quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Dia de Finados, 02/11/2024

DIA DE FINADOS

I. Qual O Sentido Da Morte A Partir Do Novo Catecismo Da Igreja Católica?

·      Artigo 1010

Graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. «Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro» (Fl 1, 21). «É digna de fé esta palavra: se tivermos morrido com Cristo, também com Ele viveremos» (2 Tm 2, 11). A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo Baptismo, o cristão já «morreu com Cristo» sacramentalmente para viver uma vida nova; se morremos na graça de Cristo, a morte física consuma este «morrer com Cristo» e completa assim a nossa incorporação n'Ele, no seu acto redentor: “É bom para mim morrer em Cristo Jesus, mais do que reinar dum extremo ao outro da terra. É a Ele que eu procuro, Ele que morreu por nós: é a Ele que eu quero, Ele que ressuscitou para nós. Estou prestes a nascer [...]. Deixai-me receber a luz pura: quando lá tiver chegado, serei um homem” (Santo Inácio de Antioquia, Rm 6,1-2).

·      Artigo 1011

Na morte, Deus chama o homem a Si. É por isso que o cristão pode experimentar, em relação à morte, um desejo semelhante ao de S. Paulo: “Desejaria partir e estar com Cristo” (Fl 1, 23). E pode transformar a sua própria morte num acto de obediência e amor para com o Pai, a exemplo de Cristo (592): “O meu desejo terreno foi crucificado: [...] há em mim uma água viva que dentro de mim murmura e diz: ‘Vem para o Pai’” (Sto.Inácio de Antioquia, Rm 7,2). “Ansiosa por ver-te, desejo morrer” (Sta. Teresa de Jesus, Poesia 7). “Eu não morro, entro na vida” (Sta. Teresinha do Menino Jesus, Lettre).

·      Artigo 1012.

A visão cristã da morte é expressa de modo privilegiado na liturgia da Igreja: “Para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma: e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna” (Prefácio Dos Fiéis Defuntos I).

·      Artigo 1013. A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o plano divino e para decidir o seu destino último. Quando acabar “a nossa vida sobre a terra, que é só uma” (Lumen Gentium,48), não voltaremos a outras vidas terrenas. “Os homens morrem uma só vez” (Hb 9, 27). Não existe “reencarnação” depois da morte.

·      Artigo 1014. A Igreja exorta-nos a prepararmo-nos para a hora da nossa morte (“Duma morte repentina e imprevista, livrai-nos, Senhor”: antiga Ladainha dos Santos), a pedirmos à Mãe de Deus que rogue por nós “na hora da nossa morte” (Oração da Ave-Maria) e a confiarmo-nos a S. José, padroeiro da boa morte: “Em todos os teus actos em todos os teus pensamentos, havias de te comportar como se devesses morrer hoje. Se tivesses boa consciência, não terias grande receio da morte. Mais vale acautelares-te do pecado do que fugir da morte. Se hoje não estás preparado, como o estarás amanhã?” (Imitação de Cristo 1,23,5-8). “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, à qual nenhum homem vivo pode escapar. Ai daqueles que morrem em pecado mortal: Bem-aventurados os que ela encontrar a cumprir as tuas santíssimas vontades, porque a segunda morte não lhes fará mal» (S. Francisco de Assis, Cântico das Criaturas).         

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II. Dia de Finados É o Dia Familiar

Hoje é o dia especial em que todos nós somos chamados a voltar para a raiz familiar onde todos nós voltamos a sentir de uma maneira especial a presença de todos os membros de nossa família tanto dos vivos como dos que partiram. É o dia de saudade. A saudade é, paradoxalmente, a presença forte na ausência. Por algum instante visitamos na memória o passado no qual convivíamos e que no presente estão ausentes fisicamente. É um dia de saudade dos que conviveram conosco, mas partiram antes de nós, mas com a esperança de que, um dia, possamos nos encontrar todos na comunhão plena e eterna com o Deus da Vida. É o dia de saudade porque quando a morte atinge nossos entes queridos, parte de nós se vai com eles. Nós nos unimos à sua entrega total e sabemos que também nós estamos morrendo. Algo de nós se vai para sempre quando uma pessoa amada morre. Nesta altura percebemos que a vida é sempre uma partida. Há uma partida para os olhos que se fecham, para os ouvidos que se cansam e para o corpo que envelhece.  A condição humana é ser passageiro, ser transitório. Estamos sempre na saudação dos que chegam no nascimento e da despedida dos que partem sem volta. Em tudoum adeus. E ninguém tem poder de parar o tempo.          

Por isso, a morte é o caminho necessário de todos os viventes. Todo nascimento é uma referência existencial à morte que é seu termo. Em outras palavras, a chegada será sempre uma partida. A morte é o caminho que termina em Deus, de onde, um dia, saímos. Isto significa que nós pertencemos ao Senhor, como diz São Paulo: “Se vivemos, é para o Senhor, que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). A vida que nos foi dada não pertence ao homem, mas a Deus.  Essa pertença a Deus é o que torna a vida algo sagrado. Por isso, quem dá a vida, quem a mantém, quem a leva à plenitude não é o homem, mas o próprio Deus. E para todos os homens, a vida temporal é dada como semente de vida eterna. Os bens que recebemos de Deus e os bens que fizemos são do Senhor, embora tenham frutificado para nós. Por isso, morrer significa entregar totalmente a vida a Deus. O mesmo Senhor que nos criou por amor, nos acolhe para um amor infinito, para uma perfeita comunhão com Ele.      

