segunda-feira, 30 de setembro de 2024

03/10/2024-Quintaf Da XXVI Semana Comum

SOMOS TODOS MISSIONÁRIOS DO SENHOR E CONFIEMOS NELE INCONDICIONALMENTE APESAR DOS OBSTÁCULOS

Quinta-feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 19,21-27

Disse Jó: 21 “Piedade, piedade de mim, meus amigos, pois a mão de Deus me feriu! 22 Por que me perseguis como Deus, e não vos cansais de me torturar? 23 Gostaria que minhas palavras fossem escritas e gravadas numa inscrição 24 com ponteiro de ferro e com chumbo, cravadas na rocha para sempre! 25 Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; 26 e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. 27 Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros. Dentro de mim consomem-se os meus rins”.

Evangelho: Lc 10,1-12

Naquele tempo, 1 o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. 3 Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa nem sacola nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! 5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. 8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, 9 curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. 10 Mas, quando entrardes nu­ma cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: 11 ‘Até a poeira de vossa cidade que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’ 12 Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”.

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Deus Está Acima De Nossos Argumentos

Jó 19,1-29 é um dos discursos mais importantes de Jó. Aqui se sublinham a certeza da consciência limpa de Jó, da convicção do Juiz Supremo que dá a Jó razão e a certeza de que Deus se lembra de Jó. Jo 19 contém um ato de fé de Jó: “Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó” (Jo 19,25). Jó fala diretamente aos amigos acusando-os de fazer censuras injustas contra ele. O que se acentua em Jó 19 é que exatamente Deus quem atua como amigo de Jó. Jó suspeita de que o abandono de Deus seja apenas aparente e passageiro.Jó sabe ser inocente em seu sofrimento e não se trata de retribuição pelos suspostos pecados como acusaram os seus três amigos. Jó afirma claramente que sua desventura não é devida a uma ação má pessoal e sim, é infligida por uma ação livre e pessoal de Deus.

Piedade, piedade de mim, meus amigos, pois a mão de Deus me feriu! Por que me perseguis como Deus, e não vos cansais de me torturar? Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”, disse Jó aos seus amigos que querem convencê-lo de que os males que lhe afligem se devem a seus pecados.

Vimos ontem que a resposta de Jó à pergunta: “Por que existe o mal, o sofrimento e a morte?” era : “o mal é incompreensível, mas sou demasiado débil para compreender, e quero confiar em Deus que fez coisas tão boas e tão esplêndidas”. No texto de hoje, o pensamento de Jó progrediu a ponto de crer que nada é impossível para Deus. inclusive, a morte não pode ser um obstáculo para Deus. Todavia, se todas as aparências terrenas me dizem o contrário, eu continuo crendo em Deus. A fé é uma aposta, um salto no desconhecido total, mas confiando também totalmente n´Aquele em Quem confio.

No fundo, Jó tem fé em Deus. Ainda que no Antigo Testamento não tenha ideia clara da outra vida, Jó confia em Deus, e, de alguma maneira, parece intuir já o que nos revelará mais plenamente o Novo Testamento: “Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”. Este “redentor” é a figura do “Goel” em Lv 25,25 que é o parente mais próximo que sai em defesa de uma viúva ou de um órfão que foi tratado injustamente.

No Lecionário das exéquias cristãs aparece a leitura de hoje. Nós, sim, podemos dizer com razão: “Eu sei que o meu Redentor está vivo”. Para nós, nossa vida e nossa morte têm seu sentido mais profundo em nossa solidariedade com Cristo Jesus, em nossa comunhão de destino com o Senhor Jesus. Pelo nosso Batismo já fomos incorporados na sua Páscoa: na sua morte e ressurreição. Não só a dor, mas também a vida. Não somente a vida, mas também o mistério da dor. Tudo isso ilumina a vivência dos momentos difíceis e nos ajuda a poder comunicar aos outros nossa fé e esperança.

Há dois raios de luz que saltam da Palavra de Deus hoje. O primeiro, vem do livro de Jó. É um grito de esperança em meio da prova que vive: “Depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”. Como é possível manter este grito quando se bebe do cálice do sofrimento? As palavras de Jó são como uma antecipação das palavras finais de Jesus: “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

O segundo raio de luz é uma mensagem de Jesus dirigido aos discípulos de todos os tempos: “Põe-os em caminho!”. São convidados a ir caminhando. Às vezes sonhamos em ter tudo claro para tomar um decisão. Mas esperar para ver com claridade nos paralisa. A luz se faz caminhando. Porque toda vez que nos pomos em caminho, o Senhor, como nos recorda o relato de Emaús (Lc 24,13-35), se põe a caminhar conosco. E Ele é o próprio Caminho, a Verdade das verdades e a Vida de todas as vida (Jo 14,6). Ponhamos em caminho sabendo que o Senhor vai conosco, sempre disposto a levar a cabo, por meio de nós, Sua obra de amor e de salvação entre nós, para que nos vejamos livres de tudo aquilo que nos oprime e destrói. Acudamos ao Senhor, pois Ele quem nos assinala o caminho por onde temos que ir até nos encontrarmos com Ele, não somente em Seu templo, mas também na vida diária e na Via eterna.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 26/27), mais uma vez, quer nos infundir sentimentos de fé e de confiança em Deus. Não entendemos o mistério do mal ou o mistério da morte, mas sim sabemos confiar em Deus, que é sempre Pai: “Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes. Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor!”.

É Preciso Colaborar Na Missão Deixada Por Jesus a Partir De Nossas Carismas

O evangelista Lucas, como Mateus, fala duas vezes sobre a missão. Logo se strata de um tema importante para a Igreja. No capítulo anterior do evangelho lido neste dia, lemos que a missão antes foi confiada aos Doze (Lc 9,1-6). Mas a obra de Jesus não está encerrada e não se restringe para um grupo pequeno. Realiza-se e expande-se através dos setenta (e dois). Com o número setenta (e dois) Lucas quer nos dizer que a missão não é apenas exercida por um pequeno grupo de pessoas, mas todos os que seguem a Jesus, todos os batizados têm a mesma missão de continuar a obra de Jesus. Todos os cristãos têm a mesma missão. Missão significa que alguém é enviado. Jesus envia todos os cristãos ao mundo para serem testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse, especialmente de sua morte e ressurreição por amor à humanidade. Por isso, a missão dos discípulos tem como primeiro princípio ser testemunho do amor, do perdão, da justiça e da verdade, dentro e fora da comunidade.

