou que “um leproso se aproximou de Jesus”.  Mateus usa o verbo “aproximar-se” 54 vezes no seu evangelho. Este verbo está carregado de sentido. A comunidade de Mateus, de origem judia, ao escutar este verbo, sentia que caiam muitas barreiras “do puro e do impuro”. Por isso, Mateus relatou que “Jesus estendeu a mão, tocou no leproso”. O leproso estava verdadeiramente excomungado da comunidade social e cultural de Israel e era declarado “impuro” e marginalizado de toda participação no culto e acreditava-se que era incapaz de aproximar-se de Deus e da sociedade humana (cf. Lv 13,45-46). 

Mas o leproso do Evangelho já sabe que, com Jesus, caíram as barreiras e sabe que para Jesus, mesmo sendo leproso, ele é parte da comunidade. 

Aproximou-se de Jesus um leproso e lhe suplicou: “Senhor, se queres, podes purificar-me”. A oração desse leproso é breve e confiante.  “Se queres”, disse o leproso. Ele não pede nem exige nada. E acrescenta: “podes purificar-me”. Para o leproso, Jesus é aquele que pode curá-lo e ao mesmo tempo pode reabilitá-lo totalmente, isto é, purificá-lo, eliminar dele todo sinal de impureza, fazendo-o capaz de se aproximar de Deus. o que o leproso pede é o QUERER de Jesus, pois Jesus PODE tudo, até ressuscitar os mortos. E Jesus atendeu ao pedido do leproso: “Eu quero, fica limpo”. QUERER  e PODER de Jesus, juntos, resultam no milagre: a lepra desapareceu do homem. 

Do leproso curado aprendemos que Deus tem PODER para tudo na nossa vida. Não tenhamos dúvida disto. Pedimos a Deus que o PODER  dele possa unir ao QUERER dele na nossa vida cotidiana. 

É o primeiro milagre relatado por Mateus logo depois do Sermão da Montanha. A escolha de um leproso para este primeiro milagre para Mateus tem seu significado. Mateus escreveu seu evangelho para os judeus. Em seu contexto cultural e religioso, a lepra era o mal por excelência, uma enfermidade contagiosa que destruía lentamente a pessoa afetada e que era considerada pelos antigos como um castigo de Deus, sinal de pecado que excluía a pessoa afetada da comunidade (Dt 28,27-35; Lv 13,14). O leproso era considerado impuro e fazia impuro tudo que tocava. Por isso, ele era afastado da comunidade. O leproso sofria, então, não somente fisicamente, mas também psicológico e social e religiosamente. E para a lepra não tinha nenhum remédio. O leproso estava condenado à morte. Restava esperar um milagre para sobreviver. 

 Mas no meio da falta de solução e de saída Jesus apareceu para superar o problema. Jesus estendeu a mão e tocou nele e disse: “Eu quero. Fica limpo”. A palavra de Deus se torna fato, se for obedecida e praticada. A força salvadora de Deus está na ação de Jesus. De fato, o leproso ficou curado. Podemos imaginar alegria deste homem que era solitário, abandonado, excluído e maldito pela sociedade e agora feliz, pois volta a olhar para o futuro com muita esperança. 

A mão estendida, o contato é um sinal de amizade. Jesus se apresenta como amigo do sofredor, do abandonado e se aproxima dele para dizer que o sofredor não está sozinho. Jesus compartilha os dramas da humanidade. Por este humilde gesto Jesus reintegra o leproso curado na sociedade dos que o excluíam. Esta mão estendida é também um gesto de vitória. Esta mão estendida é o gesto de amor. É uma mão pronta para ajudar como ajudou Pedro que estava para afogar. É uma mão que está pronta para ajudar quem se encontra na dificuldade. 

Todos nós somos débeis de alguma forma e necessitamos da ajuda permanente de Jesus. Nossa oração, confiada e simples, como a do leproso, se encontra sempre com o olhar de Jesus, com sua vontade de nos salvar. Jesus nos toca com sua mão diariamente. Mas muitas vezes estamos bem anestesiados pelas preocupações e agitações que acabamos não sentindo a mão de Jesus tocando nossa mão. Jesus nos alimenta com o Pão e o Vinho da Eucaristia, tocando nossa vida. Ele nos perdoa através da mão de seus ministros estendida sobre nossa cabeça, tocando e ungindo nossa testa e nossa mão com o óleo santo de batismo, de crisma, dos enfermos. 

Olhando para o leproso antes e depois de sua cura, cada um precisa se perguntar: “O que é que faz você perder a esperança lentamente?”. E nesta situaçao, você tem coragem de se aproximar de Jesus e deixar-se tocar por ele para você voltar a ter mais esperança e força para continuar sua luta?

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 27 de junho de 2023

29/06/2023-Quintaf Da XII Semana Comum

ENTRE O FALAR E O FAZER NA VIDA DO CRISTÃO

Quinta-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 16,6b-12.15-16

Naqueles dias, 6b Sarai maltratou tanto Agar que ela fugiu. 7 Um anjo do Senhor, encontrando-a junto à fonte do deserto, no caminho de Sur, disse-lhe: 8 “Agar, escrava de Sarai, de onde vens e para onde vais?” Ela respondeu: “Estou fugindo de Sarai, minha senhora”. 9 E o anjo do Senhor lhe disse: “Volta para a tua senhora e sê submissa a ela”. 10 E acrescentou: “Multiplicarei a tua descendência de tal forma, que não se poderá contar”. 11 Disse, ainda, o anjo do Senhor: “Olha, estás grávida, e darás à luz um filho e o chamarás Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição. 12 Ele será indomável como um jumento selvagem, sua mão se levantará contra todos, e a mão de todos contra ele. E ele viverá separado de todos os seus irmãos”. 15 Agar deu à luz o filho de Abrão; e ele pôs o nome de Ismael ao filho que Agar lhe deu. 16 Abrão tinha oitenta e seis anos, quando Agar deu à luz Ismael.