Por isso, para aquele que morre em comunhão com Deus, morrer é um privilégio, pois estará em comunhão eterna com Deus, é a vida de Deus participada plenamente ao homem. É uma partida com chegada definitiva. São Pedro expressa esta realidade nestas palavras: “Fugindo da corrupção, nos tornamos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4). A morte é um acontecimento essencialmente ligado ao privilégio de viver dado por Deus.         

Por isso, a vida pode ser vivida em profundidade quando se sabe por quem e para quem se vive. Para o homem religioso ou espiritual, viver significa viver para o Senhor, e morrer é entregar a vida para Deus a exemplo de Jesus Cristo, que ao entregar a vida totalmente à vontade de Deus, ele experimentou a ressurreição. A ressurreição de Jesus é a mensagem mais clara sobre o futuro do homem.   

Hoje a maioria pensa apenas naqueles que partiram. Mas este dia é para os que ficam também.  Os falecidos cumpriram sua missão de maneira plena ou menos plena. Alguns morreram doando-se. Outros morreram por causas sublimes. E nós que ainda nos resta a vida o que devemos fazer?          

Em primeiro lugar, precisamos valorizar a presença, pois ela é um dom. Muitas vezes sentimos a importância de uma pessoa somente na sua ausência. Precisamos estar conscientes de que como é bom estarmos juntos enquanto for dado a nós o dom de convivência, pois vai chegar um dia em que seremos obrigados a viver de outra maneira.

Em segundo lugar, não precisamos acumular as flores para formar um dia uma coroa de flores para um caixão, pois uma flor oferecida para uma pessoa viva vale muito mais do que uma coroa de flores para um morto. Que a coroa de flores na hora de morte seja uma acumulação de tantas flores oferecidas à pessoa em questão durante a vida.

Em terceiro lugar, não precisamos esperar alguém morrer para elogiá-lo ou para falar de suas virtudes. É bom elogiarmos quem merece ser elogiado enquanto ele estiver convivendo conosco. Pois um elogio sincero dado para um vivo vale muito mais do que um elogio triste para um caixão, pois o caixão não tem ouvidos. Perdoemo-nos mutuamente enquanto estivermos vivos, pois como é bom experimentarmos o que é que a ressurreição ou a libertação enquanto para nós é dado o dom de viver um pouco mais.

Em quarto lugar, como é triste morrer sem ter sabido viver e ao mesmo tempo como é triste viver sem aprender a morrer. Para vivermos melhor e com outra intensidade precisamos aprender a morrer. É o paradoxo da vida: para viver precisamos morrer. Precisamos aprender a morrer de nosso egoísmo, de nossa prepotência, de nosso rancor, de nossa falta de perdão, de nossa vingança, de nossa soberba que mata a caridade e a fraternidade, de nossa preguiça de rezar e de participar do banquete celeste aqui na terra que é a eucaristia. Em outras palavras, precisamos aprender a morrer de nossa morte para que possamos ressuscitar para uma vida com Deus.

Em quinto lugar, precisamos rezar mutuamente para que um dia possamos nos encontrar todos no céu.

Portanto, a verdadeira questão não é se há vida após a morte e sim, se há a vida antes da morte. “A grande desgraça acontece quando você pensa que você tem tempo” (Budá). Mas repentinamente, você perde tudo e todas as oportunidades. Aprendamos a valorizar o que temos, para não ser tarde demais em valorizar o que você tinha. Às vezes você nunca vai saber do valor do momento até que se torne uma memória. Como um dia bem aproveitado traz um sono feliz, assim também a vida bem vivida e convivida traz a morte feliz. Se você quiser ter algo que nunca teve, faça algo que nunca fez. Você nunca vai ser corajoso, se nunca sofreu alguma ferida; você nunca vai aprender, se nunca errou na vida; e você nunca vai ser uma pessoa sucedida, se nunca falhou na vida. A grande tragédia não é a morte e sim algo valioso que está morrendo dentro de você enquanto você está vivo. Que os falecidos descansem em paz e que convivamos em paz neste mundo. Assim seja!

Pe. Vitus Gustama, SVD

Para Refletir

Prefiro que partilhes comigo uns poucos minutos,

Agora que estou vivo,

E não uma noite inteira quando eu morrer.

Prefiro que apertes suavemente a minha mão,

Agora que estou vivo,

E não apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.

Prefiro que faças uma só chamada,

Agora que estou vivo,

E não faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.

Prefiro que me ofereças uma só flor,

Agora que estou vivo,

E não me envies um formoso ramo e uma coroa de flores

Quando eu morrer.

Prefiro que elevemos juntos ao céu um oração,

Agora que estou vivo,

E não uma oração poética quando eu morrer.

Prefiro que me digas umas palavras de alento,

Agora que estou vivo,

E não um dilacerante poema quando eu morrer.

Prefiro que um só acorde de guitarra,

Agora que estou vivo,

E não uma comovedora serenata quando eu morrer.

Prefiro que me dediques uma leve prece,

Agora que estou vivo,

E não um político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.

Prefiro desfrutar de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,

Agora que estou vivo,

E não de grandes manifestações quando eu morrer.

Prefiro escutar-te e ver-te um pouco nervos@

Dizendo o que sentes por mim,

Agora que estou vivo,

E não um grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....