São enviados como cordeiros entre os lobos. O lobo é o símbolo da violência e da arrogância, da vontade de dominar e de corromper os outros. O cordeiro simboliza a mansidão, a fraqueza, a fragilidade. O cordeiro só consegue se salvar da agressão do lobo se o pastor intervém na sua defesa. Os discípulos não podem contar com a força, o poder e a violência. Devem estar sempre desarmados. Para isso, é necessário que os discípulos estejam vigilantes para que eles não sejam conduzidos a cumprir as ações dos lobos como o abuso de poder, as agressões, as violências etc..  Jesus salvou o mundo, comportando-se como cordeiro, e não como lobo.

Ao enviar 70 (e dois) discípulos para a missão Jesus dá as seguintes recomendações:

Primeiro, Deus quer que mudem as relações entre os seres humanos; que todos se vejam como iguais e se tratem como irmãos, pois todos são filhos e filhas do mesmo Pai do céu. Por isso, eles têm que viver como uma família, sem competições e sem ambições. O Reino não é tarefa para gente solitária. Por isso, Jesus envia os 70 (e dois) de dois em dois para que se ajudem, se confrontem e se complementem. Quando se compartilhar o que se tem, haverá sobra. Esta é a experiência do grupo de Jesus e daqueles que querem ser discípulos de Jesus.

Segundo, o Reino de Deus que eles anunciarão vai vencer o mal e a morte, porque o Reino de Deus vai ter a última palavra e não o mal. Por isso, o mal não tem futuro. Deus quer que todos tenham vida (Jo 10,10). Por isso, todos têm que optar pela vida e não pela morte eterna, e pelo bem e não pelo mal.

Terceiro, todos devem pôr toda sua confiança no Pai celeste, mas nos meios humanos. Isso é condição fundamental para quem quer colaborar com o Reino de Deus. É a pobreza no espírito. Essa pobreza no espírito lhes dará liberdade e será um testemunho maior do que mil palavras de que o Reino não se impõe pela força e sim que se oferece como amor e por isso, livre de todo poder. E devem aprender a reconstruir as relações de confiança formando uma comunidade de irmãos como o próprio Deus quer. Devemos abandonar nossos egoísmos, deixar a auto-suficiência e nos entregar nas mãos de Deus para que o Reino de Deus aconteça aqui e agora.

O fundamental que os discípulos devem ter em conta é que eles estão trabalhando na construção do Reino de Deus e não por seu próprio reino. Se cada um se preocupar em construir o próprio reino, haverá guerra permanente e disputa permanente, pois cada um quer defender o próprio reino e não o Reino de Deus. Quem tem consciência de que trabalha pelo Reino de Deus, também acredita na providência divina. Quem acredita somente na própria força e técnica, um dia vai se cansar quando as próprias forças se esgotarem. As ovelhas são do Senhor, temos tarefa de apascentá-los. A vinha é do Senhor, somos apenas colaboradores para essa vinha.

O envio dos 70 (e dois) tem, então, como horizonte fundamental o Reino de Deus. Este constitui o conteúdo de toda pregação cristã e o horizonte que jamais devemos perder de vista quando referimos à ação da Igreja no mundo. A Igreja existe em função do Reino. A Igreja existe a serviço do Reino de Deus. A Igreja não é o Reino de Deus.

A missão serve tanto para formar missionários como para despertar os que são visitados para serem também missionários. Todos são enviados para fazer missão e para tornar o outro missionário.

É bom cada um perguntar-se: “O que é que tenho contribuído na missão do Reino de Deus? O que é que tenho feito até agora na evangelização? Qual é o lugar da Palavra de Deus na minha vida? Será que faço parte daqueles que criticam muito, mas nada colaboram?”.

Quando  levantamos os olhos e vemos um mundo consumido pelo egoísmo, pela corrupção, pela injustiça social, pela exploração dos inocentes, um mundo que se destrói  a si mesmo com guerras e vícios, enfim, quando vemos que a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo não penetra nossos corações e as estruturas do mundo, podemos compreender que efetivamente a messe é grande e os trabalhadores são poucos. Não é que o Senhor não tenha atendido a oração da Igreja e sim porque poucos que responderam o convite do Senhor. Não pensemos somente nas vocações religiosos (sacerdotes e religiosas), pensemos em que cada um de nós, pelo Batismo, somos convertidos em discípulos do Senhor, em homens e mulheres comprometidos a testemunhar nossa fé. Se cada um dos batizadaos tomasse a sério seu papel na Igreja, as mãos se multiplicariam e o trabalho seria muito mais fácil. Jesus chama cada um de nós, seja casado, seja solteiro ou religioso consagrado, a participar ativamente na evangelização a partir dos dons que cada um recebeu do Senhor. tomemos com zelo esta chamado e a partir de nossa vocação particular, façamos nossa contribuição na evangelização para que Cristo seja verdadeiramente o Senhor de todos os corações. Você pode fazer algo. Decida-se! Não demore, pois o tempo passa sem parar.

Para Refletir:

  • “A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se frente àqueles que só vêem confusão, perigos e ameaças ou àqueles que pretendem cobrir a variedade e complexidade das situações com uma capa de ideologias gastas ou de agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários. Isso não depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade, como discípulos de Jesus Cristo e missionários de seu Reino, protagonistas de uma vida nova para uma América Latina que deseja reconhecer-se com a luz e a força do Espírito” (Documento Aparecida da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, no. 11).
  • “Cada comunidade é interpelada e convidada a assumir o mandato, confiado por Jesus aos Apóstolos, de ser suas «testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (At 1, 8); e isso, não como um aspecto secundário da vida cristã, mas um aspecto essencial: todos somos enviados pelas estradas do mundo para caminhar com os irmãos, professando e testemunhando a nossa fé em Cristo e fazendo-nos arautos do seu Evangelho. Convido os bispos, os presbíteros, os conselhos presbiterais e pastorais, cada pessoa e grupo responsável na Igreja a porem em relevo a dimensão missionária nos programas pastorais e formativos, sentindo que o próprio compromisso apostólico não é completo, se não incluir o propósito de «dar também testemunho perante as nações», perante todos os povos. Mas a missionariedade não é apenas uma dimensão programática na vida cristã; é também uma dimensão paradigmática, que diz respeito a todos os aspectos da vida cristã (Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões de 2013).