Evangelho: Mt 7,21-29

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21 “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? 23 Então eu lhes direi publicamente: Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal. 24 Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26 Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!” 28 Quando Jesus acabou de dizer estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu en­sina­mento. 29 De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei.

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É Urgente Reviver Nossa Fraternidade, Pois Temos Abraão Como Nosso Pai Comum

“Naqueles dias, Sarai maltratou tanto Agar que ela fugiu” para o deserto. O motivo da briga é: “Olha, estás grávida, e darás à luz um filho e o chamarás Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição. Ele será indomável como um jumento selvagem, sua mão se levantará contra todos, e a mão de todos contra ele. E ele viverá separado de todos os seus irmãos”. Sara ficou com ciúme de Agar. E Sara continua a viver sem filho. É o episódio a respeito do conflito entre Sara e Agar, a escrava egípcia, que lemos na Primeira Leitura. 

Quem escreveu esta parte do texto foi a tradição javista. No texto a tradição javista destaca a frustação de Sara por não ter filho e consequentemente é dominada pelo ciúme. Por outro lado, destaca-se a arrogância de Hagar, considerando-se como uma mulher abençoada, pois somente uma mulher abençoada pode gerar filho(s), segundo pensamento na época, mesmo que a gravidez de Hagar tenha consentimento de Sara. Segundo os costumes da Mesopotâmia, a esposa estéril pode deixar escrava relacionar-se com o marido para poder ter filhos, que serão considerados filhos legais da esposa legitima. Hagar esquece seu lugar como escrava e mostra-se arrogante diante de Sara.  E Sara, por sua vez, se mostra severa para com Hagar. Diante deste conflito Abraão fica calado e passivo, como quem fica em cima de muro. 

Hagar com seu filho tomou seu próprio rumo e fugiu da casa de Sara pelo mau tratamento da parte de Sara. E Abraão era frágil tanto no uso da escrava de sua mulher quanto na expulsão da mesma quando já se encontrava grávida. Agar, pelo contrário, é um exemplo de abandono nas mãos do Senhor que não deixa desamparado os fracos e envia seu anjo para salvá-la e o mesmo mensageiro do Senhor (anjo) também anuncia a Hagar que ela será a mãe de muitos descendentes. O nome do filho de Hagar é Ismael que significa “Deus ouve”. Isamel, o filho do bendito, alcançará a bênção. Ismael, filho de mãe orgulhosa e rebelde, torna-se ancestral das tribos do deserto, conhecidos por seu espirito selvagem e livre e por natureza é belicosa. Mas todos têm como pai comum Abraão. 

Este episódio é muito importante para nossa atualidade. Ele permite relacionar o mundo mulçumano: Islam (Islã) = Ismael, com a Aliança e com a fé monoteísta de Abraão. O Concílio Vaticano II (cf. Nostra Aetate, n. 3) foi necessário para que os cristãos reconhecessem a dignidade de Islã, depois de séculos de guerras e oposições. Infelizmente, as feridas entre árabes e judeus não foram cicatrizadas. Para convencer-se disso, basta evocar a atual situação política no Oriente Médio que desconhece o fim. O texto da Primeira Leitura que é aparentemente “alheio” e quase “arqueológico” se revela como de flagrante atualidade: a trágica rivalidade entre Sara e Agar continua em pleno século XX/XXI de nossa época sem sabermos até quando vai ter seu fim. Espera-se que um dia as três religiões monoteistas (Judaismo, Cristianismo e Islamismo) cujo pai delas é o mesmo: Abraão, possam ser unidas para a paz do mundo. 

Ao ver que tardava no cumprimento da promessa da parte de Deus que prometeu uma numerosa descendência, Abrão e Sara recorreram a um procedimento admitido na época: Sara sugere que seu marido, Abraão, tenha um filho de uma escrava egípcia, Agar. 

Abrão busca Deus e sua vontade através dos costumes de seu tempo. Mas não é sempre fácil fazer a vontade de Deus. Abraão por um momento acreditou que o filho com a escrava Agar seria o cumprimento da “promessa”. Mas não foi assim. De erro em erro, de sofrimento em sofrimento Abarão va avançando. 

Por isso, o que acontecerá depois, como consequência, vai se repetindo em todos os tempos: na sua gravidez a escrava Agar se anima diante de sua ama, Sara, e se sente superior ao estéril Sara, sua ama, e quer que seu filho seja reconhecido como seu. A reação de Sara é expulsar a escrava Agar da casa. Agar fugiu para o deserto. E Deus continua levando adiante seu plano de salvação, também através destas misérias humanas. 

O filho da escrava Agar parece não ter lugar na história da salvação, mas também a ele alcança o amor de Deus. O filho será chamado Ismael, que significa “Deus escuta”. Ninguém, nem sequer o povo eleito no AT nem a Igreja no NT tem o monopólio da graça de Deus e da salvação. Deus ama também todos os que consideramos que estão fora, pois todos são seus filhos. 

Além do mais, temos que saber reconhecer os caminhos de Deus também em direções que nos parecem surpreendentes. Porque Deus é sempre original e se escapa de nossos cálculos. Muitas vezes aquilo que achamos como solução termina como um grande problema, pois Deus tem seus próprios planos sobre nós e sobre a humanidade em geral. 

