sexta-feira, 6 de setembro de 2013

 
SER ORANTE APÓSTOLO DO SENHOR
 

Terça-feira da XXIII Semana Comum
10 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 6,12-19

12 Naqueles dias, Jesus foi à montanha para rezar. E passou a noite toda em oração a Deus. 13 Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: 14 Simão, a quem impôs o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelota; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que se tornou traidor. 17 Jesus desceu da montanha com eles e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. 18 Vieram para ouvir Jesus e ser curados de suas doenças. E aqueles que estavam atormentados por espíritos maus também foram curados. 19 A multidão toda procurava tocar em Jesus, porque uma força saía dele, e curava a todos.

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“Não é o mesmo, rezar longa e profusamente que rezar com muitas palavras. Não é o mesmo o desejo ininterrupto que o falatório interminável... Quando a oração brota da alma como uma necessidade da alma mesma, converte-se em chave de ouro, em santo e eficaz sinal que abre as portas do céu e torna possível um encontro com Deus. O homem se eleva em oração e Deus se inclina em misericórdia”

(Santo Agostinho, Epist. 130,19; In ps. 85,7)

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Oração Na Vida de Jesus e Na Vida Dos Cristãos


O texto do evangelho deste dia fala da eleição dos Doze Apóstolos. A eleição dos Doze é precedida de uma prolongada oração de Jesus. Lucas faz referência à oração de Jesus nos momentos mais decisivos de sua vida. Lucas é o evangelista que põe mais ênfase sobre a figura orante de Jesus do que outros evangelistas. Onze vezes em seu evangelho, Lucas fala da “oração” de Jesus (Lc 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28; 10,21; 11,1; 22,32; 22,41; 23,34; 23,46). Para tomar uma decisão importante Jesus entra em oração prolongada.


“Jesus subiu ao monte para orar”. Literalmente no texto do evangelho de hoje fala-se de uma saída/êxodo de Jesus em direção ao monte e se sublinha a oração ininterrupta que eleva a Deus naquele lugar. Monte é o lugar das grandes decisões, um lugar solitário propício para a oração, um lugar de amplos horizontes de onde se vê longe. Quanto mais subirmos, mais ampla será a visão que teremos. Para subir é preciso esforçar-se.


Jesus nos ensina a aprendermos a ampliar nosso horizonte, dialogando com Deus e meditando Sua Palavra. Somente no dialogo prolongado na oração é que ganharemos o horizonte maior para nossa vida, pois o nosso olhar estará dentro do olhar de Deus. Temos que ter coragem de subir até onde os valores maiores se encontram capazes de vermos tudo com claridade e com uma visão mais ampla sobre a vida e os seus acontecimentos de cada dia. É aprender a ver a vida de maneira multiangular através de um diálogo permanente com Deus na oração e através da meditação diária da Palavra de Deus. 


A vida sem oração se reduz na busca das próprias vantagens para servir aos próprios interesses. A vida sem amor se apaga. Há sempre sinais que podem aparecer para qualquer idade e que sempre revelam um processo de envelhecimento espiritual, ou uma enfermidade espiritual em que nada aparece algo novo no horizonte de nossa existência: os mesmos hábitos, os mesmos esquemas e costumes, nenhum objetivo novo, nenhum ideal, a perda da capacidade de escutar a voz interior que de dentro somos chamados a viver uma vida mais elevada através da união com Deus na oração e no bem que deve ser praticado. A história de nossa vida como cristãos é a história de nossa oração. Trata-se de uma história com Deus que termina feliz.


Instituição dos Doze Apóstolos No Clima De Oração: Somos apóstolos do Senhor

 
Jesus “passou a noite toda em oração a Deus”, assim Lucas nos relatou. Alguns interpretam que a palavra “noite” aqui quer indicar a perplexidade que invade Jesus. E a oração é meio de clarificação a fim de que Deus dê luz verde naquilo que Jesus quer realizar com a ajuda dos apóstolos para a salvação do mundo. Jesus não escolheu seus apóstolos à noite.


O objetivo da oração de Jesus de toda a noite é sua Igreja. Trata-se do projeto que dura até o hoje da vida do homem. Por essa razão, a instituição dos Doze Apóstolos é um momento solene para a história da Igreja, pode-se dizer para a história da humanidade. Por feita a escolha dos Doze dentro da oração, sabemos logo que a obra de Jesus é divina. Ele faz tudo em união com o Pai celeste.


Por isso, em seguida Lucas nos relatou: “Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos”.  A expressão “ao amanhecer” indica, segundo alguns especialista, que a oração obteve resultados positivos, pois não se pode tomar decisões enquanto alguém estiver nas trevas ou na perplexidade de uma escuridão de vida (“noite”). Estar na oração significa estar com Deus. E estar com Deus é estar com a luz que ilumina tudo na nossa vida (“amanhecer”).


Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu Doze dentre eles....”. Há aqui o objetivo da oração de Jesus durante toda a noite: Sua Igreja. É o projeto que apesar de tudo continua durando até hoje (cf. Mt 16,18). Por isso, a instituição dos Doze é um momento solene para a história da Igreja, particularmente e para a história da humanidade de modo geral.


São doze. É evidentemente um número simbólico. Com esse número Jesus constitui o Novo Israel, a Sua Igreja, para substituir as doze tribos de Israel no Antigo Testamento. Os Doze não são grandes personalidades. É o estilo de Deus que vai escolhendo para sua obra pessoas débeis, mas que se esforçam para dar o melhor de si para salvação do mundo, pois agente principal desta obra continua sendo o próprio Deus.


Lucas é o único a mencionar que o próprio Jesus lhe deu esse nome: apostolo, em grego. O termo apóstolo aponta para “enviados por alguém”. Aqui se enfatiza a relação do “enviado” com Aquele que “envia”. O essencial é a “missão”. Isto quer dizer que ser apóstolo é depender de Jesus; é ser enviado por ele; é ser sua porta-voz; é ser fiel à Sua obra e que Jesus nos pede que a levemos até o fim.