Aproveitemos a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos

Agora que estão entre nós...

Valorize as pessoas que estão à tua volta.

Ama-as, respeita-as e lembra-te delas,

Enquanto estão vivas.

Deus te abençoe!                                

Pe. Vitus Gustama, SVD

01/11/2024-Sextaf Da XXX Semana Comum

NOSSA GENEROSIDADE PROLONGA O AMOR GENEROSO DE DEUS

Sexta-Feira da XXXI Semana Comum

Primeira Leitura: Fl 1,1-11

Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os seus bispos e diáconos: 2 graça e paz a vós da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. 3 Dou graças ao meu Deus, todas as vezes que me lembro de vós. 4 Sempre em todas as minhas orações rezo por vós, com alegria, 5 por causa da vossa comunhão conosco na divulgação do evangelho, desde o primeiro dia até agora. 6 Tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição até ao dia de Cristo Jesus. 7 É justo que eu pense assim a respeito de vós todos, pois a todos trago no coração, porque, tanto na minha prisão como na defesa e confirmação do Evangelho, participais na graça que me foi dada. 8 Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós, com a ternura de Cristo Jesus. 9 E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, 10 para discernirdes o que é o melhor. E assim ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo, 11 cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus.

Evangelho: Lc 14,1-6

1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 2 Diante de Jesus, havia um hidrópico. 3 Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” 4 Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5 Depois lhes disse: “Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?” 6 E eles não foram capazes de responder a isso.

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A Unidade Se Alcança Através Do Caminho Da Humildade e Do Auto-Despojamento

Hoje iniciamos a leitura contínua da Epístola aos Filipenses. É a mais pessoal das cartas de São Paulo, e com o tom muito afetuoso e confidencial. A Carta aos filipenses é uma Carta cheia de carinho por parte de são Paulo, que correponde assim ao afeto que lhe tinha aquela comunidade. A Carta aos Filipenses é o testamento de são Paulo estando ele na prisão domiciliar. A comunidade cristã de Filipos é a primícia  da missão de são Paulo no continente europeu. É a comunidade que são Paulo mais aprecia.

O nome “Filipos” se deve ao rei Filipo II da Macedônia, pai de Alexandre Magno, que no ano 358 a.C., transformou algumas aldeias em uma cidade fortificada a qual deu o seu nome.

Quando Paul, Silas, Timóteo chegam a Filipos, entre os anos 49-51 depois de Cristo (alguns especialistas dizem em torno do ano 49, outros dizem que entre os anos 50-51, na segunda viagem missionária de Paulo), Filipos estava povoada. Havia também nessa cidade um pequeno grupo de judeus, mas não havia nenhuma sinagoga, pois segundo At 16,13, esses judeus tinham que reunir-se “à beira do rio” para orar. Atos dos Aóstolos destaca como protagonista Lidia (At 16,14-15). Segundo At 16,16-40 e 1Ts 2,2 Paulo e seus companheiros se deiveram  por pouco tempo em Filipos. De fato, quando Paulo e seus companheiros  partem dessa cidade, eles já deixam em andamento uma comunidade cristã que cresceu e progrediu admiravelmente e manteve sempre com Paulo alguns laços singulares de carinho e de apoio, mesmo Paulo estando na prisão, inclusive no aspecto material. (cf. 1Cor 4,12; 9,15; 2Cor 11,7-11; 1Ts 2,9).

Segundo os especialistas a Carta aos Filipenses contém três Cartas: a Carta de A e B teriam sido escritas estando na prisão em Éfeso entre os anos 55-56. E Carta C teria sido escrita no ano 57, encontrando-se Paulo em Corinto.

Os Filipenses estão sofrendo uma hostilidade considerável de seus concidadãos (Fl 1,28-30). Paulo vê a capacidade dos Filipenses de resistir seriamente enfraquecida por divisões internas, causadas pelo egoismo e pelo orgulho ou prepotência. Com grande amor, Paulo os incita a trabalharem juntos e a encontrarem  uma unidade mais profunda por meio de altruísmo. Ao mesmo tempo, Paulo desenvolve uma mística do sofrimento, a partir da própria experiência de Paulo, pela causa do Evangelho para conortá-los: assim como compartilham de seu sofrimento (na prisão), deveriam compartilhar também da alegria que emana da união profunda com Cristo que esse sofrimento traz. A Carta gira em torno da ideia  da Koinonia, “participação comum”, “comunhão: a Koinonia no sofrimento intensifica a união entre o apóstolo e a comunidade; ao mesmo tempo, a Koinonia básica em Cristo deveria modelar e determinar seus relamentos mútuos. At para fazer o bem encontramos dificuldades.

Hoje, através da Primeira Leitura, são Paulo pede aos Filipenses encarecidamente que lhe deem esta grande alegria: “Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade”.

Aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade”.

A comunidade de Filipo, como todas as demais comunidades, deve ter motivos de tensão e divisões. Por isso, são Paula dá esta recomendação. Os perigos que ameçam a mensagem da cruz de Cristo podem proceder não somente da parte de fora (judaizantes), mas da parte de dentro também. Dentro da própria comunidade pode haver desunião e divisão porque alguns querem exaltar-se ou coupar primeiros lugares que é uma manifestação da falta da humildade e do “esvaziamento” que é o caminho de Jesus. A humildade é a virtude bíblica da “kénosis”, isto é, do auto-despojamento, do desapego. Jesus é a personaficação perfeita da “kénosis”, pelo seu auto-despojamento, pela sua forma de ser Servo por amor aos homens. A “kénosis” cristã é o conhecimento existencial da gratuidade. A “kénosis” é todo um empenhamento para dar lugar à riqueza do poder da graça de Deus.

