quinta-feira, 9 de maio de 2013

ORAÇÃO NOS APROXIMA DE DEUS: A DISTÂNCIA É ABOLIDA

Sábado da VI Semana da Páscoa
11 de Maio de 2013
 
Texto de Leitura: Jo 16, 23-28


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 23b“Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. 24 Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa. 25 Disse-vos estas coisas em linguagem figurativa. Vem a hora em que não vos falarei mais em figuras, mas claramente vos falarei do Pai. 26Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que vou pedir ao Pai por vós, 27pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e acreditastes que eu vim da parte de Deus. 28Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.
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Continuamos a acompanhar o discurso de despedida de Jesus de seus discípulos segundo o quarto Evangelho/Evangelho de João (Jo 13-17).


O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte expressão: “Em verdade, em verdade vos digo...”. Toda vez que Jesus quer falar algo importante, ele usa essa fórmula solene. Hoje ele fala sobre a importância de fazer a oração com fé, isto é, fazê-la em nome de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. Percebemos algo importante aqui que a oração é a fonte de gozo, de expansão, e de equilíbrio: “pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. Orar/rezar é estar na contemplação, no repouso em Deus. Estar na oração é estar no mundo de Deus, tão próximo de nós na oração. Cada um precisa fazer isso permanentemente. É impossível experimentar o mundo divino na oração no lugar dos outros; cada um há que experimentar esse mundo por si mesmo.


“Pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. A oração é fonte de gozo, fonte de expansão, fonte de equilíbrio. Rezar é repousar em Deus. Na oração nós nos aproximamos do mundo divino para iluminar nosso mundo de cada dia. É preciso orarmos/ rezarmos permanentemente para que nossa alegria seja completa e permanente. Até agora Jesus nos indica o caminho para chegar à nossa alegria plena: através do amor fraterno (cf. Jo 15,9-11) e da oração (Jo 16,24).


Na oração não há distância entre nós e Deus. A distância é abolida. Na oração, entre o mundo invisível e o mundo visível não há muros de separação. Na oração há uma comunicação direta entre quem reza e Deus. Da terra sobem sem cessar orações de amor e de fé. E do céu descem sem cessar graças e palavras divinas de amor. Na oração nossa fé no amor de Deus por nós aumenta, pois mesmo que façamos nossos pedidos a Deus erradamente, Deus sempre dá algo corretamente pela nossa salvação. Deus atende aquilo que nos salva.


Orar ou rezar é como entrar na esfera de Deus. De um Deus que quer nossa salvação, pois já nos ama antes de nos dirigirmos a Ele, como quando tomamos o sol que já estava brilhando. Ao entrarmos em sintonia com Deus, por meio de Cristo e seu Espírito, nossa oração coincide com a vontade salvadora de Deus e nesse momento nossa oração já é eficaz.


“Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará”. Na oração entramos nas profundezas de Deus e nos deixamos envolver pelo mistério da Santíssima Trindade. Na fé cristã a oração é sempre trinitária, pois se dirige ao Pai no Espírito através do Filho. É do Pai que vem o dom pelo Filho no Espírito Santo. A oração é o momento e o acontecimento trinitário.


Jesus veio do mundo divino/celeste onde reina o amor que nos envolve inteiramente: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.  É o mundo em que as relações entre as Pessoas (Santíssima Trindade) são totalmente satisfatórias, profundas e perfeitas. É o mundo onde o amor é rei e faz todos felizes. Jesus veio para nos revelar quem é nosso Deus? Deus é Pai, Deus é amor, Deus nos ama.


Portanto, para que nossa alegria seja completa e nossa felicidade seja plena temos que aprender a amar e a orar permanentemente. Amamos os outros para que nos tornemos divinos. E “só se ama verdadeiramente o próximo quando se ama a Deus no próximo, seja porque Deus já vive nele, seja para que Deus viva nele. Isto é amor” (Santo Agostinho: Serm. 336,1,1). Oramos para que estejamos na esfera divina.


P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 7 de maio de 2013

TRISTEZA SERÁ TRANSFORMADA EM ALEGRIA NA COMPANHIA DO SENHOR
 
Sexta-feira da VI Semana da Páscoa
10 de Maio de 2013
 
Texto de Leitura: Jo 16,20-23

 
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:  20“Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. 21A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo. 22Também vós agora sentis tristeza, mas eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. 23aNaquele dia, não me perguntareis mais nada”.