Estes são nomes dos apóstolos: Simão Pedro, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, Simão, Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, o traidor. A partir de agora eles vão acompanhar Jesus de perto, como testemunhas oculares de sua vida e atividade.


Apesar da oração de uma noite inteira, apesar do bom discernimento de Jesus, apesar de toda formação, um dos apóstolos era um traidor. É o mistério da liberdade humana.


Os Apóstolos receberam tudo de Jesus para que se tornassem instrumentos de salvação para o próximo. E nós recebemos tudo dos Apóstolos através de várias gerações anteriormente. Nós não podemos quebrar esse elo ou essa cadeia. Se tudo de bom para a salvação do mundo recebemos das gerações anteriores, precisamos continuar essa “corrente” de evangelização. Cada cristão é apóstolo de Jesus. Ele é o apóstolo em qualquer lugar e Jesus espera algo de cada um de nós para a Igreja do Senhor. Ser apóstolo não é trazer os outros para si e sim orientá-los para o encontro pessoal com Jesus, o Salvador.


A comunidade de Jesus é apostólica. Ela é cimentada na pedra angular que é o próprio Jesus Cristo. Mas também tem como fundamento os apóstolos que o próprio Senhor escolheu como núcleo inicial da Igreja. E fazemos parte da comunidade apostólica pelo Batismo. Por isso, somos, por natureza, missionários ou apostólicos (Ad Gentes no. 2). Esta comunidade “apostólica” é que colabora com o Ressuscitado que nos deixou o mandato missionário (cf. Mt 28,19): anunciar o que é bom e digno para a edificação de um ser humano. O cristão não pode perder tempo para as coisas que não edificam. A única preocupação de cada cristão em cada instante é fazer o bem e convidar os demais homens para serem parceiros do bem.

P. Vitus Gustama,svd
 
DIGNIDADE DE UM SER HUMANO NO OLHAR DE JESUS

 
Segunda-feira da XXIII Semana Comum
09 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 6,6-11

Aconteceu num dia de sábado que, 6 Jesus entrou na sinagoga, e começou a ensinar. Aí havia um homem cuja mão direita era seca. 7 Os mestres da Lei e os fariseus o observavam, para ver se Jesus iria curá-lo em dia de sábado, e assim encontrarem motivo para acusá-lo. 8 Jesus, porém, conhecendo seus pensamentos, disse ao homem da mão seca: “Levanta-te, e fica aqui no meio”. Ele se levantou, e ficou de pé. 9 Disse-lhes Jesus: “Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” 10 Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: “Estende a tua mão”. O homem assim o fez e sua mão ficou curada. 11 Eles ficaram com muita raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus.

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“Multiplicamos os lugares e coisas sagradas para nos eximirmos de reverenciar o homem, que é o mais sagrado sobre a terra. Rasgamos nossas roupas quando alguém profana um templo, e nos tornamos insensíveis diante da profanação diária do homem. Não endeuse as pessoas notáveis, esquecendo que toda pessoa é sagrada”

(René Juan Trossero, escritor e psicólogo argentino).

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Estamos na parte do evangelho de Lucas onde se encontram cinco discussões ou controvérsias entre Jesus, de um lado, e os fariseus e escribas, do outro lado (Lc 5,17-6,11). Jesus é Aquele que vem para dar o perdão àqueles que O acolhem com fé e simplicidade (Lc 5,17-26). Para os fariseus e escribas quem pode perdoar é somente Deus. Ao perdoar o paralítico, segundo eles, Jesus está blasfemando (Lc 5,21). Jesus é Aquele que vem como “médico” que cura os males e acolhe os pecadores para mostrar-lhes o caminho de Deus, possibilitando-lhes, assim, a conversão (Lc 5,27-32). Os fariseus e escribas não aceitam o comportamento de Jesus ao comer e beber com os cobradores de impostos e os pecadores (Lc 5,30), pois isso mostraria o nivelamento das relações. Para eles os publicanos e os pecadores têm que ser excluídos da convivência, pois são perdidos da Lei de Deus. Nas outras três controvérsias Jesus mostra o caminho da liberdade em oposição ao legalismo dos fariseus e escribas: Jesus mostra qual é o significado do verdadeiro jejum (Lc 5,33-39), como deve se comportar diante da vida em jogo (fome e doente) mesmo que esse comportamento esteja contrário à lei sabático (Lc 6,1-11), mostrando que o sábado foi feito para o homem e não o contrário (cf. Lc 6,5). Em nome do homem que necessita da salvação Jesus é capaz de “transgredir” a lei por sagrada que ela pareça ser.


“O que é permitido fazer no Sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?”. A omissão do bem é um mal. Não praticar o mal não significa que alguém pratique o bem. Mas quem pratica o bem se afasta do mal. É fácil odiar o mau por ser mau. O difícil é amá-lo por ser homem” (Santo Agostinho. Epist. 153,3).


Não é fácil suportar na terra Aquele que declara o fim da falsidade, da opressão, do legalismo, da religião fácil e cômoda, da religião que se preocupa apenas com as regras ou com os preceitos e não com a necessidade vital de um ser humano. É muito difícil aceitar alguém como Jesus que coloca a pessoa humana acima de qualquer lei religiosa e de qualquer atividade. O “defeito” de Jesus é fazer o bem para qualquer pessoa e em qualquer situação e lugar sem se preocupar com a lei religiosa. Jesus passou a vida fazendo o bem, pois “Deus estava com Ele”, assim disse Pedro na sua pregação (At 10,38). Em nome do bem que deve ser realizado Jesus não quer saber das leis por sagradas que elas pareçam ser nem quer saber se o dia é o de preceito ou não. Em nome de um ser humano necessitado de libertação, Jesus não quer saber das conseqüências por graves que elas sejam como a morte na cruz. Em nome de um ser humano necessitado de libertação Jesus é capaz de “transgredir” uma lei que para o ser humano é sagrada. Para Jesus o que é sagrado é o ser humano, pois ele é o filho de Deus e é o templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17).