O filho que Abraão tem com a escrava Agar será o pai dos ismaelitas ou agarenos, nómadas beduínos. Portanto, também os árabes têm Abraão por patriarca. Seu filho Ismael para os árabes e o filho que virá depois, Isaac, para os judeus, são cabeça de uma dupla descendência numerosíssima. Visto a partir deste ângulo, parece que judeus e árabes, por sua comum origem, estão condenados a entender-se. E nós, os cristãos, com os dois. Se um dia, os três irmãos (judeu, mulçumano e cristão) se compreenderem mutuamente pela mesma origem cujo patriarca é o mesmo: Abraão, as guerras poderão conhecer seu fim. Se os três trabalharem juntos, o mundo vai avançar na paz. 

Atualmente, há entre 14,2 a 16,5 milhões de judeus pelo mundo (segundo o informe anual do Instituto de Política do Povo Judeu,28 de junho 2015); há 1,6 bilhão de mulçumanos (O Fórum Pew para Religião e Vida Pública divulgou na terça-feira 18 Dezembro de 2014); há em torno de 2 bilhões de cristãos, isto é, católicos e protestantes (17 de março de 2010). Se os três se reunirem e unirem suas forças, o mundo vai ter um rosto celestial, pois no mundo eles são de maioria. Os três são irmãos, pois eles têm Abraão como seu patriarca comum. Por que não procuramos os pontos de convergência para resolver os problemas mundiais? Será que temos coragem de assumir que os três também contribuem para o surgimento das brigas, batalhas e guerras no mundo? Será que Deus em quem acreditamos e em quem Abraão depositava sua fé e confiança total teria prazer de ver o sangue de nossos irmãos derramado em nome de uma religião ou em nome de um suposto Deus em quem acreditamos? As três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, e islamismo) temos um ponto comum de referência em Abraão e sua fidelidade a Deus. Pena que não nos conhecemos nem estamos reconciliados totalmente. 

Segundo o rabino Nilton Bonder há os três maiores segredos para o patriarca Abraão. “O primeiro sobre si mesmo: que foi criado à imagem e semelhança do divino. O segundo sobre o próximo: não há outro porque tudo é uma manifestação de Deus. E o terceiro sobre o comportamento mais importante em um ser humano: ser compassivo e acolher/hospedar” (Tirando Os Sapatos: o Caminho de Abraão, Um Caminho Para o Outro p.96). 

Nosso Deus é um Deus que compadece. É um Deus que considera todo homem como filho Seu. É um Deus que está presente, especialmente no homem que sofre. É um Deus que não se deixa se encerrar ou se fechar e se prender nos santuários ou nos ritos e sim que está ali junto ao que sofre como a escrava Agar. É um Deus que não se resigna ver seus filhos desunidos ou inimigos. Este Deus é o Deus em quem acreditamos. 

Valor Do Dizer e Do Fazer Na Vida Cristã

Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). Como podemos saber se alguém é um verdadeiro cristão ou somente tem nome de cristão, mas que não tem nada a ver com a maneira de viver?  “De que vale ter o nome cristão se tua vida não é cristã? Há muitos que se denominam médicos e não sabem curar. Muitos que se dizem vigilantes noturnos não fazem mais que dormir a noite inteira. Assim também muitos se chamam cristãos, mas não o são em seus atos. Em sua vida, moral, fé, esperança e caridade são muito diferentes do que declara seu nome”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). O que conta para Deus é o bem que praticamos. Esta questão é que o texto do Evangelho deste dia quer nos transmitir. 

1. Fazer e Dizer Devem Estar Em Sintonia Perfeita 

“Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”. 

Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram”, mas não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela. 

Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida longes dos valores cristãos. 

Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.

Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social. 

2. Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus 

Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprias as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência. 

O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. Jesus nos convida a construir nossa vida sobre a prática. As obras boas praticadas são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus. 

Para Refletir: 

“O Nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência, e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes? Não nos deixemos enganar pelo fato de nos chamarem de cristãos. Antes, admitimos ser merecedores de reprovação se usamos um nome ao qual não temos direito... Não existe uma só profissão que não carregue consigo a função correspondente. Como, pois, te atreves a chamar-te cristão, se não te comportas como tal?” (Santo Agostinho: De vit. Christ. 6).

P. Vitus Gustama,SVD

domingo, 25 de junho de 2023

28/06/2023-Quartaf Da XII Semana Comum

O CRISTÃO É RECONHECIDO PELOS BONS FRUTOS QUE PRODUZEM

Quarta-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 15,1-12.17-18

Naqueles dias, 1 o Senhor falou a Abrão, dizendo: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu protetor e tua recompensa será muito grande”. 2 Abrão respondeu: minha casa s“Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos e o herdeiro de erá Eliezer de Damasco”. 3 E acrescentou: “Como não me deste descendência, um servo nascido em minha casa será meu herdeiro”. 4 Então o Senhor falou-lhe nestes termos: “O teu herdeiro não será esse, mas um dos teus descendentes é que será o herdeiro”. 5 E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!” E acrescentou: “Assim será a tua descendência”. 6 Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça. 7 E lhe disse: “Eu sou o Senhor que te fez sair de Ur dos Caldeus, para te dar em possessão esta terra”. 8 Abrão lhe perguntou: “Senhor Deus, como poderei saber que vou possuí-la?” 9 E o Senhor lhe disse: “Traze-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, além de uma rola e de uma pombinha”. 10 Abrão trouxe tudo e dividiu os animais pelo meio, mas não as aves, colocando as respectivas partes uma diante da outra. 11 Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. 12 Quando o sol já se ia pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror. 17 Quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre os animais divididos. 18 Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”.

