quinta-feira, 3 de abril de 2014

 
O JUSTO E INOCENTE É PERSEGUIDO

Sábado da IV Semana da Quaresma
05 de Abril de 2014


Primeira Leitura: Jr 11,18-20

18 Senhor, avisaste-me e eu entendi; fizeste-me saber as intrigas deles. 19 Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim: “Vamos cortar a árvore em toda a sua força, eli­miná-lo do mundo dos vivos, para seu nome não ser mais lembrado”. 20 E tu, Senhor dos exércitos, que julgas com justiça e perscrutas os afetos do coração, concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles, pois eu te confiei a minha causa.


Evangelho: Jo 7,40-53


Naquele tempo, 40ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas diziam: “Este é, verdadeiramente, o Profeta”. 41Outros diziam: “Ele é o Messias”. Mas alguns objetavam: “Porventura o Messias virá da Galileia? 42Não diz a Escritura que o Messias será da descendência de Davi e virá de Belém, povoado de onde era Davi?” 43Assim, houve divisão no meio do povo por causa de Jesus. 44Alguns queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele. 45Então, os guardas do Templo voltaram para os sumos sacerdotes e os fariseus, e estes lhes perguntaram: “Por que não o trouxestes?”  46Os guardas responderam: “Ninguém jamais falou como este homem”. 47Então os fariseus disseram-lhes: “Também vós vos deixastes enganar? 48Por acaso algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele? 49Mas esta gente que não conhece a Lei, é maldita!” 50Nicodemos, porém, um dos fariseus, aquele que se tinha encontrado com Jesus anteriormente, disse: 51“Será que a nossa Lei julga alguém, antes de o ouvir e saber o que ele fez?” 52Eles responderam: “Também tu és galileu, porventura? Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta”. 53E cada um voltou para sua casa.

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Na primeira leitura (Jr 11,18-20) o profeta Jeremias utiliza a imagem do cordeiro manso levado ao matadouro para falar de sua própria inocência e mansidão. Para manter a fidelidade à aliança com Deus o profeta Jeremias denuncia os crimes e as traições cometidos pelo seu próprio povo. Em outras palavras, Jeremias chama o seu povo à conversão, a voltar ao Deus da Aliança. Infelizmente, como conseqüência, Jeremias é odiado pelo bem que faz. Ele é uma vitima inocente comparada a um cordeiro manso. “Toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar” (Cecília Meireles).


A sorte ou o destino do profeta Jeremias que viveu seis séculos antes de Jesus é a mesma sorte, o mesmo destino de Jesus. Jesus é também perseguido por ser fiel à Palavra de Deus. O cordeiro manso que o profeta Jeremias usa é imagem de Jesus que, como Cordeiro, morrerá para tirar o pecado do mundo (Jo 1,29).


A imagem do “cordeiro” nos sugere a inocência dessa pequena vitima que não merece ser sacrificada. Essa imagem nos sugere a liturgia do Cordeiro pascal cujo sacrifício é útil para o povo inteiro.


Percebemos das leituras de hoje que até para fazer o bem encontramos dificuldades, inclusive a violência da parte daqueles que defendem seus próprios interesses mesmo que sejam errados eticamente. Mas todo homem que sofre inocentemente e injustamente é uma imagem de Cristo sofredor. Todo sofrimento fruto da colaboração para salvar o mundo, para edificar a humanidade, para defender os sem voz e sem vez é o sofrimento do próprio Cristo. Todos esses sofredores estão no coração de Deus: “A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis permanecerão junto a ele no amor, pois graça e misericórdia são para seus santos e sua visita é para seus eleitos” (Sb 3,1.9).


No evangelho de hoje lemos como a pessoa de Jesus e sua maneira de viver provocam discussões e posturas diversas. A vida dos homens se decide de acordo com sua atitude vivencial com Jesus.


Uns dizem que é o Messias, outros dizem que é o profeta. Jesus é o sinal de contradição no mundo: divide os homens com sua simples presença entre os homens. Jesus continua sendo um mistério para seus contemporâneos.