Por isso, aquele que é marginalizado e excluído é colocado no meio (Lc 6,8). Ao ser colocado no meio, o homem necessitado se torna centro para todos. Como se Jesus quisesse dizer aos presentes: “Em tudo o ser humano deve ser levado em consideração e deve ser o foco de qualquer atividade”.  Aquele que estava à margem segundo os critérios da sociedade, está no meio pelos critérios de Jesus. E Jesus o curou mesmo sendo num sábado, o dia sagrado para os seus contemporâneos. Para Jesus a libertação dos necessitados é mais importante do que todas as regras sabáticas por mais sagradas que elas pareçam ser. O amor pelo ser humano para Jesus é a exigência absoluta de sua vida (cf. Rm 13,10). O amor é que norteia toda a atividade de Jesus mesmo que ele seja odiado por isso. Podemos entender a pergunta feita por Jesus para todos os presentes para que seja refletida: “O que é permitido fazer no Sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” (Lc 6,9). O livro de Provérbio diz: “Não negues um favor a quem necessita, se tu podes fazê-lo” (3,27). ... “O desejo dos justos é somente o bem, a esperança dos ímpios é a cólera”  (11,23).


Dentro desse pensamento não é por acaso que o evangelista Lucas coloca o seguinte detalhe: “Aí havia um homem cuja mão direita era seca” (Lc 6,6b). Nas culturas antigas, a mão direita simbolizava o poder de fazer o bem. E a mão esquerda simbolizava o poder de fazer o mal. No julgamento final, segundo o evangelho de Mateus, os que praticarem o bem (as ovelhas), ficarão do lado direito (cf. Mt 25,33-40) e os cabritos (os que deixam de praticar o bem) ficarão do lado esquerdo (cf. Mt 25,41-45). No Credo rezamos: “Jesus subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. Até para cumprimentar alguém normalmente apertamos a mão direita.


Ao dizer que aquele homem estava com a mão direita seca, Lucas quer nos dizer que esse homem estava impossibilitado de praticar o bem. Somente a mão esquerda é que estava funcionando, isto é, as suas obras não eram boas do ponto de vista moral e ético. É provável que as pessoas o evitassem. Ninguém quer se relacionar com as pessoas más a não ser que tenha algum interesse mau também.


Mas em vez de afastar esse homem da convivência, Jesus o chamou para ficar no meio de todos, não para envergonhá-lo e sim para salvá-lo ou para libertá-lo de todas as obras de maldade e que todos são chamados a ser parceiros do bem. Para isso, o ser humano tem que ocupar o lugar central nas atividades e não os interesses mesquinhos muito menos usar a religião para marginalizar os outros.


A partir do evangelho de hoje cada um de nós precisa se perguntar: que lugar ocupa o ser humano nas minhas atividades diárias, tanto pessoal como profissionalmente? Será que sou capaz de “transgredir” uma norma religiosa em função da libertação de um ser humano, de uma vida sem sentido?  Se a mão direita simbolizava o poder de fazer o bem e a mão esquerda, o poder de fazer o mal, qual “mão” que está funcionando mais na minha vida: a mão direita ou a mão esquerda? Você tem certeza de que você estará sentado à direita do Pai quando chegar sua hora de partir deste mundo? “A caridade cristã é tridimensional. Pratica-se na terra pelas boas obras e busca ajudar a quem necessita: eis a sua profundidade. Sofre as adversidades pacientemente e persevera na verdade: eis sua extensão. Tudo faz com vistas a obter a vida eterna: esta é sua magnitude” (Santo Agostinho. Epist. 140,25).
 

Para rezar e refletir:


“Senhor, meu Deus! Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes. Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo. Rebanhos e gados, e até os animais bravios, pássaros do céu e peixes do mar, tudo o que se move nas águas do oceano. Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!” (Salmo 8, 4-10).

P. Vitus Gustama,svd


 

 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

 
CONDIÇÕES PARA SEGUIR A JESUS


XXIII Domingo Comum “C”
08 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 14,25-33

(Sb 9,13-19; FM 9b-10.12-17)


Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26 “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28 Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31 Ou ainda: qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz.33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!”

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Não procures repouso em nenhum prazer,
pois não foste       criado para o prazer e
sim para a ALEGRIA espiritual.
E, se não conheces a diferença entre prazer e
alegria espiritual, ainda não começaste a viver

(Thomas Merton)
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Na vida temos que saber tomar decisões e escolher aquilo que tem mais valor para nossa vida. É preciso abrir mão do valor inferior para ficar com o superior. É saber renunciar ao que agarramos, mas não nos edificou mais, para viver com aquilo que nos faz avançarmos na nossa humanidade rumo aquilo que nos diviniza (salvação). E sabemos que certas decisões na vida representam uma mudança radical e renúncia e não combinam com hábitos anteriores. Nisto é que há dor na escolha. Mas não tem jeito! Ou nós assumimos para valer ou nem dá para começarmos a viver algo novo que nos edifica e dignifica. Renovar é colocar algo novo. Isso supõe que preparemos espaço para o novo. O Evangelho de Lucas que lemos neste domingo aprofunda a idéia da necessidade de fazer opções em nome do seguimento de Jesus que supõe muitas renúncias.
  

Jesus continua a dirigir-se para Jerusalém onde O aguarda a glorificação (Lc 9,51-19,58) e nós acompanhamos essa viagem ouvindo suas ultimas lições e refletindo sobre elas para rever nossa maneira de viver como cristãos se nós estamos dentro dos ensinamentos do Senhor.