Evangelho: Mt 7,15-20

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15 “Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vós vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Vós os conhecereis pelos seus frutos. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas? 17 Assim, toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má, produz frutos maus. 18 Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má pode produzir frutos bons. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e jogada no fogo. 20 Portanto, pelos seus frutos vós os conhecereis”.

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Fé No Deus Da Promessa Que Pode Tardar, Mas Não Falha, Pois Ele é Fiel a Si Próprio 

“Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”, disse Abraão a Deus. O grande sofrimento de Abraão é não ter filhos. Havia o conceito na época de que viver sem filhos (descendentes) significava viver sem bênção de Deus. É um medo de Abraão de nunca ver a promessa se realizar. É o medo de ficar só, estéreil sem produzir nada de válido, isto é sem a descendência. É o medo de não dar frutos e de não deixar marcas. Mas é preciso caminhar de mãos vazias na promessa de Deus, pois Ele é a origem e o destino de tudo o que é bom. Mas Abraão continua a depositar sua fé no Deus da promessa, no Deus do porvir. Ao próprio Deus é que ele se dirige numa oração simples e profunda que se mistura com grito e esperança: “Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”. 

Logo no início do diálogo, Deus disse a Abraão: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu protetor e tua recompensa será muito grande”. Aqui Deus se apresenta com três expressões ligadas entre si: Nada temas, Abraão; Eu sou teu Protetor(escudo); Tua recompensa será muito grande. 

Para a queixa de Abraão Deus dá a seguinte resposta: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência”. É o pedaço do diálogo entre Abraão e Deus.

“Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência”.  A promessa visa agora não só a um filho que virá (que será Isaque), mas às gerações futuras.  De Abraão nasceram as três grandes religiões monoteístas: Judaismo, Cristianismo e Islamismo. A partir de Abrão, os judeus, os cristão e mulçumanos são irmãos. Se estas três religiões monoteístas estiverem juntos na luta pela paz, pela fraterniade, o mundo vai mudar, pois a maioria da população mundial está nestas três religiões monoteístas. 

“Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”. O grande sofrimento de Abraão é não ter filhos. Havia o conceito na época de que viver sem filhos (descendentes) significava viver sem bênção de Deus. Mas Abraão continua a depositar sua fé no Deus da promessa, no Deus do porvir. Ao próprio Deus é que ele se dirige numa oração simples e profunda que se mistura com grito e esperança: “Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”. 

Deus promete uma descendência numerosa como as estrelas. Aparentemente é impossível do ponto de vista humano, pois Sara é estéril e de idade avançada. Abraão é velho. É o conflito entre fé em Deus diante de uma realidade aparentemente sem solução. “Vou continuar a confiar em Deus enquanto a realidade me diz que não adianta pela impossibilidade de uma solução” é a voz de quem tem fé em Deus como Abraão. Deus é nossa primeiro e nossa última esperança. É a única esperança que jamais falha, pois Deus “tem palavras da vida eterna” (Jo 6,68). 

Milhares de anos depois, nós sabemos que essa promessa se realizou. Milhões de judeus, de árabes e de cristãos honramos a Abraão como nosso pai comum. Abraão é o pai dos judeus, dos muçulmanos, dos cristãos. Por isso, nós (judeus, mulçumanos e cristãos) deveríamos viver aquilo que Abraão dizia para Ló: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos” (Gn 13,8). Nilton Bonder escreveu: “Tenho que tirar meus sapatos e reconhecer o outro como aquele que pisa o mesmo chão sagrado, que existe independentemente da minha sola” (Tirando Os Sapatos: o Caminho de Abraão, Um Caminho Para o Outro p.189). 

Temos que ter coragem de dirigir nosso olhar para o futuro de Deus com fé, pois Deus é o Senhor do impossível. O mundo não acabou. O porvir está nas mãos de Deus. Nossa fé deve ser dirigida para o porvir de Deus a exemplo de Abraão, ainda que não consigamos ver o resultado imediato, pois a “fé é a certeza daquilo que não se vê e é a antecipação daquilo que se espera” (Cf. Hb 11,1). 

Temos que estar conscientes de que a fé, a certeza de Deus não suprimem qualquer angústia e obscuridade. Em certos dias o tempo parece interminável, como Abraão espera a chegada do filho apesar da velhice. É assim também nossas vidas de cada dia. Há noites vazias, obscuras. Há trabalhos aparentemente estéreis. Há momentos em que a prova nos põe em nervosismo e angústia. Paradoxalmente, Deus atua precisamente em nós quando estamos vazios de nós mesmos e completamente receptivos para a ação de Deus. Quando tudo parece perdido, como aconteceu na Paixão de Jesus, é certamente quando a salvação pascal está próxima. 

Abraão já conhecia sua história, mas seu futuro era como uma parede, como um poço sem fundo. O tempo vai passando, e Deus convida a Abraão a olhar para o céu. Abraão é confrontado com o infinito (o céu, sem saber onde começa e termina). Deus convida Abraão a mover seus olhos cansados para o firmamento sem limites e a renovar sua esperança esgotada na dança das estrelas e das planetas. Quando tomarmos coragem de dirigir nosso olhar para Deus, para o Infinito, começaremos a entender que o que se passa na nossa vida não se escapa do olhar de Deus. O olhar dirigido para o céu (Deus) é o momento para perguntar a Deus e é o momento de ouvir a resposta de Deus quando tudo está em silêncio, em repouso total. Abraão creu. Viu as estrelas e nelas acredita ver a multidão de filhos que um dia seriamos todos nós. Abraão nos viu no firmamento, no céu, e, com certeza, um dia chorou de alegria ao ver a esperança que se tornou uma realidade 

Abraão é nosso pai na religiosidade, no ato de fé e na caminhada da fé. A vida de Abraão é uma peregrinação de fé desde um ponto de partida até um ponto de chegada, passando por provações e purificações. Quem confia na Palavra de Deus, esteja preparado para a vitória final, como Abraão, apesar das dificuldades e as impssibilidades, de ponto de vista humano. 