Os escribas e os fariseus eram a mais alta autoridade doutrinal, os melhores especialistas em discussões sobre a Escritura. Segundo eles, em Jesus não se cumprem todas as condições necessárias. Por isso, Ele não é o Messias, apesar das evidências. Segundo eles o Messias não vem da Galiléia e sim de Belém (Jo 7,52).  Mas os fatos não negam, mesmo que alguém tente argumentar. Os fatos falam por si.


O pior cego é aquele que não reconhece a própria cegueira a fim de poder pedir a ajuda. Daí nós concluímos que a condição essencial para conhecer a Deus é a humildade. Há que saber renunciar aos nossos próprios pontos de vista, deixar-nos conduzir pela luz da sabedoria divina. A crença bíblica não basta para descobrir verdadeiramente quem é Deus em Jesus Cristo. A vida e seus acontecimentos são outra “Escritura” que Deus nos deixou para que leiamos cada dia uma página para saber o recado de Deus para nós e sobre nós. O conhecimento de Deus não é questão de intelectualidade. O Espírito é que nos sensibiliza para nos abrirmos à verdade de Deus, ao seu amor, à vida nova que Ele quer nos comunicar, à luz com que Ele quer iluminar nossa escuridão.


Nicodemos, o fariseu notável que pertencia ao circulo dos membros do Sinédrio (Sinédrio ou Sanhedrin era uma assembleia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos da antiga Isarael) e que havia visitado Jesus de noite (Jo 3,1-21), mostra sua preocupação pela justiça: “Será que a nossa Lei julga alguém, antes de ouvi-lo e saber o que ele fez?”. Ele pensa que a Lei deve ser usada como instrumento de justiça. No entanto, ele é reprovado pelos colegas ao chamá-lo de ”galileu” (chamar alguém de “galileu” na época era um palavrão): “Também tu és galileu, porventura? Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta”. No lugar de responder Nicodemos, eles o insultam, tratando-o como um ignorante. Para eles, segundo a Lei na qual eles se apóiam e não em Deus, profetas jamais sairiam da Galileia, enquanto que Deus sopra para onde quer e através de qualquer pessoa e em qualquer lugar. Basta cada um ficar atento para captar a passagem de Deus em cada momento na vida de qualquer homem.


Os escribas e os fariseus se sentem seguros na Lei a ponto de chamar “maldito” quem não conhece a Lei. Em nome desta Lei, eles vão crucificar e matar Jesus Cristo. Nas mãos dos escribas e dos fariseus a Lei não é um instrumento de justiça e sim de vingança. Eles confundem o conhecimento da Lei com o conhecimento de Deus. Para eles, os que estão fora da Lei são considerados desviados, malditos. Mas na verdade, os próprios fariseus e os escribas estão fora do conhecimento de Deus. Conhecer Jesus consiste em se preocupar com o bem do homem e sua salvação. Quem não se preocupa com o bem do homem e com a sua salvação, ele se separa de Deus, o Pai, que quer a vida para todos os homens, seus filhos.


Os simples têm, ao contrário, facilidade de captar a mensagem de Jesus e de considerar Jesus como Messias ou Profeta: “Este é, verdadeiramente, o Profeta. Ele é o Messias”. Jesus dirá mais tarde: “Minhas ovelhas escutam minha voz”. “Escutar” e “crer” são quase sinônimos no evangelho de João.


A condição essencial para conhecer Deus é a humildade e a simplicidade. A simplicidade é a condição fundamental para conhecer o projeto de Jesus sobre o homem. Há que saber desprender-se de si mesmo, renunciar a seus próprios pontos de vista, de suas “regrinhas” (como os escribas e os fariseus presos na própria Lei que acabam não conhecendo o verdadeiro Deus) e deixar-se conduzir pelo Espírito divino.