P. Vitus Gustama,svd

Santos Anjos Da Guarda, Memória,02/10/2024

SANTOS ANJOS DA GUARDA

02 de Outubro

SER IRMÃO E FAZER-SE PEQUENO

 

Primeira Leitura: Êx 23,20-23

Assim diz o Senhor: 20“Vou enviar um anjo que vá à tua frente, que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que te preparei. 21Respeita-o e ouve a sua voz. Não lhe sejas rebelde, porque não suportará as vossas transgressões, e nele está o meu nome. 22Se ouvires a sua voz e fizeres tudo o que eu disser, serei inimigo dos teus inimigos, e adversário dos teus adversários. 23O meu anjo irá à tua frente e te conduzirá à terra dos amorreus, dos hititas, dos ferezeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus, e eu os exterminarei”.

Evangelho: Mt 18,1-5.10

Naquela hora, 1os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?” 2Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos céus. 4Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus. 5E quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe. 10Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”.

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A fé em um Anjo da Guarda (como Mensageiro de Deus) que acompanha e protege cada pessoa se encontra em várias religiões. A fé católica como também a tradição judaica acredita que Deus destina para cada pessoa um Anjo a fim de acompanhá-lo em todos os momentos e em todos os caminhos, desde o nascimento até a morte. O Anjo (em geral) é o mensageiro de Deus por quem Deus envia uma mensagem para o homem. O Anjo pode chegar até nós numa pessoa (dizemos: “Você é meu anjo”), pode ser através de um sonho e que fala  em nossa alma. O lugar onde os Anjos podem experienciados é o coração do ser humano. A Bíblia e os Santos Padres estão convencidos disso. Isto supõe que cada cristão tenha consciência de que um Anjo é o companheiro fiel dele e por isso, deve “conversar” também com ele na sua oração, especialmente nos momentos de confusão ou desorientação.

O que o Novo Catecismo Da Igreja Católica fala dos anjos?

1.    “A existência dos seres espirituais, não-corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição” (Catecismo Da Igreja Católica, 328).

2.    “A Igreja venera os anjos, que a ajudam na sua peregrinação terrestre e protegem todo o género humano” (Idem n.352).

3.    “Desde o seu começo até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão. Cada fiel tem a seu lado um anjo como protector e pastor para o guiar na vida. Desde este mundo, a vida cristã participa, pela fé, na sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (Idem n.336).

4.    “Na sua liturgia, a Igreja associa-se aos anjos para adorar a Deus três vezes santo; invoca a sua assistência e festeja de modo mais particular a memória de certos anjos [São Miguel, São Gabriel, São Rafael e os Anjos da Guarda] (Idem n.335). 

Quem são os anjos? Santo Agostinho respondeu: “Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espirito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espirito por aquilo que é, enquanto é anjo por aquilo que faz”.  Anjo em hebraico “Mallak”, em grego “Angelos”, significa mensageiro. É nome que significa ministério e ofício. Mas a perfeição de sua natureza vai de acordo com esse sublime ofício que eles exercem de maneira mais permanente que os demais seres da criação. São os “mensageiros” de Deus, por excelência. São seres criados, intelectuais, superiores aos homens, dotados de especial virtude e poder pelo Senhor.

O NT enumera os arcanjos (1Ts 4,16; Judas 9), os querubins (Hb 9,5), os tronos, as dominações, os principados, as potestades (Col 1,16), em outro lugar há outro nome: virtude (Ef 1,21).

“Há que saber que o nome de “anjo” designa a função, não o ser. Com efeito, aqueles santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados anjos, já que somente o são quando exercem seu ofício de mensageiros. Os que transmitem mensagens de menor importância se chamam anjos, os que anunciam coisas de maior transcendência se chamam arcanjos. Por isso, à Virgem Maria não lhe foi enviado um anjo qualquer e sim o arcanjo Gabriel, já que uma mensagem de tal transcendência reueria que fosse transmitida por um anjo da máxima categoria” (São Gregorio Magno, Homilía 34 sobre os evangelios, 8-9 PL 76, 1250-1251).

O que faz os anjos (encargo)? Eles são servidores e mensageiros de Deus. São aqueles que nos indicam o caminho do bem, o caminho de Deus. São aqueles que nos alertam quando estivermos para praticar a maldade. A missão dos anjos é amar, servir e dar gloria a Deus, ser seus mensageiros, cuidar e ajudar os homens. Eles estão constantemente na presença de Deus atentos a suas ordens. Pode-se dizer que são mediadores, custódios, protetores e ministros da justiça divina. Eles nos comunicam mensagens do Senhor importantes em determinadas circunstancias da vida. Em momentos de dificuldade, podemos pedir luz para tomar uma decisão, para solucionar um problema, atuar acertadamente, descobrir a verdade. Por exemplo, temos as aparições à Virgem Maria (Lc 1,26-38), a São José (Mt 1,18-25; 2,13-23), a Zacarias (Lc 1,11-22). Todos eles receberam mensagem dos anjos. Também os anjos apresentam nossas orações ao Senhor: “Quando tu oravas..., eu apresentava as tuas orações ao Senhor” (Tb 12,12-16). Além disso, os anjos nos animam a sermos bons: “Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa” (Lc 15,10).

No dia 02 de Outubro a Igreja celebra a festa dos Santos Anjos da Guarda. A missão dos anjos da guarda é acompanhar cada pessoa no caminho pela vida, cuidá-la na terra dos perigos, protege-la do mal e guia-la no difícil caminho para o Céu. Pode-se dizer que é um companheiro de viagem que sempre está ao lado de cada pessoa, no bons e nos maus momentos. Não se separa dela em nenhum momento. Está com ela enquanto trabalha, descansa, se diverte, reza, quando pede ajuda e quando nãos e pede ajuda. Não se afasta dela nem sequer quando perde a graça de Deus pelo pecado. Os anjos da guarda prestarão auxilio para cada pessoa enfrentar com ânimo as dificuldades da vida diária e as tentações que se apresentam na vida.

Para que a relação da pessoa com o anjo da guarda seja eficaz, cada pessoa necessita falar com ele, chama-lo, trata-lo como o amigo que é. Assim ele poderá converter-se num fiel e poderoso aliado nosso. Recordemos que os anjos os anjos não podem conhecer nossos pensamentos e desejos íntimos se nós não os expressamos, já que somente Deus conhece exatamente o que há dentro de nosso coração. Os anjos somente podem conhecer o que queremos, intuindo-o por nossas obras, palavras, gestos e assim por diante.