“A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas” (Carta Encíclica do Papa Francisco: Lumen Fidei n.4). 

O Cristão É Reconhecido Pelas Suas Boas Obras 

Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). O que conta para Deus é o bem que praticamos. Nossa maneira de viver e de conviver é o parâmetro para saber se realmente rezamos ou se realmente acreditamos em Deus que é o Supremo Bem. O texto do evangelho de hoje serve de verificação para nossas praticas diárias. Afinal, quem é o verdadeiro cristão? 

As Obras Falam Por Si De Quem As Faz 

Através do evangelho de hoje Jesus quer nos dizer, primeiramente, que não devemos julgar ou avaliar o homem pelas aparências que são frequentemente enganosas. Devemos, ao contrário, avaliá-lo a partir daquilo que ele faz. Nem as palavras, nem as intenções, e sim as práticas. Se as palavras e as intenções seguem uma direção, e a prática outra, a segunda é que revela o coração do homem, suas opções profundas, seus verdadeiros interesses. Por fora, todos podem parecer iguais, mas o interior da pessoa e as obras que fazem a diferença. Sabemos que nem tudo o que brilha é ouro. 

No entanto, a comparação também pode ser entendida de outra forma. Existem sementes que quando você as vê parecem inócuas, e há árvores que parecem fascinantes quando você as vê; somente se você tiver paciência (e bom senso) para esperar pelos frutos saberá o que eles realmente são. É assim que os falsos profetas são negados; não pelas muitas palavras que dizem (palavras muitas vezes fascinantes), nem pelos vários gestos que fazem; você deve valorizá-los com base nos frutos que essas palavras e esses gestos produzirão em breve.             

Jesus é muito realista. Ele dá este critério: “Olhem e vejam como atuam” para saber se são verdadeiros cristãos ou não, se são profetas ou não são profetas. “Pelos frutos vocês vão reconhecê-los”. A chave para distinguir os verdadeiros dos falsos profetas não é sua doutrina ou seu ensinamento e sim suas obras.  

Qualquer pessoa se manifesta pelo que faz ou pelo modo de viver. Os cristãos são reconhecidos não pelos dons que têm, mas pelos frutos que produzem. Qualidade de um fruto depende da qualidade da árvore. Jesus quer nos dizer para não julgarmos os homens pelas aparências e sim pelo que faz. Nem as palavras nem as intenções e sim a prática. Se as palavras e as intenções seguem uma direção e a prática outra, a segunda é que revela o coração do homem, suas opções profundas, seus verdadeiros interesses. 

Através do evangelho de hoje Jesus faz uma advertência sobre o perigo relacionado aos falsos profetas. O evangelista Mateus dá uma norma para sua comunidade a fim de saber reconhecer os falsos profetas: a paciência em esperar os frutos e as obras pelos quais será reconhecido o verdadeiro profeta do falso profeta. A chave para detectar os falsos profetas são suas obras. O verdadeiro profeta é aquele que orienta a comunidade de acordo com a mensagem e a forma de vida de Jesus.             

Este critério deve ser aplicado para nós mesmos também: Que frutos produzimos? Que frutos você produz? Dizemos apenas palavras bonitas ou também oferecemos fatos ou obras? De um coração azedo somente produz frutos azedos. De um coração generoso e sereno brotam obras boas e consoladoras. São Paulo na carta aos gálatas escreveu: “As obras da carne são fornicação, idolatria, ódios, discórdia, inimizade, egoísmo, inveja, ciúmes, ira, divisão, rivalidade. Ao contrário, o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, fidelidade, domínio de si mesmo” (cf. Gl 5,19-26). Se nós somos filhos da Verdade e do Amor, então, façamos as obras da Verdade e do Amor e vivamos na sinceridade.             

A Palavra de Deus hoje nos convida a descermos ao fundo do coração para descobrir nele a nossa maldade ou a nossa bondade; a nossa mentira ou a nossa verdade; nossa veracidade ou nossa falsidade; a nossa esterilidade ou a nossa fecundidade. A Palavra de Deus precisa nos desarmar para nos vermos como somos. 

Portanto, com Sua Palavra através do evangelho de hoje Jesus denuncia uma dissociação frequente e muito perniciosa (prejudicial). Uma vida cristã fundada nesta dissociação é como uma casa construída sem fundamento. Por isso, somos alertados que existe o perigo de uma oração (Senhor, Senhor) que não se traduz em vida e em compromisso (a vontade de Deus) que lemos no próximo dia. Existe o risco de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Existe o risco de certos momentos comunitários que se fecham em si mesmos sem nenhum compromisso. A oração, a escuta da Palavra de Deus e o encontro comunitário, são a raiz da práxis cristã. Porém, a raiz deve germinar e produzir frutos. Ninguém planta trigo sem esperar colher seus grãos. Ninguém pesca sem esperar apanhar peixes.