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O texto do evangelho de hoje faz parte do conjunto do discurso de despedida de Jesus no evangelho de João (Jo 13-17). E o texto do evangelho de hoje nos fala da vida como ela é. A dor e o sofrimento fazem parte de nossa vida. Além disso, eles nos fazem crescer. Eles fazem parte de ingredientes para saborear a vida na sua plenitude, como cada rosa tem seus espinhos, mas os espinhos não tiram a beleza de uma rosa. Todo sofrimento por amor nos faz crescer na nossa maturidade.


Jesus anuncia para os discípulos sua morte iminente como uma partida para o Pai (Jo 16,5). Consequentemente, os discípulos ficarão tristes por causa da ausência física de Jesus. Mas Jesus afirma que a tristeza dos discípulos é apenas uma passagem. Ele evoca a imagem de uma mulher parturiente: “A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo”. Na Bíblia as dores do parto caracterizam um “castigo” terrível (Gn 3,16; Jr 4,31; 6,24; 13,21). No entanto, são as únicas dores que têm um sentido porque trazem uma nova vida ao mundo. Para os discípulos os sofrimentos são de caráter passageiro, pois sofrem em nome de Jesus que é a vida de suas vidas (Jo 14,6; 11,25), como uma mãe parturiente que sofre em nome de uma vida que está para vir ao mundo. Trata-se, paradoxalmente, de um sofrimento que tem sabor de alegria.


Para quem está com o Senhor os sofrimentos desta vida não são sofrimentos de agonia e sim são sofrimentos de parto que conduzem à vida. Com o Senhor e no Senhor todo sofrimento é fecundo. Com o Senhor cada sofrimento faz nascer uma nova visão sobre a vida cada vez maior e vasta. Se o coração se alegra, se alegra todo o homem desde sua raiz mais profunda.


E Jesus promete aos discípulos: “Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria”. Trata-se da alegria que nunca se acaba, da alegria eterna. É a promessa daquele que venceu a morte. As tristezas de cada dia podem acontecer, mas nada nem ninguém possa nos tirar do caminho da Vida. Nossa alegria nasce da serena certeza de que somos queridos do Senhor infinitamente, amados em todas as nossas limitações e fraquezas. É a alegria de saber que nossa vida tem sentido e tem futuro. Por isso, a falta de alegria profunda, no fundo, é sinal da falta de fé, sinal da falta de profundidade na vida de fé. Um cristão triste é, verdadeiramente, um triste cristão.


De início, o sofrimento nos parece sempre grande demais. Porém, o sentido de qualquer sofrimento é levar-nos ao nosso limite para nos fazer descobrir novas forças.   Aprendamos da mulher-mãe da qual fala o evangelho de hoje. Nela concorrem sucessivamente tristeza-dor e triunfante alegria, porque o dom da maternidade é muito grande. Assim também nós, filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Cristo, caminharemos da provação-sofrimento-tristeza para a alegria-consolo, fecundidade do gozo no Espírito de Deus. A força de Deus é tal que é capaz de nos encher de serenidade e confiança, enquanto a provação, ao contrário, tenta nos impor um sentimento de fracasso e o desejo de perecer.


Tenhamos confiança; o Senhor sempre está conosco. O Senhor quer que através de cada um de nós surja uma nova humanidade onde haja menos dor, menos pobreza, menos tristeza, menos angústia, menos exploração dos menos favorecidos, menos injustiças sociais, menos vícios que minem a saúde das pessoas e a paz familiar. O Senhor continua nos enviando para que possamos gerar uma autêntica alegria cristã. Mas temos que estar conscientes de que para gerar um homem novo e renovado nos custará grandes sofrimentos, perseguições e incompreensões. Na vida o que é valioso custa muito. Não há nada que seja valioso que seja dado de graça. Ninguém cresce sem aprender a morrer de muitas coisas na vida. Mas o Senhor quer que sejamos fortes, valentes, seguros e que confiemos n’Ele e caminhemos atrás de suas pegadas. E quem crê em Jesus Cristo deve ser o primeiro em trabalhar pelo bem de todos.


Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” é a Palavra do Senhor hoje para todos nós. para isso, temos que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo que se resumem no amor fraterno, pois quem ama o próximo, não vai fazer mal contra ele.


Pela comunhão, Cristo morto e ressuscitado se faz nossa força para passar triunfalmente pelo sofrimento que encontramos na vida.


Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DEUS ESTÁ PRESENTE NA NOSSA VIDA COTIDIANA


Quinta-feira da VI Semana da Páscoa
09 de Maio de 2013

Texto de Leitura: João 16, 16-20

 
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 16“Pouco tempo ainda, e já não me vereis. E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. 17 Alguns dos seus discípulos disseram então entre si: “O que significa o que ele nos está dizendo: ‘Pouco tempo, e não me vereis, e outra vez pouco tempo, e me vereis de novo’, e: ‘Eu vou para junto do Pai? ’”. 18 Diziam, pois: “O que significa este pouco tempo? Não entendemos o que ele quer dizer”. 19 Jesus compreendeu que eles queriam interrogá-lo; então disse-lhes: “Estais discutindo entre vós porque eu disse: ‘Pouco tempo e já não me vereis, e outra vez pouco tempo e me vereis?’ 20 Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”.

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O texto do evangelho lido neste dia pertence ao conjunto do discurso de despedida de Jesus no evangelho de João (Jo 13-17). Ao ter consciência de sua iminente partida deste mundo (morte) Jesus dá alguns conselhos para seus discípulos que vão continuar a missão de Jesus como seus enviados ou missionários neste mundo (Jo 20,21).


No texto de hoje Jesus quer transmitir aos discípulos algumas certezas para a caminhada neste mundo. Em primeiro lugar, Jesus afirma conscientemente a certeza do término de sua vida terrena eminentemente. Cada história tem seu início como também tem seu término. Assim também a vida de Jesus na terra. A vida na história tem seu começo, também tem seu fim. Para cada ser humano tem seu nascimento, também tem sua morte (cf. Eclesiastes 3,1-8). A idade sempre aumenta em cada segundo, pois o tempo não pára. A idade sempre aumenta e nunca diminui, mas pode também terminar em qualquer segundo. Tudo é para frente. Não há parada, pois a vida nos empurra por dentro. Estamos sempre em permanente viagem ou caminhada, mesmo que estejamos dormindo. Até as palavras ditas passam no tempo. Cada um vai criar seu caminho e sua própria história neste mundo. E o fim depende das opções feitas entre dois extremos: entre o início e o fim. A maneira como eu vivo nesses dois extremos vai determinar de que modo vou terminar minha história.


Jesus não somente fala da certeza do término de sua vida terrena, mas também da certeza de sua glorificação ou de sua ressurreição. Por isso, ele afirma: “Eu vou para junto do Pai”. O Deus revelado por Jesus em quem acreditamos é o Deus dos vivos (cf. Mt 22,31-32).


Por que Jesus tem tanta certeza da comunhão plena com o Pai? Porque a vida de Jesus é vivida de acordo com o Plano ou a vontade de Deus. E a vontade de Deus se resume no amor: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A partir de Deus o mundo é governado por amor e no amor. A única lei que rege a vida de qualquer cristão é a lei do amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O amor é o único meio capaz de convencer e converter até os ateus. Nada compromete tanto como o amor, e ninguém é tão livre como aquele que ama.


A certeza da comunhão plena com o Pai por ter vivido uma vida de acordo com a lei do amor faz com que Jesus tenha outra certeza: a sua nova presença no meio dos seus discípulos. Por isso, ele afirma: “E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. O amor possibilita uma presença eterna mesmo que aquele que é amado não esteja presente fisicamente. O amor é eterno, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), mas as caricaturas do amor não duram. Por causa desse amor eterno é que Jesus nos garante: “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”. A fé não nos faz contornarmos nossa tristeza. A fé nos dá forças para atravessar nossa tristeza com a certeza de que Deus nos ama e nós amamos a Deus e cremos no Seu amor. O encontro do meu amor por Deus e do amor de Deus por mim resulta numa força tremenda capaz de superar aquilo que humanamente é impossível. “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”, garante-nos o Senhor.


Vossa tristeza se transformará em alegria”. Os discípulos experimentaram a inquietude. A mesma inquietude dos primeiros discípulos, que se expressa profundamente nas palavras de Jesus (Jo 16,16) concentra ou resume a tensão de nossas inquietudes de fé, de busca de Deus em nossa vida cotidiana. Como os cristãos do primeiro século, necessitamos experimentar a presença do Senhor em meio de nós para reforçar nossa fé, esperança e caridade. Sem perceber podemos experimentar Deus em toda a beleza, em todo o gesto de amor, no bem praticado, no perdão dado, na pessoa que nos ajuda e nos anima, no coração que sabe amar e perdoar, no palpitar intacto de cada novo ser, na vida que não termina com a morte. Afinal, em tudo que é a expressão do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Deus nos toca em cada gesto de amor e tocamos ou experimentamos o próprio Deus em cada gesto de amor que praticamos. “Experimentar Deus não é pensar sobre Deus. É sentir Deus a partir do coração puro e da mente sincera. Experimentar Deus é tirar o mistério do universo do anonimato e conferir-lhe um nome, o de nossa reverência e de nosso afeto” (Leonardo Boff).