Encontrar o sentido da vida é independente da idade, do sexo, da capacidade intelectual e do grau de instrução da pessoa, pois a vida é simples. Nós é que não sabemos nos comportar diante desse dom de Deus. Em Jesus encontramos o sentido, pois Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por causa de Jesus milhares de homens mudaram de vida, abandonaram seus hábitos negativos. Por causa dele muitos dedicam sua vida para o bem do próximo. O modo de viver de Jesus em se preocupar com os pequenos, com os necessitados, com os excluídos, com os abandonados fascinam qualquer pessoa. Ele trabalha sem esperar nada de recompensa. Ele quer ver todo mundo na sua dignidade como um ser humano e acima de tudo, como filho e filha de Deus.


Deus permanece escondido atrás das aparências humanas. Cada um tem que descobrir esse Deus diariamente. “Se dizes ‘já basta’, tu estás perdido; aumenta sempre, progride sempre, avança sempre, não te pares no caminho, não voltas para trás, não te desvies!” dizia Santo Agostinho.


Vale a pena cada um se perguntar: “Quem é Jesus para mim? O que significa ele na minha vida? Será que seus ensinamentos provocam uma profunda reflexão para mim? Será que ele ocupa o centro de minha vida? Será que escuto a voz de Jesus como meu pastor?” Eu me preocupo com a regra ou com o bem do homem e sua salvação? Será que eu uso também as regras para dominar os demais ou eu uso a caridade? Temos que caminhar com Jesus Cristo e fazer nossa sua salvação. Posso dizer que sou também uma vitima inocente na ambiente em que vivo?

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 2 de abril de 2014

 
SER JUSTO NAS MÃOS DE DEUS

Sexta-Feira da IV Semana da Quaresma
04 de Abril de 2014


Primeira Leitura: Sb 2,1.12-22
 
1aDizem entre si os ímpios, em seus falsos raciocínios: 12“Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. 13Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama-se ‘filho de Deus’. 14Tornou-se uma censura aos nossos pensamentos e só o vê-lo nos é insuportável; 15sua vida é muito diferente da dos outros, e seus caminhos são imutáveis. 16Somos comparados por ele à moeda falsa e foge de nossos caminhos como de impurezas; proclama feliz a sorte final dos justos e gloria-se de ter a Deus por pai. 17Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz, e comprovaremos o que vai acontecer com ele. 18Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. 19Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; 20vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. 21Tais são os pensamentos dos ímpios, mas enganam-se; pois a malícia os torna cegos, 22não conhecem os segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras.
 
      
Evangelho: Jo 7,1-2.10.25-30
 
Naquele tempo, 1Jesus andava percorrendo a Galileia. Evitava andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo. 2Entretanto, aproximava-se a festa judaica das Tendas. 10Quando seus irmãos já tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente mas sim como que às escondidas. 25Alguns habitantes de Jerusalém disseram então: “Não é este a quem procuram matar? 26Eis que fala em público e nada lhe dizem. Será que, na verdade, as autoridades reconheceram que ele é o Messias? 27Mas este, nós sabemos donde é. O Cristo, quando vier, ninguém saberá donde ele é”.  28Em alta voz, Jesus ensinava no Templo, dizendo: “Vós me conheceis e sabeis de onde sou; eu não vim por mim mesmo, mas o que me enviou é fidedigno. A esse, não o conheceis, 29mas eu o conheço, porque venho da parte dele, e ele foi quem me enviou”. 30Então, queriam prendê-lo, mas ninguém pôs a mão nele, porque ainda não tinha chegado a sua hora.

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Jesus subiu a Jerusalém para a festa dos Tabernáculos. É a festa judaica de maior concorrência, que celebrava o final da colheita e preparava a próxima sementeira. As solenidades no templo se prolongavam durante oito dias: “Quando seus irmãos já tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente, mas sim como que às escondidas” (Jo 7,10). Por si mesmo, Jesus não busca conflitos. Mas o conflito sempre vem porque Jesus permanece fiel à missão recebida do Pai para devolver a dignidade do homem e para salvá-lo. Mesmo assim, Ele é cercado de ódio dos adversários. O ódio mortal.