P. Vitus Gustama, SVD

sábado, 24 de junho de 2023

27/06/2023-Terçaf Da XII Semana Comum

MANTER A FÉ EM DEUS DESPOJANDO-SE E VALIZAR O VALIOSO

Terça-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 13,2.5-18

2 Abrão era muito rico em rebanhos, prata e ouro. 5 Ló, que acompanhava Abrão, também tinha ovelhas, gado e tendas. 6 A região já não bastava para os dois, pois seus rebanhos eram demasiado numerosos, para poderem morar juntos. 7 Surgiram discórdias entre os pastores que cuidavam da criação de Abrão, e os pastores de Ló. Naquele tempo, os cananeus e os fereseus ainda habitavam naquela terra. 8 Abrão disse a Ló: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos. 9 Estás vendo toda esta terra diante de ti? Pois bem, peço-te, separa-te de mim. Se fores para a esquerda, eu irei para a direita; se fores para a direita, eu irei para a esquerda”. 10 Levantando os olhos, Ló viu que toda a região em torno do Jordão era por toda a parte irrigada — isso antes que o Senhor destruísse Sodoma e Gomorra —, era como um jardim do Senhor e como o Egito, até a altura de Segor. 11 Ló escolheu, então, para si a região em torno do Jordão, e foi para oriente. Foi assim que os dois se separaram um do outro. 12 Abrão habitou na terra de Canaã, enquanto Ló se estabeleceu nas cidades próximas do Jordão, e armou suas tendas até Sodoma. 13 Ora, os habitantes de Sodoma eram péssimos, e grandes pecadores diante do Senhor. 14 E o Senhor disse a Abrão, depois que Ló se separou dele: “Ergue os olhos e, do lugar onde estás, olha para o norte e para o sul, para o oriente e para o ocidente: 15 toda essa terra que estás vendo, eu a darei a ti e à tua descendência para sempre. 16 Tornarei tua descendência tão numerosa como o pó da terra. Se alguém puder contar os grãos do pó da terra, então poderá contar a tua descendência. 17 Levanta-te e percorre este país de ponta a ponta, porque é a ti que o darei”. 18 Tendo desarmado suas tendas, Abrão foi morar junto ao Carvalho de Mambré, que está em Hebron, e ali construiu um altar ao Senhor.

Evangelho: Mt 7,6.12-14

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 6 "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem. 12 Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas. 13 Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. 14 Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram”.

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Quem Escolhe Deus, Escolhe Vida e Salvação

A Primeira Leitura, tirada do Livro de Genesis, se encontra no conjunto das histórias patriarcais (Gn 12-50). Neste conjunto encontramos três famílias da mesma árvore genealógica com suas histórias próprias: Abraão com seu filho Isaac; Isaac e seus dois filhos: Esaú e Jacó; e Jacó com seus doze filhos, os pais dos tribos. 

E a história de Abraão e Ló (sobrinho de Abraão) faz parte do ciclo de Abraão e seu filho Isaac (Gn 12,1-25,18). O tema principal deste ciclo é a espera ansiosa de um filho que preencha a solidão de um casal de anciãos (Abraão e Sara). Para a crise inicial da falta de um filho é acrescentada a chamada de Deus, dirigida a Abrão, para abandonar tudo para ir a um lugar indicado por Deus (Gn 12,1-9). E Abraão responde com a mais absoluta fidelidade e com uma confiança total no Deus da promessa que o chamou. A vida de Abraão é fundamentada sobre a Palavra divina que escutou. Por causa de sua fé e confiança absoluta em Deus, Abraão é qualificado como um homem de fé. Como recompensa por esta fé Abraão é plenificado pelas bênçãos divinas, pai de uma multidão de povos e ponte de salvação para todos os homens.

O texto da Primeira Leitura de hoje fala da separação entre Abraão e Ló. Encontramos nesta história um paradoxo: os conflitos (entre os clãs) surgem precisamente a partir das bênçãos de Deus e da prosperidade. Abraão e Ló estão ricos demais porque a certa altura os seus rebanhos, de tão numerosos, já não podem ficar juntos. Como sempre acontece, com a riqueza vieram os problemas. Enquanto eram pobres, eles se ajudavam mutuamente, viviam de acordo. Agora aparecem os motivos da disputa: a riqueza material. “Esta é uma das tentações constantes da humanidade: apegando-se ao dinheiro por considerar que está dotado de uma força invencível, cai-se na ilusão de poder comprar também a morte, distanciando-a de si mesmo”, dizia o santo João Paulo II numa de suas audências. 

O espírito de cobiça contrista os corações, dificulta as relações com os demais, esfria a fraternidade humana, cria conflitos com os demais, despersonaliza o indivíduo ao torná-lo escravo e não o senhor de seu dinheiro e torna impossível crer em Deus, Criador de todas as coisas. 

Mas é importante notar que, apesar de ser chefe do clã, Abraão deixa Ló, seu sobrinho, escolher o lugar onde habitará: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos. Estás vendo toda esta terra diante de ti? Pois bem, peço-te, separa-te de mim. Se fores para a esquerda, eu irei para a direita; se fores para a direita, eu irei para a esquerda” (Gn 13,8-9). A proposta de Abraão é muito generosa e é realmente excepcional. 

Ló era o órfãozinho que Abraão havia adotado, criado com amor. Abraão podia esperar de Ló humildade, aceitação e submissão. Ao contrário, não só o trata de igual para igual, mas também trata-o como irmão, não como sobrinho de quem  se ocupara gratuitamente. Abraão entra em acordo com Ló cordialmente. É surpreendente demais a excepcional liberdade, humildade e o desapego de Abraão em abrir mão de tudo diante de Ló. Tudo isso nos revela a simplicidade do coração de Abraão, coisa tão rara entre os homens. 

O texto quer nos mostrar que cada escolha não é fácil, pois há sempre alguma tentação ou algum desejo escondido, como também há engano em cada escolha. 

