sábado, 5 de agosto de 2023

08/08/2023-Terçaf Da XVIII Semana Comum

DEUS,ORIGEM DOS CARISMAS, ESTÁ CONOSCO EM TODOS OS MOMENTOS

Terça-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Nm 12,1-13

Naqueles dias, 1 Maria e Aarão criticaram Moisés por causa de sua mulher etíope. 2 E disseram: “Acaso o Senhor falou só através de Moisés? Não falou, também, por meio de nós?” E o Senhor ouviu isto. 3 Moisés era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra. 4 Então o Senhor disse a Moisés, Aarão e Maria: “Ide todos os três à Tenda da Reunião”. E eles foram. 5 O Senhor desceu na coluna de nuvem, parou à entrada da Tenda, e chamou Aarão e Maria. Quando se aproximaram, ele lhes disse: 6 “Escutai minhas palavras! Se houver entre vós um profeta do Senhor, eu me revelarei a ele em visões e falarei com ele em sonhos. 7 O mesmo, porém, não acontece com o meu servo Moisés, que é o mais fiel em toda a minha casa! 8 Porque a ele eu falo face a face; é às claras, e não por figuras, que ele vê o Senhor! Como, pois, vos atreveis a rebaixar o meu servo Moisés?” 9 E, indignado contra eles, o Senhor retirou-se. 10 A nuvem que estava sobre a Tenda afastou-se, e no mesmo instante, Maria se achou coberta de lepra, branca como a neve. Quando Aarão olhou para ela e a viu toda coberta de lepra, 11 disse a Moisés: “Rogo-te, meu Senhor! Não nos faça pagar pelo pecado que tivemos a insensatez de cometer. 12 Que Maria não fique como morta, como um aborto que é lançado fora do ventre de sua mãe, já com metade da carne consumida pela lepra”. 13 Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: “Ó Deus, eu te suplico, dá-lhe a cura!” 

Evangelho: Mt 14,22-36

Depois que a multidão comera até saciar-se, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barco e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 34 Após a travessia desembarcaram em Genesaré. 35 Os habitantes daquele lugar, reconheceram Jesus e espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a ele todos os doentes; 36 e pediam que pudessem, ao menos, tocar a barra de sua veste. E todos os que a tocaram, ficaram curados.

----------------------------

Todos Os Dons e Carismas Provém De Deus Para a Edificação Da Comunidade 

“Maria e Aarão criticaram Moisés por causa de sua mulher etíope. E disseram: ‘Acaso o Senhor falou só através de Moisés? Não falou, também, por meio de nós?’”. 

Desta vez a rebelião e o protesto não vem apenas do povo eleito em geral, mas também de sua própria família: seu irmão maior Aarão, o sacerdote que trabalhava em colaboração com Moisés, e sua irmã Maria (Miriam) que vigiava no rio onde sua mãe depositou o menino Moisés. Agora Aarão e Maria atacam Moisés e murmuram dele. 

Trata-se de um dos problemas familiares e da convivência em geral: a inveja. A inveja é a tisteza pelo bem alheio. A inveja nasce da sensação ou da crença de que nunca vai ter o que o outro possui. É uma profunda raiva produzida pela conquista dos outros. A inveja é um desejo de destruição, de ódio. A inveja tentará destruir o outro através da perseguição. A inveja nos tira do foco e conduz nossa energia para o lado errado, em vez de buscar novas oportunidades melhores. É a falta de autoestima. Tomemos cuidado com nossas invejas, pois pode resultar, para nós, numa  vida cheia de “lepras”. 

O ataque dos dois irmãos (Aarão e Maria) contra Moisés é ouvido por Deus por ser muito grave: “E o Senhor ouviu isto” (Nm 12,2c). Esta frase nos revela a onisciência e a onipresença de Deus. Tudo o que se passa nesta terra e entre os homens não fica fora do conhecimento de Deus. A onipresença divina deveria dar a segurança para aquele que crê em Deus, pois ele não está só nesta vida nas suas lutas de cada dia, pois Deus o acompanha todos os dias (cf. Mt 28,20). Por outro lado, tomemos cuidado com os nossos ataques injustos (ou justos) contra os irmãos, contra nosso próxomo que são filhos de Deus, pois pode acontecer algo pior na nossa vida como aconteceu com a irmã de Moises: “E, indignado contra eles, o Senhor retirou-se. A nuvem que estava sobre a Tenda afastou-se, e no mesmo instante, Maria se achou coberta de lepra, branca como a neve” (Nm 12,9-10). 

O leproso era considerado um pecador e um maldito, vítima de um particularmente doloroso castigo de Deus. Ele era considerado “ferido” por Deus. Aproximar-se dele e tocá-lo significavam contrair a impureza, igual como o contato com um cadáver. Segundo a lei, o leproso contaminava não somente as pessoas que se aproximassem dele, mas também os objetos que tocasse e as casas em que entrasse. Por isso, ele era excluído ou marginalizado da comunidade. Não tinha acesso ao Templo e a outros lugares públicos para não contaminá-los pela sua impureza. Além disso, toda vez que as pessoas se aproximassem dele, ele teria que gritar: “Impuro!” (cf.Lv 13,1ss). A lepra era considerada como a própria morte, pois dificilmente podia ser curada. A cura da lepra era, por isso, considerada um milagre, como se fosse uma ressurreição de um morto. Neste caso somente Deus podia curá-lo dessa lepra. 

Além disso, precisamos estar conscientes de que cada um nasce com seus dons. Basta multiplicarmos os dons recebbidos para edificar uma convivência mais fraterna. Em vez de ter inveja dos dons e das capacidades dos outros, precisamos cultivar nossos dons para poder multiplicá-los. O invejoso pelos dons dos outros mostra que ele enterra seus dons (cf. Mt 25,18). 

Apesar dos ataques injustos dos irmãos (Maria/Miriam e Aarão), Moisés mantém-se humilde e fiel a Deus e mostra o amor a sua irmã, Maria: “Rogo-te, meu Senhor! Não nos faça pagar pelo pecado que tivemos a insensatez de cometer. Que Maria não fique como morta, como um aborto que é lançado fora do ventre de sua mãe, já com metade da carne consumida pela lepra” (Nm 12,11-12). Moisés transforma os ataques recebidos em oração por aquela (Maria) que o atacou. Isso mostra a grandeza do coração de Moisés.

Há uma dupla reação diante deste ataque inesperado. Por parte de Moisés é a paciência e a humildae, porque “Moisés era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra” (Nm 12,3). Moisés não responde aos seus irmãos como palavras de ofensa. Por parte de Deus é a defesa de seu profeta Moisés: “Escutai minhas palavras! Se houver entre vós um profeta do Senhor, eu me revelarei a ele em visões e falarei com ele em sonhos. O mesmo, porém, não acontece com o meu servo Moisés, que é o mais fiel em toda a minha casa! Porque a ele eu falo face a face; é às claras, e não por figuras, que ele vê o Senhor! Como, pois, vos atreveis a rebaixar o meu servo Moisés?”. O livro interpreta como castigo de Deus a lepra que Maria sofreu (Nm 12,9-10). 

