terça-feira, 1 de setembro de 2015

Domingo,06/09/2015
O CRISTÃO É AQUELE QUE FAZ O BEM SEM FRONTEIRAS

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”


Evangelho: Mc 7,31-37

Naquele tempo, 31 Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. 32 Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. 33 Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. 34 Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” 35 Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. 36 Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. 37 Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.
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O milagre de cura do surdo- gago é exclusivo de Mc, sem paralelo exato em outro ponto dos outros evangelhos. Marcos coloca este milagre perto do final de um itinerário que geograficamente é pouco confuso. Mas é provável que o itinerário seja mais teológico do que geográfico. Podemos entender disto tudo dentro do quadro da declaração de Jesus  onde ele afirma que todos os alimentos são puros e que com isto Jesus derruba barreira entre judeus e gentios(cf. Mc 7,19). O Jesus de Mc atravessa várias regiões pagãs para levar-lhes cura e alimento que simbolicamente significa levar a salvação, antecipando a missão dos cristãos futuramente de levar a Boa Nova para todos os povos, sem exceção.


Além disso, Mc quer transmitir claramente o tema sobre o messianismo onde Jesus é apresentado como quem realiza a nova criação que cumpre as profecias do profeta Isaías  sobre os últimos dias: “Ele tem feito tudo bem (cf. Gn 1,31); faz tanto os surdos ouvirem como os mudos falarem (cf. Is 35,5-6). A expressão “Jesus faz bem todas as coisas” tem uma grande importância para o evangelho de Mc. Com esta expressão Mc faz uma ligação com o começo do Gênesis. No primeiro relato da criação repete-se por sete vezes a expressão: “Deus viu que era bom” (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31). Ao usar a expressão “Jesus faz bem todas as coisas”, Mc quer nos transmitir esta mensagem: Jesus inicia nova criação em que todas as coisas são boas e bem-feitas. Jesus traz de volta a beleza de Deus que o próprio homem estragou por seu pecado. A palavra de Jesus é eficaz: cria uma nova criação. Precisamos estar sempre com Jesus para que possamos também fazer bem todas as coisas e praticar o bem em todos os momentos de nossa vida.


O outro tema que Mc quer apresentar é o do segredo: Jesus leva o surdo-gago para longe da multidão, tomando-o à parte. A expressão “à parte”, que sempre se refere aos discípulos (Mc 4,34; 6,31s; cf. 9,2.28; 13,2), indica que por falta da compreensão da parte dos discípulos  torna-se necessária a explicação de Jesus. E Jesus ordena silêncio a todos, embora seja em vão, pois “...quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam” (v.36b).


Numa escala mais ampla, o milagre de cura do surdo-gago se encontra na grande seção chamada “seção do pão” (Mc 6,30-8,21) na qual Jesus luta para recuperar a visão espiritual dos seus discípulos que ainda estão “cegos” e “surdos” diante da mensagem de Jesus. Na tradição profética, a surdez e a cegueira são figura da resistência à mensagem de Deus (cf. Is 6,9;42,18;Jr 20-23;Ez 12,2). Neste sentido a cura do surdo-gago que se alinha com a cura do cego em Betsaida (Mc 8,22-26) simboliza a cura da surdez e da cegueira interiores dos discípulos, embora seja  parcial ainda. Chama a nossa atenção sobre a prioridade em Jesus curar esse homem: antes de curar a língua (fala), Jesus cura primeiro os ouvidos. Para um seguidor de Cristo isto quer sublinhar a precedência da escuta sobre a fala. A boa fala depende da boa escuta. "Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também." (Rubem Alves). Há cinco degraus para se alcançar a sabedoria: Calar, ouvir, lembrar, sair, estudar” (Provérbio Árabe). Para escutar bem precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio cria ressonância à Palavra. Para escutar bem é necessário que estejamos vazios de nós mesmos: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus” (Meister Eckhart).