 
P.Vitus Gustama, SVD
O ESPÍRITO DA VERDADE NOS FAZ CONHECER A PESSOA DE JESUS PROFUNDAMENTE

Quarta-feira da VI Semana da Páscoa
08 de Maio de 2013
 
Texto de Leitura: Jo 16,12-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.

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 Continuamos ainda no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).  E no evangelho lido neste dia Jesus disse aos discípulos: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”.

Na filosofia conhecemos a verdade lógica e a verdade ontológica ou transcendental. A verdade lógica se define como conformidade da inteligência com seu objeto (adaequatio intellectus ad rem). A verdade ontológica ou transcendental se define como conformidade da coisa com a inteligência (adaequatio rei ad intellectum). A verdade lógica é uma propriedade da inteligência que conhece. Enquanto que a verdade ontológica é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal. Uma banana é conhecida como uma banana. Se alguém estiver com uma banana na mão, ele não vai dizer que é uma manga, pois uma manga tem seu próprio tipo como manga.
 
Para os hebreus a verdade é o termo que designa a fidelidade e a confiança em alguém. A verdade para o mundo da Bíblia é uma relação interpessoal que se experimenta ao longo de uma história. O contrário da verdade é a ruptura de um vínculo de confiança que perdurava no tempo.

O texto do evangelho de hoje identifica Jesus com a verdade. Por isso, a verdade não é um conceito nem uma categoria e sim uma pessoa. Jesus é a própria Verdade (Jo 14,6), ou a Palavra de Deus (Jo 1,1). E o Espírito Santo é o Espírito de Cristo que Cristo envia do Pai, e por isso, é o Espírito da Verdade. Somente os que aceitarem o Espírito da Verdade é que poderão compreender plenamente a verdade e o sentido da vida.

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”, disse Jesus. A verdade plena é a compreensão mais profunda de Jesus e de sua mensagem. É pleno no sentido mais profundo. Através da experiência diária sabemos que o conhecimento de uma pessoa não acontece uma vez por todas. Vamos conhecendo a pessoa ao longo de nossa vida. Conforme o evangelho de hoje, o Espírito da Verdade nos facilita a alcançarmos esse conhecimento gradualmente: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,12-13). O Espírito da Verdade não ensinará novas verdades e sim nos conduzirá ao pleno conhecimento da Verdade. Ele nos recorda tudo o que o Pai revelou uma vez por todas em Jesus Cristo, que é sua Palavra.

“Até as coisas futuras (o Espírito da Verdade) vos anunciará”. “Anunciar as coisas futuras” significa fazer entender, para as gerações vindouras, o significado de tudo que Jesus fez e ensinou. A partir do texto do Evangelho deste dia, a melhor preparação cristã para o porvir não é uma previsão exata do futuro e sim um conhecimento profundo do que Jesus significa para cada época. Há muito chão inexplorado na verdade de Jesus, isto é, em sua pessoa, que somente pode ser conhecida (a pessoa de Jesus) na medida em que a experiência coloca a comunidade e cada cristão diante de novos fatos ou circunstâncias. Para isso, os cristãos devem estar abertos à vida e à história e à voz do Espírito Santo simultaneamente, pois somente o Espírito da Verdade é capaz de tirar o sentido de cada fato ou experiência. O Espírito Santo possibilita um maior conhecimento do que Jesus significa para cada época: seus enormes possibilidades de vida, de força transformadora para nosso mundo. Principalmente possibilita para o maior entendimento o fascinante, maravilhoso e surpreendente Deus de Jesus que ama o mundo apaixonadamente sem limitar as condições (Jo 3,16). Ele ama o mundo porque quer salvá-lo.

O Espírito da Verdade é o dom de Deus. É preciso que estejamos abertos diante dele e precisamos pedir sua presença na nossa vida diária para entender o sentido da vida e seus acontecimentos.
 

P. Vitus Gustama,svd
APRENDER A CAMINHAR COM AS PRÓPRIAS PERNAS, MAS SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO
 
Terça-feira da VI Semana da Páscoa
07 de Maio de 2013
 
Texto de Leitura: Jo 16,5-11

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações. 7No entanto, eu vos digo a verdade: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei. 8E quando vier, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: 9o pecado, porque não acreditaram em mim; 10a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; 11e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.

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O texto do evangelho de hoje faz parte do discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17).


“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações”, disse Jesus no evangelho deste dia.


Jesus anuncia aos discípulos a sua morte iminente (partida) que provoca uma reação negativa nos discípulos: tristeza (Jo 16,6) e perturbação (Jo 14,1). Mas esta partida (morte) traz, ao mesmo tempo, conseqüências positivas: a vinda do Paráclito (Jo 16,7) e a reunião definitiva (Jo 14,2-3).