Sobre um fundo de problemática familiar guardado na memória da tradição, possivelmente da tradição eloísta, o autor bíblico nos oferece uma boa lição teológica sobre os carismas. O autor sagrado quer colocar em destaque a origem de todos os carismas. Deus que chama cada um para um serviço concreto, dá-lhe também o carisma correspondente e lhe assegura Sua assistência (cf. Nm 12,6-7). Deus é quem distribui para cada homem um carisma conforme Sua própria vontade (cf. 1Cor 12,11). E a vontade de Deus não é arbitrária, pois o carisma não se outorga para a promoção pessoal e sim para a edificação e o crescimento da comunidade. E para a livre generosidade de Deus deve corresponder a fidelidade do serviço do homem pelo bem da comunidade e sua edificação. O carisma que se transforma em autopromoção é uma traição à vontade de Deus. Este abuso pode resultar na desgraça: “Indignado contra eles (Aarão e Maria), o Senhor retirou-se. A nuvem que estava sobre a Tenda afastou-se, e no mesmo instante, Maria se achou coberta de lepra, branca como a neve”.

A intenção de dois irmãos, Aarão e Maria, de minar a autoridade de Moisés em benefício próprio atrai a ira de Javé (Deus). Maria era certamente profetisa (Ex 15,20) que recebeu este carisma, como Aarão havia recebido o carisma do sacerdócio. Por isso, era verdade que Deus havia falado com eles. Mas esta realidade não lhes dava nenhum direito de exigir igualdade de dons nem intentar reduzir Deus a um mero garantia da igualdade de sua própria graça. No fundo, é uma tentativa de manipular Deus e de converter o serviço ou ministério em título de honras e poder, como temos visto no curso da história do pecado.

Mas Aarão se arrepende de sua falta e pede a intercessão de Moisés: “Rogo-te, meu Senhor! Não nos faça pagar pelo pecado que tivemos a insensatez de cometer. Que Maria não fique como morta, como um aborto que é lançado fora do ventre de sua mãe, já com metade da carne consumida pela lepra”. O Salmo Responsorial de hoje parece recolher os sentimentos de Aarão: “Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa! Eu reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente. Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei, e pratiquei o que é mau aos vossos olhos!” (Sl 50). E Moisés mostra, mais uma vez, seu coração magnânimo intercedendo diante de Deus por sua irmã Maria. 

O exemplo de Moisés deveria nos animar a ser mais generosos em nossas reações diante do tratamento que recebemos dos outros quando nos parece injusto. Jesus nos ensinou a perdoar (Cf. Mt 18,21-22). Quando não houver o perdão mútuo, existirão sempre duas vítimas: o agredido e o agressor, e a relação fica enfraquecida. A correção fraterna pode nos ajudar a recapacitarmos e a melhorarmos nossa relação mais saudável.

Para aprender a amar verdadeiramente, o cristão tem que aprender a perdoar, pois perdão é a expressão máxima do amor. Perdão é o último testamento de Jesus Cristo da cruz para todos os cristão (cf. Lc 23,34).  “O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte”. (Mahatma Gandhi).

Deus Está Conosco Em Todos Os Momentos De Nossa Vida

1. É Preciso Manter Nossas Conversas Diárias Com Deus, Nosso Pai 

Depois que saciou a multidão com a Palavra de Deus e com o alimento, Jesus se afastou da multidão para rezar ou para estar em comunhão plena com Deus: “Jesus subiu ao monte para orar a sós”, assim o evangelista Mateus registrou.

A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver e de pensar. Ou na linguagem do Livro dos Reis (1Rs 19,9-13) Deus não se encontra no terremoto, isto é, não tem como ouvir Deus numa vida agitada e barulhenta; também não se encontra no fogo. O fogo queima e transforma tudo em cinzas. Isto quer dizer que não tem como ouvir Deus para uma mente agitada ou comportamento esquentado. Deus se encontra na suavidade de uma brisa, isto é, quando tudo é sereno, a voz de Deus pode ser ouvida com clareza. Somente no silêncio e ao criar o silêncio a eternidade se faz presente para potenciar nossa humanidade. Um cristão sem oração perseverante é como alguém que anda com uma perna apenas: em pouco tempo fica cansado e cai. 

2. Deus Está Conosco Diariamente: Tenha Consciência Disso!

“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

Através desta frase Jesus se dá a conhecer ou Jesus se revela aos discípulos quem Ele é. A palavra “Coragem!” dissipa o medo provocado pela aparição de Jesus no meio do lago. Em seguida Jesus lhes disse: “Sou Eu!”. “Sou eu” é uma fórmula de identificação com que Deus se revelava no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,1.3.10-11). “Sou Eu” corresponde à exortação “Não tenha medo”. Ao dizer “Sou Eu”, Jesus se revelou como Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20), um Deus que nos acompanha com sua providencia em todos os momentos de nossa vida. Através de seu evangelho, Mateus quer nos transmitir a certeza de que Deus jamais nos abandona: “Eis que Estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). 

“Não tenhais medo”, diz-nos o Senhor todos os dias. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades, pois trata-se da Palavra de Quem nos criou e de Quem pode nos salvar. Precisamos nos deixar pelo poder da Palavra de Deus e não pelo aparente poder da situação em que nos encontramos. Em outras palavras, é preciso que Deus continue sendo o Senhor de nossa vida em todos os seus momentos. Para isso precisamos nos manter conectados com o Senhor para que Sua força continue sendo nossa força.

3. É Preciso Manter o Olhar Fixado No Senhor 

“’’Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.’  E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”.

Pedro desafia Jesus. Ele chama Jesus de “Senhor” e pede para que vá até Jesus. Através desse pedido Pedro quer participar da condição divina de Jesus. Jesus não duvida e convida Pedro para ir ao seu encontro. Mas infelizmente Pedro esperava a condição divina sem obstáculos, de maneira milagrosa. Pedro precisa estar consciente de que o homem se faz filho de Deus em meio da oposição e perseguição do mundo (cf. Mt 5,10-11). O pedido de Pedro (cf. Sl 17(18),5-18; 143(144),5-7) vale uma reprovação, pois mostra sua falta de fé: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”. 

Pedro sente medo porque não entendeu o modo como se faz a missão: com a entrega total. Os discípulos ou Pedro apelam a Jesus nos momentos de dificuldade pedindo que Jesus intervenha. Eles têm conceito da salvação expressado nos salmos (cf. Sl 17[18],5-18; 143[144],5-7): uma intervenção milagrosa de Deus a partir do céu para que resolva a situação desesperadora do homem. o conceito de Jesus é diferente: estando com Ele, o homem se basta a si mesmo (cf. Mt 19,26: para Deus tudo é possível) e está salvo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” 

Enquanto Jesus sobe à barca cessa o vento, isto é, a oposição e a resistência dos discípulos. O vento era a busca do triunfo humano. “Os que estão na barca”, que representam a comunidade cristã (barca=Comunidade/Igreja), reconhecem que Jesus é “Filho de Deus”. Jesus é “Filho de Deus”, mas eles têm acreditar no Filho de Deus para que possam chegar a sê-lo.

