domingo, 11 de fevereiro de 2024

13/02/2024-Terçaf Da VI Semana Comum

SEJAMOS BONS FERMENTOS DO SENHOR NA CONVIVÊNCIA COM O PRÓXIMO


Terça-Feira Da VI Semana Comum

Primeira Leitura: Tg 1,12-18

12 Feliz o homem que suporta a provação. Porque, uma vez provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu àqueles que o amam. 13 Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: “É Deus que me está tentando”, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco ele tenta a ninguém. 14 Antes, cada qual é tentado por sua própria concupiscência, que o arrasta e seduz. 15 Em seguida, a concupiscência concebe o pecado e o dá à luz, e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. 16 Meus queridos irmãos, não vos enganeis. 17 Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem sombra de variação. 18 De livre vontade ele nos gerou, pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas.

Evangelho: Mc 8,14-21

Naquele tempo, 14os discípulos tinham se esquecido de levar pães. Tinham consigo na barca apenas um pão. 15Então, Jesus os advertiu: “Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”. 16Os discípulos diziam entre si: “É porque não temos pão”. 17Mas Jesus percebeu e perguntou-lhes: “Por que discutis sobre a falta de pão? Ainda não entendeis e nem compreendeis? Vós tendes o coração endurecido? 18Tendo olhos, não vedes, e tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais 19de quando reparti cinco pães para cinco mil pessoas? Quantos cestos vós recolhestes cheios de pedaços?”Eles responderam: “Doze”. 20Jesus perguntou: E quando reparti sete pães com quatro mil pessoas, quantos cestos vós recolhestes cheios de pedaços? Eles responderam: “Sete”. 21Jesus disse: “E ainda não compreendeis?”

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Quem Está Com Deus Não Pratica o Mal

Novamente São Tiago nos fala sobre as provas ou as tentações da vida. Para São Tiago um cristão, diante das tentações, não tem que jogar culpa para Deus nem a algum fator de fora como fonte de suas tentações. As tentações saem de nós mesmos: “Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: ‘É Deus que me está tentando’, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco ele tenta a ninguém. Antes, cada qual é tentado por sua própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida, a concupiscência concebe o pecado e o dá à luz, e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”, assim lemos na Primeira Leitura. Trata-se de uma analise psicológica e religiosa de nossa debilidade humana. 

De Deus somente nos vem dons e força. Deus é Doador somente de bens e não de males, é Gerador de vida e não de morte. Deus não coloca ninguém em situação de pecar. Deus somente sabe ajudar e nos destinou a ser “as primícias de suas criaturas”.

Para São Tiago Deus não é responsável da tentação para o pecado, porque Deus, por sua essência, não somente está livre de toda tentação, mas que é totalmente bom. Deus é tão bom que não pode querer algo mau. Deus é tão amor que não pode existir nele o ódio. Ele é a causa de todo o bom, o Senhor é Criador do bem. Portanto, o Deus santo, o Deus do bem não pode ser a causa da tentação ao mal. Consequentemente, quem ama a Deus, quem acredita verdadeiramente nele é incapaz de praticar o mal.

Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco ele tenta a ninguém”, escreveu São Tiago. Sentir tentação é normal. Consentir tentação não é cristão. Somos nós mesmos que nos tentamos, porque somos débeis, porque não sabemos nos defender das astúcias do mal e fazemos caso de nossas apetências: o orgulho, a avareza, a sensualidade. Às vezes com as ideias claras de saber por onde teremos que ir, mas com poucas forças e a tentação constante de fazer o mais fácil. É preciso nos esforçarmos sempre, isto é, usar toda nossa força com a ajuda da graça de Deus. Ao ser criados por Deus, todos nós somos bons.

Todos os dias no Pai-Nosso pedimos a Deus: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Esta força de Deus é que fará possível que se cumpra seu plano sobre nós: “Que sejamos como as primícias de suas criaturas”. E que não somente nos salvamos, mas que ajudemos os outros a seguirem o caminho que Deus quer. Deus vai nos educando através de nossos fraquezas e fracassos ao longo de nossa vida. Quem supera a prova “receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu àqueles que o amam”.

Deus quer que sejamos os melhores frutos que o Evangelho gerou. Assim unidos a Cristo, seremos as primícias de suas criaturas. Sem Cristo nada podemos produzir o que é bom (Cf. Jo 15,5).

Certamente somos frágeis e inclinados ao mal; no entanto, não podemos nos esconder atrás dessa fraqueza para justificar nossas ações ruins; porque Deus nos deu o seu Espírito de modo que em tudo podemos sair mais do que vitoriosos. Se muitas vezes a tentação gera pecado e o pecado é a morte em nós, é porque não sabemos como orar e pedir a Deus que nos conceda a sabedoria necessária para sempre ser fieis. A vigilância e a prudência devem ser uma parte ativa de nossa vida, de modo que não nos deixemos surpreender, superar ou vencer pelo pecado.

Sejamos Fermentos Da Bondade

A partir de um episódio de pouca importância, isto é, o esquecimento de os discípulos levarem pães suficientes no barco, Jesus aproveita a ocasião para dar uma lição sobre o fermento que eles devem evitar. “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes”.