Neste texto do evangelho Jesus afirma que a sua morte é uma partida para Aquele que o enviou. Este retorno Àquele que o enviou mostra que a causa pela qual Jesus lutava e vivia era a de Deus que é a salvação do mundo (Jo 3,16). Por isso, sua volta para Deus é para ser glorificado. A morte, para Jesus, é o momento da glorificação. É a “hora” de Jesus (cf. Jo 2,4; 12,23).


Os discípulos continuam sem compreender a morte como ida ao Pai. Não pedem explicações a Jesus, mas se sentem tristes ao pensar na separação que eles interpretam como desamparo (Jo 14,18). Para eles sem Jesus na sua presença física eles se sentem indefesos no mundo e diante do mundo.


Para Jesus a presença e a ajuda do Espírito farão muito melhor para os discípulos do que sua presença física, pois Jesus, na sua presença física, não pode estar com os discípulos em qualquer lugar. Além disso, enquanto se apoiarem na presença física de Jesus, os discípulos não aprenderão a tomar sua plena responsabilidade nem terão a autonomia em cumprir sua missão como discípulos. É preciso aprender a andar com as próprias pernas para saber até onde elas têm capacidade de andar e pensar com os próprios pensamentos para saber até onde tem que pedir a ajuda. É preciso se deixar impulsionar pelo Espírito, pois somente o Espírito de Deus pode transformar qualquer um em nova criatura. A ausência física de Jesus possibilita os discípulos a atuarem por si mesmos sob o impulso do Espírito. A ausência física de Jesus faz os discípulos crescerem na maturidade no seu seguimento. Por isso, Jesus disse aos discípulos: “É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei”.


Quando vier o Defensor, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.


O papel do Paráclito (o Defensor) é convencer o mundo no sentido de demonstrar, de provar, de culpar e de condenar. O Paraclito (o Espírito) executará a sentença de Deus contra o mundo ateu. Para João o juízo “final” não acontecerá nos últimos dias, mas já agora pelo fato de que a decisão escatológica já se concretizou na cruz e na ressurreição de Jesus. O Espírito convencerá o mundo sobre o pecado que consiste na incredulidade e no fato de fechar-se ao amor do Criador (Jo 3,16) manifestado em Jesus Cristo.


O sistema injusto condena o justo como criminoso. O sistema injusto se faz juiz contra os justos e honestos. É a inversão de valores em nome do interesse e das vantagens individuais. Mas o Espírito vai reabrir o processo para pronunciar a sentença contrária. Os que se fizeram juízes serão os culpados e culpáveis. E o condenado pelo sistema encontrará a verdade em Deus e o próprio Deus que não pode ser subornado será o ponto de referência diante do qual cada um se condena. Diante da verdade a própria mentira se condena. Deus se constitui em juiz e inverte o juízo dado pelo mundo.


O “mundo” neste texto se designa ao círculo dirigente que condenou Jesus; o mundo no sentido das forças sociais, históricas e econômicas opostas ao plano divino. Trata-se da personificação das forças malignas da história: a injustiça exercida sobre os inocentes, a opressão dos pobres, a tirania dos sistemas totalitários. Jesus declara aos discípulos que o Espírito de Deus realizará este juízo da história no qual brilhará a justiça e a bondade divinas a favor dos seus. O mundo prefere suas trevas de pecado à luz poderosa da bondade e da verdade divinas.  Seu pecado consiste em impedir, reprimir ou suprimir a vida impedindo a realização do projeto criador (Jo 1,10), e esse pecado alcançou seu ápice na recusa de Jesus (Jo 15,22). O Espírito mostrará aos discípulos a justiça de Deus e que o mundo é o réu de seu pecado, de ter recusado a presença de Deus em Jesus.


Portanto, qualquer cristão não pode abandonar uma vida correta e justa em nome de qualquer pessoa ou de qualquer valor material. O Espírito suscita homens particularmente sensíveis aos valores autênticos e a Eucaristia os capacita para comprometer-se efetivamente na contestação dos pseudo-valores. O homem animado pelo Espírito não pode tolerar compactuar com a maldade nem em nome dum beneficio econômico nem em nome de uma posição social. A justiça humana pode desviar a verdade em nome de interesses pessoais, mas ainda resta a justiça divina diante da qual a verdade, a justiça, a honestidade e a lealdade estarão em destaque. Por isso, “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis habitarão com Ele no amor” (Sabedoria 3,1.9).