É preciso manter nosso olhar para Deus e não para as nossas dificuldades ou para as “ondas fortes” de nossa vida. Pedro olhava mais para as ondas e quase se afundou. A partir do momento em que ele voltou a olhar para Jesus a fim de pedir a ajuda e Jesus estendeu a mão para tirá-lo de sua situação, Pedro começou a andar com o Senhor sobre as ondas. Muitos de nossos medos são causados pela nossa maneira de olhar para nossa vida e seus problemas. Se nossa vida pertence a Deus e foi Ele quem nos deus, temos que confiar nossa vida no Senhor.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

07/08/2023-Segundaf Da XVIII Semana Comum

PARA VIVER UMA VIDA CRISTÃ EQUILIBRADA É PRECISO QUE SEJAMOS ALIMENTADOS PELO PÃO MATERIAL E PÃO EUCARÍSTICO

Segunda-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Nm 11,4b-15

Naqueles dias, 4b os filhos de Israel começaram a lamentar-se, dizendo: “Quem nos dará carne para comer? 5 Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. 6 Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná”. 7 O maná era parecido com a semente do coentro e amarelado como certa resina. 8 O povo se dispersava para o recolher e o moía num moinho, ou socava num pilão. Depois o cozinhavam numa panela e faziam broas com gosto de pão amassado com azeite. 9 À noite, quando o orvalho caía no acampamento, caía também o maná. 10 Moisés ouviu, pois, o povo lamentar-se em cada família, cada um à entrada de sua tenda. 11 Então o Senhor tomou-se de uma cólera violenta, e Moisés, achando também tal coisa intolerável, disse ao Senhor: “Por que maltrataste assim o teu povo? Por que gozo tão pouco do teu favor, a ponto de descarregares sobre mim o peso de todo este povo? 12 Acaso fui eu quem concebeu e deu à luz todo este povo, para que me digas: ‘Carrega-o ao colo, como a ama costuma fazer com a criança; e leva-o à terra que juraste dar a seus pais!’? 13 Onde conseguirei carne para dar a toda esta gente? Pois se lamentam contra mim, dizendo: ‘Dá-nos carne para comer!’ 14 Já não posso suportar sozinho o peso de todo este povo: é grande demais para mim. 15 Se queres continuar a tratar-me assim, peço-te que me tires a vida, se achei graça a teus olhos, para que eu não veja mais tamanha desgraça”.

Evangelho: Mt 14,13-21

Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair da barca, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” 16 Jesus porém lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

--------------------

Deus Está Conosco Apesar de Nossas Queixas, Protestos e Murmurações

A Primeira Leitura é tirada do livro de Números, o quarto livro do Pentateuco que vamos ler durante quatro dias. Na Bíblia hebraica este livro é chamado Bamidbar (no deserto). Este nome é tirado da quinta palavra do primeiro versículo deste livro. Na Bíblia grega este livro é chamado Arithmoi cuja tradução para a Vulgata (Bíblia latina) é Numeri que significa Números, título que temos na nossa Bíblia atual. Este livro recebe este nome (Números) porque nele há muitos números, censos, listas e recenseamentos. 

O livro de Números retoma o fio da história no Sinai até as portas da terra prometida. O livro enfatiza bastante a coesão das tribos como o povo eleito sob a direção de Moisés e Aarão e que depois estes serão sucedidos por Eleazar. 

Neste livro fala-se de Israel como um povo à parte, pois ele é o povo eleito entre outros povos (Nm 23,9). Fala-se do dogma da presença de Deus que vive no meio do povo. No NT este dogma se encarna em Jesus, o Deus-conosco (Mt 28,20; Jo 1,14). Por causa deste dogma, Israel se torna uma nação teocrática. Consequentemente, os chefes do povo são considerados como vigários e representantes de Deus. Moisés, por exemplo, é o homem de confiança de Deus (Nm 12,6-8), o porta-vos de Deus, legislador, por excelência. Por isso, Moisés recebe os títulos de intercessor, eleito de Deus, homem de Deus, servo do Senhor (Nm 11,11-12). Mesmo sendo uma nação teocrática, Israel é também uma mistura de santo e de pecador. “Santo” significa “separado”. Israel é santo porque é um “povo separado” do demais povos, pois é consagrado ao Senhor que o eecolheu. Esta consagração (social e espacial) implica necessariamente a santidade moral. Por isso, neste livro encontramos leis, prescrições e instituições para salvaguardar e promover a santidade moral do povo eleito.  A lei em si é uma confirmação da bondade e da maldade, do bem e do mal. Para salvaguardar os bons é preciso ter lei para que os maus não avancem destruindo seu próximo. Mas quando houver amor, a lei perderá sua existência, pois “a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10). Por isso, neste livro fala-se também das infidelidades e outros pecados do povo eleito. Em Nm 11-21 encontramos muitas queixas, protestos e murmurações do povo eleito contra Moisés que os tirou do Egito sob a ordem de Deus. O autor sagrado quer transmitir também o outro tema: o povo eleito é o depositário da bênção de Deus. Este tema está em destaque nos quatros poemas mais densos e profundos teologicamente de Balaão (Nm 23-24). Balão é enviado por um rei para amaldiçoar o povo eleito. Mas em vez de amaldiçoar, ele abençoa o povo de Israel. Mas os autores do AT mantém o seguinte pensamento: o pecado costuma ser seguido pelo arrependimento e o arrependimento do povo é seguido pelo perdão de Deus. Consequentemente há uma dialética: pecado-castigo; conversão-salvação. No fim Deus sempre se mostra misericordioso pelo arrependimento do povo que pecou.

Esta dialética encontramos no texto da Primeira Leitura (Nm 11,1-15).  O povo se encontra no deserto, precisamente em Qibrot-Taava que significa “Sepulcros da cobiça” (Nm 11,34). O povo reclama por falta de carne para comer no deserto. E Deus alimento o povo com cordonizes (Nm 11,4-9.10.13.18-24ª). Mas também o povo é punido por sua cobiça (Nm 11,31-33). O povo se queixa no deserto pela vida difícil. A vida difícil no deserto resulta na atitude rebelde do povo que se queixa e ofende Deus. Esta atitude resulta na ira e no castigo da parte do Senhor, segundo o texto. Mas Moisés intercede pelo povo para pedir o perdão a Deus. O esquema pecado-castigo-conversão se repete constantemente nos diversos autores e escolas teológicas do Antigo Testamento. 

O deserto foi duro para o povo. O deserto é o contrário de “instalação”: é a aventura de seguir caminhando. O povo murmura pelas condições em que tem que viver e caminhar. Abandonaram a vida com comida farta que tinham no Egito apesar da escravidão. Muitos preferem a escravidão a ter liberdade, desde que tenha uma vida material garantida. Em cada escravidão há abusos e sofrimentos.  A liberdade, para muitas pessoas, sempre dá medo. Viver no deserto e aprender a viver o deserto ajuda a crescer na maturidade, na sabedoria, na prudência, na sobriedade. Apesar das suas murmurações os israelitas continuam experimentando a proximidade de Deus que é fiel a sua Aliança. Deus jamais abandona seus eleitos, seus fieis. A providência divina sempre acompaha seus fieis apesar da dureza da realidade como o deserto. Que nosso coração não seja seco como deserto sem sentir mais a presença providente de Deus na nossa vida. 

Moisés se deixa contagiar pelo mal-estar do povo, pois a impaciência do povo vai contra ele: “Quem nos dará carne para comer? Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná”. O povo se esqueceu de tudo que Moisés fez por ele em nome de Deus. Moisés ficou desanimado, mas refugiou na oração, uma oração muito humana e sentida: “Por que maltrataste assim o teu povo? Por que gozo tão pouco do teu favor, a ponto de descarregares sobre mim o peso de todo este povo?”, perguntou Moisés a Deus na oração. A crise é tão forte a ponto de Moisés pedir a morte: “Se queres continuar a tratar-me assim, peço-te que me tires a vida, se achei graça a teus olhos, para que eu não veja mais tamanha desgraça”.