Nessa viagem a multidão do povo segue após Jesus. Jesus acalma o entusiasmo da multidão por meio da exigência da renúncia total, porque viver como cristãos/ seguidores de Cristo não é fazer passeata com o Senhor. Ele não precisa de admiradores ou espectadores, mas de seguidores. Diante dos grandes números, das multidões incontáveis, Jesus fica preocupado. Por isso, ele começa a explicar quais são os compromissos para quem escolhe segui-lo como seu discípulo. Enquanto nós temos receio de perder alguns simpatizantes, Jesus se preocupa com o contrário. E quando vemos as nossas igrejas lotadas, sentimo-nos envaidecidos. Jesus, ao contrário, fica preocupado diante da multidão que o seguia: ou eles não entenderam ou Jesus não se expressou bem. Jesus jamais pretende enganar seus seguidores, induzindo-os a assumirem um projeto de vida, sem conhecer-lhe o teor. Ele fala claro para evitar frustrações.
  

No Evangelho de hoje, Jesus apresenta três exigências muito claras e duras para quem quiser segui-Lo e conclui as três com o mesmo áspero refrão: “...não pode ser meu discípulo”. A opção responsável e definitiva por Cristo e pelo seu evangelho é o que especifica o cristão. Ser cristão significa revestir-se de Cristo e ter os mesmos sentimentos, atitudes e ações na vida. Ser cristão é aceitar pela fé e comportamento Jesus Cristo. Fazemos caminho ao andar, mas só se caminharmos com Jesus e os irmãos é que nos tornamos cristãos, pois não encontramos o Senhor senão no próximo (cf. Mt 25,40.45). No cristão verdadeiro nota-se uma visão da vida, do homem, do mundo e dos problemas humanos sob uma luz diferente: é a luz da fé pascal. Nota-se uma estabilidade anímica que vence a mesquinhez e o desespero, uma paz que se sobrepõe às dificuldades e ao desanimo, uma alegria que supera a tristeza e o mau humor, pois ele sabe em quem acredita (2Tm 1,12).


1. A primeira exigência: saber “odiar” (v.26)
 

Jesus emprega aqui uma expressão que traduzida literalmente pode parecer excessivamente forte: “Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida não pode ser meu discípulo”(v.26).


Jesus, sem dúvida, não pretende suprimir/eliminar o quarto mandamento (Lc 18,19-20). Segundo maneira oriental de falar (semitismo), “odiar” significa pôr em segundo lugar algo porque tem aparecido na vida de uma pessoa um valor maior (neste caso, Jesus e sua mensagem) do que o anterior; significa colocar no segundo lugar. Trata-se, então, de relativizar, à luz das exigências de seguir a Jesus, inclusive os amores mais naturais e legítimos. Neste caso, “odiar” significa romper até os laços mais íntimos quando estes constituem um impedimento para o amor e para a salvação. Todos nós sentimos alguma vez a necessidade de nos afastarmos ou até de contrariarmos certos projetos anti-evangélicos, mesmo quando encabeçados por pessoas às quais estamos ligados por laços de amizade ou de parentesco. Estes gestos corajosos, na verdade, são amor verdadeiro; são gestos evangélicos.


Renunciar aos pais, simbolicamente, significa também a capacidade de desprender-se da tradição dos antigos para abraçar o novo que nos salva; libertar-se das amarras da Lei para assumir a misericórdia; libertar-se dos atos de cultos estéreis e equivocados para assumir uma postura de uma fé madura, profética e libertadora. Assumir o caminho do seguimento de Jesus significa relativizar todo o processo formativo anterior para assumir outro.


Sobre saber “odiar”, podemos traduzir na nossa linguagem assim: Quem é seguidor de Jesus não pode contrariar os valores do Evangelho nem que seja para agradar a família. O próprio fato de ser a família uma coisa boa, querida por Deus, mostra a força que Jesus queria dar às exigências do Reino. Nem em nome de algo tão bom podemos ser desonestos, mentirosos, corruptos, injustos. Temos que proteger nossa família dos valores anti-evangélicos para que ela continue sendo uma Igreja doméstica.


2. A segunda exigência: carregar a cruz diariamente (v.27)


Quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo” (v.27). Esta frase é interpretada, muitas vezes, como um apelo para suportar com paciência as contrariedades, os grandes e pequenos sofrimentos da vida. Outras vezes é entendida como uma exigência de mortificação, de sacrifício (mas, será agradável a Deus a nossa dor? Será que Deus tem prazer de ver um ser humano sofrer? Será que Deus como Pai tem alegria de ver seus filhos sofrer?). A dor é um mal que deve ser afastado de nós mesmos e dos outros. O sofrimento, tampouco, é um valor; pelo contrário, é algo para ser evitado e superado a todo custo.
  

Propriamente falando, não existe uma espiritualidade da cruz, mas apenas a espiritualidade do seguimento de Jesus: durante este seguimento, é inevitável que encontremos perseguições, incompreensões, resistência e o ódio. É a cruz inevitável do discipulado. Se você é honesto, você se torna uma censura viva para quem vive na corrupção. Podemos dizer que a cruz é conseqüência de uma “práxis”, de uma opção, de um valor. Não é buscada em si mesma uma cruz, mas aceita como conseqüência de proclamar e viver a Deus como Absoluto. Por isso, não se busca a cruz, busca-se o Reino de Deus e a sua justiça, como Jesus e, buscando o Reino de Deus, onde e quando impera o anti-reino, o anti-evangélico, encontra-se a cruz. As cruzes na vida de Jesus, cujo ponto alto são a paixão e morte na cruz, foram o resultado trágico e inevitável de ele ter levado a bom termo a missão que o Pai lhe confiara. Jesus aceitou a cruz livremente, por amor ao Pai e por amor aos seres humanos (salvar) razão pela qual Ele veio ao mundo. Foi por causa deste amor apaixonado que a humanidade recobrou para sempre a amizade de Deus, tendo também acesso às alegrias da vida eterna. Carregar a cruz, seguir o caminho de Jesus, é um processo cotidiano de múltiplas decisões e fidelidades para chegar ao que digno para o homem: a salvação.