Nenhum outro relato de milagre nos evangelhos que contém tantos elementos do simbólico, do ritual e do mágico do que em Mc 7,31-17 (cf. Mc 8,22-26) como: a colocação dos dedos nas orelhas do homem (simbolizando sua abertura para ele poder escutar); a aplicação de saliva sobre a língua (simbolizando a liberação do “freio” da língua para que possa falar. No mundo antigo usava-se a saliva como “remédio” em contextos médicos, milagrosos ou mágicos. No texto este gesto é colocado mais no sentido “milagroso” do que “mágico”); levantar os olhos para o céu e suspirar/gemer profundamente (No contexto do texto, estes gestos foram considerados como expressões de prece e súplica de Jesus a Deus. Na multiplicação dos pães Jesus também eleva os olhos para o céu quando ele dá graças pelos pães e peixes: Mc 6,41//Mt 14,19//Lc 9,16, e quando Jesus “ressuscita” Lázaro: Jo 11,41); e a ordem “abre-te” (“ephphatha” em aramaico). A abertura que Jesus exige não é apenas dos ouvidos, mas do homem inteiro, entregando-se aos valores cristãos que são capazes de orientar toda a existência e garantir a própria eternidade.


Vamos refletir Sobre Outras Mensagens Do Texto.


1. A salvação é universal


Em primeiro lugar, devemos lembrar que a cura do surdo-mudo acontece num território pagão. Isto quer nos dizer que a salvação é para todos, sem distinção. E Jesus veio trazer a salvação messiânica definitiva universalmente.


Com isso, a cena quer ainda nos mostrar que o Reino de Deus é maior do que a Igreja. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por isso, ninguém pode limitar as  fronteiras do Reino de Deus. O Deus-Pai ama a todos os homens, sem distinção, e quer salvar a todos por meio do Filho, Jesus Cristo, que enviou(cf. Lc 4,16-22).


Por isso, devemos compreender que uma comunidade cristã, como a nossa, não pode ficar fechada sobre si mesma. Não pode fazer acepção de pessoas, nem querer limitar a salvação, que o Pai oferece a todos. A comunidade cristã deve ser missionária em todos os sentidos: saber acolher a todos, e procurar levar o Evangelho a todos. Pois a Igreja é a comunhão de irmãos que o Pai ama.


Até aqui podemos nos perguntar: será que na nossa comunidade ainda existem preconceitos contra as pessoas ? Não podemos constituir uma Igreja ou uma comunidade de Cristo, se fizermos distinção de pessoas. Por isso, a carta de Tiago na segunda leitura de hoje continua nos interpelando.


2.    Ser cristão é ser pessoa solidária a exemplo de Cristo
   

Para a mentalidade da época a surdez e a mudez pertencem a o tipo de doenças que são consideradas castigos. Quem as sofre é visto como um pecador ou é talvez filho de pecadores(cf. Jo 9,1-41). A surdez era até mesmo uma maldição, porque não permitia escutar a Palavra de Deus proclamada nas sinagogas. Jesus, ao libertar os outros e soltar a língua do homem que lhe tinha apresentado, devolve-lhe a saúde, deixa de ser doente. Mas, ao mesmo tempo, o reintegra à vida social e aos direitos religiosos, deixa de ser um marginalizado.


Uma comunidade de pessoas abertas à Palavra de Deus deve ser solidária com aqueles que sofrem no seu corpo e na sociedade. Fome e doença, assim como marginalização e exploração social, são incompatíveis com a vontade de vida de Deus. Quem quer provar seu amor verdadeiro por todos os homens, deve começar pelos últimos. É claro que isto não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Mas deve ser uma expansão espontânea do amor como uma mãe que espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa de  ajuda.


Quem é discípulo de Jesus tem que ajudar os irmãos a recuperarem direitos, espaço, voz, para que cada um volte a se expressar por sua conta, como convém a um digno filho de Deus. É missão de cada cristão proclamar “Éffatha”(abre-te) aos que se deixam ensurdecer, acomodados.


É grave denunciar a surdez alheia e ter tantos surdos-mudos em casa. E muitos só gostam de ouvir o eco das suas palavras ou opiniões, as palestras do seu movimento, a espiritualidade a que já se acostumaram. Precisamos construir uma comunidade da qual se possa dizer como disseram de Jesus: ela faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem.


