sábado, 12 de novembro de 2011

BONDADE VIVIDA E DIVIDIDA É A BONDADE MULTIPLICADA

Reflexão Para XXXIII Domingo Do Ano Litúrgico A

Texto de Leitura: Mt 25,14-30

Os capítulos 24-25 do Mateus constituem o discurso escatológico/apocalíptico de Jesus. É o ultimo ou o quinto dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de Mateus. Um tema obrigatório para qualquer discurso escatológico é a exortação a vigiar. Com a parábola dos talentos e das outras parábolas anteriores, Mateus pretende nos falar da situação da Igreja ou da comunidade que vive na época da espera da segunda vinda do Senhor. Mateus nos dá três formas de infidelidade de crentes/fiéis que não “vigiam” para a vinda do Senhor: Infidelidade de violência e má conduta (Mt 24,45.51: vive praticando o mal); uma infidelidade de imprevisão (Mt 25,1-13: viver sem uma visão do futuro) ; e infidelidade- preguiça que encontramos no Evangelho de hoje (Mt 25,14-30: não quer colaborar com a graça de Deus). E o traço comum para todas estas infidelidades consiste numa insuficiência de atividade concreta. Isto confirma que a vigilância no Evangelho de Mateus é uma espera ativa e responsável.

          
A parábola dos talentos possui um esquema similar às parábolas precedentes. Aqui se compara a atitude dos dois primeiros com a do terceiro. Os dois primeiros se parecem ao servo fiel e sensato (Mt 24,45-47) e às virgens prudentes (Mt 25,1-13). Enquanto que o terceiro encarna a atitude similar à do servo mau (Mt 24,48-51) e às virgens insensatas.

          
A parábola dos talentos em Mt é uma narrativa sobre o comportamento dos membros da Igreja durante a longa demora da segunda volta de Jesus (parusia). A preocupação sobre a demora desta volta  se enfatiza por meio deste versículo: ”Depois de muito tempo, o senhor daqueles servos voltou e pôs-se a ajustar contas com eles” (v.19). Ao contar que uns lucraram os talentos confiados e outro o enterrou, Mt quer transmitir uma advertência para os membros da comunidade que não aproveitaram ao máximo o que receberam neste período que antecede a volta do Senhor.


Mt segue o mesmo ensinamento: É certo que o Senhor tarda em voltar, porém, seu regresso é certo e imprevisível. Mas quando o Senhor voltar, todos terão que prestar contas de tudo que tem feito na vida, pois o Senhor vai julgá-los (julgar aqui significa separar o bom do mau, o trigo do joio). Através desta parábola, Mt quer exortar à sua comunidade para que esteja alerta e vigilante, e para que não se deixe vencer pela comodidade e pela rotina.


O que é talento?
          
Tanto em inglês como em português contemporâneos, talento refere-se exclusivamente à aptidão natural e à capacidade inata de certas pessoas para certas funções. O evangelho nos relata que um proprietário, antes de viajar, deixa seus bens (talentos) aos empregados. E o que ele confia a cada um deles não é pouco: é talento. Um talento equivalia a 34,272 quilos de peso ou aproximadamente a seis mil denários  e tendo-se em vista que o salário mínimo de um trabalhador rural era um denário por dia (cf. Mt 20,1-16). Por isso, um talento correspondia, mais ou menos, a dezesseis anos e 160 dias de trabalho de um operário rural na época.

          
E o interessante é que o proprietário não diz o que ou como os servos devem fazer com os talentos recebidos (modo de multiplicar), porque ele sabe de que cada um deles é capaz, pois ele confia a cada um de acordo com a própria capacidade (v.15). Quanto maior for a capacidade, maior será a responsabilidade.  A responsabilidade exige empenho e criatividade para fazer frutificar os talentos recebidos de Deus. E a responsabilidade não dá margem para a covardia e o medo, frutos de uma falsa imagem de Deus. Quem identifica Deus como alguém severo, tende a bloquear-se e a reduzir-se a inatividade ou a passividade.  Esta imagem falsa de Deus não pode ser um pretexto para justificar a irresponsabilidade.  A cada um se dá tempo suficiente para fazer bom uso dos recursos recebidos de Deus ou confiados a cada um dos homens. Por isso, que cada um saiba tentar descobrir sempre o modo como multiplicar os dons recebidos, como fizeram os dois primeiros servos, e não como o terceiro servo que é medroso por ter uma imagem falsa sobre seu patrão (o patrão confia nele, mas ele não confia no patrão nem em si mesmo). Deus escolhe cada um de nós para realizar uma missão específica neste mundo. Deus investiu Sua vontade e sua força em cada um de nós. Então, estamos aqui neste mundo não por acaso mas por uma causa: a causa de Deus. Fazer  ato de bondade pelos nossos semelhantes é a melhor maneira de celebrar a nossa presença neste mundo e de agradecer pela confiança que Deus depositou em nós e é o melhor modo para multiplicar a bondade. A bondade praticada é a bondade multiplicada. O amor vivido é o amor multiplicado. Os bens materiais diminuem na sua quantidade ao serem dados aos outros. Amor e bondade são multiplicados ao praticá-los.

        
O que nos chama atenção também é que nenhum dos empregados murmura por um ter recebido menos ou mais que outro. Todos receberam seus talentos sem nenhuma reclamação da quantidade. Isto quer dizer que o talento não é meio de competição ou de comparação inútil, mas primordialmente, de gratidão. Somente posso comparar com aquele que me tem dado o talento: Deus. E se em cada dom é Deus que se nos dá, então o dom de Deus é sempre um chamado, uma missão para uma experiência mais profunda do seu amor. O dom de Deus só pode se tornar nosso quando abandonamos o nosso próprio ser ao Deus doador. A lógica do Evangelho é paradoxal: Só se guarda o que se abandona (cf. Mt 16,25).