O texto do Livro de Sabedoria lido neste dia nos apresenta como as forças do mal, encarnadas nos ímpios, querem e tentam sufocar a força de Deus que se manifesta ou que se encarna na vida dos justos. “Ímpio” é aquele que não respeita os valores comumente admitidos ou é aquele que revela impiedade, ou aquele que tem desprezo pela religião. Os ímpios, com seus atos, geram a morte. Sua visão materialista da vida os incapacita a valorizarem o que ultrapassa a razão: “... a malícia os torna cegos, não conhecem segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras” (Sb 2,21-22). 


“Malícia” é aptidão ou inclinação para fazer o mal; má índole; malignidade, maldade; ou habilidade para enganar, despistar. Todo ímpio tem malicia. Os ímpios se deixam levar por uma existência sem sentido. Eles vivem somente em função dos prazeres, pois para eles não há outra vida além desta vida. Eles detestam a censura permanente que a vida do justo constitui para sua vida depravada. Quem vive somente em função dos prazeres é porque não tem prazer de viver. A vaidade torna qualquer um cego.
 

O justo, ao contrário, se gloria de ter Deus como Pai e Deus como Pai não faz mal a ninguém, somente faz o bem. O justo tem uma escala de valores e por isso, constitui uma acusação contra as convicções mundanas dos ímpios. Por ser uma censura viva para seu modo de viver, o justo é eliminado pelos ímpios. Mas “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá” (Sb 3,1).
  

Para que o mundo não se torne surdo Deus precisa permanentemente dos justos, dos honestos, dos verdadeiros, dos coerentes e assim por diante. Jesus Cristo é o Justo por excelência e é o protótipo do justo, pois seu alimento é fazer a vontade de Deus: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34). Por Jesus ser justo em tudo, os seus adversários querem silenciá-lo para sempre. Todas as acusações dos adversários contra Jesus nascem do ódio e de raiva mórbida. Sb 2,1. 12-22


O texto da Primeira Leitura (Sb 2,1. 12-22) aparece como uma análise do que passará durante a Paixão de Jesus. No evangelho de João a ameaça sobre a morte de Jesus é constante. À medida que ficamos próximos da Semana santa será importante que dediquemos mais tempo para contemplar o Cristo sofredor: Ele está cercado de morte, fruto de um ódio fatal de seus adversários. Trata-se de uma experiência de estar rodeado e encurralado de ódio. É sempre ter gente que está contra e busca nos prejudicar ou acabar com nossa vida por vivermos uma vida digna, honesta e justa, como acabaram com a vida terrestre de Jesus. Ao pé da cruz alguém vai fazer a gozação contra Jesus: “Se tu és Filho de Deus...!”. Estas palavras continuam ressonando: “Se tu és justo, bom, religioso, freqüentador da Igreja e tens vida honesta e correta, por que Deus permite as coisas ruins na tua vida?”. Jesus enfrenta tudo na serenidade porque Ele se sabe amado por Deus apesar do sofrimento. No mesmo momento em que é odiado, acusado, isolado, Jesus se sabe amado. Jesus é um homem cheio de paz ainda que esteja rodeado de homens rancorosos, porque vive sua relação profunda com o Pai.
  

Não sejamos os justos cansados por causa do mal que é, aparentemente, onipresente e onipotente. O mal e a maldade não têm futuro. Jesus Cristo veio manifestar o amor de Deus que nos espera como um Pai amoroso para nos receber nas moradas eternas depois de termos caminhado por esta vida fazendo o bem a todos. Para os justos, a exemplo de Jesus, a morte não tem a ultima palavra e sim a vida. A vida dos justos está nas mãos de Deus. Nossa passagem por este mundo nos conduzirá para a possessão dos bens eternos na medida em que abandonarmos nossos egoísmos e amarmos com lealdade nosso próximo na mesma forma que Deus nos ama (cf. Jo 15,12). Deus está sempre próximo daqueles que sabem amar e vivem fieis.