Por que se fala, especificamente de uns anjos que nos acompanham pessoalmente, que nos protegem na caminhada cotidiana?

Poderíamos responder, em primeiro lugar, que trata-se de símbolos para falar do amor providente de Deus que cuida de sua criatura para que esta chegue à sua plena realização quando houver colaboração da própria criatura ou das circunstâncias nas quais se encontra. Era normal expressar, através de recursos literários provenientes de um contexto, as realidades misteriosas de Deus usando uma linguagem figurativa.

Em segundo lugar, os anjos são um reflexo misterioso do rosto de Deus e de sua bondade em nossa realidade. De fato, quando alguém nos trata bem, nos ajuda sem reservas etc. logo lhe dizemos: “Você é um anjo!”. Isto significa que a bondade de Deus se reflete naqueles que fazem o bem, chamados de mensageiros de Deus ou anjos de Deus no nosso dia a dia.

Em terceiro lugar, Os anjos da guarda nos revelam a presença transcendente de Deus em cada pessoa, especialmente nos mais pobres. O maior no Reino de Deus é a criança e quem se faz pequeno como criança, porque representa em forma paradigmática o despojamento de todo poder. O despojamento da soberba e da prepotência do poder é a condição para entrar no Reino de Deus. Alguém entra nele, quando descobre o poder de Deus: o poder de seu amor, o poder de sua Palavra e o poder de seu Espírito. Reino de Deus é Poder de amor de Deus. Esta presença de Deus nos mais pobres, que são os maiores no Reino, é o que dá aos pobres essa transcendência.

Cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada povo, tem seu próprio anjo da guarda. O Livro de Êxodo (Cf. Ex 23, 20-23) nos mostra o Povo de Deus conduzido diretamente pelo anjo de Deus. O povo deve comportar-se bem na sua presença, escutar sua voz e não ficar rebelde. No anjo está o Nome de Deus. O Nome é o que Deus é. O anjo é essa presença de Deus no Povo de Deus.

Também cada um de nós deve descobrir nosso próprio anjo da guarda, sentir sua presença e escutar sua voz. Devemos viver conforme a esta presença transcendente em nós e refleti-la continuamente em nosso rosto. Para isso, é preciso ler, meditar e colocar em prática a Palavra de Deus. Estar em sintonia com a Palavra de Deus nos faz sensíveis para a presença de Deus na nossa vida cotidiana e nos torna conscientes de nossa tarefa como mensageiros de Deus na convivência com os demais.

Deus como Pai Providente, sempre vela por nós e se faz próximo de nós por meio de Jesus, seu Filho feito Homem. Ele sempre manifestou e continua manifestando seu amor para com os pobres e os enfermos, para com os pequenos e os pecadores. Ele nunca permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. Seu amor preferencial para aqueles que são considerados como as crianças desprotegidas de tudo e necessitados de tudo, nos recorda qual deve ser também o caminho preferencial no amor da Igreja. Deus nos enviou aos necessitados e aos desprotegidos para que lhes manifestemos de um modo rela e efetivo, o amor misericordioso do Senhor que nos concedeu e que quer que chegue a todos esse amor misericordioso por meio de sua Igreja, isto é, por meio de todos os batizados. Quem vive unidos a Cristo se preocupa em cuidar dos irmaos necessitados como Deus vela por nós. Não podemos, portanto, buscar segurança, sem dar segurança; não podemos esperar receber sem dar, pois há mais alegria em dar do que em receber. Socorramos aqueles que necessitam de nossa proteção, de nossa ajuda, de nosso amparo. 

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa me ilumina. Amém

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O texto do evangelho lido neste dia é escolhido em função da festa dos santos anjos da guarda. É tirado de Mt 18.

O capítulo 18 do evangelho de Mateus é o quarto dos cinco grandes discursos de Jesus neste evangelho. E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitário” onde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão. Este capítulo (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?

Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes do resto. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de afastar-se da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.

Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Para isso, Mt coloca em ordem o material transmitido pela tradição para regular as relações internas da comunidade. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).

Ser Irmão e Fazer-se Pequeno

“Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. Maior aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder.

Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho. Serm. 46,18).

Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Imaginamos que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!

Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos. E fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que estamos no Reino de Deus já neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 28 de setembro de 2024

01/10/2024-Terçaf Da XXVI Semana Comum

É PRECISO CAMINHAR COM JESUS PARA A GLÓRIA

Terça-Feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 3,1-3.11-17.20-23

1Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento, 2 dizendo: 3 “Maldito o dia em que nasci a noite em que foi concebido!”. 11 Por que não morri desde o ventre materno, ou não expirei ao sair das entranhas? 12 Porque me acolheu um regaço e uns seios me amamentaram? 13 Estaria agora deitado e poderia descansar, dormiria e teria repouso, 14 com os reis e ministros do país, que construíram para si sepulcros grandiosos; 15  ou com os nobres, que amontoaram ouro e prata em seus palácios. 16 Ou, então, enterrado como  aborto, eu agora não existiria, como crianças que nem chegaram a ver a luz. 17 Ali acaba o túmulo dos ímpios, ali repousam os que esgotaram as forças. 20 Por que foi dado à luz um infeliz e vida àqueles que têm a alma amargurada? 21 Eles desejam a morte que não vem e buscam mais que um tesouro; 22 eles se alegrariam por um túmulo e gozariam ao receberem sepultura. 23 Por que, então, foi dado à luz o homem a quem seu próprio caminho está oculto, a quem Deus cercou de todos os lados?

Evangelho: Lc 9, 51-56

51 Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém 52 e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, a fim de preparar hospedagem para Jesus. 53 Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém. 54 Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?” 55 Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. 56E partiram para outro povoado.

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Em Cada  Dor Ou Sofrimento Deus Tem Propósito Que Devemos Decifrar Seu Sentido

Maldito o dia em que nasci  e a noite em que foi concebido!. Por que não morri desde o ventre materno, ou não expirei ao sair das entranhas? 12 Porque me acolheu um regaço e uns seios me amamentaram?”, lamentou Jó por causa do seu sofrimento aparentemente indeterminável

Assim começa o drama na vida de Jó. Ontem (no dia anterior), Jó era apresentado como modelo admirável de paciência e de perseverança. Mas hoje, diante de umas calamidades ainda maiores: a enfermidade da lepra, a hostilidade de seus familiares e amigos, Jó sofre uma crise profunda em sua fé em Deus. É comum nós questionarmos a existência de Deus quando um sofrimento injusto é aparentemente insuportável. Pergunta-se, geralmente: Por que Deus não quer intervir nessa situação? Por que Deus aparentemente fica calado diante dos que praticam maldade contra os justos e inocentes? A dor insuportável pode aumentar nossa fé, quando olharmos o sofrimento de Jesus na Cruz como inocente, ou pode diminuir nossa fé porque culpamos Deus que aparentemente não quer nos livrar desse sofrimento.