Todos temos nossos momentos de crise e desânimo ainda que não desejemos nossa morte como Moisés. Vemos muito pouco fruto no trabalho que temos realizado; vemos os filhos que não querem saber de Deus ou que praticam coisas ilícitas; vemos nossa família desunida, nosso casamento desmoronado, doenças incuráveis, e assim por diante. Nestas situações experimentamos o cansaço psicológico e existencial que a vida produz cada dia. Há dias em que são acumulados os desgostos pela vida, pela Igreja, pela comunidade, pela pastoral, pela família, pelo governo e assim por diante. Experimentamos as tarefas que se tornam uma carga insuportável. Nessa situação surge vontade de gritar para ter um pouco de alívio. 

Todos nós ansiamos pela felicidade, por uma vida mais fácil, mas demoramos muito para aprender que tanto a felicidade quanto uma vida mais tranquila são em geral questão de atitude e de aprendizagem.  Consequentemente, não se pode ter sabedoria sem viver a vida nos seus altos e baixos tirando lições para seguir adiante. A compreensão das circunstâncias, de pessoas, do sentido da vida, até de nós mesmos vem com o passar do tempo e nossa disposição em estarmos abertos para todos os ensinamentos contidos em cada instante de nossa vida. É preciso ter paciência e fé no Deus-conosco e disposição para vivermos com plenitude necessária para colhermos os benefícios que acompanham a sabedoria. Há setores ou aspestos de nossa vida que precisam ser melhorados que muitas vezes através de muitas dificuldades que devemos encarar e solucionar. 

Precisamente a Palavra de Deus existe para nos orientar. Nestas situações serve para nós o exemplo de Moisés. Precisamos nos refugiar no Senhor que sabe tudo e pode tudo. A oração é antes de tudo uma confissão da própria indigência: Senhor, eu não consegui alcançar tal objetivo, Senhor, eu ando buscando..., Senhor, eu não compreendo tudo..Senhor não dei mais conta disso... Senhor, eu necessito de Ti. Rezar é estar diante de Deus, estar com Deus e estar em Deus. E Deus sabe o que fazer com nossa situação. Mas fiquemos atentos para cada resposta de Deus, pois nem sempre enxergamos as respostas dadas por Deus para nossa situação.

Jesus nos convida a perseverar em nossa oração, a dirigir confiadamente nossas súplicas ao Pai (cf. Lc11,5-13; 18,1). Ele nos recomenda que sejamos persistentes na oração não porque Deus seja surdo e sim porque nós necessitamos perseverar para alcançá-Lo. A natureza humana é geralmente caracterizada pela inconstância. Ficamos desanimados e apavorados diante do primeiro obstáculo que nos é apresentado na consequência de nossos projetos e metas. Abandonamos a nave diante do menor indício de tormenta. As coisas fáceis geralmente não são valiosas. Para vencer os obstáculos são necessárias a humildade, a confiança e a perseverança. 

Se decidirmos cultivar uma atitude perseverante, uma entrega decidida, e uma sobriedade diante das dificuldades, nós veremos que ao término de nosso esforço se encontra a generosa vontade de Deus que nos tem acompanhado desde o início de nossa vida até o fim (Cf. Mt 28,20).

Somos Responsáveis Pelos Irmãos Necessitados 

“Vós mesmos deveis dar-lhes de comer”. Esta é a ordem de Jesus para seus discípulos no evangelho de hoje diante da multidão faminta. O próprio Senhor é o Corpo doado por nós (Mt 26,26), alimento que recebemos e oferecemos a todos. 

Vivemos este paradoxo: “Não somente de pão vive o homem; porém, sem pão ele não pode viver”. Como integrar a necessidade de pão com a experiência de que o pão não sacia outras fomes e a nossa fome mais profunda? A questão tem aplicação pessoal e social, ao mesmo tempo. 

A Palavra de Deus mantém a bipolaridade: pão para o faminto e pão para os que comem e não se saciam. Provamos ou experimentamos tudo e estamos cada dia mais vazios (cf. Is 55,1-3). Dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida, do seu aspecto material. E nessa busca percebemos que quanto mais tivermos, mais quereremos. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. No fim confessamos que tudo que conseguimos materialmente e profissionalmente não satisfaz aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung chegou a escrever e afirmar: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época” (O Homem Moderno à Procura de Uma Alma). 

O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida, o para quê de nossa existência neste mundo. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor. 

Este vazio existencial é o pressuposto onde cabe pronunciar a Palavra de Deus: “Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis vida” (Is 55,3ª). A Palavra de Deus é o verdadeiro alimento para o coração humano. A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente, meditá-la no nosso dedicado silêncio de cada dia e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se a Palavra de Deus já curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma Palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta. Dizia o papa Gregório Magno: “Ler a Bíblia é aprender a conhecer o coração de Deus mediante Suas palavras”. E coração de Deus é um coração cheio de amor misericordioso. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Toda a Bíblia nada mais do que narrar o amor de Deus”. O amor de Deus é a última resposta para todos os “porquês” da vida do homem (cf. Jo 3,16). Tudo o que Deus faz e fala na Bíblia é amor. Deus move o mundo enquanto é amado, isto é, enquanto é objeto de amor e causa final de todas as criaturas. 

“Os discípulos responderam: ‘Só temos aqui cinco pães e dois peixes’”. Em outras palavra esta a quantidade de alimento não é suficiente para alimentar a multidão. A comunidade pouco se valoriza naquilo que é. Não se dá conta de que cinco mais dois é sete, número perfeito, divino; saciedade plena para todos se for visto como dom que se concretiza na partilha. Tudo deve ser tomado e vivido como dom. Onde há partilha não há fome nem miséria. É fome se for conservado somente para si. Precisamos levar nossa insuficiência a Jesus, colocada tudo em suas mãos. 

Por essa razão, a multiplicação dos pães feita por Jesus exige um duplo princípio de leitura: por um lado, a leitura a partir da práxis messiânica de Jesus, o realista Encarnado, que traz o Reino para os famintos de estômago, multiplicando os pães a partir daquilo que o ser humano lhe oferece com generosidade: cinco pães e dois peixes. É uma leitura sem metáfora. Jesus alimenta o povo faminto. Ele se preocupa com o estômago vazio da maioria. A partir desta leitura podemos entender a ordem de Jesus para qualquer dos seus seguidores em qualquer época e lugar: “Vós mesmos deveis dar de comer para a multidão faminta”. Nem que seja a partir do pouco que se tem como cinco pães e dois peixes, mas que saiba dividir para que todos possam viver dignamente como filhos e filhas de Deus. O cristão existe para prolongar a generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para o bem da humanidade. Cada generosidade feita o egoísmo é vencido e esmagado. Cada pequena generosidade a ganância é enterrada e o sorriso fraterno volta a brilhar e a família de Deus nesta terra volta a ser edificada. 

O milagre está na partilha. O problema da fome física e de outras fomes somente pode ser resolvido satisfatoriamente quando nós, homens, aprendemos a partilhar o que temos para com aqueles que não têm nada para sobreviver. O milagre está na partilha, na solidariedade e no amor entranhável. Sem essa solidariedade, sem essa fraternidade, sem comunicação de bens e sem essa comunhão no amor, não é possível a vida e a abundância da vida. Sem o amor a todos os homens, sem o amor e os sentimentos de Cristo, a Eucaristia que celebramos em sua memória careceria de sentido. 

