sábado, 21 de maio de 2016

25/05/2016




VIVER COMO RESGATADOS DE DEUS SERVINDO O IRMÃO NO AMOR FRATERNO


Quarta-Feira da VIII Semana Comum


Primeira Leitura: 1Pd 1,18-25


Caríssimos, 18 sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como prata ou o ouro, 19 mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito. 20 Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. 21 Por ele é que alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus. 22 Pela obediência à verdade, purificastes as vossas almas, para praticar um amor fraterno sem fingimento. Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor. 23 Nascestes de novo, não de uma semente corruptível, mas incorruptível, mediante a palavra de Deus, viva e permanente. 24 Com efeito, “toda a carne é como erva, e toda a sua glória como a flor da erva; secou-se a erva, cai a sua flor. 25 Mas a palavra do Senhor permanece para sempre”. Ora, esta palavra é a que vos foi anunciada no Evangelho.


Evangelho: Mc 10, 32-45


Naquele tempo, 32 os discípulos estavam a caminho, subindo para Jerusalém. Jesus ia na frente. Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo. Jesus chamou de novo os Doze à parte e começou a dizer-lhes o que estava para acontecer com ele: 33 “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. 34 Vão zombar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo. E depois de três dias ele ressuscitará”. 35 Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir”. 36 Ele perguntou: “Que quereis que eu vos faça?” 37 Eles responderam: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória!” 38 Jesus então lhes disse: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” 39 Eles responderam: “Podemos”. E ele lhes disse: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com batismo com que eu devo ser batizado. 40 Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado”.  41 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João. 42 Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. 43 Mas entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; 44 e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. 45 Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.
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Somos Preciosos Porque Resgatados Pelo Precioso Sangue De Cristo


Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito” (1Pd 1,18-19).


São Pedro na Sua Primeira Carta, de onde tiramos a Primeira Leitura de hoje, quer nos relembrar a seriedade de Deus em tratar a vida humana. Deus não mede o esforço para resgatar o homem mesmo que este se encontre numa situação sem saída. Deus sempre tem saída para tudo, desde que obedeçamos aos seus mandamentos, a exemplo de Cristo. Nenhum homem seria capaz de sacrificar, de propósito, o próprio filho para salvar outras pessoas. Mas Deus é diferente: Ele é capaz de tudo por amor ao homem (cf. Jo 3,16). Ele oferece seu próprio Filho em resgate do homem de um estado de escravidão caracterizado nesta Carta como “a vã conduta de vossos antepassados” ou “a vida fútil herdada de vossos pais”.


Por causa deste resgate, o cristão não pertence mais ao mundo pecaminoso, pois o mundo de Deus se torna sua verdadeira pátria. Aqui na Terra o cristão é um forasteiro. A palavra “forasteiro” em grego é “paroikia” que indica os estrangeiros residentes sem direito de cidadania (cf. Sb 19,10; Sl 118 [119],19).


Consequentemente, devemos tratar e respeitar com seriedade nossa vida e a vida dos outros, porque ela é preciosa demais para ficarmos desesperados diante de algumas dificuldade. O sangue de Cristo é o preço de nossa vida. Trata-se de um preço incalculável. Respeitar a vida e tratar com carinho nossa vida e a vida alheia é uma expressão de nosso temor reverencial ao Deus da vida em quem acreditamos e com quem estaremos em comunhão eternamente. Trata-se de um temor reverencial diante da grandeza de Deus. Nossa vida é avaliada por Deus de acordo com seu justo valor. Essa convicção deve orientar nossa vida diária e nosso comportamento perante a vida. Temos uma grande responsabilidade sobre nossa vida e a vida dos outros. Somos encarregados a cuidar da vida em todos os seus instantes, pois sabemos de seu valor: ela é sagrada e por isso, é preciosa.


Por Pertencer Ao Mundo De Deus Somos Chamados A Viver O Amor Fraterno


“Pela obediência à verdade, purificastes as vossas almas, para praticar um amor fraterno sem fingimento. Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor”. (1Pd 1,22).


