domingo, 29 de dezembro de 2024

04/01/2025-Sábado Do Tempo De Natal, Antes da Epifania

BUSCAR O ESSENCIAL PARA NOSSA SALVAÇÃO: O QUE VOCÊ ESTÁ BUSCANDO NESTA VIDA ESSENCIALMENTE?


Primeira Leitura: 1Jo 3,7-10

7 Filhinhos, que ninguém vos desencaminhe. O que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. 8 Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo. 9 Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus fica nele; ele não pode pecar, pois nasceu de Deus. 10 Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama seu irmão.

Evangelho: Jo 1,35-42

Naquele tempo, 35 João estava de novo com dois de seus discípulos 36 e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” 37 Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. 38 Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “Que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?” 39Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde. 40 André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram Jesus. 41 Ele foi logo encontrar seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias (que quer dizer: Cristo)”. 42 Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).

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1. Amor: Ensinamento Central de Jesus

Se ontem, nos alegrávamos da grande afirmação de que somos filhos de Deus, hoje a Carta de João cujo texto lemos na Primeira Leitura insiste nas consequências desta filiação: aquele que se sabe filho de Deus, não deve pecar. A expressão “não deve pecar” já se explicou no dia anterior que se trata de lutar com Cristo contra o pecado que destrói o ser humano, pois na mesma Carta o autor afirma que quem se diz sem pecado é mentiroso (1Jo 1,8).

No texto da Primeira Leitura de hoje contrapõem-se os filhos de Deus e os filhos do diabo; os que nascem de Deus e os que nascem do maligno. O critério para distingui-los está em seu estilo de vida, em suas obras. É totalmente incompatível o pecado com a fé e a comunhão com Jesus.

Filhinhos, que ninguém vos desencaminhe. O que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio”, assim lemos no texto da Primeira Leitura de hoje.

Conforme o texto da Primeira Leitura de hoje, o autor da Primeira Carta de são João nós dá os critérios de verificação para saber em nome de quem agimos na nossa vida cotidiana. O critério do autor é bem simples: se praticarmos a justiça é porque viemos de Deus e permanecemos em Deus e com isso, estamos em sintonia com Cristo. Quem destrói o amor fraterno é porque ele está agindo em nome do diabo, pois o trabalho do diabo é desunir as pessoas e não deixar as pessoas se amarem mutuamente. Tudo isto nos mostra que do mesmo modo que se pode viver “em comunhão com Deus”, pode-se também “viver com o diabo”. Podemos estar unidos a Deus como também podemos nos encadear ao mal. Nisto exige-se a vigilância permanente. A fronteira que separa os filhos de Deus dos filhos do diabo passa pelo nosso próprio coração. É sempre bom cada verificar seu coração: qual aspecto da minha vida que mostra que sou de Deus, e qual aspecto que indica que sou do diabo.

O autor da Carta de João repete o que ele escreveu previamente, intentando dizer novamente que o central nos ensinamentos de Jesus é amor. É um amor revelado em ações e não simplesmente em palavras ou profissões de fé. Nossas ações e obras revelam nossa identidade se realmente somos filhos de Deus e santos ou se somos gerados pelo diabo (aquele que desune) e pelos pecadores. Não temos que nos deixar enganar pelas palavras ou por qualquer coisa que não atue de acordo com o amor de Deus: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus fica nele; ele não pode pecar, pois nasceu de Deus. Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama seu irmão”.

Para João a linha divisória entre os que são de Deus e não o são é o amor fraterno, pois o amor vem ou nasce de Deus. O amor fraterno nos revela nossa pertence a Deus e nos revela que somos seguidores de Cristo (Cf. Jo 13,35).

Afinal, para são João “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Se Deus é amor, ele não pode deixar de amar independentemente de nossa situação. Toda a atividade de Deus é uma atividade amorosa. Se cria, Ele cria por amor; se governa as coisas, o faz no amor; quando julga, julga com amor. Tudo quanto Deus faz é expressão de sua natureza, e sua natureza é amar. E Amar é dar-se a si mesmo. Deus ama não para completar-se, mas para completar e aprefeiçoar o ser humano; não para realizar-se, mas para realizar. Deus, amando, não procura sequer a sua glória, mas esta glória nada mais é do que amar o homem gratuitamente.

Num mundo acostumado ao comércio, ao preço das coisas, é difícil entender a gratuidade; é difícil entender a ação de Deus que quer dialogar, e amar com liberdade a todos, oferecendo a oportunidade de salvação, graça e vida. Basta o homem deixar-se levar pelo “Deus de amor”, ele terá uma força transformadora na sua vida. E com esta força o homem será capaz de apresentar-se com o aspecto mais compassivo e misericordioso, e falar com o estilo mais humano e educado, e viver com outro calor humano, conviver com mais fraternidade. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Uma vez por todas, foi-te dado somente um breve mandamento: Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige com amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem”.

Diante da oferta do amor que Deus faz, o homem tem de fazer sua escolha. A aceitação significa a salvação. Mas se cada um prefere continuar a ser escravo do egoísmo, da avareza e da autossuficiência, auto-exclusão da salvação, então ele se exclui por conta próprio da comunhão com Deus de amor. Deus criou o céu e não o inferno. Pelas suas escolhas erradas, o próprio homem cria o inferno. Seremos aquilo que somos no presente. Quem você é neste momento? Quem sou neste momento? O que pretendo ao fazer certas coisas neste momento?