Também há influência dos três amigos que vêm consolar Jó, mas que na verdade vão agir como “advogados do diabo”, suscitando dúvidas e atacando-o. A lógica deles é mantida: “Você sofre muito, porque você pecou muito”. Jó ficou em silêncio durante sete dias, acompanhado por estes amigos, até que finalmente irrompeu no tremendo grito de rebelião que lemos no texto da Primeira Leitura.

Tudo ruiu: o apoio do seu povo, a sua fé, o seu conceito da bondade de Deus. E a grande questão ou interrogação é feita repetidamente: “Por que...?”. O clamor de Jó é de partir o coração. Ele amaldiçoa o dia em que nasceu, e prefere morrer: "Maldito o dia em que nasci, a noite em que foi concebido!. Por que não morri desde o ventre materno, ou não expirei ao sair das entranhas? Por que me acolheu um regaço e uns seios me amamentaram? Estaria agora deitado e poderia descansar, dormiria e teria repouso... Por que foi dado à luz um infeliz e vida àqueles que têm a alma amargurada?....”.

Já não há em Jó a paciência de ontem. Agora a crise o invade. É uma crise  muito humana: a cadeia dos “porquês” que continuam estando em nossos lábios tantas vezes quando um sofrimento atrás de outro sofrimento invade nossa vida ou nossa família. Para Jó é uma crise que o leva a amaldiçoar sua própria vida e a rebelar-se contra Deus que lhe parece injusto ao castigar um inocente.

Trata-se de um grito que não é somente de Jó. É o grito do profeta Jeremias em uma crise semelhante: “Maldito o dia em que nasci! ...Por que não me matei desde o seio materno? ... Por que saí do seio materno para ver trabalhos e penas?” (Jr 20,14-18). Na origem da crise de Jeremias está a mesma pergunta: “Tu és justo demais, Iahweh, para que eu entre em processo contigo(Jr 12,1).

É o grito de Jesus na Cruz, no cume da dor e da solidão: “Meu Deue, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). É o grito dos que sofreram e continuam sofrendo injustamente.

Por que? É a pergunta que continuamos fazendo quando vemos a desgraça das crianças ou dos inocentes, enquanto que, aparentemente, os malvados continuam a ser fortes e Deus parece “abençoar” esses malvados. Por quê?

Nós cristãos temos um dado novo: a morte e a ressurreição de Jesus. Porém continua nos custando dar com a chave para a resposta a essa pergunta.

Quando nos invadem os dias tão escuros com os dias de Jó, façamos nosso o Salmo Responsorial de hoje (Sl 87/88): “A vós clamo, Senhor, sem cessar, todo o dia, e de noite se eleva até Vós meu gemido. Chegue a minha oração até a vossa presença, inclinai vosso ouvido a meu triste clamor”. Para Jesus o Sábado Santo foi toda escuridão. Mas amanheceu a manhã da ressurreição.

Será que sabemos converter nossa dúvida em oração? Será que sabemos confiar em Deus como fará definitivamente Jó, e, sobretudo, Jesus, apesar de que não entendamos o porquê de tantas coisas na nossa vida e na vida das pessoas ao nosso redor?

Há momentos que nunca gostaríamos de alcançar; mas eles acontecem. Dias de dor, sofrimento, angústia, doença, infortúnio. Então gostaríamos de nos refugiar no ventre da mãe e voltar à terra onde fomos formados. Mas mesmo nos momentos mais árduos das nossas vidas, não podemos desistir covardemente, pois nossa vida pertence a Deus. Devemos continuar trabalhando, arduamente, por uma nova ordem de coisas e por uma humanidade que se reveste de Cristo em que todos nós somos irmãos e por isso, ninguém pode fazer o outro sofrer. O momento em que nosso corpo retorna à terra onde foi formado e nosso espírito retorna a Deus, que o deu, só Ele sabe. Cabe apenas a nós aproveitarmos este tempo de graça que Ele nos concede para criar e manter a fraternidade universal.

Quem Quer Chegar à Glória De Deus Deve Superar Todos Os Sentimentos Destrutivos

O texto do evangelho começa com a seguinte frase: “Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém...”. Em Jerusalém Jesus será morto e de Jerusalém sairá o novo movimento de evangelização para o mundo inteiro (cf. Lc 24,47-48; At 1,8) que chegou até nós hoje. O caminho de Jesus para Jerusalém é um Êxodo: Ele vai sofrer e será morto, mas ressuscitará no terceiro dia.

Todos os três evangelhos (Mt, Mc e Lucas) falam desta viagem. Mas somente Lucas usa esta viagem de Jesus com o motivo catequético básico, de que a vida de Jesus foi também um longo caminhar para uma meta: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. O “caminhar” de Jesus é um êxodo permanente até chegar à glória. Ele luta até chegar à meta: até à glória.

Durante esse caminho Jesus vai instruindo a comunidade de discípulos de acordo com o próprio caminhar de Jesus. Os discípulos de todos os tempos encontram, então aqui, a regra perene de sua atuação cristã. Neste texto encontramos maneira sobre como os cristãos devem se comportar e viver como seguidores de Cristo. Trata-se de uma “caminhada” interior, isto é, a caminhada que parte do que somos até o esvaziamento completo de nós e até a vivência na plenitude da vontade de Deus que é a salvação ou glorificação de nossa vida em Deus.

O fundo do relato do texto do Evangelho lido neste dia é a inimizade e o ódio entre samaritanos e judeus que originalmente é de tipo racial, e depois de tipo político e religioso. O caminho habitual da Galiléia para Jerusalém passa por Samaria. Um grupo galileu de discípulos vai adiante para preparar a hospedagem para Jesus em Samaria. Mas os samaritanos não aceitam a presença de Jesus em Samaria, pois ele está a caminho para Jerusalém. Os samaritanos interpretam o caminho para o Templo de Jerusalém como infra-valorização do templo Garizim construído sobre um monte onde os samaritanos fazem suas atividades religiosas e não em Jerusalém (em 129 a. C João Hircano o destruiu).

