sábado, 11 de junho de 2016

13/06/2016




VIVER COMO JUSTOS E RECONCILIADOS


Segunda-Feira da XI Semana Comum


Primeira Leitura: 1Rs 21,1-16


Naquele tempo, 1 Nabot de Jezrael possuía uma vinha em Jezrael, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria. 2 Acab falou a Nabot: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor”.  3 Mas Nabot respondeu a Acab: “O Senhor me livre de te ceder a herança de meus pais”. 4 Acab voltou para casa aborrecido e irritado por causa desta resposta que lhe deu Nabot de Jezrael: “Não te cederei a herança de meus pais”. Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada.  5 Sua mulher Jezabel aproximou-se dele e disse-lhe: “Por que estás triste e não queres comer?” 6 Ele respondeu: “Porque eu conversei com Nabot de Jezrael e lhe fiz a proposta de me ceder a sua vinha pelo seu preço em dinheiro, ou, se preferisse, eu lhe daria em troca outra vinha. Mas ele respondeu que não me cede a vinha”.  7 Então sua mulher Jezabel disse-lhe: “Bela figura de rei de Israel estás fazendo! Levanta-te, toma alimento e fica de bom humor, pois eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael”. 8 Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. 9 Nas cartas estava escrito o seguinte: “Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, 10 e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra”. 11 Os homens da cidade, anciãos e nobres concidadãos de Nabot, fizeram conforme a ordem recebida de Jezabel, como estava escrito nas cartas que lhes tinha enviado. 12 Proclamaram um jejum e fizeram Nabot sentar-se entre os primeiros do povo. 13 Chegaram os dois homens perversos, sentaram-se diante dele e testemunharam contra Nabot diante de toda a assembleia, dizendo: “Nabot amaldiçoou a Deus e ao rei”. Em virtude disto, levaram-no para fora da cidade e mataram-no a pedradas. 14 Depois mandaram a notícia a Jezabel: “Nabot foi apedrejado e morto”. 15 Ao saber que Nabot tinha sido apedrejado e estava morto, Jezabel disse a Acab: “Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael não te quis ceder por seu preço em dinheiro; pois Nabot já não vive; está morto”. 16 Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse.


Evangelho: Mt 5,38-42


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! 41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.
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No Abuso Do Poder, o Inocente, o Simples É Sempre Vítima


Lemos na Primeira leitura o abuso do poder do rei Acab através de sua esposa, Jezabel.


O rei Acab pede a Nabot que dê para o rei seu terreno com sua vinha. Em compensação o rei daria outro terreno melhor. Mas Nabot recusa o pedido do rei porque o terreno dele é uma herança familiar. E o rei fica triste por causa desta recusa: “Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada”.


Por que Nabot não quer entregar seu terreno ao rei Acab? Porque o terreno é sagrado no conceito do povo eleito. Cada família recebeu sua parte da terra prometida, dada pelo Senhor e esta terra tem que permanecer unida à família como um depósito sagrado e inalienável (cf. Lv 25,23).


Segundo o conceito do rei Acab, em nome da ganância, a venda e a troca da herança familiar faz parte de um negócio completamente legal: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor” (1Rs 21,2). Porém o rei deve respeitar a razão e o direito de Nabot: “Não te cederei a herança de meus pais”, disse Nabot ao rei Acab (1Rs 21,4). Para Nabot a vinha representa o lugar de sua fidelidade aos antepassados e ao próprio Javé de quem recebeu a terra.


Mas quem abusa do poder sempre acha alguma “saída”, mesmo que seja contra a ética ou mesmo que alguém deva se vítima disso. Neste caso, a mulher de Acab, Jezabel resolveu arrumar um problema para Nabot para poder possuir o terreno de Nabot: “Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. Nas cartas estava escrito o seguinte: ´Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra´”.  


O rei Acab, sem personalidade e sem ética aceitou o plano da mulher, Jezabel. Para um poderoso, como o rei Acab, tudo é permitido e não existe lei ou direito que o limite. Para ele, não agir assim significa não reinar. Quantos inocentes foram e continuam sendo vítimas dos poderosos. O resultado desse plano: “Nabot foi apedrejado e morto”. E o rei Acab toma posse do terreno que não era dele, mas era do morto Nabot: “Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse”. Tudo é crime, pois acaba com a morte do inocente, Nabot.