O fermento é um elemento pequeno, simples, humilde, mas que é capaz de fermentar para o bem ou para o mal toda a massa de farinha de trigo. Ele trabalha silenciosamente e imperceptível, mas o resultado é bem notável.

No AT a festa da Páscoa implicava, entre outras coisas, o rito de comer pães não fermentados. O fermento era considerado como sinal e causa de corrupção. A Páscoa era a festa da novidade, da renúncia ao velho, da busca de um Deus que se revela no novo. O NT aprofunda este sentido da novidade e vê em Jesus o homem novo diante do homem velho (1Cor 15,20-23; Rm 6,1-11). Assim fica patente como o fermento se põe em relação com a maldade e a bondade (cf. 1Cor 5,7-8).

Na literatura judeu-helenista a metáfora do fermento se aplicava freqüentemente não a qualquer “corrupção” moral e sim muito concretamente ao orgulho/à arrogância, à soberba, à hipocrisia. Na passagem paralela o evangelista Lucas acrescenta expressamente: “Acautelai-vos do fermento, isto é, da hipocrisia dos fariseus” (Lc 12,1).

Jesus alerta, então, a todos os seus seguidores sobre o perigo do orgulho e da soberba. O orgulhoso/arrogante não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro de atenção e a norma para o resto. O orgulhoso tem todos os vícios como o egoísmo, a injustiça, a ingratidão, a imoralidade, a hipocrisia. Normalmente o orgulho encontra o abrigo nas pessoas desequilibradas ou de pouca personalidade. A arrogância é uma forma de não aceitar as próprias fraquezas e defeitos.

O orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma. Ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. O orgulhoso gosta de desprezar, maltratar e colocar os outros na parede. Seus atos não precisam respeitar moral nenhuma, mas impõe aos outros normas morais e éticas.

Hipocrisia é um fermento mau da qual o cristão deve se afastar. Um hipócrita gosta de simular virtudes, sentimentos nobres e boas qualidades que não existem nele, com o intuito de conquistar a estima dos outros e obter louvores. Ele julga seus atos a partir da aprovação dos outros e não a partir do valor moral e ético. Ele é tão habilidoso em camuflar-se a ponto de nós o admirarmos. O hipócrita não tem consciência de que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom e sim em ser bom. “Foge por um instante do homem irado, mas foge sempre do hipócrita”, dizia Confúcio, sábio chinês.

É preciso que estejamos conscientes de que somos criaturas dependentes da graça de Deus para viver e conviver em harmonia com os demais, com a natureza e com o próprio Criador. Por isso, são Paulo diz: “Eu sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). A graça é a razão principal de nossa alegria e de nossa coragem: “Basta-te a minha graça”, responde o Senhor quando são Paulo se queixa do aguilhão em sua carne (2Cor 12,9).

Há fermentos e fermentos. O bom fermento faz crescer a massa e a converte em pão, alimento básico. Na época de Jesus era difícil entender a vida diária sem o pão feito com trigo ou com cereais. Para fazer o pão é necessário o fermento. Uma pequena quantidade de fermento é suficiente para transformar uma quantidade maior de farinha de trigo. Mas existem outros fermentos, capazes de estragar a massa, de empobrecê-la.

O bom fermento transforma a massa de trigo em pão saboroso. Mas o mau fermento estraga a massa e o pão já não será fonte de vida, mas será fonte de enfermidade e de morte. Um fermento bom ou mau dentro de uma comunidade pode enriquecê-la ou destruí-la. Jesus quer que todos os seus seguidores evitem o fermento dos fariseus e de Herodes isto é, o orgulho/arrogância, a soberba, a hipocrisia.

Estes fermentos têm uma força suficiente para destruir uma comunidade por dentro. Uma atitude interior de vaidade, de hipocrisia e do legalismo (como os fariseus), de rancor, de egoísmo, de arrogância, de superficialidade interesseira e de sensualismo (como Herodes), pode destruir nossa própria vida e a vida de uma comunidade.

Mas quando dentro de nós e de uma comunidade há fé e amor fraterno tudo se transforma em fermento bom. Nossos atos visíveis têm sua raiz em nossa mentalidade e em nosso coração. O coração é de cada um de nós, mas o nosso rosto é dos outros, isto é, aquilo que tem no nosso coração passa a ser visível no nosso rosto e no nosso comportamento. Por isso, São Paulo nos dá o seguinte conselho: “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e de verdade” (1Cor 5,6-8).

O fermento bom transforma a massa de trigo em pão saboroso, alimento básico para o ser humano. O fermento mau/ruim estraga a massa de trigo e o pão se torna fonte de enfermidade e de morte. Que tipo de fermento sou eu na minha comunidade, no meu grupo ou na minha família? O que tem na sua mão diante da “massa” da comunidade: fermento bom ou fermento mau/ruim? “O espírito se enriquece com aquilo que recebe; o coração com aquilo que dá” (Victor Hugo).

Quando dentro de nós, no nosso coração há fé e amor, tudo se constrói e tudo se leva à plenitude, à salvação. O amor nos torna mais simples. A simplicidade é o contrário do narcisismo, do exibicionismo, da hipocrisia, da pretensão, da autossuficiência, da duplicidade, da complexidade. A simplicidade é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, verdade contra pretensão.  É nisso que a simplicidade é uma virtude para ser conquistada.

P. Vitus Gustama,svd

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