A partir de tudo isso nós ficamos nos perguntando: Será que realmente amamos nossos irmão e irmãs para mostrar que Deus em quem acreditamos é amor (cf. 1Jo 4,8.16)? Que tipo de Deus que revelamos para os outros através de nossas ações?                     

2. João Batista: Apresentar O Cordeiro Que Tira O Pecado E Aceitar Desaparecer Da Cena

O texto do Evangelho deste dia é a continuação do texto do evangelho do dia anterior. No evangelho deste dia João Batista é apresentado como uma figura estática. Está no mesmo lugar do dia anterior: “... estava lá de novo”. Isto significa que ele permanece no seu posto enquanto dura sua missão, o que indica a fidelidade, compromisso e responsabilidade até o fim. Só se retira quando começa a missão de Jesus no momento em que ele dirá: “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

A palavra “compromisso” ou “fidelidade” é cada vez mais cara hoje em dia. O prazer, o hedonismo, o interesse individual e a liberdade sem freio fazem com que muitas pessoas vivem apenas na superficialidade. Elas se esquecem que a liberdade humana é sempre um cultivo e um crescimento interior. A liberdade implica o desenvolvimento pleno do fazer e do ser.

A verdadeira liberdade supõe a existência da responsabilidade. Responsabilizar-se é elevar a própria existência para uma dimensão superior. Ter responsabilidade significa ser coerente com os próprios atos, com os valores reconhecidos universalmente e, por extensão, ser solidários com outras pessoas, tendo em vista os mesmos valores.    

Se João Batista se mostra como uma figura estática, Jesus é, pelo contrário, apresentado em movimento. Não se sabe de onde vem nem é dito para onde vai. Mas João Batista, que sabe da origem de Jesus, volta a olhá-lo e repete seu testemunho: “Eis o Cordeiro de Deus”.                    

João Batista “fixa o olhar em Jesus” e diz: “Eis o Cordeiro de Deus”. Saber olhar faz parte da fé. O olhar do coração ou o olhar da fé ultrapassa a realidade sensível em que penetra. O olhar superficial, ao contrário, jamais enxerga alguém, pois ele somente quer se olhar e quer ser olhado. Quem se olha somente para si, jamais percebe a presença do outro nem a de Deus. O olhar superficial reflete, na verdade, a nossa pobreza espiritual. João Batista que vê Jesus que vem não guarda para si como propriedade privada o que viu. Ele quer que os outros vejam o que ele vê. Ele indica aos outros o Messias e aceita desaparecer, pois João Batista é apenas uma “voz” que prepara o caminho do Messias (Jo 1,23). “Essa é a minha alegria e ela é completa. É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,29-30), afirma João Batista com toda a humildade e com a plena consciência.                     

Toda vez que participamos da Eucaristia ouvimos ou contemplamos a frase de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Quem comunga o Cordeiro de Deus deve estar consciente da missão de se identificar com o Cordeiro que se doa por amor para salvar os irmãos. Quando a missa era celebrada em latim ouvia-se esta frase, certamente, no fim da mesma: “Ite, missa est!”, “Ide, sois enviados!”. Enfatiza-se, assim, o compromisso de cada participante como enviado de Deus ao sair da igreja ou templo depois que comungou o Cordeiro de Deus. Em cada Eucaristia da qual participamos ouvindo a Palavra do Senhor, nós sempre recebemos alguma missão a ser cumprida. A pergunta é a seguinte: “O que é que a Palavra de Deus, proclamada em cada Eucaristia da qual eu participo, quer que eu cumpra?”. Cada Palavra de Deus proclamada sempre tem uma palavra para mim para que eu leve adiante. 

3. Buscar o Essencial Com Jesus       

O texto do Evangelho de hoje nos relata que o testemunho de João Batista provoca uma inversão no rumo da vida dos seus dois discípulos. Eles começam a seguir Jesus. “Seguir” Jesus é uma maneira bíblica de dizer “tornar-se discípulo”; e Jesus será chamado de Rabi, Mestre. 

Ao perceber que os dois estão O seguindo, Jesus os interroga: “O que estais buscando?”. “O que esperais de mim?”. São as primeiras palavras de Jesus no quarto Evangelho. É uma pergunta ao mesmo tempo existencial e essencial. Esta pergunta é dirigida a pessoas que estão em busca, que andam inquietas, que se interrogam sobre o essencial nesta vida tanto para os religiosos como para os leigos, tanto para os jovens como para os adultos. Afinal, o que você está procurando nesta vida? Que sentido tem sua vida? Para onde a vida vai levá-lo? O homem, enquanto estiver vivo, permanecerá um perguntador. Ninguém pode dar sentido à própria vida a não ser interrogando-se sobre o seu estar no mundo e ser interrogado pelos outros sobre o modo de viver, pois o homem não somente vive, mas convive. Nossa vida está cercada por outras vidas. Viver significa completar-se, desenvolver-se e crescer por meio de “algo outro”. Mas paradoxalmente na hora de buscar respostas para suas perguntas, o homem acaba encontrando novas perguntas. Nascer é vir ao mundo, ver o mundo; é manifestar-se e abrir-se. Cada porta aberta somos acompanhados por uma série de perguntas e o desejo de ter respostas, embora, no fim, acabemos encontrando novas perguntas.