Para um ambicioso como o rei Acab e sua esposa, Jezabel, o recurso à violência parece-lhe justo e honesto. O ambicioso só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias. E esse instinto é violento.  Quem desejar ser a todo custo o primeiro, dificilmente se preocupará com ser justo. Nas mãos de um ambicioso, o poder só representa um constante perigo. Para ele, o poder é um convite aos seus maus instintos para que explorem a força que ele tem a seu dispor. Quando no vértice do poder, o ambicioso transmitirá aos súditos os seus sentimentos, arruinando as pessoas contrárias ao seu desejo, arruinando a nação com assim chamada  a política do prestígio, dos que só visam a conseguir a sua própria grandeza. Prestígio! Palavra mágica que encanta e corrompe a tantos mortais.


Um ambicioso anda com o político corrupto.  Um corrupto consegue arrancar dinheiro de ruas, de rodovias, de ferrovias, de portos, de aeroportos, de hospitais, de escolas, cursos profissionalizantes e assim por diante para si próprio e suas comparsas. A desonestidade consegue inventar todo o tipo de fraudes. Na avareza está oculta uma ofensa social. E nosso coração chora ao nos sentirmos traídos por pessoas às quais delegamos o poder para ser nossos representantes políticos em função do bem comum.


A Misericórdia Divina Pede Para Vivermos Reconciliados


O texto do evangelho lido neste dia se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). Este texto é conhecido como a quinta antítese nesse Sermão que nos fala sobre como devemos nos relacionar com quem nos ofendeu. Para entender o significado desta antítese precisamos conectá-la com as bem-aventuranças na abertura do Sermão da Montanha. Em algumas das bem-aventuranças Jesus declara: “Bem-aventurados os mansos... Bem-aventurados os misericordiosos... Bem-aventurados os que promovem a paz...”. É isto que Jesus nos ensina agora e nos ensinará também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). Na Paixão, Jesus pedirá o perdão ao Pai para os malvados (cf. Lc 23,34). São Pedro na sua primeira Carta escreveu: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa  nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).


Nesta quinta antítese, Jesus faz seu comentário sobre a lei de talião do Antigo Testamento. No Livro do Êxodo lemos: “Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe” (Ex 21,23-25; cf. Lv 20,17-22). Aqui se acentua a vingança proporcional ou a vingança na mesma medida.


A lei de talião era conhecida em todo o Oriente Antigo. Ela é encontrada no Código Hammurábi, nas leis assírias, na Torah bem como também entre os gregos e os romanos.


No famoso Código de Hammurabi (século XVIII a.C) encontramos os seguintes artigos referentes à Lei de talião:
  • O artigo 196: “Se alguém arrancar um olho de outro, também seu olho será arrancado”.
  • O artigo 197: “Se alguém quebrar um membro de outro, também um de seus membros será quebrado”.
  • O artigo 200: “Se alguém quebrar um dente de outro, um de seus dentes será quebrado”.
     
    A finalidade primordial dessa lei era colocar um limite a uma vontade desenfreada de vingança em uma sociedade em que a vingança era quase que institucionalizada (cf. Gn 4,23-24). Portanto, a intenção dessa lei era proteger os direitos das pessoas contra os excessos de violência.
     
    Na quinta antítese do Sermão da Montanha Jesus faz uma reflexão sobre a lei de talião e oferece uma solução: « Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante um quilômetro, caminha dois com ele. Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado” (Mt 5,38-42).
           
    Com esta antítese Jesus coloca como alternativa à violência, não a lei de talião, mas a não-violência. Na verdade, Jesus já colocou nas Bem-aventuranças a atitude certa contra a violência: “Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os que promovem a paz”. Jesus nos ensina também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). E São Pedro na sua Carta escreveu que Cristo “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).
     