O par de parábolas que segue, a do construtor e do rei em guerra (vv.28-32), é um convite a refletir e ponderar bem o risco daquele que quer se tornar discípulo. Trata-se de uma decisão carregada de conseqüências. O texto nos convida a refletirmos sobre os custos, as exigências da vida de fé. Se não pensarmos que a fé em Jesus não vai afetar a nossa vida profundamente, mesmo na nossa vida cotidiana, não compreenderemos o que o fato de seguir Jesus pede na realidade. Daí necessidade de calcular os gastos, quer dizer, de medir o que o discípulo significa no Evangelho. Jesus não quer decisões levianas, mal pensadas, de gente carregada só pelo entusiasmo do momento. Não comece para depois não acabar; planeje; aprofunde as decisões para poder assumir o que decidiu.


3. A terceira exigência: a renúncia a si mesmo e a tudo (v.33 cf. Lc 9,23)


 “... qualquer de vós que não renunciar a tudo que possui, não pode ser meu discípulo” (v.33). E em Lc 9,23: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo...”.


Muitas vezes esse renunciar é entendido como recusa deliberada de tudo que pode alegrar o coração, como se Deus tivesse ciúme das nossas alegrias. Fabricam-se, então, tristes cristãos, que confundiam santidade com amargura, sisudez, mau humor. O verdadeiro santo é alegre e feliz, pois encontrou seu verdadeiro tesouro (Reino de Deus). É possível ser sério com muito bom humor. Quem não sabe rir, ele não é uma pessoa séria. Para que serviria um santo neurótico ou um santo que está sempre de cara triste? É desejável viver os valores do Evangelho com alegria, com cara de gente feliz, curtindo o que é bom na vida. Mas diante das exigências do Reino de Deus, é absolutamente necessário renunciar ao que for atrapalhar. Renunciar não é perder; é trocar um bem por outro, no qual, sincera e equilibradamente, percebemos um valor maior.
   

Jesus nos manda renunciar a tudo que tem. “Tudo que tem”, não só no sentido de bens materiai que se possuem, mas pode significar também inchaço do orgulho, a sede de competição, a busca de interesse, ser oportunista para cada falha, fraqueza ou descuido dos outros para ganhar o máximo possível etc.
     

Além disso, Jesus exige o “renunciar-se a si próprio”. A renúncia que ele pede de nós não é uma ação negativa. Pede amor, doação de si mesmo. Negar-se é dar-se no amor. Fazer isso é seguir a Jesus que fez o mesmo. O ascetismo, sacrifício ou renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas tortura auto-infligida A verdadeira renúncia de si mesmo é liberdade e alegria porque é amor. Não é que vá ser livre de dor. Mas essa dor se transformará em alegria, como a dor parto de uma mãe que é recompensada pelo nascimento de um filho (de uma filha). Esse é o paradoxo da cruz de Jesus.
    

Reflitamos também nós um pouco e perguntemo-nos: qual é o verdadeiro motivo que leva, em certas ocasiões, as multidões às igrejas ou às praças? Os que participam com entusiasmo das nossas solenes celebrações, das nossas romarias, estão realmente conscientes dos compromissos que a fé cristã envolve? É muito mais fácil falar e aceitar o Deus que é misericórdia e amor, enquanto o Deus que exige a responsabilidade acompanhada pelas exigências duras é que muita gente começa a recuar. E Deus como é que fica?

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 3 de setembro de 2013

 
VIVER CONFORME O ESPIRITO DE DEUS
 
Sábado da XXII Semana Comum
07 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 6,1-5


1 Num sábado, Jesus estava passando através de plantações de trigo. Seus discípulos arrancavam e comiam as espigas, debulhando-as com as mãos. 2 Então alguns fariseus disseram: 'Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?' 3 Jesus respondeu-lhes: 'Acaso vós não lestes o que Davi e seus companheiros fizeram, quando estavam sentindo fome? 4 Davi entrou na casa de Deus, pegou dos pães oferecidos a Deus e os comeu, e ainda por cima os deu a seus companheiros. No entanto, só os sacerdotes podem comer desses pães.' 5 E Jesus acrescentou: 'O Filho do Homem é senhor também do sábado.'

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A controvérsia entre Jesus e os fariseus continua. No evangelho anterior era sobre o jejum. Hoje é sobre o Sábado. Guardar o sábado para um judeu era algo importantíssimo. E tirar espigas era uma das trinta e nove formas de violar o sábado, segundo as interpretações exageradas que algumas escolas dos fariseus faziam da lei na época. Por isso, se escandalizam quando percebem que os discípulos de Jesus arrancam as espigas para matar a fome no dia de sábado.


Mas Jesus aplica um princípio fundamental para todas as leis: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. O homem está sempre no centro da doutrina de Jesus. Sua preocupação é fazer o bem para o homem, mesmo no dia de Sábado, mesmo transgredindo a lei religiosa. A lei do Sábado foi dada precisamente a favor da liberdade, do bem e da alegria do homem (Dt 5,12-15).


Por isso, o espírito da lei deve estar sempre ao serviço de Deus para glorificá-Lo, e ao serviço do ser humano para dignificá-lo. A glória de Deus é a vida e a felicidade de seus filhos, os seres humanos. Para Jesus, as leis ainda que sejam sagradas, não podem estar por cima da vida, das necessidades vitais, da felicidade, da plena realização dos seres humanos. Por isso Jesus tem coragem de afirmar: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”.


A lei é boa e necessária. A lei é, na verdade, o caminho para levar à prática o amor. Somente a lei do amor rompe fronteiras, divisões, prejuízos e escravidões. Por isso mesmo a lei não pode ser absolutizada. O Sábado, para nós o domingo, está pensado para o bem do homem. É um dia em que nos encontramos com Deus, com a comunidade, com os irmãos, com a natureza e com nós mesmos. O descanso é um gesto profético que nos faz bem a todos para fugir ou escapar da escravidão do trabalho ou da carreira consumista. O dia do Senhor é também dia do homem, com a Eucaristia como momento privilegiado.