Para pedir a unidade na comunidade de Filipo, são Paulo apela para a experiência dos próprios filipenses. Eles conhecem os bens espirituais que no texto de hoje são mencionados: a experiência do consolo ou do lívio, da ajuda que procede do ágape (amor mútuo na fraternidade), solidariedade comunitária; a experiência da comunhão no Espírito; a experiência do afeto e do amor mútuo entre são Paulo e os Filipenses; experiência do consolo em Cristo que é o resumo de tudo isso.

Os motivos para esta unidade, então, não são somente humanos, isto é a convivência civilizada e sim se apoiam sobretudo na fé: comunhão no Espirito. O Espirito une; o Diabo desune. O Espirito vivifica; o egoísmo sufoca e mata o amor fraterno. O motivo profundo da unidade é a nossa fé no Deus Uno e Trino. Toda divisão é o contra-testemunho de nossa fé na Santíssima Trindade. Toda união e fraternidade é a manifestação de nossa fé na Santíssima Trindade. Somos lembrados permanentemente da importância da união através do sinal da cruz que fazemos no início e no fim de nossas orações individuais e de nossas celebrações.

Os conselhos de são Paulo para os Filipenses valem para nós todos: “Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro”. A comunidade vai melhorar, se cada membro cuktivar essas atitudes. Todos devem cantar de verdade o Salmo Responsorial de hoje (Sl 130): “Senhor, meu coração não é orgulhoso, nem se eleva arrogante o meu olhar; não ando à procura de grandezas, nem tenho pretensões ambiciosas!”.

Nossoa divisões acontecem porque cada um se crê superior aos demais e se preocupa do seu, sem prestar atenção para os necessidades dos outros. Com isso, reina cada vez mais o egoísmo que mata a convivência fraterna. Alegreremos o coração de Deus e nós mesmos seremos mais felizes, se hoje fizermos o possível para reprimir nossas vaidades exageradas e nossas pretensões.

É Preciso Fazer o Bem Em Qualquer Lugar e Momento

Continuamos escutando as últimas e importantes lições de Jesus na sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,58-19,28), pois lá ele será crucificado, morto e glorificado.

Na passagem do evangelho de hoje, Jesus quer nos relembrar que o ser humano é mais sagrado e importante do que qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, pois em cada ser humano há o hálito divino (Gn 2,7) que o torna o templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17; 6,19).

Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus...”, assim o evangelista Lucas nos relatou. Era sábado (shabbat). O Sábado era o dia em que o povo eleito comemorava os grandes benefícios de Deus: a criação (Ex 20,8-11) e a libertação da escravidão do Egito (Dt 5,12-15). Era o dia o qual o Senhor abençoava acima de outros dias da semana (Jubileus 2,31s). Era o dia de reconhecimento de que Deus santificava o povo (cf. Ex 31,13; cf. Hb 4,9). No Sábado os judeus costumavam comer festivamente.

E nesse dia (Sábado) os judeus costumavam convidar as pessoas para a refeição festiva, mas não era qualquer convidado. O convidado de honra para a refeição festiva, além de escribas e fariseus, segundo o evangelho de hoje, era Jesus, pois ele era tratado como mestre. Jesus tinha fama na região toda (Lc 7,17). O povo considerava Jesus como o grande profeta (Lc 7,16; 24,19). Durante este tipo de refeição, costumavam aparecer algumas pessoas sem ser convidadas para ver o convidado de honra (cf. Lc 7,37). Podemos entender porque um hidrópico se encontrou nessa refeição.

Diante de Jesus, havia um hidrópico”, prossegue Lucas. Para os fariseus e escribas qualquer doença era fruto do pecado cometido e consequentemente, era castigado por Deus. E a causa da hidropisia, segundo eles, era a luxúria. Em vez de se concentrar na refeição, os fariseus e escribas ficam olhando para Jesus e o hidrópico para observar o que Jesus vai fazer com o hidrópico, pois curar um doente faz parte dos 39 trabalhos proibidos no Sábado.

Qual é a posição de Jesus diante de um necessitado como esse hidrópico? Ele quer ajudar e curar o hidrópico mesmo sendo proibido, pois no Sábado. Mas antes de curá-lo Jesus lança uma pergunta bem fundamental com o intuito de que os fariseus e escribas possam refletir sobre a pergunta: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?... Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?”. Trata-se de uma nova maneira de conceber o “descanso” do Sábado, ou do domingo, no nosso caso, como cristãos. Com essa afirmação Jesus quer dizer aos fariseus e escribas e a todos nós que o Sábado ou o Domingo (para nós) é o dia da benevolência divina, o dia da redenção, da libertação, da misericórdia de Deus para os pobres, os excluídos, os perdidos, os pecadores, da ressurreição (para nós cristãos) e assim por diante. É o dia, por excelência, para fazer o bem, curar, salvar, ajudar, se solidarizar. É um dia de abertura aos demais: vida de família e de comunidade. É um dia de “saber descansar juntos”, cultivando valores humanos importantes. É um dia de caridade para partilhar o que somos e temos. Ao contrário, os fariseus e os escribas se preocupam com o descanso no Sábado e esquecem a vontade salvífica e amorosa de Deus pelo homem.