    A reação paradoxal que Jesus sugere aos cristãos, diante da violência, tem uma finalidade concreta: mostrar as possibilidades extremas de aplicação do seu mandamento de amor. Quem é movido por um amor incondicional ao próximo será capaz de fazer gestos radicais para coibir a violência, sem responder com a mesma moeda. Tudo supõe que se tenha um coração limpo (cf. Mt 5,8). A lei de talião é excluída pela limpeza de coração e pela compaixão. O cristão é chamado a não entrar na engrenagem infernal de um violento e não reagir com a violência à violência.
           
    Segundo Jesus não basta “aguentar” os maus; devemos fazer, por eles, algo de positivo. Jesus não quer bobos, mas fortes, capazes de fazer algo para que o mundo mude ou melhore. Não é suficiente sofrer, enquanto tivermos ainda uma possibilidade de fazer positivamente o bem.
     
    Não é possível viver odiando em inimizade profunda e irreversível. O dano interior provocado por uma relação esfarrapada corrói nossas melhores energias e o Templo de Deus em nós se deteriora (cf. 1Cor 3,16-17) e os sentimentos de vingança o deformam lentamente. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz. Da cruz Jesus pede perdão por todos aqueles que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhe porque sabem o que fazem” (Lc 23,34).
     
    Vamos olhar para nossa realidade, tanto dentro da Igreja como fora dela, na sociedade, e vamos nos perguntar: a Lei de Talião ainda continua sendo praticada? Será que abandonamos a cultura que o Papa Francisco denomina a Cultura do encontro em que um se torna próximo do outro e por isso, um tem que cuidar do outro? A cultura do encontro freia até elimina a cultura de violência em que tudo se resolve com a briga e a vingança? Não temos tentação em fazer vingança contra o outro que não está de acordo com nosso pensamento e nossa maneira de viver? Viver uma vida de uma maneira só é uma grande pobreza e mata toda a criatividade.
     
    Deveríamos realizar um progressivo desarme intelectual, moral e religioso. É não justificar o injustificável. É crer na força do amor. É tirar da Eucaristia a certeza de curar nossas feridas profundas. Toda vez que fazemos memória da morte e ressurreição de Cristo, o mesmo Senhor nos introduz, pelo Espírito, na plenitude de sua existência pascal.
     
    Quando o amor for “excesso” o mal é obrigado a não se produzir e sua existência se extingue. Não é uma petição aos heróis e sim para todos os cristãos para que imitem o exemplo do seu Senhor Jesus Cristo. Para isso, temos que pedir permanentemente ao Senhor sua graça e força que vem de Seu Espírito para acontecer uma transformação profunda no nosso modo de viver com os demais homens. Mas “Empregar o nome de não-violência quando existe uma espada em vosso coração é, não somente hipocrisia e desonesto, mas, ainda, covardia. Se permanecermos não-violentos, o ódio ficará sem efeito. O primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante” (Mahatma Gandhi).
     
    Reflitamos as seguintes palavras do escritor e psicólogo argentino, René Juan Trossero:
     
    “Não me importam as suas teorias sobre a violência;
    O que me interessa saber é como você vive
    No meio da violência que nos cerca por todas as partes.
     
    Se você nunca foi vítima da violência,
    Fale sobre ela com prudência
    Por respeito aos que a sofrem na pele.
     
    Provocar a violência em nome de Deus
    E do Evangelho é um sacrilégio.
    Pregar a resignação para os que sofrem a violência,
    Invocando Deus e o Evangelho, é uma trapaça.
     
    Não acabará a violência quando houver menos armas,
    E sim quando houver mais amor.
     
    Destruir a violência com a violência
    É como apagar um incêndio com gasolina.
    A única maneira de lutar contra a violência
    É não provocá-la”.   (René Juan Trossero)
     
    São Pedro descreve Jesus da seguinte maneira: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa  nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23). Diante deste Jesus precisamos olhar para nossa maneira de viver e de conviver, pois adotamos a maneira de viver de Jesus como nossa e assumimos seus ensinamentos para nossa vida cotidiano, pois somos cristãos? Será que podemos nos dizer como somos cristãos, ou estamos cristãos ainda?

P.Vitus Gustama,svd



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