“O sagrado do sábado”, comenta o rabino Nilton Bonder, “não é o descanso em si, mas o ritmo mágico do trabalho ao descanso e ao trabalho novamente. É essa entrada e saída que é sagrada. (...) Sem as pausas há apenas ilusão; sem os silêncios há apenas ilusão da música; sem a luz-transparência há apenas ilusão da cor” (Código Penal Celeste).


“Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?”, perguntaram alguns fariseus a Jesus. O homem sempre tem uma tendência fastidiosa em dar uma importância aos meios, esquecendo-se muitas vezes do fim. Na minha fé, nos costumes religiosos, nos ritos há de ver primeiro sua finalidade, seu objetivo profundo, e os modos de expressão podem mudar. O legalismo religioso pode matar o espírito cristão. Toda comunidade em que os interesses particulares, as desigualdades, o monopólio têm espaço, deixa de ser campo para o triunfo do Espírito Santo. Jesus nos pede que acima de tudo deve ficar a misericórdia, o amor: “A caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,10b). Nascemos do Amor criador e devemos levar essa marca divina para toda a nossa vida. Somos filhos de Deus em Jesus Cristo e não estranhos, e, portanto, devemos atuar e viver como tais. Somos membros do Corpo de Cristo unidos pela fé, amor e esperança. Somos chamados a viver em comunhão da fé, amor, esperança, vida e solidariedade. Temos que nos salvar juntos. Todos nós temos que chegar juntos à casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Mas diante da responsabilidade não podemos pretender que os outros realizem a parte que a cada um corresponde. Cada um é insubstituível na sua responsabilidade.


Jesus nos convida, então, a fazer da Palavra de Deus um instrumento de libertação. Sua Palavra é a constituição para os cristãos, o novo povo de pessoas livres.


Precisamos nos perguntar: “Não somos, às vezes, demasiados legalistas? Não julgamos nossos irmãos quando cremos que não cumprem as leis ou as regras, sejam as leis humanas, as leis da Igreja ou as leis consideradas como divinas? Se para Jesus o homem está sempre no centro de seu ensinamento, será que colocamos o ser humano como centro de nossas atividades?”. A denúncia da escravidão ao sábado nos convida a nos libertarmos da religião da observância formal e segui-la pelos caminhos do amor libertador. Quando as coisas materiais ou rituais mandam, e não a lei do amor, o homem se faz escravo.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

 
JEJUM VERDADEIRO É UM COMPROMISSO COM O NECESSITADO


Sexta-feira da XXII Semana Comum
06 de Setembro de 2013
 
Texto de leitura: Lc 5,33-39


Naquele tempo, 33 os fariseus e os mestres da Lei disseram a Jesus: “Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com frequência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem”. 34 Jesus, porém, lhes disse: “Os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? 35 Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, naqueles dias, eles jejuarão”. 36 Jesus contou-lhes ainda uma parábola: “Ninguém tira retalho de roupa nova para fazer remendo em roupa velha; senão vai rasgar a roupa nova, e o retalho novo não combinará com a roupa velha. 37 Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama; e os odres se perdem. 38 Vinho novo deve ser posto em odres novos. 39 E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.
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Pela terceira vez em Lc 5 Jesus entra em controvérsias com os fariseus (cf. Lc 5,12-16; 5,27-32; 5,33-39). O tema da controvérsia desta vez é o do jejum.


O jejum é algo antigo escrito na Lei de Moisés (Lv 23,26-32; Nm 29,7-11). O jejum era praticado dentro do contexto de expectativa ou de preparação. Os fariseus e os discípulos de João Batista necessitavam fazer jejuns, pois estavam no tempo de espera. Os discípulos de Jesus não precisam fazer o jejum, nesta perspectiva, pois o Messias esperado está com eles: Jesus Cristo. Nesse sentido perdeu a razão de fazer o jejum.


Em qualquer controvérsia, Jesus sempre se apresenta como um independente diante das regras e das observâncias legais conforme as tradições. A independência de Jesus choca os que estão apegados ao pé da letra todas as leis. Jesus entra no espírito da lei, naquilo que possa edificar o ser humano, pois a pessoa humana é o foco de todo trabalho de Jesus (cf. Jo 3,16; 10,10). Por isso, em outra ocasião ele diz: “O sábado existe para o homem e não o contrário”.


O jejum sempre tem sentido de “privação” ou de “renúncia”. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. Ao se controlar diante de um alimento ou da bebida, o homem é disciplinado para se controlar diante de outras provações ou desafios da vida. através do jejum o homem faz uma passagem significativa do autocontrole físico para o autocontrole psicológico, mental e espiritual. Pode-se também fazer uma passagem contrária: a força espiritual faz com que o homem seja capaz de se controlar diante do alimento ou bebida ou as demais coisas. O verdadeiro jejum sempre beneficia ao homem para seu bem (físico e espiritual simultaneamente: Mens sana in corpore sano- Mente sã em corpo são).


A prática do jejum está ligada, no AT, à espera da vinda do Messias. A prática do jejum aceleraria a chegada do Messias. Os fariseus e os discípulos de João Batista praticam o jejum. Por isso, questionam o comportamento dos discípulos de Jesus que não o praticam. A resposta de Jesus aqui é bem clara: se seus discípulos não praticam o jejum é porque não tem nada que esperar porque o Messias já chegou e está com eles. Eles estão vivendo esta intimidade. Esta intimidade será rompida no momento da paixão e da morte de seu Mestre.