Diante da pergunta de Jesus “O que estais procurando”, em vez de responder, os dois discípulos lançaram uma pergunta: “Mestre, onde moras?”. Onde vives, Rabi? Qual é o segredo de Tua vida? De onde vens? O que é para Ti viver, Mestre?

“Vinde e o vereis” é a resposta de Jesus para a pergunta dos dois discípulos de João. Fazei vós mesmos a experiência da minha vida. Não busqueis outra informação. Vinde conviver comigo para saber quem sou e o que estou fazendo e querendo alcançar e vós descobrireis que comigo vossas vidas serão transformadas. O importante não é buscar algo e sim buscar Alguém que dá sentido para nossa vida e para nossas lutas de cada dia apesar de tudo. 

 O que estais buscando?”. No fundo, todos nós estamos sempre em busca de algo mais e por isso sempre insatisfeitos. Consciente ou conscientemente somos todos garimpeiros à procura do diamante da felicidade, andarilhos à procura da pérola preciosa, pela qual estamos dispostos a “vender”, com alegria, tudo o que possuímos (cf. Mt 13,44.46). Jesus conhece nossos desejos mais profundos e sabe muito melhor das nossas necessidades fundamentais mais do que nós mesmos sabemos. Quando nos interpela com a pergunta essencial, “o que estais procurando?”, é para obrigar-nos a expressá-lo. Jesus quer que seus seguidores explicitem, diante dele, os motivos da sua busca e do seu seguimento. Esta explicitação é necessária porque as motivações nossas podem ser equivocadas, precipitadas, imaturas ou ilusórias. 

A busca pela vida mais significativa e satisfatória é um dos temas mais antigos do homem e de qualquer religião. Ela continua válida para qualquer tempo e tempo e para qualquer pessoa que vive profundamente seu ser. No fundo percebemos que nossa vida não está sedenta de fama, de conforto, de propriedades ou de poder. Estes supostos valores criarão muitos problemas assim que os alcançarmos. Nossa vida tem fome do significado da vida: o que é vida ou a vida? Por que e para que estamos vivos. Que sentido tem minha vida? O que é essencialmente estou procurando nesta vida? Para onde a vida vai me levar, enfim? O que nos frustra e rouba a alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida ou de nossa presença neste mundo. Percebemos, pela experiência, que não passamos a ser felizes perseguindo ou caçando a felicidade. Nós nos tornamos felizes vivendo e partilhando uma vida que signifique alguma coisa. As pessoas mais felizes geralmente são pessoas que se esforçam para ser generosas, prestativas, prontas para ajudar os outros na sua necessidade. A melhor maneira de ser feliz e de conservar a felicidade é partilhá-la. Quem ama, partilha. Creio que os homens que vivem para os outros, chegarão um dia a reconstruir o que os egoístas destruíram (Martin Luther King).         

Se neste momento Jesus lhe perguntar: “O que estais procurando nesta vida e por quê?”, qual será sua resposta? 

Palavras de alguns Padres da Igreja (cf. Santo Tomás de Aquino: CATENA AUREA, Exposição Contínua Sobre Os Evangelhos, vol.4, Evangelho de São João, Ed.Ecclesiae, Campinas, SP, 2021, pp.86-90)

  1. João era amigo do Esposo e não buscava a própria glória, senão que dava testemunho da verdade, por isso não retinha junto de si seus discípulos e não os impedia de seguir ao Senhor; ao contrário, é ele mesmo que lhes mostra quem devem seguir: “Eis o Cordeiro de Deus(Santo Agostinho: In Ioannem, tract.7)
  1. Quando Jesus lhes disse “vinde”, está em realidade os convidando à ação; com “ver”, porém, refere-se à contemplação (Orígenes).

P. Vitus Gustama, svd

03/01/2025-Sextaf Do Tempo De Natal, Antes Da Epifania

VIVAMOS COMO FILHOS E FILHAS  DE DEUS, POIS O SOMOS

Primeira Leitura: 1Jo 2,29 – 3,6

Caríssimos: 2,29 Já que sabeis que ele é justo, sabei também que todo aquele que pratica a justiça nasceu dele. 3,1 Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. 2 Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. 3 Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro. 4 Todo o que comete pecado comete também a iniquidade, porque o pecado é a iniquidade. 5 Vós sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e que nele não há pecado. 6 Todo aquele que peca mostra que não o viu, nem o conheceu.

Evangelho: Jo 1,29-34

29No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse:Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim. 31Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel”. 32E João deu testemunho, dizendo: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele. 33Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo’. 34Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”.

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Somos Filhos e Filhas De Deus

O texto da Primeira Leitura se encontra na Segunda Parte da Primeira Carta de são João (1Jo 2,28-4,6) que fala sobre o viver como filhos de Deus e suas consequências práticas. O autor da Carta de São João nem sequer usa o termo “adoção”. Ele afirma e insiste que somos filhos de Deus: filhos no Filho, porém filhos verdadeiros: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Caríssimos, desde já somos filhos de Deus”. A existência dos filhos de Deus nasce de Seu amor e gera uma profunda confiança (1Jo 2,28-3,10). No seu comentário sobre a Oração do Pai Nosso, o Papa Francisco escreveu: “A sensação que experimento é de segurança. Começo a partir daqui: O Pai-nosso me dá segurança: não me sinto afastado de minhas raízes, não tenha a sensação de ser órfão

Participamos da forma de ser do Filho (Jesus Cristo) enquanto isso nos é possível, pois temos possibilidade de viver no espírito mundano que resulta na prática do pecado quando esquecemos nossa filiação divina em Jesus Cristo. Aqueles que se tornam filhos de Deus não participam do pecado (1Jo 3,3-10). A expressão “não pecar” significa uma participação na luta do Filho de Deus que veio destruir as obras do diabo, isto é, as obras que desunem as pessoas. O critério é a ação que demonstra a filiação. Cada cristão precisa lutar contra as tenções de pecar, pois que a chegada do Filho de Deus o cristão se encontra no estado da graça. Portanto, a impecabilidade significa que o Filho de Deus superou a história do pecado e iniciou a era da graça e o cristão é chamado a lutar com o Filho de Deus para superar o pecado, praticando apena o bem e a bondade.