O homem hidrópico foi libertado por Jesus de sua hidropisia. A cura é sinal bastante evidente de que Deus está com Jesus e que Jesus age em virtude e no poder de Deus (At 10,38). Se curar um doente fosse proibido por Deus no Sábado, o homem não ficaria libertado de sua hidropisia.

Deus “pensa” na salvação do homem eternamente. Cada um de nós, seres humanos, está no pensamento de Deus, desde o princípio, pois o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn1,26; 3,22b).  Para Deus ninguém é anônimo, pois Ele chama cada um de nós pelo nome (cf. Is 43,1). O nome de cada um de nós está tatuado nas palmas das mãos de Deus (cf. Is 49,16). E o nome significa pessoa. Em cada nome está a missão de cada um. Em função da importância do homem, Deus até enviou seu Filho unigênito para salvar a humanidade (cf. Jo 3,16). E por causa do amor sem limite de Deus pelo ser humano, o salmista chegou a fazer uma pergunta retórica em forma de oração: “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus... Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? (Sl 8,2.4-5).

Jesus põe o ser humano acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. Que lugar ocupa o ser humano nas nossas atividades pastorais, nos movimentos, na política, na economia e assim por diante? De que maneira tratamos o ser humano que para Deus ele está acima de tudo? As regras são importantes desde que ajudem o ser humano a se desenvolver para viver na sua dignidade. Será que somos escravos das regras e das normas litúrgicas esquecendo o ser humano? Será que ao colocar as normas acima do ser humano, sem querer, manifestamos nosso pouco amor pelas pessoas? Será que sabemos acolher as pessoas ou nos preocupamos com nossas “atividades pastorais?”.

 Na sua Carta Apostólica, Dies Domini, o Papa João Paulo II escreveu: “O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. Act 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5).[Dies Domini,no.1]... “Há-de-se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida” (no.7)... “Recebendo o Pão da vida, os discípulos de Cristo preparam-se para enfrentar, com a força do Ressuscitado e do seu Espírito, as obrigações que os esperam na sua vida ordinária. Com efeito, para o fiel que compreendeu o sentido daquilo que realizou, a Celebração Eucarística não pode exaurir-se no interior do templo. Como as primeiras testemunhas da ressurreição, também os cristãos, convocados cada domingo para viver e confessar a presença do Ressuscitado, são chamados, na sua vida quotidiana, a tornarem-se evangelizadores e testemunhas. A oração depois-da-comunhão e o rito de conclusão — a bênção e a despedida — hão-de ser, sob este aspecto, melhor entendidos e valorizados, para que todos os participantes na Eucaristia sintam mais profundamente a responsabilidade que daí lhes advém. Terminada a assembleia, o discípulo de Cristo volta ao seu ambiente quotidiano, com o compromisso de fazer, de toda a sua vida, um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Ele sente-se devedor para com os irmãos daquilo que recebeu na celebração, tal como sucedeu com os discípulos de Emaús que, depois de terem reconhecido Cristo ressuscitado na « fracção do pão » (cf. Lc 24,30-32), sentiram a exigência de ir imediatamente partilhar com seus irmãos a alegria de terem encontrado o Senhor (cf. Lc 24,33-35)” (n. 45).

A partir de tudo que foi dito vem a pergunta: De que maneira nós vivemos o nosso Domingo, que é o Dia do Senhor e também é o dia da Igreja? Nós simplesmente cumprimos preceito ao ir à igreja aos domingos ou será que temos consciência de vamos escutar as lições do Senhor através de Sua Palavra proclamada e medita durante a celebração dominical?

Para Rezar e Refletir:

“Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!” (Sl 8).

“Que é o homem, de quem cuidas? Um ponto de poeira num cosmos de luz. Mas, no ponto que sou eu, há outra criação ainda mais maravilhosa do que o firmamento e as estrelas. O prodígio do meu corpo, o segredo das minhas células, o relâmpago que há nos meus nervos, o palácio do meu coração... E a animação da minha alma, a centelha do meu entendimento, o frêmito do meu sentimento, o pilar da minha fé. O milagre que está dentro de mim, bem como a Sua assinatura a ele aposta. Sorrio em reconhecimento quando vejo que fizeste de mim o rei da tua criação, inferior tão-somente, a Ti mesmo. Conheço a minha pequenez e a minha grandeza, a minha dignidade e a minha insignificância... Grande é o Teu nome, ó Senhor, por toda a terra... Quando encontro uma dificuldade na vida e penso em Ti, não é para pedir-Te que a remova, mas para que me dês forças para enfrentá-la; não é para impor-Te a minha solução, mas para que eu tome a Tua como minha. Eis por que És a minha fortaleza: porque És o meu ser (Carlos G. Vallés: Busco Tua Face, Senhor. Ed. Loyola).