A Palavra de Deus foi e é proclamada sobre nós para que ela se converta em nossa salvação. E ao entrar em comunhão de vida com Jesus na Eucaristia é porque queremos entregar todo nosso ser para o bem, para a salvação de todos. O mal não tem futuro algum. Acaba destruindo-se a si mesmo. É essa a profunda convicção de Jesus. Por isso, ele não pede ao Pai nenhum poder destruidor; não pede legiões de anjos que o protejam. Tampouco o crucificado devolve o mal pelo mal, nem insulto por insulto, nem profere ameaças (1Pd 2,23). Um poder desarmado e vulnerável pode ser também um poder que desarma. O poder de Deus é o poder do amor que se encarna na vida de Jesus. É esse poder do amor o que lhe permite exclamar: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34), pois ele sabe que o mal não tem futuro, somente o bem.


Jesus nos ensina que temos que nos apegar a Deus para manter nossa paz e serenidade apesar da realidade dura que nos cerca, e não ao caminho que temos para ir até Ele. Não podemos nos escravizar a uma maneira como a única maneira para chegar até Deus, pois nos colocaremos como superiores e fiscalizadores dos outros. Temos que estar abertos para qualquer forma que Deus queira para se apresentar ou para se revelar. Deus sempre quer nos surpreender em todos os momentos. “Se dizes ‘já basta’, estás perdidos. Aumenta sempre, progride sempre, avança sempre, não pares no caminho, não voltas atrás, não te desvies”, dizia Santo Agostinho.

P. Vitus Gustama,svd
SER CRISTÃO É  SER TESTEMUNHA  DE CRISTO COM OBRAS BOAS

Quinta-Feira da IV Semana da Quaresma
03 de Abril de 2014


Primeira Leitura: Ex 32,7-14

Naqueles dias, 7 o Senhor falou a Moisés: “Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito. 8Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, inclinaram-se em adoração diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: ‘Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair do Egito!’” 9E o Senhor disse ainda a Moisés: “Vejo que este é um povo de cabeça dura. 10Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”. 11Moisés, porém, suplicava ao Senhor seu Deus, dizendo: “Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte? 12Não permitais, te peço, que os egípcios digam: ‘Foi com má intenção que ele os tirou, para fazê-los perecer nas montanhas e exterminá-los da face da terra’. Aplaque-se a tua ira e perdoa a iniquidade do teu povo. 13Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste por juramento, dizendo: ‘Tornarei os vossos descendentes tão numerosos quanto as estrelas do céu; e toda esta terra de que vos falei, eu a darei aos vossos descendentes como herança para sempre”’. 14E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer a seu povo.

Evangelho: Jo 5,31-47
Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: 31“Se eu der testemunho de mim mesmo, meu testemunho não vale. 32Mas há um outro que dá testemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. 33Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. 34Eu, porém, não dependo do testemunho de um ser humano. Mas falo assim para a vossa salvação. 35João era uma lâmpada que estava acesa e a brilhar, e vós com prazer vos alegrastes por um tempo com a sua luz. 36Mas eu tenho um testemunho maior que o testemunho de João; as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou. 37E também o Pai que me enviou dá testemunho a meu favor. Vós nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, 38e sua palavra não encontrou morada em vós, pois não acreditais naquele que ele enviou. 39Vós examinais as Escrituras, pensando que nelas possuís a vida eterna. No entanto, as Escrituras dão testemunho de mim, 40mas não quereis vir a mim para ter a vida eterna! 41Eu não recebo a glória que vem dos homens. 42Mas eu sei que não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome do meu Pai, e vós não me recebeis. Mas, se um outro viesse em seu próprio nome, a este vós o receberíeis. 44Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus? 45Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. 46Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu. 47Mas se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis então nas minhas palavras?”
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O texto do evangelho de hoje é a continuação do texto do evangelho do dia anterior em que relatou a cura de um paralítico no Sábado. Os judeus da época criticaram Jesus que curou o paralítico, pois a cura aconteceu no Sábado que era o dia sagrado para eles. Dessa vez os judeus questionaram a autoridade de Jesus em fazer essa cura no dia de Sábado.