O autor da Carta enfatiza que ainda não se vive plenamente essa condição de ser filhos de Deus. Ainda que agora realmente sejamos filhos de Deus, no entanto não se goza em sua totalidade. Aqui são João se aproxima da concepção paulina da tensão entre o “já” e o “todavia não”: “Desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos!”.

A realidade dos filhos de Deus é uma realidade escondida diante de nossos olhos e não somente diante dos olhos do mundo, pois não temos ainda plena consciência do que somos e as dificuldades da vida presente encobrem a grandeza e a dignidade insuspeitada dos filhos de Deus. Vai chegar um dia em que veremos tudo com claridade e aparecerá o que já agora somos por antecipação. Quando chegar este dia em que veremos Deus cara a cara, saberemos o que somos e seremos semelhantes (mas, não iguais) a Deus, nosso Pai. Deus erguerá seus olhos e se manifestará que Deus é amor e que aqueles que amam nasceram de Deus. 

Pelo Batismo nos tornamos “filhos de Deus”. Trata-se de um conteúdo real. É um fato por parte de Deus que nos dá a nova vida. Ser filho de Deus é um dever para nós que nos obriga a viver de outra maneira. Nascido de Deus (Jo 1,12; 3,5) por obra do Espírito (Jo 3,6), somos de Deus e não deste mundo. 

Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai”. O mundo da qual fala são João são os homens que se opõem a Deus com sua incredulidade, com seu ateísmo prático (1Jo 2,15-17). Quem não ama a Deus, como Pai de todos, não ama seus filhos. 

Quando mantivermos nossa consciência de que somos filhos e filhas de Deus teremos a alegria de viver e com serenidade encararemos as dificuldades, pois Deus, nosso Pai não nos deixará lutar sozinhos. 

Ser Cristão É Ser Testemunho De Cristo a Exemplo De João Batista

O texto do evangelho deste dia fala do testemunho de João Batista sobre a pessoa de Jesus, O Verbo feito Carne (Jo 1,19-36). Um dos temas preferidos do evangelista João é, certamente, testemunho. O evangelista usa o verbo “testemunhar” (martyrein) em 33 ocasiões e o substantivo “testemunho” (martyria) 15 vezes. O testemunho de João Batista ilustra concretamente o que foi dito em Jo 1,6-8.15 de sua missão que era dar testemunho de Jesus para que todos pudessem crer nele. Dar testemunho é muito importante neste evangelho. O testemunho, neste evangelho, tem sempre por objeto a pessoa de Jesus, seu significado profundo para a vida dos homens. Em outras palavras, o testemunho aqui é sempre cristológico. É isto que João Batista faz a respeito de Jesus. 

Testemunha é a pessoa que teve a experiência direta de algum fato e que narra o que viu ou ouviu, ou alguém que observou um acontecimento e pode informar a respeito dele para provar, para acusar, ou para inocentar (Lv 5,1; Nm 5,13; Dt 17,6s etc.). O testemunho, neste evangelho, supõe o ver, mas não o simples ver físico, mas o ver que sabe perceber a presença de Deus em Jesus. Para que uma pessoa possa perceber a presença de Deus em Jesus, na vida ou nos acontecimentos, ela deve limpar o coração do ódio, pois Deus é Amor (1Jo 4,8.16). “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho). 

Antes de proferir o seu testemunho, João vê Jesus vir na sua direção. João Batista, no Quarto Evangelho, percebe a presença de Deus em Jesus Cristo como Aquele que tira o pecado do mundo. Quando Jesus aparece pela primeira vez no Quarto Evangelho, ele é mostrado no ato de “vir”. Com isso, se realiza o anúncio de Isaías: “O Senhor vem” (Is 40,10). 

Jesus continua vindo em nossa direção, como aconteceu com João Batista. Somos convidados a olhar para ele com fé. É o olhar da fé que descobre a realidade sob as aparências, e confere seu verdadeiro sentido a todo o mundo visível no qual Jesus aparece. João Batista passou pela escola do deserto, onde se exercitou na humilde docilidade interior. A sua figura é, no início do Evangelho, o símbolo de todos os crentes que se põem em seguimento do Verbo encarnado. Ele realiza as condições da busca e da descoberta. Não se deixa enganar por nenhum poder, nem sequer o dos fariseus; procura a Deus só e, livre de todo o preconceito, reconhece-o tal como vem aos homens, na humildade da encarnação. 