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 4 de maio de 2013

JESUS, NO SEU SANTO ESPÍRITO, NÃO NOS ABANDONA NAS NOSSAS PROVAÇÕES
 
Segunda-feira da VI Semana da Páscoa
06 de Maio de 2013
 
Texto de leitura: Jo 15,26-16,4

 
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15,26“Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. 27E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o começo. 16,1 Eu vos disse estas coisas para que a vossa fé não seja abalada. 2 Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. 3 Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”.
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O evangelho de hoje pertence ao conjunto do discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17).


No texto do evangelho de hoje Jesus alerta aos discípulos e a todos os cristãos que a perseguição faz parte do ser do cristão. Se o mundo opôs-se a Jesus Cristo, logo os cristãos experimentarão a mesma oposição. O mundo perseguirá os cristãos quando seus interesses forem afetados ou denunciados pelos cristãos. Até para fazer o bem o cristão é perseguido. Tempo da perseguição é o tempo oportuno de testemunho. Tempo de provação e de perseguição é o tempo de expansão. O cristão é chamado a ser mártir no sentido pleno da palavra e para espalhar o amor. viver no amor é viver em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Mas sem dúvida, os que fazem parte de pessoas de boa vontade aceitarão o anúncio cristão cuja essência é o amor fraterno cujas expressões são a justiça, a honestidade, a solidariedade, a compaixão, a igualdade e assim por diante. Morrer por causa da honestidade, da justiça, da solidariedade etc. é o maior testemunho para o cristão. Este tipo de morte será uma morte feliz e por isso, uma vida ressuscitada.


Para que os discípulos não fiquem abalados nem desorientados na sua ausência física, Jesus promete-lhes uma presença nova no meio deles. Com essa nova presença, Jesus quer dizer aos discípulos que eles não serão abandonados como órfãos, pois o amor do Senhor por eles e por qualquer cristão jamais morrerá. Em Jo 14,16-17 Jesus prometeu o envio do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Em Jo 15, especialmente no evangelho de hoje, aparece novamente esse Paráclito, o Defensor, o Espírito da Verdade.


Quem é o Espírito Paráclito, ou o Defensor, o Espírito da Verdade? A palavra “paráclito” em grego que é traduzida por “Defensor” em português é aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em outras palavras: um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na fé. Mas o Espírito Paráclito é um dom de Deus oferecido para quem se abre a ele. A ajuda de Deus jamais faltará para nós, mas é preciso que tenhamos abertura diante dessa ajuda.


Esse Espírito Paráclito também recebe outro nome: “o Espírito da Verdade”.  Mas dentro de sua função de ajudar, de orientar, de animar, de proteger nas dificuldades, o Espírito da Verdade é entendido, sobretudo, como aquele que faz viver muito mais do que aquele que faz pensar. Pensar é uma coisa, viver é outra coisa.  Fazer um bom raciocínio é uma coisa; viver o que se raciocina é outra coisa. Orientar alguém para viver bem é uma coisa; perder a própria vida para que os outros possam viver é outra coisa. O mais importante não é o saber da vida e sim saborear a vida; não é sentir e sim o comprometer-se; não é o perceber e sim o decidir-se; não é o desejar e sim o querer. O Espírito da Verdade nos ensina a vivermos a vida na sua profundidade em cada momento. Ele não nos deixa presos no passado nem fugitivos do futuro; simplesmente vivemos na graça de Deus em cada momento de nossa vida. Por isso, o mais importante é fazer dos problemas, oportunidades; do passado, aprendizado; do amor, a experiência fundante e da vida, a arte de ser de cada dia.


É missão do Espírito Santo, então, revelar aos Apóstolos toda a verdade sobre Cristo, sobre suas obras, sua vida e sua morte, e fortalecê-los para que sejam capazes de dar testemunho. Ser testemunha é confessar com as conseqüências, expor-se, arriscar-se, encarar. “Testemunho” aparece no Novo Testamento com o sentido de “mártir”. Dar a vida é o grande testemunho, confessar com sangue a Verdade. Não somente a morte por Cristo, mas também a vida cristã vivida com todas as suas conseqüências tem um valor de “martírio” e por isso, de testemunho.


Quem pode nos possibilitar para viver assim é o Espírito da Verdade. Por isso, precisamos pedir ao Senhor sua presença na nossa vida de cada dia e que estejamos abertos para a renovação no Espírito do Senhor que é o Espírito da Verdade, o Defensor de nossa vida toda vez que nos encontrarmos em qualquer dificuldade.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 3 de maio de 2013

VI DOMINGO DA PÁSCOA

 
PARA SER HABITADO PELA SANTÍSSIMA TRINDADE É PRECISO AMAR

Domingo, 05 de Maio de 2013
Texto: Jo 14,23-29

 
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 23“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. 24 Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou. 25 Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. 26 Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito. 27 Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. 28 Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. 29 Disse-vos isso, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis”.