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

31/10/2024-Quintaf Da XXX Semana Comum

É PRECISO ANUNCIAR O EVANGELHO DA PAZ ATÉ O FIM APESAR DAS DIFICULDADES 

Quinta-Feira da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 6,10-20

10 Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, e na força de seu poder. 11 Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo. 12 Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais. 13 Revesti, portanto, a armadura de Deus, a fim de que no dia mau possais resistir e permanecer firmes em tudo. 14 De pé, portanto! Cingi os vossos rins com a verdade, revesti-vos com a couraça da justiça 15 e calçai os vossos pés com a prontidão em anunciar o Evangelho da paz. 16 Tomai o escudo da fé, o qual vos permitirá apagar todas as flechas ardentes do Maligno. 17 Tomai, enfim, o capacete da salvação e o gládio do espírito, isto é, a Palavra de Deus. 18 Com preces e súplicas de vária ordem, orai em todas as circunstâncias, no Espírito, e vigiai com toda a perseverança, intercedendo por todos os santos. 19 Orai também por mim, para que a palavra seja posta em minha boca para anunciar corajosamente o mistério do Evangelho, 20 do qual sou embaixador acorrentado. Possa eu, como é minha obrigação, proclamá-lo com toda a ousadia.

Evangelho: Lc 13, 31-35

31 Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. 32 Jesus disse: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. 33 Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste! 35 Eis que vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não me vereis mais, até que chegue o tempo em que vós mesmos direis: Bendito aquele que vem em nome do Senhor”.

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A Força De Deus, Que Está Na Verdade e Na Justiça, e a Oração Permanente São Meios Eficazes Contra o Espírito Do Mal

Estamos no fima da Carta aos Efésios. O texto da Primeira Leitura faz parte da seção paranética. Neste final o autor da Carta faz um convite para a fidelidade e à perseverança aravés do uso da imagem da luta: “Revesti, portanto, a armadura de Deus, a fim de que no dia mau possais resistir e permanecer firmes em tudo. De pé, portanto! Cingi os vossos rins com a verdade, revesti-vos com a couraça da justiça e calçai os vossos pés com a prontidão em anunciar o Evangelho da paz. Tomai o escudo da fé, o qual vos permitirá apagar todas as flechas ardentes do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e o gládio do espírito, isto é, a Palavra de Deus”. 

O autor da Carta aos Efésios descreve a “armadura de Deus” contra o inimigo dos cristaos, usando alguns elementos do equipamento do legionário romano:

1). Cinto da verdade: O cristão tem que se proteger com o cinto da verdade que não é somente um atributo da ação fiel a Deus, mas também uma qualidade do agir cristão. A verdade, que como o cinturão que rodeia o corpo e lhe dá segurança protege o cristão da mentira e do erro como norma segura da conduta.

2). Couraça da justiça: Couraça protege a parte mais vulnerável de um combatente, o peito. No seu valor simbólico aqui a couração é identificada com a justiça. A retidão, integridade de vida moral, como a couraça que cobre o peito, torna o cristão invulnerável para a luta contra o demônio.

3). Sandálias-anúncio do Evangelho: A terceira qualidade do combatente cristão é a permanente prontidão para o anúncio do Evangelho da paz simbolizada pelas “sandálias”. A prontidão para anunciar o Evangelho é a dimensão apostólica de toda a vida autenticamente cristã. É ser discípulo-missionário.

4). Escudo-fe: O escudo é o quarto elemento da armadura cristã que protege o combatente. O escudo é usado contra as armas mais terríveis do adversário. O escudo é identificado com a fé.  A fé é aqui o conhecimento do ensinamento de Cristo e a adesão à sua pessoa. A fé protege e defende o cristão dos inimigos mais perigosos, os falsos profetas (1Jo 4,1-6). A fé é a qualidade essencial que o cristão deve ter, pois ela garante a segurança, pois ele está com Deus nesse combate e garante também a estabilidade espiritual do cristão. A fé torna o cristão participante da fidelidade de Deus e do Cristo.  

5). Capacete-salvação: A esperança da salvação, como a capacete que cobre e defende a cabeça, mantém a lucidez e a força do espírito na espera da vitória final (1Ts 5,5).

6). Espada-Palavra de Deus, a espada do Espírito. A Palavra d Deus é eficaz para o cristão (Hb 4,12) tanto no momento oportuno como também no momento inoportuno. A eficácia ou a força da Palavra de Deus na tradição bíblica é precisamente representada pela espada (cf. Os 6,5; Is 49,2; Sb 18,15-16; Sl 57,4; 64,3; Hb 4,12; Ap 1,16; 2,12; 19,15).

Além disso o final da Carta aos Efésios, o Apóstolo exorta aos cristãos para “o combate espiritual” e “a oração”. Dois conselhos sempre válidos para todos os tempos e lugares.

A vida humana é um combate, uma luta. Os modernos falam de “conflitos” e de “lutas”. Mas para o Apóstolo Paulo, a luta é muito mais profunda do que parece segundo as análises politicas ou simplesmente humanas. Trata-se de um combate “contra forças espirituais invisíveis”. No coração do mundo existem “mais forças que nós”, umas forças que estão “acima de nós”. O pior erro seria ignorar essas forças. No mundo há forças subterrâneas, movimentos incontroláveis, influências  imprevisíveis, droga, violência, poluição, controle econômico em nome do lucro, mesmo que haja muitas vítimas humanas e vários sofrimentos para a maioria.

Em outras palavras, o inimigo irreconciliável da verdade, da justiça e da paz não é outra senão a mentira, a injustiça e a guerra que reinam no homem e entre os homens e os seduzem. O cristão não é o homem que se coloca à margem deste combate. Nem tampouco o homem que vive unicamente na verdade, na justiça e na paz. Mas exatamente, o crente é o homem que não deixa jamais de buscar e de reconhecer a verdade, a justiça e a paz. O combate tem lugar no interior da vida do homem e, ao mesmo tempo, na convivência com os demais.