Jesus que continua vindo em nossa direção nos faz filhos de Deus como disse a Carta de São João: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus...”. (cf. 1Jo 2,29 – 3,6). Somos filhos no Filho. O amor do Pai ao Filho é o mesmo amor com que nos ama. Quando fecho meus olhos e me digo: “Quem sou eu?”. Para esta pergunta pode ter mil maneiras de responder: com meu nome, o lugar, a data de nascimento, os pais e irmãos, o povo, os estudos, a profissão e assim por diante. No entanto ninguém me define tão profundamente nem tão realmente como minha relação com Aquele que é a origem, o término, o horizonte constantemente presente: Eu sou filho, filho de Deus, já agora! Precisamos deixar esta convicção aflorar em nossa consciência, pois nos traz gozo, alegria e força para viver firmemente sabendo que Deus nos ama, pois somos Seus filhos e filhas. Mas é também fonte de onde brota nosso comportamento e compromisso: o caminho dos “filhos de Deus” é o caminho do “Filho de Deus por excelência, Jesus”. Precisamos viver aquilo que Jesus viver e sentir aquilo que ele sentiu. 

Diante de Jesus que está vindo em sua direção, João reage em profundidade: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Palavras que se repetem seis vezes na celebração eucarística (2x na Glória, 3x depois da saudação da paz e a sexta vez, imediatamente antes da comunhão). João fala do “pecado do mundo” (em singular) e não dos “pecados do mundo” (em plural. O que é este “pecado”? 

O pecado fundamental para João é não aceitar o Filho de Deus entre nós com todas as consequências que isso comporta (cf. Jo 16,8-9). Aceitar Jesus e seus ensinamentos leva a pessoa a viver na fraternidade e no amor. Para João guardar os mandamentos do Senhor é uma clara expressão de que a pessoa ama a Jesus (cf. Jo 14,21). 

Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Somente João está disposto a reconhecer Aquele que Deus envia, não obstante afirmar que não o conhecia (v.31.33). Não conhece de vista ou por contato, mas já conhece interiormente, pela ação do Espírito Santo que o envia e que ele não pára de interrogar. 

João Batista vê Jesus que vem. Mas não guarda para si como seu segredo, como propriedade privada, o que viu. Ele quer que todos vejam o que ele vê: “Eis...”, João diz, o que implica um convite a olhar. João Batista não chama a atenção para um messias ausente e vindouro, mas para um messias que está no meio de nós e que não o conhecemos. A primeira condição de toda busca da fé é, certamente, o senso de observação das pessoas, das coisas e da vida em geral.

Eis o Cordeiro que tira o pecado do mundo! Infelizmente, o pecado é uma realidade onipresente entre nós e dentro de cada um, ontem, hoje e sempre. Em qualquer lugar encontramos a exploração que gera a fome, a pobreza, a violência, marginalização. As pessoas são dominadas pela soberba, avareza, luxúria, inveja, ódio, rivalidade, vingança, rancor, falta de perdão e assim por diante. Apesar de tudo isso, ser cristão hoje é ser testemunha entre os homens que Jesus venceu o pecado em nossa vida, porque ele nos fez filhos de Deus e nós adotamos seus sentimentos e atitudes evangélicas na vida cotidiana, e queremos viver os valores evangélicos do amor, da fraternidade humana, da justiça e da solidariedade com os mais necessitados. Basta alguém aceitar Jesus o poder do mal não tem vez nenhuma, pois Jesus vem para tirar o pecado do mundo. 

A imagem de João Batista com o braço estendido e o dedo apontando para Cristo (“Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”) é teologicamente muito expressiva. Aqui encontramos um primeiro tema como mensagem e reflexão para todos nós, seguidores de Cristo: a exemplo de João Batista, cada crente, cada cristão há de ser para todos uma mão amiga, mão estendida para abraçar a todos formando uma família de irmãos num mundo de tantos sofrimentos, de tantas tragédias, de tantas corrupções, de tanta fome e sede, de tantas violências e crimes que necessitam de nossa ajuda, de nossa solidariedade, de nossa partilha, de nossa generosidade. A generosidade é um sinal de gratidão e de liberdade interior. O generoso ajuda a construir o mundo mais fraterno e igualitário. E Deus, por incrível que pareça, sempre nos dá tantas oportunidades, apresenta-nos ocasiões para sermos mais humanos e mais irmãos através da generosidade e partilha praticadas e vividas. Paradoxalmente o necessitado nos estimula a sermos mais humanos e mais irmãos e mais divinos. Por isso, aquilo que o generoso faz ou dá aos outros redunda também em seu próprio benefício.

Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, disse João Batista para seus discípulos. O que representa “o Cordeiro” e o que significa “tirar o pecado do mundo”? Tudo isto é um símbolo de paz, de docilidade, de obediência. Onde o pecado for tirado, a paz volta a reinar, a fraternidade se constrói outra vez, a harmonia s estabelece e a salvação se aproxima.