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Jo 14 pertence ao grande discurso de despedida de Jesus (13,31-17,26). O contexto do Jo 14 é a Última Ceia.


 1. Nova Morada De Deus: Coração Que Ama
  

No v.22, Judas (que não é Judas Iscariotes) fez a seguinte pergunta a Jesus: “Senhor, por que te manifestas a nós e não ao mundo?” Em outras palavras, ele queria dizer: Por que tais privilégios não são concedidos a todos?


Como acontece várias vezes no evangelho de João, aqui Jesus não se preocupa em responder diretamente à pergunta de Judas. Em vez disso, ele declara através dos seguintes versículos as condições necessárias para que o Pai esteja presente no discípulo: o amor a Jesus que se manifesta na observância de sua palavra: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos nossa morada” (v.23).


“Guardar a sua palavra” é praticar o exemplo de amor que Jesus deixou (cf. 5º Domingo da Páscoa). Por isso, o teste mais adequado para verificar a realidade do amor a Cristo é a obediência, a observância concreta dos mandamentos que se resumem no mandamento do amor fraterno.
  

Além disso, o amor é o lugar da manifestação de Deus trino (nele estabeleceremos nossa morada). A afirmação de Jesus é, na verdade, um convite ao progresso interior que nos torna semelhantes a Deus pela fidelidade à palavra, e faz reconhecer, nesta fidelidade, a morada das pessoas divinas. A partir do momento em que alguém amar, ele será a nova morada de Deus. Se em Jo 14,3 Jesus disse que iria preparar para os fiéis uma morada no céu, agora no texto do evangelho de hoje fica claro que a morada do Pai e de Jesus no meio de nós começa aqui e agora, na medida em que observamos o mandamento de Jesus: mandamento do amor fraterno (Jo 13,34-35; 15,12).


Se no passado Deus se manifestava em lugares e fenômenos naturais, agora fica muito claro que as pessoas que amam como Jesus são manifestação da presença de Deus. Assim, a separação entre o homem e Deus é superada, e a busca do Pai, tema essencial do Discurso é satisfeita pelo próprio Pai. O nosso Deus não é o Deus distante, mas aquele que se aproxima do homem e vive com ele, formando uma comunidade com os homens, objeto do seu amor. Buscar a Deus não exige ir encontrá-lo fora de si mesmo, mas deixar-se encontrar e amar por ele. A “morada” de Deus está em nós mesmos/entre nós, se estamos/estivermos unidos a Jesus e ao Pai na fidelidade e na prática do mandamento do amor. A resposta ao amor a Jesus se expressa no amor aos outros homens (guardar minha palavra). E o Pai e Jesus respondem à fidelidade do discípulo dando-lhe a experiência de sua companhia e seu contato pessoal. Toda vez que alguém, ao escutar a mensagem do amor, a repete para si mesmo e a põe em prática, insere-se na família de Deus e passa a ser, com Jesus, uma manifestação de Deus ao mundo.


A comunidade cristã e o “mundo”, então, distinguem-se entre si pela presença ou ausência do amor. O amor torna-se a razão de diferença entre os discípulos e o mundo. Sem amor, o homem continua carnal, incapaz da autêntica experiência de Deus.


O fim ultimo de toda a Economia divina é a entrada das criaturas na unidade perfeita da Santíssima Trindade. Mas desde já somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade: ‘Se alguém me ama, diz o Senhor, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos a ele, e faremos nele a nossa orada’[Jo 14,23]” (Catecismo da Igreja Católica no. 260).


2. Paráclito e sua função


Essas coisas vos tenho dito estando entre vós. Mas o Paráclito, O Espírito Santo          que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse”.


No evangelho de João, o Espírito Santo tem uma importância excepcional. Somente neste evangelho ele é chamado de Paráclito com o significado amplíssimo de ajudante, assistente, sustentador, protetor, advogado, procurador e sobretudo como animador e iluminador no processo da fé (parákleton, em grego, literalmente significa “aquele que é chamado para perto de ou para indicar aquele que vem assistir o acusado: o advogado).
     

No v.26, dois verbos expressam a função atribuída ao Paráclito: ensinar e fazer recordar. Na Bíblia, o verbo “ensinar” (didáskein) tem o sentido de interpretar autenticamente a Escritura e de atualizá-la para o presente e o futuro. O ensinamento do Espírito consiste em reavivar nos discípulos a lembrança das palavras de Jesus no sentido de introduzir os discípulos na verdade plena (Jo 16,13).
   