        
A parábola caminha para o final, onde ela adquire todo o seu sentido. Não importa se recebemos muito ou pouco. Aliás, não existe muito ou pouco quando se fala das possibilidades que cada um tem. O que importa é que cada um coloque o que é e o que tem a serviço do Reino de Deus no próximo. O pouco que cada um pode fazer é muito importante para Deus e o próximo. Se não for feito, algo ficará faltando para todos. Não há nenhuma missão que supere a nossa capacidade. Com Deus com pouco que somos e temos, não existe missão impossível, pois ” para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Se não realizarmos a nossa tarefa ou missão, por pequena que seja, aí sim é que seremos considerados inúteis.

        
É interessante observar que nenhum dos três empregados rouba o talento. Cada um é honesto. Isto quer dizer que um fiel, segundo Mateus, não é apenas um homem honesto que preserva o talento, mas que ativamente negocia com o talento. Talentos de todo tipo crescem com o uso: quanto mais o usarmos, maior ele ficará. Por isso, não adianta ser, por exemplo, intelectualmente muito capaz e não se instruir; ou de nada serve ter um coração compassivo, se ficamos assistindo de longe às dores de nossos semelhantes que a nossa compaixão poderia resolver. Boas intenções que nunca se traduzem em ação, vão se enfraquecendo e viram uma conversa sem conteúdo.

           
O bom cristão não esconde o seu talento, mas aplica. Não enterra, mas planta; não guarda, mas multiplica; não se apropria, mas tudo coloca à disposição de todos. Podemos dizer que para o cristão, o bom negócio mesmo é “partilhar”. Partilhar a moeda da fé, para que ela se multiplique e fique gerando a salvação. Partilhar a moeda da esperança, para que ela se transforme em energia, a revigorar os corações desanimados. Partilhar a moeda do amor, para que ele acabe com o egoísmo, com a injustiça, com a violência. Partilhar, enfim, a moeda de nossa própria vida, ou partilhar a nós mesmos: nossa saúde, nossa força, nossa inteligência, nosso tempo, nossa atenção, tudo que temos e somos, a fim de que outras vidas possam subsistir e outros irmãos se beneficiem e se alegrem , graças ao nosso gesto de gratuidade. Esses valores fundamentais: nossa fé, esperança, caridade e nossa vida, não podem ser vividos a nível estritamente pessoal, pois homem algum é uma ilha. Estes valores devem ser “convividos” comunitariamente. Do contrário, acabarão morrendo. Podemos, sem dúvida nenhuma, ajudar-nos uns aos outros na procura do sentido da vida. Como diz um anônimo: “Andar juntos é um começo. Manter-se juntos é um progresso. Trabalhar juntos é um sucesso”. O que há de bom em termos sucesso se não houver ninguém para reconhecê-lo ou comemorá-lo conosco ? Precisamos de quem amamos e eles precisam de nós. Levamos uma vida melhor, mais saudável e mais longa trabalhando juntos. A completa auto-suficiência é uma ilusão egoísta. Há muito mais força na cooperação.

          
Dos três empregados, o que recebe a maior atenção é o terceiro que tem medo de arriscar. Não estamos errados em sentir medo porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Mas os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitar o perigo. O imprudente, de modo geral, suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. O terceiro empregado representa qualquer covarde. Mas o homem sadio usa seus medos para agir prudentemente. Isso podemos encontrar nos dois primeiros empregados que conseguiram multiplicar os seus talentos prudentemente.

          
A vida cristã exige de cada cristão responsabilidade quanto aos dons recebidos de Deus. O cristão não deve ter medo de frutificar seus talentos no serviço ao próximo, pois quanto mais ele empregar seus talentos para ajudar o próximo em necessidade, tanto mais atrairá sobre si as bênçãos de Deus. No fim da vida, ninguém escapará de prestar contas a Deus de quem vem cada dom. A vida eterna dependerá do bom uso destes dons durante a vida terrena.

          
Quantos cristãos que enterram seus talentos, cingindo-se ao mínimo obrigatório para não complicar a vida, para não ter que arriscar nada num compromisso sério para bem dos outros. Quantos cristãos vivem instalados por medo de comprometer-se com a salvação alheia. Enterrar os talentos significa renunciar a crescer como pessoa e como cristão e renunciar a crescer junto como uma comunidade.

         
Portanto, vamos nos perguntar e sem medo de responder com sinceridade: Você tem realizado e multiplicado os talentos que Deus depositou em você ou não? Que tipo de homem você é: um homem prudente ou imprudente ou covarde? De que causas eu coloco os meus talentos? Porque há pessoas que só fazem render os talentos para proveito pessoal, não querem comprometer-se com a causa dos necessitados, seus irmãos. Como vai ser, quando o Senhor voltar de viagem e pedir contas ? Dentro de um tempo teremos que deixar tudo que temos e levaremos conosco, para sempre, as nossas boas obras fruto de nossa passagem neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

2 comentários:

Monjas Carmelitas Descalças disse...

Querido Pe. Vitus, sua bênção.
Bendito seja Deus nos seus dons e por fazer render seus talentos em comunicar aos irmãos e irmãs as riquezas da Palavra de Deus.
Abraços, com o carinho e as orações de sua Irmãs Carmelitas Descalças de BANANEIRAS-PB

Monjas Carmelitas Descalças disse...