Por outro lado, é a leitura a partir da Eucaristia, pois Jesus realiza o sinal da abundância de pão para os últimos tempos onde não haverá fome nem sede. Dentro desta leitura podemos entender a ação de graças e a benção pelos pães e peixes que são dons de Deus para a humanidade e ao mesmo tempo são frutos do trabalho humano. A ação de graças é o nome próprio da Eucaristia. 

Jesus com todo o que é e representa, é o único que pode satisfazer a fome radical de viver, com plenitude e para sempre. Somente Jesus pode alimentar o amor e a esperança que necessitamos para superar todas as dificuldades. Somente Jesus, com tudo o que é e representa para o cristão, pode saciar nosso insaciável sonho de felicidade. Ele é o Pão descido do céu que contém todo sabor. Este pão que contém todo sabor é que celebramos sacramentalmente na Eucaristia: a certeza de que, em Jesus, Deus nos deu um Pão capaz de saciar nossa fome de vida e nosso desejo de felicidade. 

Uma coisa positiva que podemos aprender dos discípulos é a sua atitude de dar-se conta das necessidades dos que estão ao redor, nesse caso da multidão faminta. É uma boa lição para nosso tempo em que existe, evidentemente, uma tendência ao individualismo. Com frequência passamos indiferentes para os que nos rodeiam sem captar a problemática que podem ter. A frase “problema não é meu” é bastante perigosa para uma convivência mais humana e cristã. Do ponto de vista cristão tal postura é absolutamente insustentável e impensável. 

Também hoje conserva atualidade do mandamento dado por Jesus: “Vós mesmos deveis de comer para a multidão faminta”. Nós que participamos e partilhamos o pão da Eucaristia devemos estar dispostos também a partilhar o pão material.

P. Vitus Gustama, SVD

Domingo 06/08/2023-Transfiguração Do Senhor

TRANSFIGURAÇÃO: MENSAGEM DA ESPERANÇA

Primeira Leitura: Dn 7,9-10.13-14

9Eu continuava olhando até que foram colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do trono, como fogo em brasa. 10Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos. 13Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá.

Segunda Leitura: 2Pd 1,16-19

Caríssimos, 16não foi seguindo fábulas habilmente inventadas que vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim, por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. 17Efetivamente, ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando do seio da esplêndida glória se fez ouvir aquela voz que dizia: “Este é o meu Filho bem-amado, no qual ponho o meu bem-querer”. 18Esta voz, nós a ouvimos, vinda do céu, quando estávamos com ele no monte Santo. 19E assim se nos tornou ainda mais firme a palavra da profecia, que fazeis bem em ter diante dos olhos, como lâmpada que brilha em lugar escuro, até clarear o dia e levantar-se a estrela da manhã em vossos corações.

Evangelho: Mt 17,1-9

Naquele tempo: 1 Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2 E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3 Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4 Então Pedro tomou a palavra e disse: 'Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.' 5 Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: 'Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!' 6 Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7 Jesus se aproximou, tocou neles e disse: 'Levantai-vos, e não tenhais medo.' 8 Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9 Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: 'Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos.'

--------------------------------

O Sentido Da Festa Da Transfiguração De Jesus

Qualquer um de nós pode perguntar: a transfiguração de Jesus não foi tratada no Segundo Domingo da Quaresma? Por que se repete? No Tempo da Quaresma não temos uma festa propriamente dita da Transfiguração. O texto evangélico sobre a Transfiguração no Segundo Domingo da Quaresma é proclamado dentro do contexto do caminho quaresmal de Purificação e Iluminação dos catecúmenos e de toda a comunidade cristã em direção à celebração pascal.

Esta festa era celebrada no século V pelos siro-orientais, de onde passou a outras Igrejas do Oriente. Para os orientais, essa festa, celebrada em 6 de agosto, tem solenidade semelhante à de Pentecostes e da Epifania. Na Igreja franco-romana ela aparece no século X pela primeira vez  e estende-se rapidamente. Foi introduzida para toda a Igreja em 1457 pelo Papa Calixto III (1455-1458), como comemoração grata pela vitória conseguida no ano anterior sobre os turcos em Belgrado cuja notícia chegou em Roma justamente no dia 6 de agosto. 

Sobre o sentido desta festa, na sua Exortação Apostólica, Vita Consecrata, no.15, o Papa João Paulo II escreveu: “O episódio da Transfiguração assinala um momento decisivo no ministério de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no coração dos discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da ressurreição. É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos, a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz. Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz”.

A coleta (oração inicial) faz referência claramente ao evangelho proclamado do dia e ao compromisso da comunidade de escutar a Palavra de Jesus e participar de sua vida.

Mensagens Da Festa A Partir Do Evangelho Proclamado Na Liturgia 

O texto do evangelho fala da transfiguração. Há várias maneiras para uma pessoa transformar-se. A pessoa pode transformar-se com uma ideia positiva e muito feliz, com uma surpresa agradável, a tal ponto de perder a cor, conservando uma face tranquila e quase infantil. A partir da ideia bíblica, a transfiguração tem esse último sentido, em que o divino, fazendo-se ver de modo palpável e feliz, transforma a pessoa de tal modo que ela chega até a perder peso e levitar. Dizem que os santos, que adquirem alto grau de mística, passam por experiência semelhante, de levitação e transfiguração.          

Para nós, os comuns mortais, que ainda não chegamos ao patamar da santidade que se encanta de Deus, a transfiguração tem apenas o sentido da conversão, de mudança de vida, no desejo da santidade.

1. Transfiguração: Uma Mensagem De Ânimo E De Esperança 

A transfiguração de Jesus é a resposta de Deus para os discípulos, desanimados diante do anúncio da paixão e morte de Jesus (cf. Mt 16,21). Por isso, a palavra chave é “Escutai-o”. O Pai fala somente duas vezes dizendo e reiterando a mesma coisa: proclama Jesus como Filho, uma primeira vez após o Batismo (Mt 3,17) e uma segunda vez aqui na transfiguração (Mt 17,5), depois do anúncio de sua morte e ressurreição.  A transfiguração é a confirmação do caminho iniciado no Batismo, antecipação da glória da Páscoa. Ou seja, a Transfiguração é uma Páscoa antecipada. Deus quer mostrar-lhes antecipadamente, ainda que seja só num momento rápido, a glória de Jesus Cristo e a glória futura dos que vivem fielmente segundo a vontade de Deus ainda que tenham que atravessar o caminho de sofrimento. Através da transfiguração de Jesus, Deus quer nos dizer que a vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de colocar a sua vida ao serviço dos irmãos.

Podemos dizer que a transfiguração é o grito de Deus para não ficarmos desanimados na nossa vida, pois a lógica de Deus não nos conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim. Cada um de nós precisa parar da agitação cotidiana para escutar esse grito de Deus.     

A visão do triunfo, não é para afastar da luta, mas para dar ânimo, a fim de que não desistamos da luta no meio do caminho, pois a vitória está nos esperando. Olhemos sempre para a vitória esperada para podermos ficar animados na nossa luta apesar de tanta dificuldade e obstáculos neste caminho rumo à vitória. A mensagem da transfiguração é de otimismo radical e de esperança firme, e não ilusória. Jesus é nosso companheiro de caminhada até a luz final (Jo 14,6). Com ele somos capazes de superar a prova da fé e experimentar a libertação gratificante da auto-renúncia e da cruz na quaresma de nossa vida, no caminho para a Páscoa com Cristo. 