Na sua escolha, Ló se deixa levar pela aparência, pelo que vê, como aconteceu com Eva (Gn 2,6): “Levantando os olhos, Ló viu que toda a região em torno do Jordão era por toda a parte irrigada, era como um jardim do Senhor e como o Egito, até a altura de Segor. Ló escolheu, então, para si a região em torno do Jordão, e foi para oriente” (Gn 13,10-11). Ló acredita ter escolhido o melhor e não sabe onde se foi meter, em que dificuldades o porá a sua avidez. Uma vida vivida somente em função do prazer e não do bem e da salvação, mais tarde a própria pessoa que a escolheu vai ter que pagar caro, até com a própria vida ou a vida da própria família. Ló escolheu uma terra onde se encontra o povo de Sodoma que vive oposto a Deus. Ao separar-se de Abraão, Ló se separa do portador da bênção e se expõe à desventura (cf. Gn 18-19). 

O que podemos aprender da história de Abraão e Ló? 

Nos conflitos com Ló, Abraão não exige seus direitos como o chefe do clã. Abraão não diz: “Quero meus direitos!”. A generosidade, a liberdade, a humildade e o desapego de Abraão em solucionar os conflitos nos surpreendem excepcionalmente. O que mais nos surpreende é que Abraão aceita a escolha de Ló. É coisa rara entre os homens! Abraão tem um coração simples e por isso, facilita tudo para não criar briga, pois sempre há vítima para qualquer tipo de briga ou de confronto. 

“Escolhe tu primeiro, e eu me contentarei com o que me deixares!”. Esta é a decisão de Abraão. Por que Abraão tem tanta generosidade e desprendimento diante de Ló? Porque Abraão tem dentro de si algo mais. No seu coração tem um tesouro. Dentro do seu coração Abraão tem promessa de Deus. Ló não tem promessa. Esta promessa é para Abraão mais rica do que qualquer outra coisa e o torna livre, tranquilo, disponível, disposto a ceder a melhor parte ao sobrinho.  Abraão é como aquela pessoa na parábola de Jesus que, ao encontrar um tesouro escondido na terra, ela vende tudo que tem para comprar o terreno onde se encontra o tesouro (cf. Mt 13,44). 

O que você tem de valor dentro de seu coração que o torna livre, tranquilo, pacifico, despojado? Existe dentro de seu coração algum tesouro ou alguma promessa de Deus para sua vida? Como você resolve conflitos dentro de sua família: a partir dos direitos ou a partir da generosidade do seu coração?

“Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos” é a frase de Abraão a Ló sobre a qual precisamos meditar. É preciso manter unidos os corações! Esta frase sai do coração de Abraão porque ele é homem de fé e de oração e por isso, ele é fiel aos irmãos. Por causa de sua fé no Deus da promessa, Abraão é capaz de dar a parte melhor a outro (Ló). Para Abraão a paz (Shalom) já é um bem superior aos bens materiais. Antes de tudo é o amor fraterno que é essencial do Reino de Deus e sobre o qual seremos julgados (cf. Mt 25,31-45). 

O que nos falta em nossa vida de cristãos ou de religiosos oi de ministros ordenados não é a doutrina ou a fé e sim bom coração, o coração generoso. O Salmo Responsorial de hoje (Sl 14), fazendo-se eco da atitude generosa de Abraão faz a seguinte pergunta: “Senhor, quem morará em vosso Monte Santo?”. E a resposta é: “É aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente; que pensa a verdade no seu íntimo e não solta em calúnias sua língua. Que em nada prejudica o seu irmão, nem cobre de insultos seu vizinho; que não dá valor algum ao homem ímpio, mas honra os que respeitam o Senhor”. 

Saber Valorizar o Valioso 

“Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). É tirado do texto do Evangelho de hoje. 

Estamos no fim do Sermão da Montanha (Mt 5-7). A passagem do evangelho que serve para nossa meditação de hoje é outra parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). No texto de hoje Jesus nos dá três lições importantes para nossa vida: viver na prudência; em cada ato praticado o outro deve ser levado em consideração (regra de outro); e o esforço na luta pela salvação (porta estreita). 

No texto de hoje Jesus começa sua lição com as seguintes palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). Esta sentença enigmática, própria de Mateus, não tem nenhuma relação, ao parecer, com o que precede nem com o que segue (alguns especialistas colocariam o v.6 dentro do conjunto de Mt 7,1-4). Mas o que mais importante para nós é a lição escondida nessa sentença. 

Cães e porcos eram animais impuros para os judeus. A quem, então, Jesus se refere quando fala de cães e de porcos? Muitos interpretam que cães e porcos representam os pagãos. Na verdade, os cães e os porcos não designam aqui categorias particulares de homens: pagãos, fariseus, certas pessoas desviadas, hereges e assim por diante. Cães e porcos ilustram bem, aqui, duas recusas características do Evangelho: primeiro, a inconsciência dos que em nenhum momento pressentem (não percebem) o valor do Evangelho, e segundo, a violência perigosa dos que, decepcionados por não encontrar nele (no Evangelho) um alimento de seu gosto, se voltam contra os que propõem a vida de acordo com o Evangelho. Ainda que os discípulos não excluam ninguém de seu amor (Mt 5,38.43-48), mas eles têm que tomar cuidado com aqueles que buscam somente seu próprio interesse e cometem a injustiça contra o próximo. O conselho de Jesus no v.6 se encontra paralelamente no Livro dos Provérbios (Antigo Testamento): “Quem censura um mofador, atrai sobre si a zombaria; o que repreende o ímpio, arrisca-se a uma afronta. Não repreendas o mofador, pois ele te odiará. Repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,7-8). 