Jesus e Sua Autoridade Divina


Um dos problemas que o evangelho de João enfrenta é o da autoridade de Jesus questionada pelos seus adversários, porque Jesus não faz parte do grupo dos escribas, nem é da descendência sacerdotal, e sim vem de um lugar desconhecido, Nazaré. Mas o fundamento de sua autoridade está na sua comunhão plena com o Pai. O fruto desta profunda comunhão com o Pai é a sua preocupação em fazer o bem para os homens em qualquer circunstância e para qualquer pessoa. Somente tem autoridade quem faz alguém crescer. Somente tem autoridade quem pratica o bem. As palavras cheias de autoridade de Jesus e suas obras pelo bem de todos falam por si de que Jesus está em plena comunhão com o Pai. Quem pratica o bem normalmente fala menos de si, pois as obras falam mais por ele: “O ruído faz pouco bem, o bem faz pouco ruído", dizia São Francisco de Sales.  Quem pratica o bem é porque ele está em sintonia com o Bem maior, que é Deus, mesmo que ele não tenha consciência disso. "O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva" (Simone Weil).


Quando nosso coração estiver duro ficaremos cegos diante das obras boas daquele que consideramos adversário. Se colocarmos o bem do homem acima de qualquer interesse, reconheceremos qualquer bem praticado por qualquer pessoa. A dureza de coração dos adversários de Jesus os leva a um ódio sempre crescente contra Jesus, pois eles se preocupam apenas com a própria gloria e o próprio interesse: “Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?”. E o ódio dos escribas terminará no assassinato de Jesus. "Aquele que sem autoridade mata um criminoso, torna-se tão criminoso como este" (Blaise Pascal).  “Há pessoas que amam o poder, e outras que têm o poder de amar” (Bob Marley).


Testemunho Na Vida De Cristo E Na Vida Do Cristão


A cura do paralitico no Sábado (Jo 5,1-15) cria uma violenta oposição entre Jesus e os escribas que João descreve sob a forma de processo através do uso da palavra “testemunha/ testemunho”. No texto de hoje a palavra “testemunha/ testemunho” aparece, pelo menos, onze vezes.


Para Jesus, no evangelho de João, testemunhar equivale a manifestar o Pai, a revelar o Pai. O testemunho designa a função reveladora de Cristo e este testemunho tem como objetivo o próprio Cristo em seu mistério pessoal de Filho. Por isso, Cristo dá testemunho com toda sua presença e durante toda sua existência. Para Cristo, dar testemunho é revelar-se, dar-se conhecer: tudo o que é e de onde vem: do Pai. Se esta revelação termina na Cruz é porque na Cruz se opera a suprema revelação de Cristo, a saber: o amor supremo do Pai aos homens manifestado no amor supremo de Cristo aos seus (cf. Jo 13,1).


Jesus está “sozinho” para se defender. Logo seu testemunho ficaria sem validade nenhuma, pois a jurisprudência judaica determina: para que um testemunho seja válido são exigidas duas ou três testemunhas (Jo 5,31). Jesus apela para as obras pelo bem da humanidade. Essas obras mostram que Jesus está com o Pai e faz o que o Pai continua fazendo: “Meu Pai trabalho e eu também”. Logo sua testemunha mais válida é o Pai. Trata-se de um testemunho que se verifica nas obras e milagres (= sinais) que Jesus opera em favor da humanidade e não para a autopromoção.


Em relação à importância do testemunho o Papa João Paulo II escreveu na sua Carta Encíclica Redemptoris Missio no. 42:

·        O homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas do que nos mestres, mais na experiência do que na doutrina, mais na vida e nos fatos do que nas teorias. O testemunho da vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão: Cristo, cuja missão nós continuamos, é a « testemunha » por excelência (Ap 1, 5; 3, 14) e o modelo do testemunho cristão. O Espírito Santo acompanha o caminho da Igreja, associando-a ao testemunho que Ele próprio dá de Cristo (cf. Jo 15, 26-27 ).