Onde o pecado fizer ninho, a desordem, a violência, a agressão, se instalam. Jesus veio para devolver a paz tirando o poder do pecado da convivência humana. Um modo moderno e atual de traduzir a expressão usada por João Batista poderia soar assim: “Este é o supremo modelo de não-violência, Jesus, que destruiu o império do mal e do ódio unicamente com a força do bem e do amor”. Por isso, ser cristão não é somentenão pecar” e sim trabalhar para que no mundo tenhamos mais verdade, mais amor, mais justiça, mais bondade, mais solidariedade. Lutemos com esperança, a pesar de tudo, porque cremos que o Espírito de Deus luta conosco e conduz o mundo para o Reino de Deus. O cristão deve ser portador de salvação e libertador de todo tipo de escravidão que mata a fraternidade e convivência harmoniosa

Apesar de sabermos que o pecado é a “mercadoria” global cuja produção nunca entra em crise e cuja demanda desconhece limites e que não temos balança em condição de calcular seu peso, nós acreditamos que pecado nenhum consegue esgotar a paciência de Deus em Jesus Cristo, nenhum pecado consegue cansar a misericórdia de Deus e bloquear seu perdão e pôr limites a seu amor infinito. Por isso, Jesus é nossa vitória, nossa libertação e nossa paz. Por ele e com ele somos capazes, e é nosso dever de vencer o pecado cada dia, dentro de nós mesmos, dentro de casa, em nossa vida e no ambiente que nos cerca através da construção do Reino de Deus e Sua justiça na nossa vida. 

Ser testemunha era a identidade dos discípulos de Jesus. O anúncio da palavra de Deus e o testemunho de vida são palavras-chaves e inseparáveis na obra de Lucas, de modo especial na segunda obra (Atos dos Apóstolos). Testemunhar significa provar com a própria vida, com a própria obra aquilo que se fala, se professa e no que se acredita, assumindo todas as consequências. Testemunhar Jesus é provar com a própria vida que é ele o sentido profundo de nossa vida e da vida do mundo; que Jesus é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,16); que Jesus é a ressurreição e a vida (Jo 11,25); que Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12); que Jesus é o Pão da vida para o mundo (cf. Jo 6,22-71), e assim por diante.

P. Vitus Gustama,svd

02/01/2025-Quintaf Do Tempo De Natal, Antes da Epifania

SER VOZ E SER REFLEXO DE JESUS

Primeira Leitura: 1Jo 2,22-28

Caríssimos: 22Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? O Anticristo é aquele que nega o Pai e o Filho. 23Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Quem confessa o Filho possui também o Pai. 24Permaneça dentro de vós aquilo que ouvistes desde o princípio. Se o que ouvistes desde o princípio permanecer em vós, permanecereis com o Filho e com o Pai. 25E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna. 26Escrevo isto a respeito dos que procuram desencaminhar-vos. 27Quanto a vós mesmos, a unção que recebestes da parte de Jesus permanece convosco, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine. A sua unção vos ensina tudo, e ela é verdadeira e não mentirosa. Por isso, conforme a unção de Jesus vos ensinou, permanecei nele. 28Então, agora, filhinhos, permanecei nele. Assim poderemos ter plena confiança, quando ele se manifestar, e não seremos vergonhosamente afastados dele, quando da sua vinda.

Evangelho: Jo 1,19-28

19Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: “Quem és tu?” 20João confessou e não negou. Confessou: “Eu não sou o Messias”. 21Eles perguntaram: “Quem és, então? És Elias?” João respondeu: “Não sou”. Eles perguntaram: “És o Profeta?” Ele respondeu: “Não”. 22Perguntaram então: “Quem és, afinal? Temos de levar uma resposta àqueles que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo?” 23João declarou: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” — conforme disse o profeta Isaías. 24Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus 25e perguntaram: “Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” 26João respondeu: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, 27e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. 28Isso aconteceu em Betânia além do Jordão, onde João estava batizando.

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A Primeira Leitura, tirada da Primeira Carta de são João, se encontra na parte que fala da heresia ou do anticristo (1Jo 2,18-27). O anticristo (em singular e plural) é aquele que não tem a suficiente fé em admitir a verdadeira encarnação do Filho de Deus; é o negador do Cristo verdadeiro; são todos aqueles que se opõem a Cristo. Para o autor da Primeira Carta de são João aquele que nega a qualidade divina do Filho de Deus, Jesus Cristo separa-se do Pai (1Jo 2,23) e portanto, da vida eterna da qual é a fonte (1Jo 2,25). Ao contrário, aquele que “confessa” o Filho (1Jo 2,23) não é apenas aquele que reconhece especulativamente a divindade de Jesus, mas também adere a seu mandamento de amor. Não basta confessar que Jesus é Deus, mas tem que mostrar esta confissão com a vivência do amor fraterno.

Para aquele nega a divindade de Jesus, o autor da Carta usa os termos “sedutores”, “pseudoprofetas” e “anticristos”. A palavra no singular e no plural (anticristo/anticristos) designa todos aqueles que se opõem a Cristo; eles negam que Cristo seja homem verdadeiro. Eles não admitem que o mundo de Deus (o mundo de cima) possa manchar-se tocando o mundo de baixo. Este tipo de crença se espalha dentro da comunidade para a qual a Carta foi dirigida (1Jo 2,19).

O ato ou posição de ser anticristo é uma heresia. Heresia é confundir Cristo com o nosso pensar e o nosso querer; é fabricar um Cristo a nossa imagem e semelhança. Este Cristo manipulado e tantas vezes mudado é claro que não pode ser o Cristo Salvador. A final, “Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Quem confessa o Filho possui também o Pai” (1Jo 2,23).