2. Transfiguração E Escuta 

Se o plano de Deus jamais desconhece o fracasso, então devemos saber escutar a Sua Palavra permanentemente. No topo da Montanha ressoa a voz divina para os três apóstolos: “Este é o meu Filho amado. Escutai-O!”. O Pai tem só uma Palavra, que Ele revela plenamente: o Filho. Moisés e Elias não têm mais nada a dizer aos discípulos; somente Jesus, a quem Deus chama de Filho, deve ser ouvido; a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) já são cumpridos em Jesus. Para o momento presente, Deus tem uma nova oferta que apresenta por meio de Jesus: fazer deste mundo um mundo de irmãos onde todos os homens possam viver felizes. Esta possibilidade só é oferecida por meio de Jesus, “e de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém a não ser Jesus sozinho com eles”, e o caminho para realizá-la é através da entrega sem condições, até a morte, se for necessário. Não porque Deus exija sangue, mas porque os responsáveis ​​pelas injustiças e sofrimentos sofridos pela maioria da humanidade vão usar toda a violência de que dispõem para que este mundo de irmãos nunca se torne realidade; e porque essa violência só se supera com o amor levado até ao dom da própria vida, vencendo a tentação de fugir perante as dificuldades ou o fracasso, mantendo a firme confiança em Deus, que fará com que a vida vença a morte. 

O Pai pede, por isso, que escutemos o Filho, a Palavra do Pai, porque escutando-O, nos tornamos filhos como Ele. A semente de nossa glória divina é lançada quando decidirmos verddeiramente “escutá-Lo” e praticarmos a sua Palavra. 

Como fieis, cremos no Deus da Palavra, no Deus que nos fala e fala de nós. Deus nos fala no silêncio. Deus gosta de falar baixo. Se quisermos escutar Deus, prestemos bem atenção e criemos o silêncio. O silêncio do coração é imprescindível para ouvir a voz de Deus.

Muitas vezes preocupados com nossas perguntas feitas para Deus, não escutamos suas respostas. Deus sempre quer falar conosco e sobre nós, de várias maneiras, e em várias experiências e  acontecimentos, mas é preciso ter disposição para escutá-Lo. Deus sempre tem alguma palavra para minha vida, toda vez que eu escutar sua Palavra. Por isso, eu preciso escutar essa Palavra, pois diz a respeito da minha vida com seus problemas. 

Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escutar significa fazer próprio o que se proclama e o que se escuta. Escutar também significa atender, ir assimilando o que se ouve, reconstruir interiormente o conteúdo da mensagem. Deus sempre quer falar conosco e sobre nós, de todas as maneiras. Mas é preciso ter disposição para escutá-Lo. Deus sempre tem alguma palavra para minha vida, para minha família, para meu casamento, para minha profissão, para minhas preocupações, para minha atual situação etc. toda vez que eu escutar sua Palavra. Por isso, eu preciso escutar essa Palavra, pois diz a respeito da minha vida com seus problemas. 

Diante de um mundo e de uma cultura em que triunfam os charlatões, os fofoqueiros, os tagarelas, os mentirosos e fake news, devemos cultivar uma pedagogia da escuta e da palavra como expressão de vida, palavra-testemunha. O grande orador é primeiramente aquele que sabe escutar. A palavra implica naturalmente a escuta.Não há obra maior que não seja fruto de um silêncio que escuta. 

Escutar é uma das atitudes mais cristãs. Somente os que têm a humildade é que são capazes de escutar. O autossuficiente e o orgulhoso não sabem escutar e não querem escutar. A sabedoria consiste em escutar antes de falar, em pensar antes de agir e em observar antes de julgar. 

3. Humanidade Diante Da Divindade 

Quando os discípulos escutam a voz divina anunciando o mistério total do Filho, eles caem com o rosto em terra. Esta é a reação comum de homem fraco e mortal diante da epifania divina ou diante de uma visão apocalíptica (Dn 8,17;10,9-11;At 9,4;Ap 1,17). 

Jesus se aproxima dos discípulos e os toca dizendo-lhes: “Levantai-vos! Não tenhais medo”. “Levantar” é uma linguagem de ressurreição. O Filho do Deus vivo, que dá vida ao morto, levanta seus prostrados discípulos e liberta-os de medo. 

Quantas coisas que nos fazem prostrados na vida. Quantos medos que nos paralisam. Quantos desesperos e preocupações que nos dão medo. É preciso que nos deixemos tocar por Jesus para que possamos nos levantar novamente e continuar nossa vida até a sua plenitude. É preciso que deixemos Deus nos aproximar. É preciso que nos aproximemos de Deus para que Ele possa nos tocar a fim de voltarmos a viver a vida com Deus. O Papa Francisco diz que aquilo que você não consegue resolver falando, você precisa resolver rezando. Aquilo que você não consegue resolver de pé na vida, você tem que resolver de joelho diante. Para que possamos ficar de pé na vida, temos que ter tempo para ficar de joelho diante de Deus na oração e adoração.

4. Transfiguração- Montanha Alta 

A transfiguração acontece em uma alta montanha. A “montanha alta” simboliza o lugar de encontro do céu e da terra, lugar privilegiado para a revelação de Deus e a oração dos homens, recorda igualmente a revelação de Deus no Sinai (cf. Ex 19-20). A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver. 

Por isso, para o homem, subir a montanha significa superar-se a si mesmo, transcender-se, elevar-se um pouco mais além da rotina. É a transcendência que não será conseguida sem atravessar um caminho sinuoso, longo e escuro. A fé é o caminho da renúncia e da morte de nós mesmos para que Deus possa se manifestar através de nós e para que Deus possa nos transformar ou nos transfigurar. Somente com a morte de nós mesmos é que Deus pode anunciar e prometer uma vida nova para nós. Subir até Deus é morrer de nossos projetos pessoais e egoístas, de tantos planos, esquemas e cálculos puramente humanos e pessoais para dar o lugar para os projetos de Deus. Certamente, nesta morte é que Deus manifesta sua glória salvadora e sua eterna misericórdia. 

5. Transfiguração e Nosso Futuro

Ao contemplar esse episódio, na verdade estamos contemplando o nosso destino futuro: no Reino do Pai os justos brilharão também como o sol (Mt 13,43;Dn 12,3). Na carne transfigurada de Jesus de Nazaré estamos contemplando a transfiguração da nossa humanidade. Em Jesus Cristo, a fragilidade de nossa carne receberá a investidura da glória de Deus. São Paulo usa a mesma palavra (transfigurar/ metamorfosear) para descrever a transfiguração realizada em nós pela ação do Espírito do Senhor (cf. 2Cor 3,18), e que é o penhor da nossa ressurreição futura ou da nossa futura vitória. Como se Jesus dissesse aos discípulos e a todos nós: “Não tenha medo das dificuldades, dos desafios e dos sofrimentos, por mais duros que eles sejam. Não desistam! Olhem para trás de tudo isto, e vejam, a vitória está aguardando vocês”. Podemos dizer: quem tem certeza de que o sol vai aparecer, tem coragem de atravessar a noite escura. A noite é apenas uma passagem.         

Mas a glória jamais se realizará sem o abandono à vontade do Pai, como fez Jesus. Esta glória não se confunde com a vangloria do mundo, por isso ela opera pela humildade e mediante a dor de um pelos outros. E no escutar a Palavra de Deus, que temos parte na sua glória escondida.        

“Levante-se e não tenha medo!” é a mensagem forte de Jesus para cada um de nós hoje.