No NT a palavra “purificação” deve ser entendida como uma purificação moral e religiosa. Por isso, trata-se de uma acontecimento dentro do ser humano. A purificação neste sentido sempre implica a introdução do ser humano num ambiente divino. Se Deus é santo (1Pd 1,16), então para se aproximar dele o homem deve se purificar. Mas trata-se de uma purificação total. Por isso, se usa o termo “alma”: “Purificastes as vossas almas”. É um termo usado em acepção semítica para indicar o homem todo.


Para que a purificação possa acontecer Deus e o homem devem estar em sintonia. Por um lado, a purificação é considerada um ato do homem, isto é, ele tem que sair do estado impuro para o mundo divino. Mas o primeiro e o principal autor da purificação é o próprio Deus. Sem a misericórdia divina o esforço do homem ficará em vão.


A purificação é uma consequência da obediência à verdade. A “verdade” aqui, como nos escritos joaninos, significa a realidade divina manifestada neste mundo. A verdade é a vontade salvífica de Deus que se revelou em Jesus Cristo e opera na mensagem evangélica.


Essa obediência à verdade deve ser concretizada na vida cotidiana num amor fraterno sem fingimento. É um amor pelos irmãos na fé. O amor fraterno faz parte da fé no Deus de amor (cf. 1Jo 4,8.16). Se pela resgate através do precioso sangue de Cristo o homem se torna membro do mundo divino, logo seus atos cotidianos devem refletir o mundo divino: todos são filhos e filhas preciosos do mesmo Pai do céu. O amor fraterno deve ser meta da vida diariamente de cada cristão e animar sua vida de cristão. Esse amor deve ser sincero, isto é, de coração, sem fingimento. Deus não faz fingimento. Quem está no mundo de Deus não pode nem deve viver o amor fraterno no fingimento.


A vivência no amor fraterno é o fruto da observância da Palavra de Deus. Por pertencer ao mundo de Deus, o cristão vive de acordo com a Palavra de Deus. E a Palavra de Deus é viva e vivificadora. Quem vive de acordo com a Palavra de Deus participa na força vital de Deus. Isto significa que a Palavra de Deus não apenas anuncia a vida, mas também opera a vida.


Jesus Que Está Na Frente de Nossa Caminhada Nos Chama Continuamente a Segui-Lo (Mc 10,32-34)


O texto do evangelho de hoje nos diz que Jesus e os seus discípulos “estavam a caminho”. E a meta desta caminhada é explicitamente mencionada: Jerusalém (11,11). Sem dúvida, Jesus já visitou Jerusalém várias vezes, mas somente desta vez ele a visitou como Messias. E Jesus é descrito como uma pessoa que está marchando determinadamente para seu destino: “Estavam a caminho para subir a Jerusalém” (v.32). Com a descrição de “estar a caminho”, Marcos quer nos dizer que seguir a Jesus significa colocar-se em marcha e andar atrás de Jesus, pois quem anda na frente de Jesus, se perde ou fica desorientado. Trata-se de um caminhar no qual há avanços e retrocessos, clarezas e obscuridades.


O texto também nos relata que Jesus vai à frente dos discípulos (v.32b). O verbo usado aqui por Marcos é  “ir à frente”. Este “ir à frente” servirá para expressar a promessa da ressurreição: Jesus Ressuscitado irá novamente à frente dos discípulos, como guia e pastor, na Galiléia (14,28; 16,7). A imagem de Jesus que “vai à frente” é a imagem do Servo que se entrega. É o cumprimento daquilo que lemos no quarto canto do Servo de Deus: “Se ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias” (Is 53,10). Trata-se de um anúncio de morte, mas cheio de esperança, pois fala-se da ressurreição. 


Podemos ver também neste “ir à frente” de Jesus uma mensagem de esperança e de certeza para quem acredita em Jesus. Para tudo de bom que fazemos e queremos fazer Jesus abre o caminho apesar das “subidas” que nos fazem perdermos fôlego. Mas tendo consciência de que Jesus está andando na nossa frente, ganharemos novas forças ou renovaremos nossas forças para continuar a acompanhar Jesus no seu caminho de salvação. O Jesus na frente nos chama continuamente para caminhar sem desistência e sem desânimo apesar de nossos medos e fraquezas: “Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo” (Mc 10,32b).