O fragmento da primeira leitura revela as linhas essenciais da falsa doutrina divulgada peloanticristoem uma época atormentada do final do século primeiro. Para essa falsa doutrina, Jesus não era considerado como o Messias nem como o Filho de Deus. Essa heresia cristológica considerava impossível que o Verbo Divino se fizesse carne à maneira humana. Mas para o apostolo João, testemunha ocular do Verbo Divino, o Verbo da vida (cf. 1Jo 1,1-4), negar a divindade de Jesus significa não ter comunhão com o Pai e não ter a verdadeira vida (1Jo 2,22-23; cf. Jo 20,30-31); negar a união do divino e do humano em Jesus significa seranticristoporque o humano em Jesus é o reflexo perfeito do divino, é o reflexo do Pai: “Aquele que me viu, viu o Pai(cf. Jo 14,9). E em outra ocasião Jesus disse: “Eu e o Pai somos um(Jo 10,30).

São João nessa Primeira Carta quer orientar nossa sensibilidade. Não se trata de fazer de Jesus um ídolo e sim de abrir nossos ouvidos à sua Palavra, pois Sua Palavra é vida e luz para nós todos: “No Verbo havia vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4) e por isso nos orienta (cf. Jo 8,12). Um Jesus que não nos servir como caminho ao Pai (cf. Jo 14,6) é um Jesus que não nos interessa do ponto de vista da . Muitos querem um Jesus milagroso para ter uma vida confortável aqui neste mundo e esqueceram-se de um Jesus que os leva para a vida eterna. Jesus é o misterioso laço de união entre a humanidade caída e o Pai pronta para nos salvar: “Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Confessa o Filho possui também o Pai” (1Jo 2,23).             

Como cristãos somos essencialmente ouvintes da Palavra da Salvação, aceitadores do Filho, e escutando-O nos realizamos como filhos do Pai celeste e irmãos dos demais homens. A Igreja é formada pela escuta da e pela vivência da Palavra de Deus. O que nos é pedido não é essencialmente nosso conhecimento ou nosso saber, e sim nossa fidelidade. Fidelidade é guardar ou observar o que é ouvido da Palavra de Deus (cf. Mt 7,24; Jo 14,23). Por isso, o verbo que mais vezes se repete na primeira leitura, é “permanecer”. É um verbo que fala de fidelidade, de perseverança, de manter na verdadeira sem deixar-se enganar. Permanecer em Jesus significa ter nele.  Há várias maneiras de ser fiel: com o pensamento e o coração, com as palavras de testemunho que damos diante dos demais e com as ações, com os compromissos, com as obras e com as decisões da vida diariamente, de acordo com o mandamento do Senhor resumido no amor fraterno.    

De nós não será pedido conta de nossos conhecimentos e sim de nossa fidelidade. Seremos cristãos e seremos salvos, se aceitarmos Jesus, o Enviado do Pai e nos identificarmos com Ele. É contemplar Jesus para contemplar Deus. Jesus é a única e verdadeira revelação de Deus. Há certas afirmações típicas de são João sobre esta revelação: “Ninguém vai ai Pai senão por mim” (Jo 14,6); “Quem conhece o Filho, conhece também o Pai” (Jo 8,19); “o Filho é o único capaz de revelar o Pai” (Jo 14,7).             

E lemos no texto do Evangelho de hoje o testemunho de João Batista acerca de Cristo. Para a perguntaQuem és tu?”, João Batista confessa, evitando qualquer mal-entendido acerca de sua pessoa e de sua própria missão, que não é o Cristo, o Salvador esperado. Este testemunho em forma de afirmação negativa que sai da boca de João Batista é uma autêntica confissão de no messianismo de Jesus. João Batista se define apenas com as palavras do profeta Isaias: “Voz que clama no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” para preparas vinda de Cristo. O que é a voz? É o conjunto de sons que servem para transmitir uma mensagem. E o que acontece depois com a voz? Desaparece. Fica somente a mensagem transmitida. Ser voz é ser uma mensagem, é ser uma chamada aos demais para o bem, para a Luz que ilumina. A voz é feita para proclamar, para anunciar e para denunciar. É preciso nivelar as relações humanas, pois todos os seres humanos têm a mesma substancia humana. Não há super-criatura. É preciso aplainar. Onde houver estrada plana, haverá facilidade para caminhar. Quando um reconhece no outro como ser humano, a convivência se torna mais fácil. Ninguém tratará a outro desumanamente. Eu sou ser humano. O outro é ser humano. Deus se fez humano para salvar o ser humano.

João Batista não é a luz. Ele é apenas uma lâmpada que tem tempo limitado de duração. Ele é apenas aquele quetestemunha da verdadeira Luz que é o próprio Jesus Cristo (cf. Jo 8,12). Ele não é a Palavra Encarnada, mas somente a voz que prepara o caminho com a purificação dos pecados através de seu batismo: Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis”. 

O testemunho de João Batista pretende suscitar a em todo mundo para o grande desconhecido, o Portador da salvação, que vive entre os homens (Jo 1,14). Por isso, a de João Batista está orientada ao anúncio de Jesus e não é apenas para o consumo próprio. João Batista é aquele que chama atenção, não para si mesmo e sim para Aquele é o verdadeiro Salvador. João Batista nos ensina que a deve ser transformada em anúncio, o fiel deve se tornar em anunciador da Boa Nova. Todo cristão é um propagador da Palavra de Deus na aridez espiritual de nosso mundo, um propagador que chama os outros ao encontro de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).             

João Batista testemunha Jesus Cristo com fidelidade e valentia. Não quer falar de si mesmo, nem contar seus méritos nem suas façanhas. João Batista somente quer que os outros o considerem como “a voz que clama no deserto”, a voz que prepara os caminhos de Deus, a voz que chama todos a preparar o lugar de Deus no mundo, especialmente no coração de cada um. A voz desaparece, mas a mensagem fica. 