P.Vitus Gustama,svd

terça-feira, 1 de agosto de 2023

05/08/2023- Sábado da XVII Semana Comum

SER CRISTÃO É SER PROFETA E MÁRTIR DE UMA VIDA DE JUSTIÇA SOCIAL E DE IGUALDADE

Sábado da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Lv 25,1.8-17

1 O Senhor falou a Moisés no monte Sinai, dizendo: 8 “Contarás sete semanas de anos, ou seja, sete vezes sete anos, o que dará quarenta e nove anos. 9 Então farás soar a trombeta no décimo dia do sétimo mês. No dia da Expiação fareis soar a trombeta por todo o país. 10 Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação para todos os habitantes do país: será para vós um jubileu. Cada um de vós poderá retornar à sua propriedade e voltar para a sua família. 11 O quinquagésimo ano será para vós um ano de jubileu: não semeareis, nem colhereis o que a terra produzir espontaneamente, nem colhereis as uvas da vinha não podada; 12 pois é um ano do jubileu, sagrado para vós, mas podereis comer o que produziram os campos não cultivados. 13 Nesse ano de jubileu cada um poderá retornar à sua propriedade. 14 Se venderes ao teu conterrâneo, ou dele comprares alguma coisa, que ninguém explore o seu irmão; 15 de acordo com o número de anos decorridos após o jubileu, o teu conterrâneo fixará para ti o preço de compra, e de acordo com os anos de colheita, ele fixará o preço de venda. 16 Quanto maior o número de anos que restarem após o jubileu, tanto maior será o preço da terra; quanto menor o número de anos, tanto menor será o seu preço, pois ele te vende de acordo com o número de colheitas. 17 Não vos leseis uns aos outros entre irmãos, mas temei o vosso Deus. Eu sou o Senhor, vosso Deus”.

Evangelho: Mt 14,1-12

1 Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do governador Herodes. 2 Ele disse a seus servidores: “É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes mira­culosos atuam nele”. 3 De fato, Herodes tinha mandado prender João, amarrá-lo e colocá-lo na prisão, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. 4 Pois João tinha dito a Herodes: “Não te é permitido tê-la como esposa”. 5 Herodes queria matar João, mas tinha medo do povo, que o considerava como profeta. 6 Por ocasião do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante de todos, e agradou tanto a He­ro­des 7 que ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse. 8 Instigada pela mãe, ela disse: “Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista”. 9 O rei ficou triste, mas, por causa do juramento diante dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela. 10 E mandou cortar a cabeça de João, no cárcere. 11 Depois a cabeça foi trazida num prato, entregue à moça e esta a levou a sua mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e o enterraram. Depois foram contar tudo a Jesus.

_____________________

É Preciso Descansar Para Estar Com o Senhor Do Céu e do Universo

“O Senhor falou a Moisés no monte Sinai, dizendo: ´Contarás sete semanas de anos, ou seja, sete vezes sete anos, o que dará quarenta e nove anos. Então farás soar a trombeta no décimo dia do sétimo mês. Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação para todos os habitantes do país: será para vós um jubileu’”. São as primeiras frases da Primeira Leitura do livro de Levítico.

O ano jubilar é celebrado cada cinquenta anos, contando o primeiro e o último, de modo que coincida com o correspondente ana sabático. No início do ano 49, um ano antes do jubileu, as tromebtas percorrem o país anunciando o ano jubilar. Essas trombetas (em hebraico “yobel”: carneiro, chifre de carneiro) dão o nome ao ano jubilar. Esse ano é sanfificado pela libertação que consiste na devolução das propriedades patrimoniais a seu primeiro dono (Lv 25,10). É também um ano de descanso para a terra (não cultivada para deixar descansar). O princípio geral: não se aproveitar das circunstâcias para roubar o irmão. E a norma: não se vendem as terras, e sim vendem-se as colheitas que ficam até o ano jubilar (Lv 25,15-16). Por trás desta norma está a convicção de que a terra pertence a Deus e o homem deve cuidar bem dela. A terra não pode ser vendida, pois Deus a entregou como terra prometida e tem somente o direito de usufruto.

A lei prescrevia cada sete anos um ano sabático, cuja origem não foi outra que a necessidade de deixar de alqueivar uma terra que era bastante pobre: “Durante seis anos, semearás a terra e recolherás o produto. Mas, no sétimo ano, a deixarás repousar em alqueive; os pobres de teu povo comerão o seu produto, e os animais selvagens comerão o resto. Farás o mesmo com a tua vinha e o teu olival. Durante seis dias, farás o teu trabalho, mas no sétimo descansarás, para que descansem o teu boi e o teu jumento, e respirem o filho de tua escrava e o estrangeiro” (Ex 23,10-12). E que se converteu em ocasião de dar a liberdade aos escravos (Ex 21,2-6). 

Esta prescrição foi considerada utópica, pois em seguida a legislação sacerdotal a substituiu pela criação de um ano jubilar (Ex 25,11). 

A trombeta com que se anunciava esse ano particular era um chifre de carneiro, que se chama “yobel”, em hebraico. Daí surgiu a palavra “Jubileu”. A celebração do ano jubilar levava consigo, entre outras coisas, a restituição das terras a seus antigos proprietários, a remissão das dívidas, a libertação de escravos e o repouso da terra. Na Bíblia era tempo jubilar ao final de cada sétimo ano sabático, a saber: depois de sete grupos de sete anos e, portanto, cada cinquenta anos (Lv 25,8ss). Suas características são interessantes, especialmente do ponto de vista social: cada um recupera a propriedade daquilo que alienou; as terras retornam à família, as dívidas são perdoadas, os escravos são libertados e até o campo fica em descanso (sem usá-lo) durante aquele ano. 

O jubileu tinha, então, para os judeus um sentido religioso, de culto a Deus; mas também um caráter social, de uma justiça igualitária, pois as propriedades não são acumuladas em umas poucas mãos, mas todos têm que viver dignamente. 

Por isso, para além deste contexto económico e social, os israelitas começam a manifestar algumas ideias religiosas que têm interesse para o desenvolvimento futuro do ano jubilar. Em primeiro lugar, a concepção segundo a qual a terra pertence a Deus. Esta é a razão fundamental pela qual não pode ser descartada definitivamente. 

A exploração sem limite da terra pode causar dano para o próprio homem. Na falta de água e de comida, de animais, de peixes etc., todos vão entender que o ouro e a prata não podem ser comidos. A terra precisa de respiração e de cuidados. “Esta irmã (Terra) clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou.... Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que ‘geme e sofre as dores do parto´ (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7)” (Papa Francisco: Carta Encíclica Laudato Si n.2). 

Em segundo lugar, a ideia do “resgate”, subjacente às prescrições do jubileu e que exige uma propriedade familiar seja resgatada preferentemente por um parente (o “goel”) para que não se perca o direito à herança.

E por fim, a ideia da remissão, não somente das dívidas, mas também dos pecados. 

Tomando essas três ideias como base, os profetas salvarão a instituição da decadência a fim de o povo eleito voltar a alcançar um futuro escatológico onde as perspectivas tomarão uma densidade mais espiritual. O profeta Isaías tem muito mérito para esta perspectiva escatológica (Is 61,1-3). Então, não será mais necessário tocar a trombeta para anunciar o ano jubilar, pois basta a palavra do profeta que ressoa como trombeta. A palavra “evangelho” nasceu nesse contexto: a boa nova do ano da graça do Senhor. 