Estamos em outro contexto. Por isso, o jejum ganha seu novo significado. Quando soubermos dar ou preparar o espaço para Deus na nossa vida, este espaço não será ocupado por outra coisa. Ao darmos esse espaço para Deus o resto ganha seu justo valor e sua justa perspectiva. Por isso, ao praticarmos o jejum estamos manifestando nossa vontade de não deixar nenhuma coisa material dominar nossa vida ou mandar na nossa vida. Podemos possuir as coisas, mas as coisas jamais podem nos possuir para não perdermos nossa liberdade. Mesmo não querendo, um dia largaremos tudo. É preciso que aprendamos a ser livres todos os dias, desde já. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrario. Sou livre quando o amor e a humanidade pesam mais do que a religião. Sou livre quando eu estou no coração de Deus de Amor (1Jo 4,8.16) para eu ser capaz de amar com total liberdade e amar para libertar o outro da escravidão de uma vida sem sentido apesar de tratar-se de uma crença.


Tanto cristã como humanamente o jejum faz bem a todos. Fazer jejum significa saber renunciar a algo e dá-lo aos demais; é saber controlar nossas apetências; é saber nos defender com liberdade interior das contínuas urgências do mundo de consumismo. Jejuar é purificador. Jejuar não seria privar-se de tudo e sim usar moderação em tudo, isto é, ser sóbrios. Jejum supõe um grande domínio de si, de disciplina de olhos, de mente e da imaginação. A falta de sobriedade é uma das causas pelas quais se obscurecem e se debilitam as melhores iniciativas e decisões de um cristão. A sobriedade é certamente uma garantia da capacidade de orar e de apreciar o Espírito Santo. Com a renúncia às coisas Cristo nos chama à alegria, a uma alegria profunda, nascida da paz da alma. Fazer jejum é renunciar a algo para dá-lo aos necessitados. O jejum com uma dimensão de solidariedade nos tira do egoísmo, nos tira de uma vida vazia. Paradoxalmente a vida vazia é pesada para quem a tem. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrario.


Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. Jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres, dos necessitados e dos carentes do essencial e básico.


O profeta Isaias descreve qual é o verdadeiro jejum que agrada a Deus (Is 58,6-9).  Deus não quer o jejum formalista que não tem em conta a vida do outro, e muito menos a justiça. Nada valem as ações que excluem o amor do próximo. O verdadeiro jejum, no pensamento do profeta, remete ao comportamento capaz de renunciar à ganância, à avareza para começar a ser generoso; capaz de renunciar ao tempo pessoal para ir ao encontro do necessitado (doente, prisioneiro, idoso etc.) para estar com ele a fim de aliviar uma parte de sua dor. O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver. O verdadeiro jejum é um verdadeiro compromisso com os irmãos necessitados e empobrecidos ou injustamente são presos.


Por isso, pode-se dizer que o que importa no jejum não é somente a privação de alimento e sim a seriedade da fé nas tarefas da vida para que sejam a expressão mais viva do serviço de Deus e dos homens ao mesmo tempo. O jejum não se concebe sem caridade e sem uma mudança de vida para uma vida mais fraterna. O jejum que Deus quer é o cumprimento dos deveres morais e humanos com o próximo.  


Além disso, no evangelho de hoje Jesus faz uma declaração que tem o mesmo conteúdo: “Ninguém põe o vinho novo em odres velhos”. Aceitar Jesus em nossa vida comporta mudanças importantes. Não se trata somente de “saber” de quantas verdades a respeito de Jesus, mas trata-se de mudar nosso estilo de vida. Significa viver com alegria interior. Significa também novidade radical. Jesus rompe moldes. É aquilo que São Paulo chama de “revestir-se de Cristo Jesus”.

P.Vitus Gustama,svd

domingo, 1 de setembro de 2013

 
PALAVRA DE DEUS TEM FORÇA TRANSFORMADORA

 

Quinta-feira da XXII Semana Comum
05 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 5,1-11
 

Naquele tempo, 1 Jesus estava na margem do lago de Ge­nesaré, e a multidão apertava-se a seu redor para ouvir a palavra de Deus. 2 Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. 3 Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. 4 Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. 5 Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. 6 Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. 7 Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. 8 Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” 9 É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. 10 Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. 11 Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.

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É narrada no evangelho de hoje a história da pesca milagrosa, ressaltando o papel de Jesus e o dos pescadores. Pedro que é especialista na pescaria se torna um pescador frustrado pelo insucesso da noite inteira. Por isso, quando Jesus lhe disse: “Avança para águas mais profundas e lança redes para a pesca” (v.4) veio aquela resposta de desconfiança da parte de Pedro: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos”(v.5). “Deus precisou de apenas uma palavra para criar-nos, mas de seu sangue para redimir-nos. Se às vezes te sentes frustrado por tuas misérias, recorda quanto custaste”, dizia Santo Agostinho (Serm. 36,8). Aqui podemos também citar muitas das nossas situações de cada dia: cansei-me muito, gastei muita energia e tempo, empenhei-me a fundo, rezei muito e não aconteceu nada. É aquela sensação de derrotismo, de desânimo, de desespero. Dá vontade de desistir de tudo, de fugir, de abandonar tudo.
    

Eis o momento delicado no qual Pedro põe em jogo a própria pessoa, a própria vida e o próprio futuro. Ele e seus companheiros haviam trabalhado a noite inteira sem conseguir apanhar um só peixe e agora, em pleno dia, Jesus manda-lhes que lancem as redes para a pesca. Eles conhecem Jesus, mas como Mestre. Por isso, apesar de todas as objeções que um profissional poderia levantar contra ela, a palavra de Jesus tem mais força para Simão do que sua longa experiência de pescador. Pedro tenta superar a própria desconfiança.


A palavra de Deus é poderosa, mas é preciso que seja posta em prática para que desenvolva sua força. E Pedro cumpre a palavra de Jesus imediatamente: “Na tua palavra lançarei a rede” (v.5). Notemos quanto há de profundo neste “na tua palavra” porque é a expressão que, na Bíblia, especialmente nos Salmos, designa a atitude do homem diante de Deus. “Confio na Tua Palavra, é Tua Palavra que me dá vida, Senhor; Tu me afligiste. Tu permitiste tantos sofrimentos na minha vida, mas na Tua Palavra confio”. Certamente, na força da Palavra de Deus, os apóstolos encontram a vida ali onde tudo parecia morto; messe abundante onde tudo parecia vazio; abertura onde tudo parecia fechado.
   