3. Ser cristão é ser pessoa que sabe escutar a Palavra de Deus
  

O surdo-mudo não se aproxima de Jesus por iniciativa própria nem pede cura; como em outras ocasiões(Mc 1,30.32;6,54s); são umas pessoas anônimas que o levam a Jesus. São os outros que lamentam o defeito e recorrem a Jesus. Marcos dá destaque a este pormenor para transmitir um ensinamento: para conseguir perceber a Palavra que cura, é preciso ser acompanhado por alguém que já conheceu Jesus e  que já fez a experiência do seu poder salvífico.


Na tradição profética, a surdez e a cegueira são figuras da resistência à mensagem de Deus(Is 6,9;42,18; Jr 20-23; Ez 12,2). Paralelamente, no Evangelho de Marcos o homem surdo-mudo assume um significado simbólico: representa todos os homens que têm ouvidos fechados à Palavra de Deus. São Paulo diz aos romanos: “A fé vem da pregação e a pregação é pela palavra de Cristo”(Rm 10,17).


A ação de Jesus sobre o surdo-mudo é dupla: primeiro parece perfurar-lhe os ouvidos (colocou os dedos na orelha), indicando que, apesar das resistências que os seguidores/discípulos apresentam, é capaz de fazer-lhes chegar a mensagem do universalismo de Jesus. Depois Jesus toca-lhe a língua com a sua saliva. Na cultura judaica na época, a aplicação da saliva significa a transmissão do Espírito.
 

Nós também hoje nos comportamos como “surdos” quando tapamos nossos ouvidos aos convites que Cristo nos dirige através de Sua Palavra ou através de alerta que alguém nos faz para abandonarmos certos hábitos, para modificar certas atitudes erradas, para seguir os caminhos da lealdade, da bondade, da generosidade, de partilha assim por diante. Somos mudos quando não cumprimos o nosso dever de anunciar a todos o Evangelho de Cristo, quando nos sentimos envergonhados de declarar que não concordamos com certas escolhas pouco evangélicas feitas por colegas, por amigos e até pelos próprios irmãos da nossa comunidade. São surdos-mudos certos maridos que nunca dialogam com suas esposas e vice-versa ou certos filhos que não prestam a mínima atenção às orientações dos pais. É surdo-mudo aquele que não se relaciona com os outros por se achar dono da verdade e que já não tem mais nada para aprender.
   

O Evangelho de hoje nos dá a garantia de que a Palavra de Deus tem o poder de curar qualquer forma de surdez e de mudez. As nossas comunidades, as nossas famílias estão convocadas para repetir, em nome de Cristo, o milagre de abrir os ouvidos, a boca e o coração de todos para viver e proclamar a Palavra de Deus.


 4. Ser cristão é ser pessoa inspirada pelo Espírito de Deus
 

Outro pormenor do Evangelho de hoje é o modo de Jesus realizar o milagre. Antes de realizá-lo, Jesus ergue os olhos para o céu e solta um suspiro. Os curandeiros da Antiguidade praticavam frequentemente semelhantes gestos. Eles o faziam para concentrar-se, para compenetrar-se na energia da divindade. Para Jesus  este gesto se transforma em sinais de oração(Mc 6,41) e de união com Deus-Pai. Para nós estes gestos se constituem em convite para estabelecermos continuamente uma profunda relação com Deus antes de intervir para ajudar os irmãos. Só depois de termos “inspirados” dentro de nós o Espírito Santo, o sopro de Deus, estamos em condições de comunicar esta força vivificadora para quem experimenta dentro de si os sinais de morte.


Se é verdade que para orar é preciso crer, também para crer é necessário orar. A fé é a nossa resposta à oferta de amor e salvação de Deus. A oração, por sua vez, evidencia a presença e a vitalidade da fé no diálogo do homem com Deus e projeta essa oração para a vida no compromisso e na conduta social do cristão.


P. Vitus Gustama,svd

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