O cristão é chamado a ser anunciador da Boa Nova, a ser a voz que grita, com a própria vida, a verdade de Cristo apesar da pobreza que experimenta e da fragilidade de suas palavras humanas. O cristão é o homem que se define em função de Cristo, d’Aquele que vem sempre aos seus para comunicar salvação e vida. 

Como cristãos e como pessoas do bem devemos ser a voz de Deus sobre o amor neste mundo. Podemos desaparecer, mas a marca de amor que testemunhamos e transmitimos deve ficar para sempre entre as pessoas. Além disso, nós, como João Batista, deveríamos falar menos de nós mesmos, acreditar menos em nós mesmos e nos converter em “a vozquetestemunho de Deus, de seu amor presente em Jesus Cristo. Santo Agostinho comenta: João era voz, mas o Senhor é a Palavra que no princípio existia. João era uma voz provisional; Cristo, do princípio, é a Palavra eterna. Ao tirar a palavra, o que será a voz? Se não houver conceito, tudo será nada mais do que ruído vazio. A voz sem palavra chega ao ouvido, mas não edifica o coração. João é a voz que grita no deserto, a voz que rompe o silêncio...”.             

Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’”. Somos chamados a ser voz do Senhor neste mundo. Ser voz é uma vocação muito humilde, mas é maior de todas. Ser voz é ser uma mensagem, é ser uma chamada aos demais para o bem, para a Luz que ilumina. A voz é feita para proclamar, para anunciar e para denunciar. A voz deixará de ser voz, se não gritar, se não proclamar, anunciar e denunciar. A voz se condenará, se deixar de anunciar a mensagem sobre o bem. Uma voz do bem é capaz de renovar o mundo. Se faltarem as vozes do bem para anunciar e denunciar, o mundo perderá sua consciência. Por esta razão, como vale e quanto vale sua voz! Como vale e quanto vale sua palavra! Como vale e quanto vale sua mensagem! Como vale e quanto vale seu grito que rompe o comodismo, que rompe o modo de viver sem vida. 

Quem és tu?”. João Batista, nesta passagem, não nos indica o que devemos fazer e sim o que devemos e podemos ser. Trata-se da transparência de um homem. 

João Batista era um personagem realmente raro: vivia no deserto, mal alimentado. Mas ele se converteu em um homem perigoso, criador de um movimento popular que alarmou às autoridades supremas religioso-políticas de Jerusalém que lhe enviam uma comissão para investigar com o intuito de detê-lo se pretender ser o Messias cuja iminente chegada se esperava naquele ambiente tenso da Palestina de mediados do século I, a causa principal da miséria e da dominação romana. 

A interrogação começa autoritariamente, sem fórmulas de cortesia: “Quem és tu?”. Os enviados vindos de Jerusalém querem que o próprio João Batista declare suas intenções. De maneira tão simples e direta, João responde-lhes: “Eu não sou o Messias!”. Para os judeus declarar-se Messias significava opor-se às autoridades existentes, que se sentiam inseguras diante dos movimentos populares. Porque, segundo uma opinião muito estendida na época, um dos principais objetivos do Messias haveria de ser a reforma das instituições e a destituição da hierarquia existente. Não é estranho, por isso, o alarme dos dirigentes diante da atividade de João Batista e ficam desorientados. 

O evangelista João põe em boca de João Batista a triple negação, porque as três figuras vão ser apresentadas por Jesus. O Messias, Elias e o Profeta encarnavam diversos aspectos da salvação esperada com instrumentos do Espírito. 

Quem és tu?”. As autoridades pedem que João Batista se defina. As autoridades querem uma resposta clara para julgar se João Batista representa um perigo. Querem saber o que pretende com sua atividade. João Batista se define como “a voz que clama no deserto”. É alguém que deve ocultar-se para não fazer sombra para Aquele que vem. João é “a voz”, Jesus é “a Palavra”.

A pergunta Quem és tu?” também é dirigida a cada um de nós. Por acaso, cada um de nós, do ponto de vista cristão, pode se definir? Se soubermos quem somos, saberemos também o que devemos fazer e o que não devemos fazer.

Para que possamos nos definir é preciso fazer o encontro pessoa com Jesus e contemplar Jesus Cristo, Luz do mundo para que sejamos reflexos de sua luz para os outros, iluminado suas vidas embora o reflexo dure apenas em pouco tempo. Ser reflexo de Cristo é levar um raio de esperança aos corações entristecidos. Ser reflexo de Cristo é levar um sorriso gratuito numa sociedade violenta. Ser reflexo de Cristo é saber apreciar o lado bom das coisas e das pessoas e entender que nem tudo é relativo, pois existe o Absoluto: Deus. Ser reflexo de Cristo é encontrar o sentido da vida a partir da luz da Palavra de Deus. Sejamos como vela. Ela se consome iluminando a circunstância. A vida de uma vela dura pouco tempo, mas é suficiente para espantar a escuridão e mostrar o caminho a seguir. Neste mundo todos os cristãos são vozes vivas de Cristo para os outros e são luzes para apontar o caminho certo a ser trilhado.

P. Vitus Gustama,svd

07/04/2025-Segundaf Da V Semana Da QUaresma

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