Por essa recusa os discípulos disseram a Jesus: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?”. Esta frase nos lembra do episódio entre o profeta Elias, defensor do monoteísmo, contra os mensageiros do rei Ocozias que consultava outros deuses sobre como curar suas feridas. Por isso o profeta Elias pediu o fogo do céu e o fogo caiu sobre esses mensageiros e morreram todos (cf. 2Rs 1,1-18). A atitude de Tiago e de João põe em evidência de que os Apóstolos não entenderam plenamente Jesus. Eles, por sua intolerância, não encontraram outro caminho para tratar aos outros, especialmente aos samaritanos sem o caminho da violência. Jesus repreende energicamente os dois apóstolos.

Diante da proposta dos discípulos Jesus enfatiza que qualquer discípulo, qualquer cristão não pode se mover por sentimentos de vingança, de violência, de ódio, de desafronta, de intolerância ou de intransigência. Quem é tolerante não vê a diferença e a alteridade como ameaça, e sim como estímulo para se aproximar e aprender do outro numa atitude de diálogo.

A atitude de Tiago e João continua presente em muitas religiões ou crenças do mundo. Por todos os meios os seres humanos, ao longo da história, buscaram a forma de acabar com os que pensam, atuam ou vivem de forma diferente. Como cristãos temos que respeitar os demais e fazer possível a paz entre as religiões e crenças. Para isso, primeiramente, deve haver diálogo entre as religiões. Mas antes disso, deve haver um intra-diálogo em cada religião, em vez de radicalismo.

O radicalismo de nossas atitudes, muitas vezes, é uma expressão de nossa pouca bondade. Com esta pouca bondade tomamos atitudes que violentam a história de Deus com os homens. A violência sempre gera um processo desumanizador que perverte radicalmente as relações entre os homens, introduz na história novas injustiças e impede o caminho para a reconciliação.

O fogo que Cristo traz do céu não é aquele que queima e elimina as pessoas, e sim aquele que ilumina e purifica o mundo de suas impurezas. É o fogo do Espírito Santo. É o fogo de amor. O único fogo que nós cristão podemos usar é o fogo de amar aos demais até o fim como fez Jesus. Jesus nos libertou para sermos livres, como diz São Paulo (Gl 5,1). Liberdade em Cristo é para amar mais e melhor. Amar a Deus e ao irmão é condição para ser livre. A liberdade daquele que ama a Deus e ao irmão é a identificação total com a vontade de Deus, com o bem e com a verdade.

Por isso, o caminho que Jesus propõe para quem quiser segui-lo não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica. Implica uma adoção do espírito de Jesus que é o espírito de amor. Seguir Jesus não é uma viagem fácil; pode se converter em uma viagem sem retorno.

Para Refletir

No dia 30 celebramos a memória de São Jerônimo. Reflitamos sobre alguns frases deste santo:

  • Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, e quem ignora as Escrituras ignora o poder e a sabedoria de Deus. Portanto ignorar as Escrituras Sagradas é ignorar a Cristo.
  • Quando rezamos, falamos com Deus,
    quando lemos a Bíblia é Deus que nos fala.
  • Jesus é ciumento: ele não quer nossas afeições colocadas em outras coisas, mas nele só.
  • Nós honramos os santos para adorar aquele de quem somos testemunhas; honramos os servos porque a honra deles recai sobre o Senhor.
  • Quanto mais forem importunas e perseverantes nossas orações, tanto mais serão agradáveis a Deus.
  • Trabalha em algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado.

P. Vitus Gustama,svd

30/09/2024-Segundaf Da XXVI Semana Comum

VIVER COMO JUSTO E SER PARCEIRO DO BEM

Segunda-Feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 1,6-22

6 Um dia, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor; entre eles também Satanás. 7 O Senhor, então, disse a Satanás: “Donde vens?” “Venho de dar umas voltas pela terra”, respondeu ele. 8 O Senhor disse-lhe: “Reparaste o meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e correto, teme a Deus e afasta-se do mal”. 9 Satanás respondeu ao Senhor: “Mas será por nada que Jó teme a Deus? 10 Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Tu abençoaste tudo o que ele fez, e seus rebanhos cobrem toda a região. 11 Mas, estende a mão e toca em todos os seus bens; e eu garanto que ele te lançará maldições no rosto!” 12 Então o Senhor disse a Satanás: “Pois bem, de tudo o que ele possui, podes dispor, mas não estendas a mão contra ele”. E Satanás saiu da presença do Senhor. 13 Ora, num dia em que os filhos e filhas de Jó comiam e bebiam vinho na casa do irmão mais velho, 14 um mensageiro veio dizer a Jó: “Estavam os bois lavrando e as mulas pastando a seu lado, 15 quando, de repente, apareceram os sabeus e roubaram tudo, passando os criados ao fio de espada. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 16 Estava ainda falando, quando chegou outro e disse: “Caiu do céu o fogo de Deus e matou ovelhas e pastores, reduzindo-os a cinza. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 17 Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos consigo, depois de passarem os criados ao fio da espada. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 18 Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Teus filhos e tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho na casa do irmão mais velho, 19 quando um furacão se levantou das bandas do deserto e se lançou contra os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens e os matou. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 20 Então, Jó levantou-se, rasgou o manto, rapou a cabeça, caiu por terra e, prostrado, disse: 21 “Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!” 22 Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem se revoltou contra Deus.

Evangelho: Lc 9,46-50

Naquele tempo, 46 houve entre os discípulos uma discussão, para saber qual deles seria o maior. 47 Jesus sabia o que estavam pensando, pegou então uma criança, colocou-a junto de si 48 e disse-lhes: “Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”. 49 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lho proibimos, porque não anda conosco”. 50 Jesus disse-lhe: “Não o proibais, pois quem não está contra vós, está a vosso favor”.

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Viver Como Justo Apesar Dos Sofrimentos, Pois Deus É Justo

"Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!”.