A expressão “as coisas santas” designa com freqüência no Antigo Testamento as viandas (alimento) oferecidas em sacrifício e que somente os fieis podiam consumir “... para a expiação quando de sua tomada de posse e sua consagração. Estrangeiro algum comerá deles, porque são coisas santas” (Ex 29,33-34; cf. Lv 2,3;22,10.16; Nm 18,8.19). 

O paralelismo “coisas santas - pérolas” demonstra que a primeira dessas expressões deve ser entendida como uma imagem que designa o que é infinitamente precioso e pertence exclusivamente a Deus. “As pérolas” são imagem daquilo que tem um grande valor ou precioso (cf. Mt 13,46). 

“Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem!”. Através deste conselho Jesus nos ensina a vivermos na prudência.          “A prudência é o olho de todas as virtudes”, dizia Pitágoras. Ser prudente é a primeira lição do evangelho de hoje. 

A palavra “prudência” provém do latim “prudens-entis” que, na acepção própria, significa precavido, competente. Prudência é virtude que faz prever, e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução. A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, o sensato do insensato a fim de guiar o bom rumo de nossas ações. O prudente jamais se precipita no falar nem no agir sem conhecimento da causa ou da realidade. Tendo conhecimento da causa ou da realidade ele fala com cautela. A prudência é a faculdade que nos permite vermos e aprendermos a realidade tal como é. A prudência é o modo de viver dos sábios, pois o homem sábio é sempre guiado pela prudência. Por isso, o sábio dificilmente machuca os outros.

A segunda lição que Jesus nos dá hoje é esta: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Trata-se de uma regra de conduta e é considerada como a regra de ouro. A regra de ouro já era conhecida na antiguidade. Em Heródoto lemos: “Não quero fazer aquilo que censuro no próximo” (Heródoto, 3,142,3). Na sabedoria de Confúcio (551 antes de Cristo) lemos: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você”. Encontramos também esta regra nos ditos do famoso rabi Hillel: “Não faças a ninguém aquilo que te é desagradável; isso é toda a Torá, ao passo que o mais é explicação; vai e aprende!”. 

Esta regra de ouro nos ensina que em tudo que falarmos (comentarmos) ou fizermos a vida e a dignidade do outro devem ser levadas em consideração. Às vezes acontece que machucamos muito os outros porque ainda temos muitas feridas dentro de nós que ainda não são curadas. E muitas vezes avaliamos o outro a partir de nossas feridas e não a partir da própria realidade das coisas. Por trás de uma pessoa brava e grosseira, há uma pessoa frustrada. 

O verdadeiro cristão faz muito mais além da regra de ouro. Ele é chamado e é enviado a fazer o bem ao próximo independentemente da retribuição ou do reconhecimento. Ele sempre age com um amor gratuito e de qualidade sem medir esforços, porque ele tem consciência clara de que ele é amado por Deus deste modo. Ele é sempre solicito e serviçal. Trata-se de a opção ou do estilo de vida com Deus traduzido na convivência fraterna com os demais. Todo trato cordial e fraterno jamais se baseia na lei de retribuição muito menos acontece por mera formalidade. O cristão existe para fazer o bem, e se não o fizer deixará de existir em Jesus Cristo que “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38). 

A terceira lição dada por Jesus no evangelho deste dia é esta: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram”! (Mt 7,13-14). Estas palavras de Jesus recordam aquilo que Moisés falou, no Livro de Deuteronômio, para o povo eleito quando acabou de expor a Lei: “Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal. Mando-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes em seus caminhos, observes seus mandamentos, suas leis e seus preceitos, para que vivas e te multipliques, e que o Senhor, teu Deus, te abençoe na terra em que vais entrar para possuí-la.  Se, porém, o teu coração se afastar, se não obedeceres e se te deixares seduzir para te prostrares diante de outros deuses e adorá-los, eu te declaro neste dia: perecereis seguramente e não prolongareis os vossos dias na terra em que ides entrar para possuí-la, ao passar o Jordão.  Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a I tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais” (Dt 30,15-20).  

Moisés falou de vida e de morte; Jesus, que já olha mais para além da vida neste mundo, fala de “vida e perdição”. Moisés mandou para “escolher o caminho”; Jesus manda “entrar pela porta estreita”, tomar o caminho que leva à vida. Moisés fala desta vida; Jesus fala da vida eterna da qual alcançarão os que seguem a senda estreita. 

“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  O verbo grego para “apertado” usado em particípio se usa também para indicar aflição, tribulação e perseguição. São os obstáculos que tem que ser superados quando se recorre “a senda estreita”. 

Não percamos a ideia de “caminho”. A vida do cristão se concebe como um “caminho” (cf. At 9,2;13,10;18,25 etc.). Não se improvisa, recorre-se pouco a pouco com uma tensão contínua até o Pai. O amor nos faz encontrarmos Deus face a face um dia. Fora do amor, Deus não é encontrado. O amor nos leva ao céu. Não precisaremos mais da fé e da esperança no momento em que estivermos face a face com Deus na eternidade. Como disse um pregador: “A fé e a esperança nos levam até a porta do céu. Mas o que nos faz entrar nele é o amor, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)”. 

“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  No Evangelho de João Jesus se apresenta como porta: “Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo” (Jo 10,9). O cristão se esforça por ser fiel a Deus e aos princípios evangélicos como solidariedade, fraternidade, igualdade, justiça, amor, bondade, solidariedade em vez de egoísmo, agressividade, violência. A santidade é a forma normal de viver os ensinamentos de Cristo no cotidiano. Mas para tudo isto se exige muito esforço. “Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode”, dizia Santo Agostinho (Serm. 54,2).

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

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