Aqui Pedro sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. De fato, à fé, à obediência incondicional de Simão Pedro segue-se o milagre, a manifestação do poder da Palavra criadora de Deus. O poder da Palavra de Deus manifestada em Jesus domina toda esta cena. Toda força, todo poder vem de Deus. Nesta perspectiva devemos situar-nos para compreender o que segue. Mas antes disso, vamos tirar alguma lição.
    

Jesus nunca permite o aborrecimento pelo insucesso no nosso trabalho. Não cabe a cada um de nós calcular o último resultado. Cada um deve trabalhar, empenhar-se todo, confiando unicamente na Palavra do Senhor. Empenhar-se significa dar tudo, experimentar tudo, estudar, corrigir, mudar e recomeçar. A eficácia de nossa ação está na obediência à Palavra de Deus. Se agirmos em nome próprio, nossos esforços serão estéreis. A Palavra de Deus é a semente que tem em si uma força criadora, uma potência enorme. Então, por que ainda duvidamos dela? Por que não levamos a sério a Palavra de Deus? Por que não a lemos? Com Deus podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça ou amor onde outros dizem que não adianta tentar; podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única lei que funciona.
    

Vendo a pesca milagrosa, Pedro descobre a manifestação do poder de Deus em Jesus e se lança aos pés dele, dizendo: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um pecador” (v.8). Ele não chama mais Jesus de “Mestre”, mas de “Senhor”. O poder de Jesus faz sobressair a pecaminosidade de Pedro: Pedro não estava entre os maiores pecadores, mas também ele era um homem que, colocado diante do poder, da santidade de Deus, sentia que muitas coisas de sua vida não funcionavam. Com clarividência instantânea, Pedro percebe a distância entre seu pecado e a santidade de Deus, entre sua pequenez e sua fragilidade e a grandeza e poder de Deus. Pedro sente com uma clareza insuportável que não há lugar para ele, pecador, na presença do Deus santo. Esta experiência da sua indignidade diante da manifestação de Deus é o que causa em Pedro e em seus companheiros o “tremendo espanto” de que nos fala o texto. A Palavra de Deus nos ensina a não temer, mesmo que tenhamos medo, e a temer mesmo quando não temos medo. Temamos, pois, para não temer”, dizia Santo Agostinho (Serm. 65, 1,1).
    

Enquanto vivemos no meio dos outros homens, fracos e frágeis como nós, não nos damos conta do nosso pecado, de nossa fragilidade, de nossas fraquezas; aliás, comparando-nos com os que estão ao nosso lado, podemos até pensar que sejamos justos, honestos, sinceros, caridosos, misericordiosos e irrepreensíveis. Mas ao entrarmos em contato com Deus, as coisas mudam: constatamos de forma dramática a nossa pobreza, a nossa indignidade, a nossa miséria. Só quem fica perto de uma luz percebe a sujeira da própria roupa. Esta experiência é vivida por todos aqueles que entram em contato com a Palavra de Deus, aquela palavra que é “viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12). É a experiência vivida por Paulo, quando toma consciência da própria indignidade de pregador do Evangelho: “Nós carregamos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).
                

A palavra de Deus se manifesta em Jesus Cristo como uma palavra que pacifica, que infunde ânimo, que dá segurança; como uma palavra que escolhe, que chama, que fortalece e que transforma a existência daquele que é chamado. A palavra de Jesus vai superar a distância: “Não temas!” São mesmas palavras que ecoam nas manifestações de Deus no AT (cf. Gn 15,1;21,17;26,24;28,13;Jz 6,23;1Sm 4,20).
   

Às palavras de pacificação, de segurança e de coragem, seguem-se as da promessa- missão: “Doravante serás pescador de homens”. A palavra de Jesus tem esse poder de fazer começar uma história nova na vida de um homem.
   

A nova missão de Pedro e de seus companheiros será a de “salvar vidas”: entrar mar adentro para tirar os homens das águas profundas, do abismo da morte; “pegar vivos ou para a vida” os homens, assim como eles mesmos foram colhidos- escolhidos. A resposta de Pedro e de seus companheiros às palavras de Jesus foi a disponibilidade absoluta, a da obediência incondicional: “...e deixando tudo, eles o seguiram” (v.11). A renúncia, o “deixar tudo”, é uma conseqüência, e não uma condição prévia, do chamamento de Jesus. A vocação é a vocação para uma missão.


Aprendemos que pescar- salvar sem Jesus é impossível. Todos os saberes e técnicas humanas, horas oportunas (a noite), não são capazes de salvar sem a ajuda de Jesus. O fruto abundante (pesca milagrosa) será constante na atividade missionária se cada cristão seguir as diretrizes de Jesus. Nossas próprias forças não são suficientes para superar tudo. Necessitamos da confiança na Palavra d’Aquele que nos prometeu que nunca nos deixaria sozinhos (cf. Mt 28,20). Quem, como Pedro, aceitar sua limitação, estará em condições de aceitar que os frutos de seu trabalho apostólico não são seus e sim d’Aquele que nos convidou para ser seu instrumento. Jesus chama os apóstolos a serem pescadores de homens, mas o verdadeiro pescador é Ele.
   

Diante da força da Palavra de Deus posta em prática a exemplo de Pedro que resultou na pesca abundante, devemos, por acaso, desistir diante das dificuldades? Devemos recusar o convite do Senhor para ser pescadores de homens, para espalhar a Palavra do Senhor? Temos convicção de que a única força que possuímos é a da Palavra de Deus que nos foi confiada? Não nos sentimos, por vezes, inclinados a confiar em outras forças?

P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

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