2. Ambição Pelo Poder Obscurece o Seguimento e Mata o Espírito de serviço (Mc 10,35-45)


Apesar de Jesus estar na nossa frente não faltam tentações de desviarmos do Seu caminho. Uma dessas tentações é a ambição pelo poder mundano. Uma pessoa com a ambição viciada pelo poder é capaz de recorrer à violência para alcançar seu objetivo. Este tipo de pessoa não se preocupa em ser justo. Ele não suporta competidores nem rivais e tenta eliminá-los de qualquer maneira. Poder é uma palavra mágica que encanta, arruína e corrompe a tantos mortais. Os que são viciados pelo poder manipulam e oprimem, especialmente, os débeis: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”. Quanta atualidade nesta imagem! Quanta tristeza se muitos deles presumem de ser cristãos.


Depois que os discípulos ouviram o terceiro anúncio da Paixão, novamente, como depois do segundo, surge uma discussão entre os discípulos sobre o primeiro posto, sobre a preeminência na comunidade. Para os discípulos esta discussão lhes importava. Eles estão como que cegos para enxergar o caminho trilhado por Jesus e que eles devem trilhar também como discípulos do Senhor: “Mestre, deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória!”.


Seguir a Jesus, fazer-se servo como Jesus se torna difícil quando entra na vida de qualquer cristão a sede pelo primeiro posto, pelo poder como poder, não como serviço entendido como doação de si mesmo aos demais até o sacrifício total da própria vida a exemplo de Jesus.


 “Na sua glória”, glória (doxa) como em 8,38 e 13,26. Os dois irmãos são motivados mais pela ambição egoísta do que pela idéia clara sobre o que eles querem: “Vós não sabeis o que estais pedindo” (38b). Eles não sabem “o que estão pedindo” (v.38), mas “sabem” de que modo a classe dirigente age (v.42). Os dois pensam no prêmio e não no caminho. Além disso, seu pedido egoísta por uma alta posição mostra que eles continuam concentrados mais em sua grandeza pessoal do que no serviço humilde para qual Jesus chamou os Doze (9,33-50).


É uma ocasião apropriada para Jesus transmitir lição sobre discipulado (42-45): “Entre vocês não deverá ser assim...”. Em seguida ele propõe um outro tipo de autoridade, que é o antipoder, mediante imagens e modelos sociais inequívocos para seu tempo e o ambiente antigo: o servo (diakonos: pessoa que serve à mesa) e o escravo (doulos: pessoa na situação mais baixa do que um servidor). Quem “serve à mesa” e, mais ainda, quem é “escravo de todos” tem como preocupação principal o atender às necessidades dos outros. 


Quando a Igreja é fiel a este modelo, a sua vida comunitária reflete a própria vida de Jesus (cf. Fl 2,5-11). Assim, a Igreja se torna uma presença profética no mundo, e tem força para denunciar estruturas injustas e o uso do poder para dominar e tiranizar, da mesma forma que Jesus o fazia naquela sociedade na qual vivia. Por isso, como é triste quando cristãos se esquecerem desta exigência de Jesus na vida familiar ou na comunidade; ou silenciam diante de injustiças na sociedade e compactuam com um poder dominador. A grandeza dos cristãos-discípulos está na capacidade de servir e na dedicação ao serviço. O essencial para qualquer autoridade ou responsável na comunidade cristã é que ele seja mais servo do que chefe: um servidor de Deus e das pessoas para que todos cresçam no amor e na verdade.


Em nosso íntimo, infelizmente, existe um pequeno tirano que quer o poder e prestígio e que se agarra a isso; quer dominar, ser superior, controlar. Teme qualquer crítica, qualquer controle: é o único a ter razão, mandando tudo e em tudo, conservando ciosamente seu poder de quere dominar. “Quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” é o recado permanente de Jesus para todos nós.


“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”, concluiu Jesus no evangelho de hoje. São palavras bem pensadas que manifestam com que consciência Jesus vai ao encontro de seu destino. Este estilo de vida é que dá a Jesus o sentido de sua morte. O texto diz: “Como resgate para muitos”. Jesus se vê como o “Justo Sofredor” cuja morte-martírio se converte em sacrifício de salvação para todos. Jesus me resgatou sacrificando-se. Jesus me salvou oferecendo sua vida como resgate. De que maneira eu posso “resgatar” meu próximo? Sou capaz de me sacrificar para que o próximo possa viver?
 
P. Vitus Gustama,svd

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