Durante alguns dias vamos acompanhar, nos dias da semana, a leitura de outro livro sapiencial: o Livro de Jó. Este livro não pode ser lido superficialmente nem fragmentariamente. Este livro é para ser lido com uma profunda reflexão. Cada leitor é chamado a se colocar no lugar de Jó, o proganista do livro, para compreender sua situação, suas reações psicológicas e sua fé. Trata-se de um livro que questiona uma fé baseada apenas nos conhecimentos ou teorias, não alinhada com a experiência da vida cotidiana com sua complexidade, com Deus que se manifesta nos acontecimentos e na História, e portanto, é um Deus que nos acompanha diariamente (Cf. Mt 28,20). Todos os dias Deus sempre tem algum apelo para qualquer ser humano através de suas experiências cotidianas. Basta parar para fazer reflexões sobre estas experiências a fim de decifrar seu sentido.

O livro de Jó é uma obra que ocupa o ponto mais alto da literatura bíblica. Ele trata de um dos temas muito concretos na vida do homem: a situação e as atitudes do homem diante da dor e o justo-inocente que sofre. Este livro também questiona a teologia de retribuição em que reinava o pensamento de que quem sofria era porque tinha cometido algum pecado como um tipo de castigo de um suposto Deus.

Jó contesta este tipo de teologia através do diálogo com seus tres amigos: Elifaz, Baldad e Sofar, defensores eloquentes da visão tradicional da retribuição divina. Mas o propósito do autor do livro de Jó não é de ridicularizar a doutrina tradicional e sim mostrar que ela é simplesmente insuficiente. A doutrina tradicional contém muita verdade moral e religiosa, porém é corrompida pelo exagero.  O único exagero que podemos ter é fazer a bondade em qualquer lugar, e tempo e para qualquer pessoa.

O Livro de Jó, um livro sapiencial do século V antes de Cristo, é um dos mais impressionantes do Antigo Testamento. Os críticos creem que o livro foi escrito nos tempos posteriores ao exílio, e reflete as inquietudes das escolas de “sábios” que se preocupavam com os problemas pessoais do individo como tal, revisando as teses conformistas tradicionais.

Não conhecemos o nome do autor deste maravilhoso livro sapiencial, mas sem dúvida nenhum, é um judeu que conhece as leis mosaicas.

A figura central do livro é Jó, um homem justo e perseverante. Neste livro, o relato é organizado a modo de parábola sapiencial, como desenvolvimento de uma interrogação que preocupa a humanidade em todos os tempos: o problema do mal e da dor: Por que Deus permite que os inocentes, os justos passem por tantas desgraças?

O livro é composto de um prólogo e epílogo muito poético, enquanto o corpo central, quarenta capítulos, é um entrelaçamento de solilóquios e orações de Jó, de conversas com seus amigos e a resposta de Javé (Deus).

Os amigos repetiram a Jó sua interpretação: Jó sofre porque cometeu algum delito na presença de Deus. mas o autor do livro não crê nessa explicação e continua buscando outra resposta sobre a existência do mal: deve ter outra razão misteriosa, a não ser que Deus seja caprichoso e cruel.

Mas nem sequer as palavras finais que o autor coloca nos lábios de Deus fornecem uma solução completamente convincente. Lembre-se de que estamos no AT: todavia,ainda não se tem uma ideia clara da outra vida, nem se acendeu a luz da Páscoa de Jesus, o verdadeiro Inocente que experimenta uma injustiça maior do que a de Jó, a morte.

Este livro poético-didático e maravilhoso gira em torno da tragédia de um justo em Israel que foi submetido a provações terríveis por Deus para avaliar sua virtude. De fato, o problema teórico que surge nesta obra é o sofrimento do justo nesta vida, uma questão que tinha sido levantada nas várias literaturas da antiguidade. Hagiógrafo, em vez de colocar o problema em abstrato, ele prefere apresentar a história de um justo irrepreensível, que, apesar de sua verdadeira virtude, sofre as mais terríveis penalidades: perda de riquezas materiais, da família e da própria saúde. No entanto, ele aceita a prova resignada, porque tudo vem de Deus: o bem e o mal.

A tese tradicional na sociedade israelita era que Deus recompensa a virtude nesta vida e castiga o vício. Aos cumpridores da lei divina são reservados todos os tipos de bens temporais: longevidade de vida, prosperidade material, numerosa posteridade ou descendência, enquanto que  aos pecadores lhes  espera a morte em plena juventude, a perda de seus bens e a esterilidade. Por outro lado,  se estabelece uma relação causal entre o pecado e o sofrimento, de modo que aquele que sofria contrariedades de ordem física ou moral tinha por causa o pecado indefectível. A história do justo Jó será a prova irrefutável de que essa tese, geralmente aceita pela sabedoria tradicional, não tem validade em todos os casos e, portanto,não se deve atribuir necessariamente a infelicidade e a enfermidade ao pecado como causa.

O livro começa, como lemos na Primeira Leitura de hoje, com um prólogo que é um conto dramatizado. No céu, na presença de Deus, tem lugar como um conselho pastoral, em que Satanás, “o adversário”, põe em dúvida a solidez de Jó, e desafia Deus para testar Jó, para ver se ele é tão fiel quanto parece.

Todos os tipos de calamidades recaem sobre o pobre homem, Jó. E, no momento, sua reação é consistente com sua reputação como paciente. Suas palavras têm sido um slogan para tantas pessoas ao longo dos séculos: "Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!”.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 16) reflete a fidelidade de Jó: “Ó Senhor, ouvi a minha justa causa, escutai-me e atendei o meu clamor! Inclinai o vosso ouvido à minha prece, pois não existe falsidade nos meus lábios!”.

Não é fácil ver as coisas a partir desta perspectiva. No momento, Jó na se rebela contra Deus. Porém, mais adiante ele terá crises profundas.

A desgraça e a dor são uma realidade com que tropeçamos frequentemente. Os ensinamentos do Livro de Jó são sempre atuais. Jó era uma homem temeroso de Deus que recebia inumeráveis bênçãos. Satanás insinua que a virtude de Jó é interesseiro e que desapareceria com a destruição de suas riquezas. Jó foi despojado de todos os bens e de sua saúde. Sua conformidade com a vontade de Deus e sua fé se manteve firme apesar das sombarias que ferem que saíram da boca de sua mulher: “Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2,10).

Hoje pode ser uma boa oportunidade para que examinemos nossa postura diante do Senhor, quando, em nós ou naqueles que amamos, acontecem a desgraça e a dor. Deus é nosso Pai e por isso, sabe muito bem o que fazer com nossa situação. Basta manter nossa fé nele que nem sempre é fácil neste tipo de situação. A pergunta fica para nós: será que nos comportamos como filhos agradecidos na abundancia e na escassez, na saúde e na enfermidade? 