Para descrever a vida cristã em forma breve, clara e atrativa, o Apóstolo Paulo considera cada cristão como um guerreiro bem armado para resistir ao inimigo e para combatê-lo, ao mesmo tempo. A armadura de Deus da qual o cristão tem que se vestir está constituída pela verdade e a justiça, pela oração a fim de poder anunciar “o Evangelho da paz”.

Tudo isso requer um compromisso de força total, de combate contínuo. “Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo”.   O autor da Carta quer que os Efésios estejam preparados para o combate espiritual. Porém, a armadura deve vir de Deus para que possam chegar ao fim, pois trata-se de uma luta contra os adversários bem diferentes: os principados, as potestades e as dominações. Todos estes poderes estão acima de todas as ordens dos anjos, mas estão de baixo de Cristo Ressuscitado (Ef 1,21). O Autor da Carta os apresenta abertamente como forças inimigas de Deus, a serviço do Diabo, isto é, daquele que desune o homem de Deus e do homem entre si. Estes poderes são chamados expressamente de “espírito do mal” que se lançam sobre  os seguidores d´Aquele que já os venceu na Cruz. Basta permanecer em Jesus Ressuscitado é estes poderes serão vencidos. Por isso, no fundo é o Cristo Ressuscitado a “armadura de Deus” que vence tudo. Por isso, o autor da Carta aconselha: “Revesti, portanto, a armadura de Deus, a fim de que no dia mau possais resistir e permanecer firmes em tudo”. Estando com Cristo a vitória final está garantida. A vitória é sempre de Deus.

Fortalecei-vos no Senhor, e na força de seu poder. Cingi os vossos rins com a verdade, revesti-vos com a couraça da justiça e calçai os vossos pés com a prontidão em anunciar o Evangelho da paz”, é o outro conselho do Apóstolo Paulo para todos os cristãos. As forças invisíveis estão sempre em ação. Dai o conselho do autor da Carta: “Cingi os vossos rins com a verdade...”. Trata-se daquelas verdades das quais foram ditas em Ef 1,13: “Nele também vós escutastes a Palavra da verdade, o Evangelho de vossa salvação”. É aquela verdade que o cristão deve viver na caridade: “... vivendo segundo a verdade, no amor, cresceremos sob todos os aspectos em relação a Cristo, que é a Cabeça” (Ef 4,15).

Além disso, o cristão deve ser revestido de “a couraça da justiça”: “... revesti-vos com a couraça da justiça”. A justiça da qual se fala aqui é a justiça que vem de Deus e que só tem valor diante d´Ele. Na Carta aos Filipenses, são Paulo descreve bem do que se trata desta justiça ao escrever: “Esforço-me por estar em Cristo, não pela minha justiça, que vem da Lei, e sim pela justiça que vem de Deus e se alicerce na fé” (Fl 3,9). A ideia bíblica de justiça ou de retidão geralmente expressa conformidade com todas as áreas da vida de Deus. Quando os homens aderem à vontade de Deus, eles são considerados justos ou retos. Jesus ensinou que aqueles que conformam suas vidas aos seus ensinamentos também são justos, retos. A justiça é questão de amor. Com efeito, a maior injustiça, que podemos ou possamos cometer, acontece quando não amamos mais os outros. Porque todas as outras injustiças são fruto ou consequência da falta de amor. “Jesus viveria e morreria em vão se não conseguisse ensinar-nos a ordenar toda a nossa vida pela eterna lei do amor” (M. Gandhi).

Além disso, os cristãos devem ser homens de muita oração com uma vigilância permanente: “Com preces e súplicas de vária ordem, orai em todas as circunstâncias, no Espírito, e vigiai com toda a perseverança, intercedendo por todos os santos”. A oração é o segredo da forças dos homens dinâmicos. A oração é imprescindível na vida de cada cristão quando ele vive seriamente a verdade do seu ser como cristão. A oração é indispensável e necessária, porque é o clima em que nasce e amadurece a fé e a vida. A oração fortalece a esperança cristã que não podemos confundir com a simples espera de algo que se realize. A esperança cristã consiste na certeza de conseguir um dia o anseio mais íntimo e verdadeiro de nosso coração apesar de todas as situações e contradições que façam difícil manter esta atitude. É uma esperança que respeita o “tempo de Deus”, mas que nos leva a trabalharmos para adiantá-lo.  Se a oração é a forma habitual de alimentar nossa comunhão com Deus e com os homens, deixar de orar significa deixar de ter o “sentido de Deus” nos acontecimentos e deixar-nos alienados d’Ele. Se um cristão não rezar, vai errar muito o caminho.

Viver Para Anunciar o Bem Até O Fim Da Vida

Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém. Durante esse Caminho Jesus vai dando suas ultimas e importantes lições para seus discípulos (Lc 9,51-19,28) e portanto, para todos os cristãos em todos os tempos. Para Lucas, Jerusalém é tudo: onde acontece a cena da morte, da ressurreição, do nascimento da Igreja, e da expansão missionária.