·        A primeira forma de testemunho é a própria vida do missionário, da família cristã e da comunidade eclesial, que torna visível um novo modo de se comportar. O missionário que, apesar dos seus limites e defeitos humanos, vive com simplicidade, segundo o modelo de Cristo, é um sinal de Deus e das realidades transcendentes. Mas todos na Igreja, esforçando-se por imitar o divino Mestre, podem e devem dar o mesmo testemunho, que é, em muitos casos, o único modo possível de se ser missionário.


·        O testemunho evangélico, a que o mundo é mais sensível, é o da atenção às pessoas e o da caridade a favor dos pobres, dos mais pequenos, e dos que sofrem. A gratuidade deste relacionamento e destas ações, em profundo contraste com o egoísmo presente no homem, faz nascer questões precisas, que orientam para Deus e para o Evangelho. Também o compromisso com a paz, a justiça, os direitos do homem, a promoção humana, é um testemunho do Evangelho, caso seja um sinal de atenção às pessoas e esteja ordenado ao desenvolvimento integral do homem.


Jesus quer nos dizer que para convencer os outros que realmente acreditamos em Deus temos que mostrar não com palavras e sim com as obras boas em favor dos homens. Não basta falar do amor, temos que aprender a amar especialmente através do perdão mútuo.


Além disso, Jesus quer nos ensinar a abrirmos nossos olhos e o nosso coração diante do bem que os outros podem fazer. Ninguém é exclusivo para fazer o bem. Ninguém pode encurtar a mão de Deus para fazer o bem. Somos convidados a reconhecer o bem praticado por quem quer que seja. Todos os cristãos devem fazer parte só de um grupo: o grupo do bem. No seio da Igreja de Cristo não pode nem deve existir outro tipo de grupo. Ou você é de Cristo por se preocupar somente com o bem que deve ser praticado ou você não é de Cristo se você não se preocupa com o bem praticado. O bem não tem fronteiras. Deus pode usar qualquer ser humano para praticar o bem. Por isso, não podemos encurtar a mão de Deus. Quem pratica o bem é de Deus independentemente de quem quer que ele seja. Quem não pratica o bem não tem nada a ver com Deus, mesmo que alguém se considere cristão. Por isso, falar da fé é uma coisa. Falar da experiência de fé é outra coisa. Falar de amor é uma coisa. Falar amorosamente é outra coisa. Não basta não cometer algum crime ou algum mal, é preciso praticar o bem. Praticando o bem você afasta o mal e a felicidade é atraída. O bem praticado é o sinal da abertura diante do Bem Absoluto: Deus.


No evangelho de hoje Jesus reprovou seus conterrâneos por não ter escutado realmente Moisés: “Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu”. Em Ex 32,7-14 Moisés reprova a atitude do povo, pois ao descer da montanha de Sinai, onde havia estado para falar com Deus, encontrou o povo adorando uma estátua de bezerro de metal.


O homem se rebaixa quando dá importância para as coisas, e gasta tempo para dar atenção maior para as coisas menos importantes que não edificam o ser humano. O homem se rebaixa quando ama as coisas e usa as pessoas em vez de amar as pessoas e usa as coisas. A adoração ao verdadeiro Deus através da vivência do amor fraterno é a única que não rebaixa o ser humano. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho)


Quem procura a própria gloria e o próprio interesse será difícil saborear a convivência fraterna, pois haverá somente disputa e o jogo de interesse. O jogo de interesse para o próprio bem e não para o bem comum acabará com a comunidade. O homem se rebaixará, se ele der tanta importância às coisas mais do que às pessoas.  Quem não procurar a glória de Deus, mas, somente os próprios interesses e a própria glória, vai alimentar a própria vida com o ódio cada vez mais crescente contra os outros irmãos que não realizarem esses interesses. “Ali onde se destrói a comunhão com Deus, destrói-se também a raiz e o manancial da comunhão entre nós” (Bento XVI).
P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...