Muitas vezes, fora da fé, o sofrimento do inocente e do justo casa desconcerto. Enquanto que a vida dos outros que viveram longe de Deus, está sorrindo a eles. A Paixão de Cristo é a única que pode iluminar este mistério do sofrimento humano, de modo particular do inocente. Na Cruz de Cristo não somente se cumpriu a redenção mediante o sofrimento e sim que o próprio sofrimento humano ficou redimido. Os padecimentos de Jesus forma o preço de nossa salvação. desde então, nossa dor pode se unir à dor de Jesus e participar na redenção da humanidade inteira. Nunca a dor passa ao nosso lado deixando-nos como antes. Ao contrário, ela purifica nossa vida e aumenta o grau de união com a vontade divina em Jesus Cristo e nos ajuda a desapegarnos de de nossos bens materiais. Temos que aprende a olhar para Cristo em meio de nossas provações e tribulações.  Nos fixemos, pelo menos, na Cruz de Jesus e daremos passo ao amor. E entenderemos que carregar a Cruz tem sentido quando a levarmos junto ao Mestre Jesus. Ao pés do Crucificado compreenderemos que não é possível amar sem sacrifício.

É Preciso Ter a Autoridade e Não o Poder

O Evangelho deste dia nos narra a parte final da atividade de Jesus na Galileia. A partir de Lc 9,51-19,28 Jesus sairá da Galileia rumo a Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado.

Na primeira parte do evangelho lido neste dia o evangelista Lucas nos relatou que entre os discípulos houve uma discussão sobre quem era maior ou quem tinha mais poder. Em outras palavras, eles tinham ambição de ter o poder na mão. Isso significa que até então eles ainda não captaram o essencial da mensagem de Jesus que é preciso pensar no outro e fazer tudo pela sua salvação.

Quem tem o poder geralmente impõe aos outros suas decisões, muitas vezes através dos meios injustos como opressão, repreensão, tortura, ameaça, execução etc.. O poder não respeita a liberdade humana, por isso ele não faz que os homens se tornem bons.  O poder obriga e impõe o silêncio. Quem tem poder geralmente não se preocupa com a ética e com a humanidade. Aquele que tem poder sempre tem tendência de manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. O ambicioso pelo poder, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais e por isso, ele procura todos os meios para humilhá-los e eliminá-los. Ele considera “justo” e “honesto” o uso da violência para atingir seus objetivos. Ele não tem consciência de que o poder é passageiro. Quem desejar ser o primeiro a todo custo não pensa na justiça e na honestidade nem na necessidade dos outros. O respeito aos outros está ausente na vida de um ambicioso.

O contrário do poder é a autoridade. A autoridade está ligada ao crescimento. A palavra “autoridade” vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Exercer a autoridade significa sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento sabendo que eles são pessoas que tem um coração, nas quais existe o Espírito de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. Na linguagem bíblica, a autoridade é uma rocha que dá apoio. É o pastor que conduz o gado para o bom pasto (cf. Sl 23 sobre o bom pastor; cf. Jo 10). Os membros da comunidade são essencialmente o rebanho de Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Os membros de uma comunidade logo sentem quando os responsáveis (autoridade) os amam e querem ajudá-los a crescer e não quando estão presentes apenas para administrar, impor sua lei e sua própria visão. A autoridade é o autêntico serviço para a comunidade. A crise de liderança geralmente surge da crise da autoridade.

O grande não é reinar e sim servir no espírito de Jesus. Para Jesus servir é coisa grande e faz quem serve grande diante de Deus, pois servir o mais desprezado dos homens é servir a Deus (cf. Mt 25,40.45). É imitar Jesus.

Os discípulos de Jesus, mesmo estando com Ele, nunca abandonaram suas pretensões de poder. E nós, será que também nós não abandonamos nossas pretensões de poder ao estar na Igreja? Ou usamos a Igreja para facilitar o alcance de nosso poder?

Hoje necessitamos criar uma catequese que realmente cultive o conhecimento de Jesus e a prática de suas atitudes, pois o que Jesus queria era criar um grupo de pessoas que, ao atender a chamada de Deus, proporcionam novas alternativas de vida.

É Preciso Ser Parceiro do Bem

A segunda parte do Evangelho de hoje nos relata que o discípulo João se queixa por ter visto alguém “expulsando demônios” em nome de Jesus, mas esse alguém não pertence ao grupo dos discípulos. A reação de João é imediata: proibir que se faça o bem, pois não é membro da comunidade dos seguidores de Cristo. Com essa proibição os discípulos mostram seu comportamento incompatível com o Reino de Deus: arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta.          

Diante desse comportamento dos discípulos Jesus disse-lhes: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”. Com esta exortação Jesus quer que os discípulos superem o sectarismo na prática do bem.  A comunidade cristã deve ser colaboradora na prática do bem e acolher todas as pessoas que praticam o bem independentemente de pertencer ou não à Igreja. Cada cristão deve ser parceiro do bem e por isso, deve reconhecer o bem praticado por qualquer pessoa. Se realmente alguém pratica o bem é porque tem algo de Deus dentro dele, pois Deus é o Bem supremo. E tudo que Ele criou era bom (cf. Gn 1,1ss).

O Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Ele não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja ou religião ou grupo tem o monopólio do Espírito Santo, nenhuma instituição consegue controlá-lo nem prendê-lo. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e o seu projeto de vida.

Somos convidados a abandonar atitudes como o fanatismo, a intolerância, a intransigência, preconceitos, etc. , pois elas fazem fechar os olhos e o coração diante da manifestação do amor de Deus em tantas pessoas de boa vontade mesmo que se digam não acreditar em Deus, mas Deus acredita nelas por causa do bem que elas praticam. Não temos que sentir-nos ciumentos se Deus quer agir no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja. É preciso ser parceiro deste tipo de pessoa.

Os cristãos são chamados a constituir uma comunidade sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, pois estes sentimentos e atitudes são incompatíveis com a opção pelo Reino: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5b;Pr 3,34).

P. Vitus Gustama,svd

07/04/2025-Segundaf Da V Semana Da QUaresma

JESUS E SEUS ENSINAMENTOS SÃO A LUZ-VIDA PARA A HUMANIDADE Segunda-Feira da V Semana da Quaresma I Leitura: Dn 13,1-9. 15-17.19-30.33-...