É interessante notar, no evangelho de hoje, que os fariseus, que muitas vezes atacam Jesus de várias maneiras, desta vez, querem salvar sua vida ao lhe dizer: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Os que estão no poder consideram Jesus como um homem perigoso e por isso, querem eliminá-lo, embora Jesus apenas ajude as pessoas na sua dignidade. E Herodes seria capaz de fazer isso (matar), pois ele já mandou decapitar João Batista alguns meses antes (cf. Lc 3,19). O poder atrai o pior e corrompe o melhor.

O poder destrói a integridade; destrói a confiança; destrói dialogo; e destrói a relacionamentos. O poder sempre anda lado a lado com a soberba e o orgulho. “A soberba odeia a companhia! O orgulhoso procura por todos os meios brilhar solitário”, dizia Sant Agostinho (Epist. 140,42). Não há nada que nos isole dos outros tanto quanto o poder. Até mesmo a conversa humana comum é destruída pelo poder. Por causa do poder vivemos o drama do diálogo perdido. Por isso, vemos esse drama trágico entre maridos e mulheres, entre pais e filhos, entre patrões e empregados e assim por diante.

Os que têm sede do poder se preocupam com o poder-sobre do que com o poder-fazer. Querem mandar em tudo e em todos. Eles se preocupam na tomada do poder e não na dissolução do poder.  “Quem manda aqui sou eu” é a frase favorita de quem adora ao poder. “A transformação do poder-fazer em poder-sobre implica a ruptura do fluxo social do fazer. Os que exercem o poder-sobre separam o feito do fazer de outros e o declaram seu. A apropriação do feito é ao mesmo tempo a apropriação dos meios de fazer, e isso permite aos poderosos controlar o fazer dos fazedores. Os fazedores (os humanos, entendidos como ativos) estão separados assim de seu feito, dos meios de fazer e do próprio fazer. Qualquer tentativa de mudar a sociedade envolve o fazer, a atividade. O fazer, por sua vez, envolve a capacidade de fazer, o poder-fazer. Muitas vezes usamos a palavra “poder” nesse sentido, como algo bom, como quando uma ação junto com outros (uma manifestação ou inclusive um bom seminário) nos dá uma sensação de poder. O poder neste sentido tem seu fundamento no fazer: é o poder-fazer.” (John Holloway).

O pecado do poder consiste no desejo de ser mais do que aquilo para o qual fomos criados. “O homem foi criado para viver de acordo com a Verdade. Não viver como foi criado é viver na mentira permanente”, dizia Santo Agostinho (De civ. Dei 14, 4,1). “Aproximar-se de Deus é assemelhar-se a Ele. Afastar-se d’Ele é deformar-se” (Santo Agostinho. In ps 34,2,6).

Na sua resposta, diante desta ameaça, Jesus mostra aos fariseus (e Herodes) que ele próprio é quem decide seu caminho a seguir; Ele não se intimida pelos poderosos: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”. Raposo é um animal medroso que só caça de noite e foge quando chegar a madrugada e corre rapidamente por causa de um pequeno perigo. Na gíria aramaica “raposa” tem um duplo sentido: animal astuto e animal insignificante em oposição a “leão”. Aqui a palavra “raposa” se aplica à pessoa insignificante e buliçosa/ inquieta que não merece respeito. Herodes é chamado de “raposa” para dizer que ele é um tipo de pessoa covarde, hipócrita que não quer se responsabilizar pela morte de Jesus, e Pilatos vai também nessa direção na condenação de Jesus (cf. Lc 23,6-12).

A tripla enumeração: “hoje, amanhã, e o terceiro dia” / “hoje, amanhã e depois de amanhã” serve para englobar um período de tempo largo e completo, isto é, o que resta de sua vida publica, durante o qual Jesus prosseguirá libertando o povo de todo tipo de ideologias contrárias ao plano de Deus (“expulsando demônios”) e de todo tipo de doenças morais e físicas que impede o povo de segui-lo com liberdade e dignidade humana (“curando”) até o fim de sua missão terrena (“terminarei meu trabalho”). Jesus não faz sua missão pela metade. Ele vive sua vida na totalidade e não pela metade. Jesus alcança a perfeição humana entregando sua vida para a salvação de todos.

A partir de Jesus aprendemos que precisamos fazer as coisas pelo bem de todos até onde nossa capacidade permitir. Quando cumprirmos nossa missão até onde a capacidade permitir, seremos pessoas realizadas e as outras serão beneficiadas.

Jerusalém que significa “cidade da paz” faz o contrário. Em vez de viver para criar a paz, Jerusalém provoca a violência: “Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”, lamenta Jesus. Jerusalém não vive de acordo com seu nome: “cidade da paz”. Talvez possamos dizer isto, na linguagem de Santo Agostinho, para nosso contexto: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).

Pelo Batismo nos é confiada a missão de proclamar a Boa Nova de salvação. No cumprimento fiel dessa missão não podemos dar-nos descanso: “Eu faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã”. São Paulo escreveu ao Timóteo: “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir” (2Tm 4,2). Não podemos enterrar as oportunidades, pois precisamos viver para fazer o bem (cf. At 10,38). Eu preciso fazer o bem hoje, amanhã e depois de amanhã (em todos os dias da minha vida). Nisto alcançarei a minha perfeição humana.

P. Vitus Gustama,svd

07/04/2025-Segundaf Da V Semana Da QUaresma

JESUS E SEUS ENSINAMENTOS SÃO A LUZ-VIDA PARA A HUMANIDADE Segunda-Feira da V Semana da Quaresma I Leitura: Dn 13,1-9. 15-17.19-30.33-...