O primeiro discurso pronunciado por Jesus ao iniciar sua vida pública será precisamente um comentário do texto de Isaías no qual anuncia o ano jubilar espiritual (Lc 4,21). Jesus Cristo enfoca seu ministério como um verdadeiro ano jubilar. Ele usará seu poder messiânico para perdoar os pecados que escandalizará os fariseus (Mt 9,6). O ministério público de Cristo será, com efeito, uma série ininterrupta de libertações, de curas, de remissões de dívidas e de pecados. Quando sobe ao Pai, confiará este poder aos apóstolos em sua primeira aparição pelo dom do Espirito messiânico (Jo 20,22-23). 

A tradição cristã começou a seguir este costume muito mais tarde. No ano 1300 o Papa Bonifácio VIII proclamou o ano jubilar pela primeira vez. A partir de então tem sido celebrado o jubileu cada cinquenta anos, ao princípio e logo depois, cada vinte e cinco anos. 

O Papa João Paulo II, com sua Carta Apostólica “Tertio Millennio Adveniente” nos convocou em 2000 para um Jubileu por ocasião dos dois mil anos do nascimento de Jesus e o início do terceiro milênio. O Papa, em sua Carta, resumia o que lemos hoje no livro de Levítico sobre a igualdade social que persegue o Jubileu: “Se Deus, em sua providência, tinha entregue a terra aos homens, isso queria significar que a tinha dado a todos. Por isso, as riquezas da criação haviam de ser consideradas como um bem comum da humanidade inteira. Quem possuia estes bens como sua propriedade, era na verdade apenas seu administrador, isto é, um ministro obrigado a operar em nome de Deus, o único proprietário em sentido pleno, sendo vontade de Deus que os bens criados servissem equitativamente a todos. O ano jubilar devia servir precisamente também para o restabelecimento desta justiça social”, escreveu o Papa João Paulo II (n. 13). 

No fundo, um Jubileu é uma homenagem, Dono do tempo e do Cosmos que quer que todos possam viver de seus dons. O culto a Deus vai sempre unido à justiça para com seus filhos, sobretudo os mais débeis ou necessitados. 

Quem Vive Na Mentira É Capaz de Reagir Violentamente Diante Da Verdade Revelada 

Na passagem do Evangelho deste dia fala-se da identidade de Jesus, relacionada à de João Batista. O motivo dessa colocação é sempre o mesmo: para entender Jesus há que entender antes quem é João Batista, pois João Batista é o Precursor de Jesus. O destino de João Batista preanuncia o de Jesus. 

O evangelho nos relatou que a fama de Jesus estava cada vez mais espalhada ao seu redor. Por isso chegou também aos ouvidos de Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista. A presença e a fama de Jesus incomodam a consciência de Herodes: “É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes miraculosos atuam nele”, pensou Herodes. Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista, por instigação de Herodíades, ficou sem a consciência tranquila. 

A partir da reação de Herodes é que se conta o drama da vida de João Batista que denunciou Herodes por ter se casada com Herodíades, ex-mulher de seu irmão, pois era proibido pela Lei (cf. Lv 18,16). 

A adúltera Herodíades não gostou da denúncia de João Batista em nome de seu prazer e interesse pessoal, e esperava momento certo para vingar-se. Quando chegou o momento oportuno ela pediu, através de sua filha, a cabeça de João Batista.

João Batista é o último profeta do Antigo testamento. Ele enfrenta abertamente os governantes da nação para chamá-los à mudança e para exigir um comportamento ético. O deserto, lugar de sua pregação, é símbolo de sua oposição à cidade e ao templo. Ele quer reviver a experiência do êxodo e recordar seu povo que o destino depende completamente da fidelidade a Deus. No entanto, como qualquer profeta, João Batista pagou o preço alto de sua denúncia: a própria vida. Herodes, ainda que tivesse respeito pelo João Batista, se submeteu diante das pressões da adúltera Herodíades que pediu a cabeça de João Batista.

A morte de João Batista antecipa a morte de Jesus como mártir. Ambos são encarcerados injustamente, ambos rubricam com seu sangue a verdade de Deus. Jesus espera o mesmo destino de João Batista. Um profeta autêntico não é somente recusado em sua própria pátria (cf. Mt 13,57), mas também essa recusa termina, muitas vezes, com sua morte. 

A denúncia de João Batista nos mostra que o Evangelho não é neutro. Diante de certos grandes problemas, o Evangelho toma posição com o risco de conduzir os crentes para o martírio pelo fato de defender a verdade, a justiça, a honestidade e assim por diante. 

A figura de João Batista é admirável em sua coerência, na lucidez de sua pregação e de suas denúncias. João Batista é valente e comprometido. Diz a verdade ainda que desagrade. É figura também de tantos cristãos que morreram vitimas da intolerância pelo testemunho que davam contra situações injustas e insuportáveis do ponto de vista da justiça e da honestidade. Os “profetas mudos” prosperam, mas os autênticos terminam pagando tudo com a própria vida.

Toda vez que celebramos o martírio de um discípulo de Cristo tocamos o próprio núcleo de nossa fé. A Igreja de Cristo é a Igreja dos mártires. Mas o que acontece é que estamos tão acostumados com o comodismo. Muitas vezes nos sentimos instalados comodamente no acampamento capitalista ou nas avenidas do hedonismo. Ninguém vai nos perseguir se não vivermos nosso martírio, nosso verdadeiro testemunho dos valores ensinados por Jesus Cristo. A vida iluminada pela verdade ameaça quem está na sombra da desonestidade e da falsidade, e este reage violentamente diante da verdade em nome da defesa dos seus interesses e prazeres. Toda vez que os cristãos se arriscarem para adentrar-se nos territórios obscuros, eles vão pagar o preço com sua própria vida, como João Batista. Toda vez que a Igreja abrir a boca contra a injustiça, a desonestidade, a corrupção, a exploração do ser humano, ela será perseguida. Mas dar a vida é a única maneira de dar vida. Ser verdadeira Igreja de Cristo não dá para parar de sofrer enquanto ela viver seu verdadeiro martírio, seu profundo testemunho de valores. A verdadeira Igreja de Cristo é a Igreja dos mártires, das testemunhas de Cristo. 

Jesus nos diz que devemos ser luz, sal e fermento deste mundo. Ou seja, profetas. Ser cristão é estar disposto a tudo. Profetas são os que interpretam e vivem as realidades deste mundo a partir da perspectiva de Deus e denunciam quando há injustiça ou desonestidade nelas. 

Falar a verdade e viver conforme a verdade, a exemplo de João Batista,  é um belo ato para qualquer cristão. Porém, a verdade tem que ser dita com caridade, pois o objetivo do cristão não é machucar o outro com a verdade e sim salvar outro mostrando a verdade por amor. O cristão deve estar sempre do lado da verdade por amor a Deus e ao próximo 

Geralmente não gostamos de escutar as críticas que nos recordam o lado escuro de nossa vida. Algumas pessoas vivem em função de elogios, mesmo que não tenha verdade nisso. Mas basta alguém criticá-las, elas ficam furiosas. Sempre temos dificuldade para escutar um profeta. Mas mesmo que não gostamos de ouvir o profeta, suas palavras continuam a conter a verdade. Mesmo que eliminemos o profeta, mas suas palavras continuam a ressoar ou a incomodar nossa consciência, como aconteceu com Herodes. Viver na verdade ou de acordo com a verdade, com a justiça, com a desonestidade, etc. é viver na serenidade.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...