Essa revelação será ensinada pelo Paráclito a partir do interior das consciências, como o indica a expressão “ele vos fará recordar”. Na linguagem bíblica, “recordar” implica não apenas a lembrança de um fato anterior, mas uma tomada de consciência de sua significação.


Ao conceder aos discípulos a recordação das palavras de Jesus, o Espírito não se limita, portanto, a lembrar um conteúdo a uma memória enfraquecida; ele os leva a aprender o seu sentido, até então obscuro, e permitir que eles as interpretem em profundidade à luz pascal. O papel interpretativo do Espírito, todo ele relativo à mensagem do Filho, faz da comunidade cristã o lugar em sua revelação é recebida sempre de novo e atualizada de maneira criativa na existência dos fiéis. Isso quer dizer que a Palavra de Jesus permanecerá viva no curso do tempo.


·       «Ninguém pode dizer "Jesus é o Senhor" a não ser pela ação do Espírito Santo» (1Cor 12, 3). «Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: "Abbá! Pai!'» (Gl 4, 6). Este conhecimento da fé só é possível no Espírito Santo. Para estar em contacto com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. É Ele que nos precede e suscita em nós a fé” (Catecismo Da Igreja Católica no. 683).


3. A paz de Cristo
   

Ao se despedir de seus discípulos, Jesus lhes dá a sua paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide” (v.27).
    

Paz (shalom) é a saudação habitual entre os judeus com uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranqüilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude.
    

Ao se despedir dos discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas ele lhes dá a paz: “Eu vos deixo a paz”, e insiste: “Eu vos dou a minha paz”. Que tipo de paz que Jesus oferece? Não se trata de um simples augúrio de paz, mas de um verdadeiro dom. A paz é um dom, vem do alto: não surge da decisão do homem. Por isso, não pode reduzir-se ao nível de sentimento. Trata-se de uma palavra que salva, que vai à raiz, lá onde está a origem da verdadeira paz (a origem do mal). A paz de Jesus tem como efeito banir/expulsar do coração dos discípulos todo e qualquer resquício/resíduo de perturbação ou de temor que leva ao imobilismo. Possuindo o dom da paz de Jesus, eles devem manter-se imperturbáveis, sem se deixar intimidar diante das dificuldades. Assim pensada, a paz de Jesus consiste numa força divina que não deixa os discípulos rompam a comunhão com Jesus. É Jesus mesmo, presente na vida dos discípulos, sustentando-lhe a caminhada, sempre disposto a seguir adiante com alegria, rumo à casa do Pai, apesar das adversidades que deverão enfrentar. Dizendo “vai em paz”, Jesus cura a hemorroíssa (Lc 8,48) e perdoa os pecados à pecadora (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre o pecado e suas conseqüências. A paz de Jesus funda-se no amor fraterno e na justiça. A paz de Jesus, por isso, rejeita toda espécie de idolatria que coloca criatura no lugar de Deus e submete o ser humano a um regime de opressão. João enfatiza que Jesus é o mediador da paz; é neste sentido que Jesus a qualifica de “minha”. Os verbos estão no presente, sublinhando, assim, a realidade atual e a duração indefinida do dom. O Filho dispõe a paz que, segundo a Bíblia, só Deus pode conceder. A paz caracteriza os tempos messiânicos (Sl 72,7). O Messias tem por nome “o Príncipe da Paz”(Is 9,5s). A aliança escatológica é uma “aliança de paz” (Is 66,12). Todo o NT se mostra herdeiro dessa tradição para acentuar a reconciliação com Deus(At 10,36;Rm 5,1;Ef 2,14-17;Cl 1,20 etc.).
       

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. Em que consiste a paz do mundo?
   

A paz que o mundo oferece prescinde de Deus e se funda num projeto contrário ao dele. Aí, se encontram a injustiça, a concentração de bens à custa da exploração alheia, o desrespeito pelo ser humano. É o império do egoísmo que idolatra pessoas e coisas, e transforma os indivíduos em seus escravos. Por isso, é uma paz que conduz à morte eterna.
    

Quando o homem esquece o seu destino eterno e o horizonte de sua vida se limita à existência terrena, contenta-se com uma paz fictícia, com uma tranqüilidade exterior. Jesus qualifica este tipo de paz como a paz que o mundo dá. Recuperar a paz perdida é uma das melhores manifestações de nossa caridade para com os que estão à nossa volta.

 
P. Vitus Gustama,svd

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